Mais uma micronarrativa de Fernando Venâncio

EXÓTICO

O miúdo nasceu assim pró claro. Muito clarinho mesmo. «Foi feito de dia, tá visto», dizia a melhor amiga, agitando braceletes, descontraindo a enfermaria.
A mãe só produzia sorrisos amarelos. Sim, que diria o esbelto negro quando, passado um mês, regressasse do mar? «Não penses nisso, pazinha», insistia a rotunda amiga, avessa a inquietações.
E o facto é que o marujo nunca voltou. Tomou-se de amores exóticos. Mas ah, tão tão práticos em certas alturas!

Fernando Venâncio

Mais uma micronarrativa de Fernando Venâncio

A matrícula

De repente, aquela ideia. Melhor dito, aquela formulação. Essa, que lhe vinha sempre à mente, para sempre de novo se esfumar.
Caminhando, segurando a pasta, procurou nervoso a esferográfica, mais o blocozinho, que nunca largava. Ainda teve que bordejar um carro ali estacionado, até meteu um sapato na lama. Mas tudo preferível a fugir-lhe de novo a ideia, melhor dito, a formulação.
Parou na beirinha do passeio. Prudentemente, escreveu logo duas palavras centrais da coisa. E passou, absorto, o olhar em volta.
Foi quando recebeu a primeira bala no estômago. Apercebeu-se de que aquilo viera do carro, parado a metros. Olhou em pânico, viu ali um movimento e logo veio o segundo aguilhão, um tudo-nada mais abaixo. Fechou os olhos, largou a pasta, a esferográfica, o blocozinho, e sentiu-se tombando, tombando…
Não chegou a perceber aquela estupidez de pôr-se a anotar uma matrícula de mafiosos.
Fernando Venâncio

Uma micronarrativa de Fernando Venâncio

Recebi-a por e-mail. «É homenagem, pois claro», diz o nosso homem em Amsterdão.

Ódio

Escrito no espaço branco da página 84 de «Efeito Borboleta» do Zé Mário Silva.

Está no meio dum parking, ao sol, um parking imenso. Ali especado, tentando divisar o pronto-socorro.
Haviam bastado vinte, vinte estúpidos minutos. Para comprar aquela pasta de dentes que só ali há. Logo a um sábado, a uma hora destas. Esquecera os máximos acesos. E a bateria foi à vida.
Aguarda já bem hora e meia. À sua frente, atrás, por todos os lados, há carros que aparcam, carros que arrancam, passam, piscam luzes, educadamente buzinam.
E ele sente ódio, um ódio de que se envergonha mas não consegue calar, por aqueles paspalhos que têm um carro que anda.
Fernando Venâncio

Uma “história curta (e exemplar)”

Praticante ocasional da micronarrativa, Fernando Venâncio enviou-nos esta miniatura:

Susto

A bebé era linda de morrer. E tão inocente, tão pura! Os pais chamaram-na Flora. Havia lá nome mais merecido?
Quando, semanas depois, a Flora da novela se revelou a vilã, os pais correram, transtornados, ao registo.
Fastidiosas burocracias se seguiram, e algum doce suborno. Mas hoje, num alívio, olham embevecidos, no berço, os bracinhos roliços da Donatela.
Fernando Venâncio

Uma micronarrativa (ou história-para-ler-em-três-segundos) de Fernando Venâncio

Sorte

Ele corria, desde pequeno, atrás da sorte. E a sorte, sabe-se, corre atrás dos meninos-prodígio. Nunca se encontraram.

O lado bom do Acordo

O Acordo Ortográfico de 1990, o tal que aí vem, é uma medida incoerente, oportunista, irresponsável, desnecessária. Os quase 100.000 portugueses que já assinaram um protesto na Net mostram como não é fácil enganar um povo. Simplesmente, o PR não deu ouvidos ao intenso clamor, e o Acordo lá passou. E agora? Choros convulsivos? Uma maciça desobediência civil? Qual! O Acordo contém, por nítida desatenção, um lado espantosamente saudável. Ora vejamos.
Até hoje, o grande critério para a ortografia do português era a etimologia. Escreve-se assim porque a forma original era esta ou aquela. Um segundo critério, menos produtivo, mas não menos eficaz, era a tradição. Escreve-se assim porque já o nosso bisavô o fazia. Estes critérios eram sacrossantos e produziram uma ortografia de desnortear os mais sisudos. Vamos ao dicionário ver onde está o ‘z’ em “vazar” e “extravasar”, ou o ‘u’ em “coscuvilhar” e “burburinho”. Inútil indignar-nos. A ortografia nunca perseguiu a fiel reprodução da fala. Quando calhava, óptimo. Quando não calhava, óptimo na mesma.
Mas o Acordo traz novidade, e das graúdas. Ponhamos por caso “amnistia”, “amnistiar”, “amnistiável”. Assim dizemos e escrevemos nós. Um brasileiro diz e escreve “anistia”, “anistiar”, “anistiável”. A leitura destas realidades foi sempre dúplice. Havia a imarcescível latinidade portuguesa, havia a natural evolução ultramarina. Altas justificações para a crueza dos factos. O mesmo valia para os nossos “subtil”, “súbdito”, “contactar”, “intacto”, etc., e para os brasílicos “sutil”, “súdito”, “contatar”, “intato”. Era a evolução.
O Acordo deixou-se de impressionismos. Muito pós-moderno, ele declarou tais diferenças um reflexo da prolação das elites. Ou mais chãmente: a reprodução das várias “pronúncias cultas locais”.
Mas espera lá: não vinha o mirífico Acordo unificar a escrita da ‘Lusofonia’? Claro. E bem tentou. Só que, no contorcionismo para uniformizar o impossível, rebentaram-lhe as costuras do outro lado. Isto é: o Brasil, cansado de ser ‘evolução’ dos usos portugueses, fez proclamar a igualdade das “pronúncias locais”, reconhecidas a partir de agora como o critério decisivo da grafia.
Isto, senhores, é simplesmente revolucionário. A ortografia deixa de ser ‘arbitrária’, ‘convencional’, para tornar-se, sem meias tintas, o reflexo duma fala efectiva. O que abre perspectivas nunca sonhadas. Podemos agora – libertos da camisa-de-forças da etimologia e da tradição, finalmente donos de nós próprios – dar ao nosso português uma escrita adequada e pedagógica.
Não era essa a intenção? É esse o precioso resultado.

Fernando Venâncio

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges