Recuar um passo

alta ajuda

Alta Ajuda
Autor: Francisco Bosco
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 157
ISBN: 978-989-671-158-0
Ano de publicação: 2013

Eis o programa que Francisco Bosco, carioca nascido em 1976, escolheu para os textos que publica regularmente na imprensa brasileira (no jornal O Globo e nas revistas Trip e Cult): «abordar com espírito filosófico os problemas da existência cotidiana, comuns a qualquer pessoa». Partindo das próprias experiências, ele transporta para o século XXI o espírito de Montaigne: um interesse omnívoro sobre o que se passa à sua volta e a capacidade de interrogar qualquer assunto, alargando o mais possível os círculos da reflexão. Em três ou quatro páginas, Bosco pensa e faz-nos pensar, confronta-nos, mobiliza-nos, inquieta-nos, desarruma-nos. Eleva a crónica às alturas do ensaio, sem nunca perder a graça da escrita imediata, o tom ameno de quem discute a actualidade na mesa do café.
Além da elegância simples da prosa, avessa a hermetismos, acessível, directa, o que mais atrai na escrita de Bosco é o seu desassombro. Como quando admite a atracção pela chamada baixa cultura: «Durante anos, assisti a novelas. Quando me perguntavam por que as via, respondia que elas cumprem um papel importante numa dieta semiológica. Sou a favor de um regime de signos balanceado, onde sistemas fortes, de alta informação (literatura, filosofia, etc.), sejam equilibrados por outros, mais ligeiros e inconsistentes, como mesas-redondas sobre futebol e novelas.» O conferencista que se doutorou com uma tese sobre Roland Barthes, e está sempre a citar Deleuze, não fecha os olhos a nada. As ideias de Espinoza interessam-lhe, sim. Pode reflectir sobre a ascese, sim. Mas também sobre o Barcelona de Pep Guardiola, a decadência artística de Roberto Carlos ou a crucificação mediática de Tiger Woods. Ele é um nómada intelectual, pouco preocupado em definir um «território discursivo». Pelo contrário, orgulha-se do carácter «indisciplinado» do seu pensamento. Numa das crónicas, defende que só se pode ser contemporâneo do nosso tempo – ou seja, só se consegue «estar à altura de capturá-lo numa forma ou num sentido» – se não coincidirmos completamente com ele. É sempre preciso «recuar um passo» para ver melhor.
Em Alta Ajuda, Francisco Bosco impõe-se sistematicamente essa tão necessária distância. E assim vai analisando, com minúcia e inteligência, os mais variados tópicos: da maldição dos insones, esses «imortais de olheiras», assombrados por uma «voz de dentro» que nunca se cala; ao modo como os casais discutem e lidam com a «fadiga» das relações amorosas; ao perigosíssimo paradoxo emocional do réveillon (essa data em que há um «imperativo no gozo»); ao pânico de morrer num avião; ou ao modo como as drogas «operam dentro da realidade» (no caso do álcool, por exemplo, «amaciando-a, afrouxando as cordas em que todo sujeito, mais ou menos neurótico, vive cotidianamente amparado e enlaçado»).

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges