De onde vem o verso

O mote para a mesa 3 saiu do primeiro texto do livro Em Alguma Parte Alguma, de Ferreira Gullar (edição portuguesa da Ulisseia). Eis esse magnífico poema, sem a devida formatação gráfica (que o WordPress, hélas, não permite):

FICA O NÃO DITO POR DITO

o poema
antes de escrito
não é em mim
mais que um aflito
silêncio
ante a página em branco

ou melhor
um rumor
branco
ou um grito
que estanco
já que
o poeta
que grita
erra
e como se sabe
bom poeta (ou cabrito)
não berra

o poema
antes de escrito
antes de ser
é a possibilidade
do que não foi dito
do que está
por dizer

e que
por não ter sido dito
não tem ser
não é
senão
possibilidade de dizer

mas
dizer o quê?
dizer
olor de fruta
cheiro de jasmim?

mas
como dizê-lo
se a fala não tem cheiro?

por isso é que
dizê-lo
é não dizê-lo
embora o diga de algum modo
pois não calo

por isso que
embora sem dizê-lo
falo:
falo do cheiro
da fruta
do cheiro
do cabelo

do andar
do galo
no quintal
e os digo
sem dizê-los
bem ou mal

se a fruta
não cheira
no poema
nem do galo
nele
o cantar se ouve
pode o leitor
ouvir
(e ouve)
outro galo cantar
noutro quintal
que houve

(e que
se eu não dissesse
não ouviria
já que o poeta diz
o que o leitor
– se delirasse –
diria)

mas é que
antes de dizê-lo
não se sabe
uma vez que o que é dito
não existia
e o que diz
pode ser que não diria

e
se dito não fosse
jamais se saberia

por isso
é correto dizer
que o poeta
não revela
o oculto:
inventa
cria
o que é dito
(o poema
que por um triz
não nasceria)

mas
porque o que ele disse
não existia
antes de dizê-lo
não o sabia

então ele disse
o que disse
sem saber o que dizia?
então ele o sabia sem sabê-lo?
então só soube ao dizê-lo?
ou porque se já o soubesse
não o diria?

é que só o que não se sabe é poesia

assim
o poeta inventa
o que dizer
e que só
ao dizê-lo
vai saber
o que
precisava dizer
ou poderia
pelo que o acaso dite
e a vida
provisoriamente
permite

Ferreira Gullar ganha Prémio Moacyr Scliar

A primeira edição do prémio Moacyr Scliar acaba de distinguir o Prémio Camões 2010, Ferreira Gullar, pelo seu livro de poemas Em Alguma Parte Alguma (ver crítica à edição portuguesa, aqui). A esta obra já fora atribuída, em 2011, o prémio Jabuti.

Fora do Brasil

gullar_exilio

Rabo de Foguete – Os Anos do Exílio
Autor: Ferreira Gullar
Editora: Verbo
N.º de páginas: 284
ISBN: 978-972-22-3008-7
Ano de publicação: 2010

O que mais surpreende em Rabo de Foguete, magnífico resumo dos anos em que Ferreira Gullar viveu fora do Brasil, para escapar à perseguição do regime militar, é a sua estrutura fugidia, a simplicidade da prosa e a fluidez narrativa. Sendo um poeta, Gullar não faz poesia nem cede à tentação do lirismo (ou cede apenas em pequenos intermezzi sentimentais, compreensíveis quando estão em causa extremos de felicidade ou angústia).
À medida que se sucedem os capítulos, muito curtos e no osso, acompanhamos o autor numa rememoração que vai avançando aos solavancos, sem pretensões de rigor absoluto, fazendo sobressair certos ângulos das experiências vividas que não serão necessariamente os mais importantes, mas aqueles que deixaram marcas fundas na consciência do escritor (não por acaso, as relações amorosas e as amizades sobrepõem-se claramente às análises sociais ou às reflexões políticas sobre os países por onde foi passando). Dito isto, a escrita despida mas extraordinariamente evocativa de Gullar consegue transmitir-nos, com acutilância, o estado de permanente alerta do exilado, o seu desamparo e solidão, o progressivo alheamento em relação ao que chamamos normalidade e o proverbial instinto de fuga, que é antes do mais um instinto de sobrevivência.
O livro começa com um telefonema no início dos anos 70. Do outro lado da linha, más notícias. Sujeito a tortura, um camarada do Partido Comunista Brasileiro denunciara outros camaradas, entre os quais Gullar, que contra a sua vontade fazia parte da «direcção estadual» do PCB e se vê assim forçado a entrar na clandestinidade. Saltando entre apartamentos de amigos, longe da família, cumpre à risca as estratégias de dissimulação mas acaba por se cansar do «jogo de esconde-esconde».
Quando o cerco aperta, parte para Moscovo, onde fará um curso de seis meses no Instituto Marxista-Leninista. Sob uma identidade falsa (Cláudio), entusiasma-se mais com os seus vários namoricos e aventuras sexuais do que com a doutrinação pesada da escola soviética. Aliás, ao contrário dos outros estrangeiros, ele nunca se coíbe de dizer o que pensa, mesmo se os seus comentários não correspondem ao que os anfitriões desejariam ouvir, o que provoca toda a sorte de embaraços, mal-entendidos e tensões. A estadia num hotel de cinco andares sem água canalizada, numa terrinha perdida nos Urais, funciona então como metáfora de uma sociedade absurda.
O desencanto ideológico acentua-se no Chile, onde chega em Maio de 1973. Em vez de atribuir a queda de Allende, uns meses mais tarde, apenas à ação das forças de direita (apoiadas pelos EUA), Gullar culpa igualmente o radicalismo das esquerdas, para ele um factor que alienou a base de apoio popular do governo socialista. Após o golpe de Pinochet, volta a perseguição, volta o medo, volta a necessidade da fuga, primeiro para o Peru (onde se reúne com a família), depois para a Argentina, onde vive com aflição as crises de esquizofrenia do filho mais velho, que por vezes desaparece meses a fio. As páginas dedicadas à busca de Paulo estão entre as mais comoventes do livro.
Mas o melhor está guardado para o fim: a narração da génese do Poema Sujo, a sua obra-prima. «Imaginei que o melhor caminho para realizar o poema era vomitar de uma só vez, sem ordem lógica ou sintática, todo o meu passado, tudo o que vivera, como homem e como escritor.» É o que faz, para assombro dos amigos que o ouvem ler, em Buenos Aires, aquelas cem páginas vertiginosas. Entre eles, Vinicius de Moraes, companheiro que grava o poema e o põe a circular no Brasil. A onda de admiração gerada contribuirá, mais tarde, para o regresso de Gullar à pátria, em 1977. E quando se livra dos interrogatórios da polícia no Rio, quando se sente novamente livre, o poeta fecha o capítulo do exílio de uma forma muito brasileira: gozando «uma manhã inteira de praia carioca».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 98 da revista Ler]

O não dito por dito

alguma parte

Em Alguma Parte Alguma
Autor: Ferreira Gullar
Editora: Ulisseia
N.º de páginas: 123
ISBN: 978-972-568-667-6
Ano de publicação: 2010

Mais de seis décadas após a sua estreia literária, Ferreira Gullar, um dos maiores poetas vivos do Brasil – se não o maior – venceu este ano o Prémio Camões. Mesmo se justíssima, a consagração oficial torna-se quase irrisória ao pé do que verdadeiramente importa aos seus leitores: o regresso à poesia. Onze anos passados sobre o lançamento do anterior livro de inéditos (Muitas Vozes, 1999), surge agora Em Alguma Parte Alguma. A expectativa criada pela longa espera – fruto da lentidão do seu processo criativo – era enorme, talvez excessiva, mas o resultado não defrauda os admiradores de Gullar. Pelo contrário: aos 80 anos, o poeta escreveu uma obra de extraordinária vitalidade, a rebentar de energia, com fôlego imenso, mais próprio de um rapaz na flor da idade do que de um ancião (sendo que a sabedoria e a imensa experiência de vida do ancião se pressentem em cada verso).
Na primeira parte do livro, Gullar entrega-se, de forma sistemática e reiterativa, a uma reflexão sobre os fundamentos essenciais da actividade poética e os limites da linguagem verbal para descrever, ou explicar, a realidade tangível das coisas: «mas / dizer o quê? / dizer / olor de fruta / cheiro de jasmim? // mas / como dizê-lo / se a fala não tem cheiro?» A verdade é que uma palavra nunca corresponde totalmente à coisa que nomeia, porque «a coisa / (o ser) / repousa / fora de toda / fala / ou ordem sintática // e o dito (a / não coisa) é só / gramática». Daí que ao poeta, diante da página em branco, caiba apenas o «aflito silêncio» de quem se esforça, em voz baixa, não por revelar o oculto mas por inventá-lo: «O poema / antes de escrito / antes de ser / é a possibilidade / do que não foi dito / do que está por dizer». Para que a poesia aconteça, o poeta tem então de pôr ordem na desordem e dar «o não dito por dito», única forma de resgatar «o que se nega / à fala / o que escapa / ao acurado apuro / do dizer». Ou seja: «a borra / a sobra / a escória / a incúria / o não caber».
Não se julgue, porém, que esta abordagem do trabalho poético se fica por abstracções. Mesmo nos poemas mais reflexivos, a escrita de Gullar é sempre física, material, seja na descrição do próprio corpo envelhecido (feito de ossos: a cabeça do fémur em atrito com a bacia, mais o perónio que é «a mais dura parte de mim / dura mais do que tudo o que ouço / e penso / mais do que tudo o que invento / e minto»), seja nas várias aproximações à brutalidade impalpável de um aroma de jasmim «no limite do veneno»; na recorrência do «perfume das bananas apodrecendo» na loja fechada do pai, há tantos anos; ou ainda no cheiro a alfazema que «dorme manso nas gavetas de roupas / em São Luís / e reacende o perdido». Do passado chegam emoções difusas e imagens fortes, como a da corola de um «vermelho-queimado» que já não murcha nem atrai abelhas, porque «apenas fulge / em alguma parte alguma / da vida», à espera de ser captada pelo exercício da memória, «essa / antimatéria que pode / num átimo/ reacender o que na matéria / se apagara para sempre».
Quem tenha lido o genial Poema Sujo, de 1975 (editado há poucos meses pela Ulisseia), reconhecerá algumas ideias: por exemplo, a pêra vista como um sistema de açúcar e álcool que se desfaz, ou as diferentes velocidades a que se move uma cidade. Mas se nessa obra torrencial e magnética se tentava reconstituir um lugar e um tempo (os dias da infância em São Luís do Maranhão), evocados no desespero do exílio, aqui o movimento é ao mesmo tempo mais contido e mais amplo. Há talvez menos visceralidade, menos denúncia dos males do mundo (ou do Brasil), mas uma maior consciência de si mesmo na escala cósmica. Entre o fascínio com o gigantismo das galáxias distantes, onde brilham estrelas talvez já mortas, e a contemplação do gato enrodilhado na cadeira, da planta no vaso da sala, de um louva-deus, de uma aranha que vive nas «encardidas páginas» de um dicionário de Filosofia, nascem toda a sorte de maravilhamentos e epifanias.
Depois, a par com esta espécie de panteísmo sem necessidade de Deus, há uma sombra que alastra pelo livro: a da finitude de todas as coisas. «A morte / presença e ocultação / circula luminosa», lembra-nos o poeta. A morte dos outros, esses defuntos que se acomodam «a meu lado/ como numa fotografia». Mas também o seu próprio fim, antecipado sem morbidez: «vinda a morte/ (…) serei o que alguém acaso/ salve/ do olvido». Uma esperança que Gullar, no último poema, projecta na figura de Rainer Maria Rilke: «desfeita a garganta e a mão e a mente/ findo aquele que/ de modo próprio/ dizia a vida/ resta-nos buscá-lo nos poemas/ onde nossa leitura/ de algum modo/ acenderá outra vez sua voz».

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Quatro poemas de Ferreira Gullar

REFLEXÃO SOBRE O OSSO DA MINHA PERNA

A parte mais durável de mim
são os ossos
e a mais dura também

como, por exemplo, este osso
da perna
que apalpo
sob a macia cobertura

ativa
de carne e pele
que o veste e inteiro
me reveste
dos pés à cabeça
esta vestimenta
fugaz e viva

sim, este osso
a mais dura parte de mim
dura mais do que tudo o que ouço
e penso
mais do que tudo o que invento
e minto
este osso
dito perônio
é, sim,
a parte mais mineral
e obscura

de mim
já que à pele
e à carne
irrigam-nas o sonho e a loucura

têm, creio eu,
algo de transparente
e dócil
tendem a solver-se
a esvanecer-se
para deixar no pó da terra
o osso
o fóssil

futura
peça de museu

o osso
este osso
(a parte de mim
mais dura
e a que mais dura)
é a que menos sou eu?

***

FALAR

A poesia é, de fato, o fruto
de um silêncio que sou eu, sois vós,
por isso tenho que baixar a voz
porque, se falo alto, não me escuto.

A poesia é, na verdade, uma
fala ao revés da fala,
como um silêncio que o poeta exuma
do pó, a voz que jaz embaixo
do falar e no falar se cala.
Por isso o poeta tem que falar baixo
baixo quase sem fala em suma
mesmo que não se ouça coisa alguma.

***

INSETO

Um inseto é mais complexo que um poema
Não tem autor
Move-o uma obscura energia
Um inseto é mais complexo que uma hidrelétrica

Também mais complexo
que uma hidrelétrica
é um poema
(menos complexo que um inseto)

e pode às vezes
(o poema)
com sua energia
iluminar a avenida
ou quem sabe
uma vida

***

GALÁXIA

Aqui estive
neste
banheiro branco
de piso branco
de louça fria

aqui estive
(estou) neste hoje
dia 3 de fevereiro
de 2003

aqui
dentro deste silêncio
de banheiro (de
pia, de torneira
de vaso sanitário
de bidê)
estou
mortal
e conformado

estou
num tempo branco
pequeno (2m por
2m) e eterno?
fora da morte, eu,
futuro morto

e lá fora chispa
a tarde célere
e clara
(lampejo na
areia ofuscante)
na praia atravessada de veículos
que vão e vêm
pela avenida ruidosa
tendo ao fundo
horizontal
a massa pesada e azul
da baía

lá fora (fora
do banheiro, fora
da casa)
a cidade é uma galáxia
a mover-se desigual
em seus diferentes estratos
veloz e lenta
e em contraditórias direções

uma galáxia
que em seu girar arrasta
nossas vidas, nossas
casas, nossas
caixas
de lembranças
cheias de papéis velhos e fotos
doídas
de olhos que nos fitam
de tempo algum
agora que são apenas manchas
e não obstante falam ainda
na poeira do cemitério doméstico
misturado com fungo e mofo
à beira do buraco voraz

e a galáxia urbana
tem como as outras
cósmicas
insondáveis labirintos
de espaços e tempos e mais
os tempos humanos da memória, essa
antimatéria que pode
num átimo
reacender o que na matéria
se apagara para sempre

assim
a cidade girando
arrasta em seu giro
pânicos destinos desatinos
risos choros
luzi-luzindo nos cômodos sombrios
da Urca, da Tijuca, do Flamengo,
e misturados às conversas na cozinha
ou na área de serviço
o lixar de alguma porta, o cheiro de Tonitrin,
o chilrear dos pardais e o arrulhar dos pombos,
barulhos inumeráveis da cidade que é bem mais lenta
nos arvoredos do Jardim Botânico com seus esquilos e
macaquinhos
lépidos a se moverem, seres que são daquele universo de folhas,
e somando-se a isto a Praça XV e a Ilha Fiscal,
tudo girando em torno deste imaginário eixo
—o banheiro,
onde estou
(onde estive)
e donde apenas ouço
o acelerar do motor de um ônibus
(talvez)
que passa pela rua Duvivier
não sei com que destino.

[in Em Alguma Parte Alguma, Ulisseia, 2010]

Nota – Esta formatação dos versos não corresponde à verdadeira mancha gráfica dos poemas.

Velocidades

«(…) É impossível dizer
em quantas velocidades diferentes
se move uma cidade
a cada instante
(sem falar nos mortos
que voam para trás)
ou mesmo uma casa
onde a velocidade da cozinha
não é igual à da sala (aparentemente imóvel
nos seus jarros e bibelôs de porcelana)
nem à do quintal
escancarado às ventanias da época

e que dizer das ruas
de tráfego intenso e da circulação do dinheiro
e das mercadorias
desigual segundo o bairro e a classe, e da
rotação do capital
mais lenta nos legumes
mais rápida no setor industrial, e
da rotação do sono
sob a pele,
do sonho
nos cabelos?

e as tantas situações da água nas vasilhas
(pronta a fugir)
a rotação
da mão que busca entre os pentelhos
o sonho molhado os muitos lábios
do corpo
que ao afago se abre em rosa, a mão
que ali se detém a sujar-se
de cheiros de mulher,
e a rotação
dos cheiros outros
que na quinta se fabricam
junto com a resina das árvores e o canto
dos passarinhos?

Que dizer da circulação
da luz solar
arrastando-se no pó debaixo do guarda-roupa
entre sapatos?
e da circulação
dos gatos pela casa
dos pombos pela brisa?
e cada um desses fatos numa velocidade própria
sem falar na própria velocidade
que em cada coisa há
como os muitos
sistemas de açúcar e álcool numa pêra,
girando todos em diferentes ritmos
(que quase
se podem ouvir)
e compondo a velocidade geral
que a pêra é

do mesmo modo que todas essas velocidades mencionadas
compõem
(nosso rosto refletido na água do tanque)
o dia
que passa
— ou passou —
na cidade de São Luís. (…)»

[in Poema Sujo, de Ferreira Gullar, Ulisseia, 2010]

Nota – Esta formatação dos versos não corresponde à verdadeira mancha gráfica do poema.

Entre fulgor e lepra

Poema Sujo
Autor: Ferreira Gullar
Editora: Ulisseia
N.º de páginas: 62
ISBN: 978-972-568-633-1
Ano de publicação: 2010

Na obra do brasileiro Ferreira Gullar, Prémio Camões 2010, o livro Poema Sujo ocupa um lugar central. E mesmo não sendo «o mais importante poema escrito em qualquer língua nas últimas décadas», como Vinicius de Moraes chegou exageradamente a sugerir, está decerto entre os mais importantes poemas da língua portuguesa no século XX. Não é pouco.
Escrito em 1975, aos 45 anos, no exílio a que o forçou a ditadura militar (instaurada em 1964), este texto começa por ser o grito de revolta de um desterrado. Em Buenos Aires, longe da «pátria de mato e ferrugem», Gullar empreende um canto de si mesmo digno de Walt Whitman, na amplitude expressiva e no confessionalismo visceral (o corpo como agente do conhecimento do mundo), mas também um canto sobre as contingências históricas do Brasil e sobre a sua infância em São Luís do Maranhão, «minha úmida cidade / constantemente batida de muitos ventos».
Deixados para trás os experimentalismos concretistas e neoconcretistas, o poeta mergulha de cabeça na «profusão das coisas acontecidas», capta «a vida a explodir por todas as fendas da cidade» e entrega-se ao enigma da existência com o seu «corpo-galáxia aberto a tudo».
A escrita é torrencial, há súbitas mudanças de ritmo, disrupções, amálgamas de imagens, alternância de registos (a linguagem tanto pode ascender às altas esferas líricas como descer ao prosaísmo mais literal), mas Gullar nunca se afasta da «muda carne das coisas». Isto é, da sua natureza impura: «E também rastejais comigo / pelos túneis das noites clandestinas / sob o céu constelado do país / entre fulgor e lepra / debaixo de lençóis de lama e de terror».
Aqui, as palavras impregnam-se de «graves cheiros indecifráveis» (o cheiro da miséria e do amor, «de umbigo e de vagina»), compondo o retrato em movimento de um «corpo feito de água / e cinza» (o do poeta, «1,70m que é meu tamanho no mundo»), de rios que apodrecem, de um comboio transformado em onomatopeias ferroviárias, de histórias de uma época — a II Guerra Mundial — em que «a poesia não existia ainda», de um bairro pobre construído em palafitas sobre o lodo (assombrando um coração «aliado da classe operária»), de dias que se desdobram uns nos outros, enlaçando-se «como anéis de fumaça».
Na verdade, este livro tão belo quanto cru faz-se essencialmente de «matéria-tempo». Tempo que jorra, se amontoa e propaga a diferentes velocidades, sem um centro fixo: «E do mesmo modo / que há muitas velocidades num / só dia / e nesse mesmo dia muitos dias / assim / não se pode também dizer que o dia / tem um único centro / (feito um caroço / ou um sol) / porque na verdade um dia / tem inumeráveis centros».

Avaliação: 9,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

São Luís do Maranhão

«(…) Ah, minha cidade verde
minha úmida cidade
constantemente batida de muitos ventos
rumorejando teus dias à entrada do mar
minha cidade sonora
esferas de ventania
rolando loucas por cima dos mirantes
e dos campos de futebol
verdes verdes verdes verdes
ah sombra rumorejante
que arrasto por outras ruas

Desce profundo o relâmpago
de tuas águas em meu corpo,
desce tão fundo e tão amplo
e eu me pareço tão pouco
pra tantas mortes e vidas
que se desdobram
no escuro das claridades,
na minha nuca,
no meu cotovelo, na minha arcada dentária
no túmulo da minha boca
palco de ressurreições
inesperadas
(minha cidade
canora)
de trevas que já não sei
se são tuas se são minhas
mas nalgum ponto do corpo (do teu? do meu
corpo?)
lampeja
o jasmim
ainda que sujo da pouca alegria reinante
naquela rua vazia
cheia de sombras e folhas (…)»

[in Poema Sujo, de Ferreira Gullar, Ulisseia, 2010]

Nota – Esta formatação dos versos não corresponde à verdadeira mancha gráfica do poema.

O que aí vem (Babel)

Aproveitando o impacto mediático da recente atribuição a Ferreira Gullar do Prémio Camões, a Babel vai iniciar a publicação integral da obra do escritor brasileiro. Já no prelo, com lançamento previsto ainda para este mês de Julho, está uma das obras essenciais de Gullar: o livro Poema Sujo, escrito em 1975, durante o exílio na Argentina (onde se refugiou durante a ditadura militar). Vinicius de Moraes referia-se a Poema Sujo como «o mais importante poema escrito em qualquer língua nas últi­mas décadas». Em Setembro, surgirá o muito esperado novo livro de poemas de Gullar, Em Alguma Parte Alguma, coincidindo com a edição brasileira (José Olympio), já apontada como um dos acontecimentos editoriais do ano no Brasil (é o primeiro de poesia que Gullar publica desde Muitas Vozes, de 1999). Seguir-se-ão mais dois volumes: Cidades Inventadas (ficção) e Rabo de Foguete – Os Anos do Exílio (memórias).

Ferreira Gullar, poeta maior

A atribuição do Prémio Camões – no valor de cem mil euros (metade dos quais pagos por Portugal; metade pelo Brasil) – a um escritor cuja obra, no seu conjunto, contribua para o enriquecimento do património literário em português, gera todos os anos entusiasmos e incómodos na comunidade cultural lusófona. Independentemente dos méritos de quem ganha, há sempre a desconfiança de que os critérios do júri são mais da ordem da diplomacia – e do equilíbrio de forças dentro do espaço da língua comum – do que da literatura. A edição de 2010 não deverá ter escapado a esta tendência.
Na passada segunda-feira, antes do anúncio oficial feito pela ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, o júri – composto por dois brasileiros (António Carlos Secchin e Edla van Steen), dois portugueses (Helena Buescu e José Carlos Seabra Pereira), um moçambicano (Luís Carlos Patraquim) e uma são-tomense (Inocência Mata) – esteve reunido durante duas horas. À partida, era previsível que o vencedor fosse brasileiro ou português, uma vez que em 2009 o Camões foi para o poeta cabo-verdiano Arménio Vieira e a lógica rotativa (nunca admitida) do prémio implicava um regresso ao território das duas maiores potências da CPLP. Se os jurados brasileiros defenderam com empenho a causa de Ferreira Gullar, autor que Secchin, um dos «imortais» da Academia Brasileira de Letras, já tinha de resto proposto como candidato ao Nobel (em 2002), os representantes portugueses no júri tudo fizeram para que a distinguida fosse Hélia Correia. A decisão foi difícil e tomada por maioria, prevalecendo a ideia de uma maior urgência em premiar Gullar (n. 1930) do que a autora de Lillias Fraser, 19 anos mais nova. «Quase demos o prémio para a Hélia Correia e teria sido muito bom também, mas ela tem tempo», admitiu Edla van Steen no fim da conferência de imprensa em que foi lida a acta do júri, na qual se sublinha «a alta relevância estética da obra de Ferreira Gullar, em especial a poesia, incorporando com mestria tanto a nota pessoal do lirismo quanto a defesa de valores éticos universais».
Único editor de Ferreira Gullar em Portugal, Jorge Reis-Sá considera que a atribuição do prémio é «inteiramente justa», até porque volta a distinguir a poesia brasileira, vinte anos exactos após o Camões atribuído a João Cabral de Melo Neto. Hoje a trabalhar no grupo Babel, Reis-Sá publicou em 2003, nas Edições Quasi (entretanto falidas), as mais de 500 páginas da Obra Poética completa de Gullar. Na altura, teve oportunidade de visitar o poeta na sua casa do Rio de Janeiro, na companhia de Eucanaã Ferraz, e recorda um homem «inteligentíssimo», correcto e afável, «um gentleman. Entretanto, a tiragem de mil exemplares da Obra Poética esgotou e Reis-Sá gostava muito de reeditá-la, embora não saiba se depois do prémio isso será possível. As Quasi publicaram ainda, em 2005, um outro livro de Gullar de que Reis-Sá se orgulha: Um Gato chamado Gatinho, volume de poemas infantis, «lindíssimos», com ilustrações de Joana Quental. Alguns desses poemas foram cantados ao vivo por Adriana Calcanhotto, versão Partimpim, num concerto no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.

Além de poeta, Ferreira Gullar (pseudónimo de José Ribamar Ferreira) foi ou é também cronista, crítico de arte, dramaturgo, ensaísta, biógrafo, tradutor e guionista. Em 2008, o volume Poesia Completa, Teatro e Prosa (Nova Aguilar) reuniu uma produção literária de quase seis décadas em 1264 páginas – do seu livro de estreia (Um pouco acima do chão, 1949) às memórias do seu exílio (no tempo da ditadura militar), passando pelas várias fases da sua evolução como escritor, do experimentalismo ao neoconcretismo, da torrente visceral de Poema Sujo (1976), uma obra-prima que evoca a infância em São Luís do Maranhão, aos versos em que se comprometeu com as lutas sociais e políticas do seu tempo, nunca abdicando do rigor absoluto da linguagem.
No livro de ensaios Indagações de hoje (1989), Ferreira Gullar escreveu: «a palavra que forma o poema sempre foi, no meu entender, uma entidade viva, nascida do corpo, suja sabe-se lá de que insondáveis significados». E o ensaísta Ivan Junqueira, no prefácio à Obra Poética editada pelas Quasi, sintetizou: «Se examinarmos a poesia de Ferreira Gullar desde 1954 até agora à luz de sua tessitura estilística, chegaremos à conclusão de que poucos autores entre nós alcançaram tanta e tamanha coerência interna, tanta e tamanha fidelidade às suas origens de artista que se dispôs a transgredir as fronteiras do sistema da língua».
A consagração do Prémio Camões foi precedida por outras distinções importantes no Brasil, como um Jabuti, em 2007, e o Prémio Machado de Assis, pelo conjunto da obra, em 2005. No próximo mês de Setembro, quando completar 80 anos, Ferreira Gullar lançará um livro de poemas inédito, Em Alguma Parte Alguma (José Olympio), o primeiro desde Muitas Vozes (1999), volume onde se podem ler estes três versos que de certa forma resumem a sua arte poética: «Meu poema / é um tumulto, um alarido: / basta apurar o ouvido.»

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Quatro poemas de Ferreira Gullar (Prémio Camões 2010)

OVNI

Sou uma coisa entre coisas
O espelho me reflete
Eu (meus
olhos)
reflito o espelho

Se me afasto um passo
o espelho me esquece:
– reflete a parede
a janela aberta

Eu guardo o espelho
o espelho não me guarda
(eu guardo o espelho
a janela a parede
rosa
eu guardo a mim mesmo
refletido nele):
sou possivelmente
uma coisa onde o tempo
deu defeito

***

PINTURA

Eu sei que se tocasse
com a mão aquele canto do quadro
onde um amarelo arde
me queimaria nele
ou teria manchado para sempre de delírio
a ponta dos dedos.

***

MORTE DE CLARICE LISPECTOR

Enquanto te enterravam no cemitério judeu
do Caju
(e o clarão de teu olhar soterrado
resistindo ainda)
o táxi corria comigo à borda da Lagoa
na direcção de Botafogo
E as pedras e as nuvens e as árvores
no vento
mostravam alegremente
que não dependem de nós

***

DESASTRE

Há quem pretenda
que seu poema seja
mármore
ou cristal – o meu
o queria pêssego
pêra
banana apodrecendo num prato
e se possível
numa varanda
onde pessoas trabalhem e falem
e donde se ouça
o barulho da rua.
Ah quem me dera
o poema podre!
a polpa fendida
exposto
o avesso da voz
minando
no prato
o licor a química
das sílabas
o desintegrando-se cadáver
das metáforas
um poema
como um desastre em curso.

[in Obra Poética, Quasi, 2003]

NOTA – A disposição na página de Desastre, a sua mancha gráfica, ficou desconfigurada na transcrição para o blogue. Aconselha-se a leitura em papel para descobrir o verdadeiro corpo do poema.

Prémio Camões para Ferreira Gullar

Considerado um dos maiores poetas brasileiros vivos, Ferreira Gullar acaba de ser distinguido com o Prémio Camões, o mais importante do universo literário lusófono. Do júri, que decidiu por maioria, fizeram parte Helena Buescu, José Carlos Seabra Pereira, Inocência Mata, Luís Carlos Patraquim, António Carlos Secchin e Edla van Steen. Ferreira Gullar, que tem a sua Obra Poética editada pelas Edições Quasi (2003), sucede a outro poeta: o cabo-verdiano Arménio Vieira.

Um poema de Ferreira Gullar

EXTRAVIO

Onde começo, onde acabo,
se o que está fora está dentro
como num círculo cuja
periferia é o centro?

Estou disperso nas coisas,
nas pessoas, nas gavetas:
de repente encontro ali
partes de mim: risos, vértebras.

Estou desfeito nas nuvens:
vejo do alto a cidade
e em cada esquina um menino,
que sou eu mesmo, a chamar-me.

Extraviei-me no tempo.
Onde estarão meus pedaços?
Muito se foi com os amigos
que já não ouvem nem falam.

Estou disperso nos vivos,
em seu corpo, em seu olfato,
onde durmo feito aroma
ou voz que também não fala.

Ah, ser somente o presente:
esta manhã, esta sala.

[in Obra Poética, Quasi, 2003]

A vantagem das Obras Completas

Ao reunir a sua obra num só volume (toda a poesia e todo o teatro), o poeta brasileiro Ferreira Gullar descobriu um número significativo de erros nos seus livros, erros perpetuados em sucessivas reimpressões e só agora corrigidos. A nova e esmerada edição, organizada pelo crítico Antonio Carlos Secchin, tem 1264 páginas e chancela da Nova Aguilar, uma espécie de Pléiade dos trópicos, que desde 1958 vem fixando as obras dos grandes clássicos brasileiros, em volumes de capa dura e papel-bíblia.
Segundo Sebastião Lacerda, responsável máximo da editora, «Gullar e Secchin conseguiram acertar até erros na construção de versos». E eu, enquanto folheio a espessa antologia publicada em Portugal pelas Quasi, em 2003, pergunto-me quantas dessas antigas incongruências e incorrecções estarão por aqui à espera de deturpar a minha leitura dos poemas.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges