Uma excelente notícia

A partir de Abril, o Francisco José Viegas vai voltar a dirigir a Ler, sem sombra de dúvida a melhor revista literária generalista que apareceu em Portugal nos últimos 20 anos e que atravessava uma triste hibernação, depois da experiência falhada de passar a sua periodicidade de mensal para anual. Num momento em que estão em curso grandes transformações no mercado do livro português, é fundamental que exista espaço e massa crítica, na imprensa, para reflectir essas mudanças e outras, estritamente literárias.
Reverso da medalha: FJV deixa, a partir de 15 de Fevereiro, a direcção da Casa Fernando Pessoa. Esperemos que o sucessor esteja à altura.

Francisco José Viegas por Francisco José Viegas


FJV lê Borboletas, incluído em Se me Comovesse o Amor (Quasi), durante a apresentação do livro na Casa Fernando Pessoa. O som é péssimo porque as imagens foram captadas no meio do público, sem microfone direccional. Mas há algo que legitima, creio, estas deficiências técnicas. Como disse o Pedro Mexia, os poemas mais recentes de Viegas são para ser ditos (e, neste caso, ouvidos) “em voz baixa”.

Lançamento de ‘Se me Comovesse o Amor’

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Ricardo Araújo Pereira, Francisco José Viegas, Pedro Mexia e Jorge Reis-Sá

Foi uma coisa nunca vista. Na Casa Fernando Pessoa, quinta-feira ao fim da tarde, juntaram-se mais de 100 pessoas, talvez 150 (nunca tive jeito para calcular multidões a olhómetro, fossem pequenas ou grandes, como fazem os polícias nas manifs), mais de uma centena de cidadãos portugueses que atravessaram a Lisboa entupida do fim da tarde até Campo de Ourique, para aí um quinto do total de leitores de poesia recenseados (a fazer fé nas tiragens), enfim, gente que nunca mais acabava, ocupando todas as cadeiras, encostando-se às paredes, sentada nos degraus das escadas, em bicos dos pés para tentar ver alguma coisa, gente habituée destas coisas e gente que não costuma ir a estas coisas, de repente ali todos juntos para assistir ao lançamento do livro Se me Comovesse o Amor, de Francisco José Viegas (o director da CFP), apresentado por Pedro Mexia antes de Ricardo Araújo Pereira se estrear na qualidade de diseur.
E é aqui, claro, que está a explicação do fenómeno. Ricardo Araújo Pereira tem hoje um estatuto semelhante ao de uma estrela pop ou de um futebolista de topo. Onde vai, leva uma multidão atrás, mais os flashes dos fotógrafos e as câmaras televisivas (neste caso já devidamente actualizadas: SIC em vez de RTP). A enchente deveu-se a ele, acho que ninguém terá ilusões quanto a isso, mas o Ricardo, magnânimo e meio embaraçado, teve a elegância de não roubar o protagonismo ao anfitrião.
Depois de umas breves palavras de Jorge Reis-Sá, editor das Quasi, falou Mexia. Com desenvoltura e graça, apesar de ter deixado cair algumas piadas que anotara no moleskine (por estar presente Mota Amaral, “uma ex-segunda figura do Estado”). Sem entrar em grandes detalhes analíticos, Mexia explicou que o novo livro vem na sequência das obras mais intimistas que se seguiram a Metade da Vida, antologia que era também um balanço de vida. Aos poemas, dividiu-os em três tipos: 1) poemas “contemplativos”, reflexos de viagem por geografias do “fim do mundo” (até ao Sul mais longínquo, para lá da Patagónia, “onde nem Chatwin chegou”), cheios de enumerações e de uma enorme desconfiança em relação à capacidade da “literatura” descrever o real; 2) poemas de um “romantismo magoado” (na linha do que se pode ler no anterior A Noite, O Que É?, também de 2007), evocações melancólicas de um sujeito que procura, apesar de tudo, a “felicidade” e a “substância do amor” nos gestos mais vulgares e quotidianos, embora não ignore o efeito dissipador do tempo sobre as coisas; 3) por fim, O beijo de um académico em Paris, longo poema sarcástico, crítica às gerações anteriores (nomeadamente a de Maio de 68) e à forma como quiseram transpor para a arte os ímpetos revolucionários, um longo poema muito diferente dos outros todos e que acaba por ser um “corpo estranho” dentro do livro. Mexia disse ainda que não encontra grandes diferenças entre a escrita poética de FJV e a prosa dos seus últimos romances (Lourenço Marques e Longe de Manaus). “A linguagem é a mesma.”
Logo a seguir, Ricardo leu os poemas e deixou-me aliviado. Caramba, o homem afinal não é perfeito. Há pelo menos uma coisa em que ele não é bom. Mesmo nada bom. Bastante fraquinho, até. A bem dizer, uma nódoa: sentido do ritmo oscilante, voz monocórdica, problemas de dicção e uma expressividade digna de amanuense forçado a ler alto a portaria 1372/2007 do Diário da República. O humorista não queria que se rissem da (ou durante a) sua leitura e pelo menos isso conseguiu.
Depois de RAP, Francisco José Viegas a ler os seus poemas soou a Mário Viegas. O poeta agradeceu à Casa Fernando Pessoa a cedência do espaço (ai o sentido da ironia) e comoveu-se ao partilhar os próprios versos (sem ironia nenhuma). Fecho em beleza, muitos aplausos, apoteose, entusiasmo e atropelo para conseguir um autógrafo.
Conclusão: embora não dê uma para a caixa a ler poemas, exige-se a presença de Ricardo Araújo Pereira em todos os lançamentos de livros de poesia na zona da Grande Lisboa até Setembro (data do regresso à televisão). Afinal, foi para que isto se pudesse fazer que os Gato Fedorento entraram em licença sabática, não foi?

O mapa do geógrafo errante

capa FJV

Se me Comovesse o Amor
Autor: Francisco José Viegas
Editora: Quasi
N.º de páginas: 56
ISBN: 978-989-552-319-1
Ano de publicação: 2007

Francisco José Viegas é sobretudo conhecido como romancista, director da Casa Fernando Pessoa, cronista do quotidiano e da mesa bem posta ou blogger (dos mais antigos e regulares cá do burgo). Menos lembrada, a sua obra poética permanece numa espécie de segundo plano, o que não deixa de ser uma injustiça — como sabe quem tenha lido as quase 300 páginas de Metade da Vida (Quasi, 2002), volume que reúne todos os seus livros anteriores.
Em Se me Comovesse o Amor, Viegas escreve de um território fora do mundo, um lugar em que a poesia procura legitimar-se através de um absoluto desprendimento. Nos poemas, nada do que nos habituámos a encontrar nos versos de FJV ficou de fora: as elegias para os amigos (Manuel Hermínio Monteiro) ou familiares (uma tia); as subtis descrições de paisagens de outros continentes (o grande Sul, as montanhas, a neve em Ushuaia); o enlevo com “a doçura das coisas”; as elegantes enumerações; um certo fascínio com o que resiste ao olhar do viajante (seja o tango ou o silêncio da noite). Mas depois, pairando sobre tudo isto, há uma dúvida persistente quando ao verdadeiro poder da poesia: “Nenhuma palavra é capaz de dizer adeus com aquela perfeição das coisas que comovem.”
A servir para alguma coisa, a poesia serve para a contemplação: “o poeta / devia interpretar as meteorologias, prever / as tempestades, não dar voz às coisas / do mundo nem às pequenas glórias”. Neste livro melancólico, FJV insinua que a literatura é uma forma de afastamento da realidade concreta do mundo, fazendo de nós “passageiros obedientes” que desconhecem o nome do que “fica no meio das árvores”.
É contra este aturdimento, esta cegueira livresca, que se movem os poemas de Viegas, na vertigem de uma austera imponderabilidade existencial. Aqui não há segredos, não há mistérios, “só um risco no céu, um desígnio, um sinal, um aviso”. O sujeito poético já não faz perguntas e avança através de elipses (os poemas de amor), gozos e sarcasmos (como em O Beijo de um Académico em Paris) ou em voos picados sobre a passagem do tempo e os seus efeitos.
À desconfiança em relação à literatura, seguem-se as dúvidas em relação a si mesmo. O envelhecimento é olhado de frente, na sua obscena crueldade. E com ele o medo de quem vai “acrescentando ausências sobre ausências” e não sabe que herança deixar
aos filhos, “para além dos livros” e das “recordações de aldeia”, enquanto a “morte avisa uma e outra vez, / soletrando o teu nome, aprendendo as tuas sílabas, / o teu caminho, para depois te encontrar mais depressa”.
Evitando as lágrimas e a metafísica, este é o mapa de um geógrafo errante, de um “solitário entre ruínas”, que conta “o número de vítimas” e faz deste volume um dos melhores livros de poesia portuguesa editados em 2007.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado na revista Time Out Lisboa]

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Um soundbyte a sério

“Se me perguntassem directamente, sim, eu diria que se fode mal na literatura portuguesa” — Francisco José Viegas, no depoimento que deu para o artigo O Erotismo em português é piroso e risível, assinado por Isabel Lucas na edição de hoje do DN.

Para anotar nas agendas (novinhas em folha)

Dia 10 de Janeiro, 18h30, na Casa Fernando Pessoa. Pedro Mexia apresenta o último (e excelente) livro de Francisco José Viegas, Se me Comovesse o Amor. Alguns dos poemas serão lidos por Ricardo Araújo Pereira, sem trejeitos nem gargalhadas.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges