Celebrar o Dia Triunfal

A 8 de Março, assinala-se o centenário do chamado «Dia Triunfal», esse momento em que Fernando Pessoa se acercou de uma cómoda alta e começou a escrever, de pé, sem interrupção, os trinta e tal poemas de O Guardador de Rebanhos, que logo atribuiu a Alberto Caeiro, celebrando com «o aparecimento de alguém em mim» o início desse feito maior da literatura do século XX que é a heteronomia pessoana.
Para comemorar a data, acontecerá em Lisboa um colóquio internacional intitulado “O dia triunfal de Fernando Pessoa”, com mais de 50 especialistas, de 6 a 8 de Março, na Fundação Gulbenkian. Objectivo: «fazer uma revisão do Estado da Arte nos diversos campos dos Estudos Pessoanos». Haverá ainda um concurso de curtas-metragens sobre a vida e obra de Fernando Pessoa, com o vencedor a ser apresentado na sessão de encerramento.
Programa e formulário de inscrição, aqui.

Fernando Pessoa em Espanha

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Abre na quinta-feira e pode ser vista até ao fim do ano. Comissários: Antonio Sáez Delgado e Jerónimo Pizarro.

Pessoa Plural

Dirigida por Onésimo Almeida, Paulo de Medeiros e Jerónimo Pizarro, Pessoa Plural é uma revista académica internacional dedicada a estudos pessoanos. Está disponível online, aqui.

Pessoa em Festa

Além de dia de Santo António e Dia da Cidade de Lisboa, hoje também é o aniversário de Fernando Pessoa, facto devidamente assinalado na casa do poeta.


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Viagem à volta do quarto dele

Ontem à noite, antes de dormir. Ou desdormir.

No quarto de Pessoa


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Primeiro estranha-se; depois, continua a estranhar-se

Livro de cabeceira

A cama (estreitinha, estreitinha)

A autêntica cómoda triunfal

Roupa (desfocada) para o fantasma

Sobre a réplica da famosa arca onde o poeta guardava o seu gigantesco espólio, uma espécie de mini-bar sem o invólucro frigorífico. É de aplaudir a presença de álcool no quarto, claro, mas suspeito que Pessoa trocaria de bom grado os aromas escoceses do Famous Grouse pelo bom vinho tinto nacional.

Graffiti (a ponta dos dedos nas esquinas)

Trazer de volta a arca pessoana

Em 2008, a mítica arca onde Fernando Pessoa guardava os seus milhares de papéis manuscritos foi vendida, num leilão, a um coleccionador privado do Norte do país, cuja identidade a leiloeira nunca revelou. Agora, há quem tenha criado um site e uma petição para pressionar a Secretaria de Estado da Cultura no sentido de reavermos (nós, Estado português) este objecto que acolheu durante décadas a obra central da literatura portuguesa do século XX.
Parece-me, claro está, uma causa mais do que meritória. E julgo que faria todo o sentido que a arca recuperada fosse entregue aos cuidados da Casa Fernando Pessoa, em tempos dirigida nem mais nem menos do que pelo actual Secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas.

Choque de titãs

Para perceber como funciona o Google Books Ngram Viewer (neste caso tomando como ponto de partida o corpus de livros mais vasto do Google Books, o de língua inglesa), lembrei-me dos seguintes duelos literários: José Saramago vs. António Lobo Antunes; Luís Vaz de Camões vs. Fernando Pessoa; Mario Vargas Llosa vs. Gabriel García Márquez.
Eis os resultados:

José Saramago vs. António Lobo Antunes

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(clique para aumentar esta imagem e as seguintes)

No início dos anos 80, Saramago e Lobo Antunes andavam mano a mano. Depois, em 1988, uma década antes do Nobel, Saramago descola. Não deixa de ser curioso que o auge das referências a Saramago, em livros escritos na língua inglesa, tenha acontecido em 2003.

Luís Vaz de Camões vs. Fernando Pessoa

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Na década de 40, Camões estava em grande. Depois, veio por ali abaixo, com picos ocasionais. Já Pessoa começa a subir na década de 80 (coincidindo com o centenário e com a internacionalização da sua obra). A tendência é para que a curva do Camões propriamente dito e a curva do putativo «super-Camões» fiquem cada vez mais próximas.

Mario Vargas Llosa vs. Gabriel García Márquez

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Quanto a uma das maiores rivalidades literárias do século passado, a que opôs Vargas Llosa a García Márquez, é nítido que a ligeira vantagem do segundo se acentuou a partir de 1982, quando o colombiano ganhou o Nobel. Infelizmente, os dados disponíveis terminam em 2008. Seria interessante verificar se Llosa, ao ganhar o Nobel este ano, já recuperou da desvantagem e passou de novo para a frente, como no final da década de 60.

Cartão de Natal

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Bela ideia, esta de oferecer uma biblioteca inteira (e logo de quem).

Frase do dia

«O Bernardo Soares é uma tripe.»

João Botelho, autor de Filme do Desassossego, em entrevista ao jornal i.

‘Filme do Desassossego’ (trailer)

O filme que João Botelho realizou a partir do pessoano Livro do Dessassosego tem estreia absoluta marcada para o Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, no próximo dia 29, às 21h30.

Pessoa no Museu da Língua de São Paulo

«É a primeira vez que o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, tem uma exposição dedicada a um autor português. Depois de ter homenageado os brasileiros Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Machado de Assis, o museu alberga, desde terça-feira e até ao dia 30 de Janeiro de 2011, a exposição “Fernando Pessoa: plural como o universo”, um passeio pela vida e obra do escritor através de textos, imagens e vídeos.»

O aniversário de Pessoa (um dia antes e com Sérgio Godinho)

A Casa Fernando Pessoa vai comemorar o aniversário do poeta (nascido a 13 de Junho de 1888) na véspera. Dia 12, estão previstas as seguintes iniciativas:

15h00 – Ateliês para crianças (Serviço Educativo da CFP)

19h00Audição – Com Daisy ao vivo no Odre Marítimo, pelo Teatro Estúdio Fontenova

21h00 – “Janelas de Pessoa”, por Tenda – Palhaços do Mundo

22h00 – Concerto de Sérgio Godinho

Lançamento de ‘A Caminho do Vulcão’

O livro de Marcelo Teixeira, que ficciona o encontro em Lisboa de Fernando Pessoa e Malcolm Lowry, dois escritores movidos a álcool e desespero, vai ser lançado esta noite, a partir das 22h00, no Auditório de Alfornelos (Amadora).
A obra será apresentada por Antonio Sarabia, escritor mexicano a viver há vários anos em Lisboa, enquanto o Grupo de Teatro Passagem de Nível declamará poemas de Fernando Pessoa e Malcolm Lowry, ao som do piano de Jaime Oliveira.
No final, «para brindar à amizade, às letras e aos dois génios da literatura mundial», haverá Ginjinha Pessoana e Mezcalm Lowry.


Lançamento de ‘Fernando Pessoa: O Guardador de Papéis’

O volume Fernando Pessoa: O Guardador de Papéis (Texto), que reúne ensaios de José Barreto, Steffen Dix, Patricio Ferrari, Sara Afonso Ferreira, Ana Maria Freitas, Carla Gago, Manuela Nogueira, Rita Patrício e Jerónimo Pizarro (com organização deste último, membro da Equipa Pessoa), é apresentado esta tarde, a partir das 18h30, na Casa Fernando Pessoa, pela sua directora, Inês Pedrosa.

Subarrendamento

Entre Maio e Agosto, o poeta Fernando Pessoa aluga o seu quarto ao poeta Alberto Caeiro. E Caeiro já anda por lá, como se pode ver pelas fotos: capote alentejano, flauta bucólica, uma trempe, palha no chão e até uma ovelha (de peluche).
O quarto fica nesta Casa e pode ser visitado de segunda a sábado, das 10h00 às 18h00.

Qualquer coisa de útil para a sociedade

Eis o Chato, dos Contemporâneos, a chatear Fernando Pessoa (o de bronze, na esplanada d’A Brasileira):

E a chatear o Camões:

Confusões pessoanas

Na literatura portuguesa, não há nada que provoque tantas guerrinhas e questiúnculas como os papéis de Pessoa. Mais do que uma arca, o que o poeta nos deixou foi uma caixa de Pandora.

Fernando Pessoa em pacotes de açúcar

Uma iniciativa da Ambar, com o apoio da Delta. Em breve, num café perto de sua casa.

Chocolates, metafísica e o resto

No próximo sábado (dia 10), Nuno Meireles fará uma leitura encenada do «mais belo e arrebatador texto do mundo»: o poema Tabacaria, de Álvaro de Campos. Começa às 21h45, no Contagiarte (R. Álvares Cabral, 372 – Porto).

Caixa Pessoa

A Portugália Editora acaba de lançar uma caixa especial com sete obras de Fernando Pessoa, assinalando os 120 anos do seu nascimento. Deste conjunto, que não será reeditado, constam os Poemas Escolhidos e Mensagem, do poeta ortónimo; fragmentos escolhidos do Livro do Desassossego, de Bernardo Soares; Poemas Escolhidos, de Alberto Caeiro; Poemas Escolhidos e Opiário/Ode Triunfal/Ode Marítima, de Álvaro de Campos; e Poemas Escolhidos, de Ricardo Reis.
A caixa inclui ainda uma obra original, com sete poemas dedicados a Pessoa (de Almada Negreiros, António Botto, Eugénio de Andrade, Jorge de Sena, Rui Knopfli, Sophia de Mello Breyner Andresen e Vasco Graça Moura), mais sete retratos do poeta, feitos por Almada Negreiros, Carlos Carreiro, Costa Pinheiro, José João Brito, Júlio Pomar, Mário Botas e Rolando Sá-Nogueira.
Armando Alves concebeu tanto as capas dos livros como a própria caixa. Preço de venda ao público: 140 euros.

Pessoa de A a Zen

Ao coordenar o Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português (Caminho), Fernando Cabral Martins quis fazer um mapa, uma «panorâmica» do estado actual das leituras críticas sobre o autor de Mensagem, devidamente enquadradas no contexto do seu tempo, «mas um mapa em que se encontram surpresas, coisas que não se estava à espera de descobrir». Ao longo de quase mil páginas e mais de 600 verbetes, que começam com a análise do poema «À memória do Presidente-Rei Sidónio Pais» e terminam na comparação entre os versos de Alberto Caeiro e a poesia Zen, os mais atentos descobrirão, no manancial de factos e teses já conhecidas, algumas novidades. «Certos colaboradores, para aprofundarem os temas que tratavam, foram investigar directamente no espólio de Pessoa, guardado na Biblioteca Nacional. E assim surgiu informação nova, fruto do trabalho feito para este projecto», garante Cabral Martins.

Mais do que uma enciclopédia definitiva, o professor de Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa quis fazer um ponto da situação. «Limitei-me a dar conta do que existe. O Dicionário sintetiza o saber acumulado após décadas de estudo e discussão sobre a obra de Pessoa. E nós precisamos de sínteses para fazer avançar o conhecimento.» A ideia inicial era fazer simplesmente um dicionário do Modernismo português. Para isso, convinha desde logo definir com clareza as fronteiras de um movimento que «pode ir de 1890 até 1960», o que se revelou «muito difícil». A resolução do impasse nasceu de uma proposta de Zeferino Coelho: «Ele sugeriu que fizéssemos um dicionário só sobre Pessoa, uma ideia de editor, mas depois, em conversa, verificámos que os dois caminhos se podiam fundir. Aliás, nem podia ser de outra maneira. Não é possível falar de Pessoa sem o integrar no contexto modernista e também não é possível falar do Modernismo sem abordar Pessoa.»
Tendo como vago modelo um dicionário dedicado a Proust, Cabral Martins procurou ser «o mais inclusivo possível», integrando as várias correntes pessoanas e abrindo o leque de participação a investigadores estrangeiros. Entre os 90 colaboradores, encontram-se vários ingleses e franceses, além de uma dezena de brasileiros, porque «há muito mais trabalho feito no Brasil sobre Pessoa do que em Portugal». Os estudos pessoanos, de resto, estão hoje cada vez mais internacionalizados. «Há umas semanas, estive em Jerusalém num congresso sobre Pessoa e fiquei surpreendido com os conhecimentos profundos dos literatos e tradutores judaicos.»
Para um dicionário com estas características, o tempo de concretização foi invulgarmente rápido: dois anos. «Havia aqui um carácter de urgência, porque a obra de Pessoa, ao contrário do que acontece nos casos de Garrett ou Camões, por exemplo, não está ainda inteiramente sedimentada. Se o dicionário demorasse muito tempo a sair, alguns artigos arriscavam-se a ficar desactualizados.»
Agora que o livro já está à venda (custa 60 euros), Fernando Cabral Martins diz-se satisfeito com o resultado final: «Eu esforcei-me no sentido de pôr tudo, mesmo sabendo que isso era impossível. Um trabalho destes é por natureza incompleto, mas não creio que falte um único dos aspectos fundamentais da obra pessoana.» Fora deste núcleo duro, porém, haverá sempre detalhes a melhorar. «Admito, por exemplo, que o compositor Luís de Freitas Branco, apesar de citado várias vezes, merecia um verbete autónomo.»
Sem prescindir do rigor, o dicionário pretende chegar a toda a gente. «Eis a equação mais difícil: escrever com o máximo de exigência, não deixando de ser acessível.» Isto é, pensar ao mesmo tempo no leigo e no académico, em quem não sabe nada sobre Pessoa e em quem sabe (quase) tudo. Alguns verbetes são apenas súmulas, mas outros vão tornar-se textos de referência, acredita Cabral Martins. «Não olho para o dicionário apenas como um instrumento útil para os outros, mas também como algo que já foi e vai ser útil para o meu próprio trabalho de investigação.»

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Arca de Pandora

O leilão do espólio pessoano continua a gerar controvérsia. Agora é Manuela Nogueira, filha da irmã do poeta e co-herdeira, a dizer ao DN que «há uma manipulação e uma cruzada contra a família de Fernando Pessoa».

Arca da Aliança

Em declarações à Lusa, o cineasta João Botelho avançou uma sugestão curiosa:

«”A arca [de Pessoa] é a nossa Arca da Aliança. E nós não podemos perder os símbolos”, defendeu, deixando um apelo, a propósito do recente leilão de parte do espólio de Pessoa que se encontrava ainda na posse dos herdeiros e da polémica que o envolveu: “Eu pedia aos mandatários do Prémio Pessoa que não dessem este ano o prémio e que com o dinheiro recomprassem a arca e a oferecessem à Casa Fernando Pessoa”.»

O júri do Prémio Pessoa vai reunir-se no final da próxima semana. Será que dará ouvidos a Botelho? E se não der, será que o premiado se chega à frente? E se o premiado for o próprio Botelho? Convenhamos que teria a sua graça.

Pessoa no Chiado

Fernando Cabral Martins, Richard Zenith e João Botelho vão conversar sobre Fernando Pessoa, na próxima quinta-feira, em mais uma sessão dos debates ‘Ler no Chiado’ (Livraria Bertrand, 18h30). O recente dicionário pessoano coordenado por Cabral Martins, a fotobiografia de Zenith e os filmes feito (Conversa Acabada, agora editado em DVD) e a fazer (adaptação de O Livro do Desassossego, 2009) por Botelho, funcionarão como pontos de partida para a conversa, moderada por Anabela Mota Ribeiro.

Arca de Pessoa vendida por quase 60 mil euros

A famosa arca em que Fernando Pessoa acumulava os seus manuscritos (mais de 25 mil páginas, hoje à guarda da Biblioteca Nacional) foi vendida no leilão de ontem à noite por 59.500 euros, a um particular que não se identificou, mas disse, segundo a edição de hoje do Público, que a sua ideia é oferecê-la ao pai, «um grande coleccionador de Pessoa que vive no Norte do país». Pelo mesmo preço foi arrematado o outro lote mais interessante (o 39), com o dossier Crowley, que terá sido vendido por telefone a um desconhecido.
A retirada de vários lotes, por não terem oferta, fez com que o resultado final ficasse bastante aquém do que a leiloeira esperava. Antes da abertura do leilão, a Câmara Municipal de Lisboa, através do seu director municipal de Cultura (Rui Pereira), tentou suspender a venda de 25 lotes, mas a providência cautelar apresentada ficou sem efeito por carecer de decisão judicial. De qualquer modo, se a CML levar a questão para os tribunais, algumas das transacções poderão vir a ser anuladas.
Os resultados totais do leilão podem ser conferidos neste documento em PDF.

A “marca” Pessoa

No mês em que se assinalaram os 120 anos do nascimento de Fernando Pessoa, o debate “Livros em Desassossego” vai tentar perceber de que modo se poderá valorizar, ainda mais, a “marca” Pessoa. Os convidados de Carlos Vaz Marques são o Ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro (para quem “Pessoa, enquanto produto de exportação, talvez seja mais valioso que a PT”), Manuela Nogueira (sobrinha do poeta), António M. Feijó (professor universitário), Jerónimo Pizarro (investigador pessoano) e Manuel Rosa, responsável da Assírio & Alvim, que escolherá, entre os livros publicados nos últimos tempos, três que gostaria de ter no catálogo da sua editora.
A conversa está marcada para as 21h30, logo à noite, na Casa Fernando Pessoa.

O ‘meu’ poema de Fernando Pessoa foi escrito por Álvaro de Campos a 15 de Janeiro de 1928

TABACARIA

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
Àparte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossìvelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos sêres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e êste lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz de propósito nenhum, talvez tudo fôsse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos,
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que seu eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas –,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fêz.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo.
Tenho feito filosofias em segrêdo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma
parede sem porta,
E cantou a cantiga de Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num pôço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sôbre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrêlas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e êle é opaco,
levantámo-nos e êle é alheio,
Saímos de casa e êle é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões tôdas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de fôlha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida dêstes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprêso sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fôsse viva,
Ou patrícia romana, impossìvelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocotte célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê –,
Tudo isso, seja o que fôr, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degrêdo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para àquem do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbedo tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com desconfôrto da cabeça mal voltada
E com o desconfôrto da alma mal-entendendo.
Êle morrerá e eu morrerei.
Êle deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta gigante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas
como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da
superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entra na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever êstes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como a uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de tôdas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal
disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fôsse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo trôco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria
sorriu.

Biblioteca e espólio de Pessoa na Net

Eis uma excelente prenda de aniversário. Espero agora que ela passe rapidamente da declaração de intenções à prática. Quando se lê que “será através do site [da Casa Fernando Pessoa] que, no futuro, os interessados irão poder folhear virtualmente os livros do poeta”, prevendo-se “para breve” a disponibilização online de “algumas dezenas de páginas, a título de arranque simbólico da iniciativa”, é bom ter presente que o referido site está num estado comatoso há vários anos.

120 anos

Pessoa por PV

Ilustração pessoana de Pedro Vieira, concebida para a montra da livraria Almedina (Atrium Saldanha), assinalando o facto de o sr. Fernando António Nogueira Pessoa ter nascido a 13 de Junho de 1888, faz hoje um século e quatro lustros.

“Tudo é definido, tudo é limitado, tudo é cousas”

Assim termina um poema inédito de Fernando Pessoa (atribuído a Alberto Caeiro), descoberto no final de Abril pelo investigador italiano Antonio Cardiello. Os versos foram manuscritos nas margens da página final de um livro que pertenceu ao poeta:

«”Foi uma descoberta inesperada”, declarou Jeronimo Pizzarro,que só gostaria de ver o poema divulgado depois de “devidamente” estudado por especialistas na obra de Caeiro. Por enquanto levanta dúvidas. “Apesar da linguagem ser a de Alberto Caeiro e de o poema ser precedido pelo nome Caeiro, tanto pode ser o título como a assinatura. Além disso está num livro datado de 1907 quando sabemos que aquele heterónimo só apareceu em 1914.” As cautelas de Pizarro, o investigador que já transcreveu o poema, são partilhadas por Patricio Ferrari. Um e outro opõem-se à intenção de Inês Pedrosa, directora da Casa Fernando Pessoa, de fazer postais com réplicas do manuscrito para celebrar os 120 anos do nascimento de Pessoa, que se comemoram a 13 de Junho.»

“Pessoa, Pessoas”

Amanhã à noite, pelas 21h30, a Casa Fernando Pessoa promove o visionamento da totalidade dos 30 pequenos filmes que a CFP produziu para serem exibidos pela RTP, em horário nobre, durante todo o mês de Junho. Uma forma de assinalar os 120 anos do nascimento de Fernando Pessoa, a 13 de Junho de 1888.
Com cerca de minuto e meio de duração, os filmes mostram personalidades de diferentes áreas (mas também crianças) a ler um poema de Fernando Pessoa por elas escolhido. Alguns dos participantes foram Nuno Júdice (Uma aventura amorosa), José Eduardo Agualusa (A espantosa realidade), José Luis Peixoto (Tabacaria), Paula Moura Pinheiro (Liberdade), Pacman (Poema em linha recta), José Carlos Malato (Aniversário), Fernando Pinto do Amaral (Ao volante de um chevrolet pela estrada de Sintra), Camané (Se estou só, quero não ‘star), Lídia Jorge (Ode Marítima), Marcelo Rebelo de Sousa (Para ser grande, sê inteiro), Miguel Guilherme (Prece), Carlos do Carmo (Nevoeiro) e Teresa Caeiro (As ilhas afortunadas).
Elvis Veiguinha coordena a equipa de realização.
O projecto será apresentado por Inês Pedrosa, directora da CFP.

Espólio de manuscritos pessoanos vai a leilão em Outubro

“Uma parte significativa do espólio de Fernando Pessoa que ainda se encontra na posse de familiares do poeta vai ser leiloada em Outubro, em Lisboa, pela P4 Photography”, explica o Público. Destaque para o “chamado dossier Pessoa-Crowley, que reúne todos os papéis relativos ao encontro do poeta português com o ocultista inglês Aleister Crowley, em 1930″.

Ora deixa cá ver que t-shirt gostava de vestir hoje

Hmmmm, talvez esta:

t-shirt Pessoa

O desenho heteronímico, criado por sofisma, ganhou o último concurso do site mangacurta.com. À atenção de Inês Pedrosa.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges