Um ‘site’ para Jaime Ramos

No momento em que Francisco José Viegas reúne alguns contos dispersos do seu carismático inspector (A Poeira que cai sobre a terra e outras histórias de Jaime Ramos, Porto Editora), é lançado um site só sobre esse inconfundível homem do Norte. Uma ideia original e inédita, creio, pelo menos em Portugal.
Os lugares por onde J.R. gosta de circular, as afinidades, os vícios, as palavras que o definem ou que ele definiu, as receitas do gastrónomo – eis algumas das secções deste work in progress que vale a pena ir acompanhando.

Festival Internacional de Literatura de Montreal

Entre 17 e 26 de Setembro, o 16.º Festival Internacional de Literatura de Montreal vai abranger encontros literários, mesas-redondas com escritores, tertúlias e espectáculos. Portugal estará representado por Francisco José Viegas, que participará num debate sobre o romance policial europeu. No dia 19, haverá um Percurso Literário por Montreal em que cinco escritores policiais farão da cidade o cenário de um crime.

Memórias correntes

Numa recolha de depoimentos feita pelo Diário Digital junto de vários editores, Francisco José Viegas evoca com muita graça aquilo a que poderemos chamar o “espírito” das Correntes d’Escritas. Eis um excerto:

«Das duas últimas edições trago recordações literárias importantes, alinhadas entre as memórias dessa semana da Póvoa. Entre elas estão: 4 garrafas de Jameson, novo, e uma de Bushmills, malte; um saco de gelo usado para ilustrar a presciência do Jameson, e subtraído com codícia aos frigoríficos do bar do hotel, já fora de horas; o frio que os fumadores apanham no hotel, junto da piscina, à noite; 17 anedotas literárias ou académicas contadas por Onésimo Teotónio de Almeida; 4 trocas de nomes de convidados, da responsabilidade de José Carlos Vasconcelos; o bigode de Leonardo Padura (não me refiro à barba); uma gracinha dita por Luís Fernando Veríssimo durante uma das cinco vezes (no total) em que experimentou falar; duas meninas que aguardavam, nervosas, a chegada de Mia Couto, e que o trocaram por José Eduardo Agualusa; uma peça de lingerie encontrada num corredor do sexto piso, perto do quarto onde Daniel Mordzinsky tira as suas melhores fotografias; 3 anedotas de cariz eminentemente sexual contadas por Onésimo Teotónio de Almeida; 16 pacotes de Chesterfield esgotados por Carlos da Veiga Ferreira; uma edição da Playboy brasileira à venda no quiosque do hotel; o esparregado, as batatas salteadas, a salada de feijão e os ovos verdes do buffet do hotel; os chapéus de Manuel Rui; o ar de tédio do colombiano Santiago Gamboa ao pensar que está de regresso a Mumbai; 5 anedotas de motivo principalmente religioso contadas por Onésimo Teotónio de Almeida; a inveja por uma das camisolas de gola alta de Almeida Faria; a inveja por José Manuel Fajardo, em geral e por um motivo em particular; a descoordenação motora e vocal de Isabel Coutinho durante os pequenos-almoços; o bigode (entretanto desaparecido) de Antonio Sarabia; o bigode (nunca desaparecido) de João Rodrigues; duas meninas que aguardavam, nervosas, a chegada de José Eduardo Agualusa, e que o trocaram por Mia Couto; (…) uma aparição de Enrique Vila Matas; duas sestas que dormi na varanda do hotel enquanto os meus colegas discutiam, empenhada e entusiasticamente, o devir da literatura, a importância da Língua Portuguesa, o silêncio das esferas, e a vida estrepitosa dos escritores, creio que do Uruguai, mas não me lembro. Gostei de tudo.»

A indústria da tragédia

Para saber do que se trata, basta abrir a televisão. Basta abrir os olhos. Francisco José Viegas, neste post, denuncia-a muito bem.

Um policial introspectivo

O Mar em Casablanca
Autor: Francisco José Viegas
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 234
ISBN: 978-972-0-04287-3
Ano de publicação: 2009

Quatro anos após a publicação de Longe de Manaus, que obteve em 2006 o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, Francisco José Viegas regressa à ficção, ao policial negro e a Jaime Ramos, o inspector da Judiciária que protagoniza a maior parte dos seus romances. Se a consagração literária que o prémio da APE sempre representa foi um obstáculo – ou talvez uma responsabilidade paralisante, a pesar sobre os ombros do autor – isso não se nota. Embora fugidio e descentrado, com uma narrativa que está sempre a escapar-se-nos entre os dedos, O Mar em Casablanca é um romance sólido, complexo (a exigir releitura, para total compreensão de certas subtilezas) e irrepreensivelmente bem escrito. Falta-lhe só, talvez, um golpe de asa, aquilo que distingue os bons livros dos livros excepcionais.
Como em todo o policial que se preze, há um homicídio (aliás, dois) para resolver. Primeiro, durante a festa de encerramento do Palace Hotel, no Vidago, aparece morto um jornalista de Economia com interesses obscuros; depois, descobre-se o cadáver de um empresário angolano, numa quinta do Douro, perto do Pinhão. Jaime Ramos e os seus adjuntos – Isaltino de Jesus e José Corsário – investigam os casos, tentam estabelecer uma ordem, uma lógica, um sentido para estas mortes.
A investigação crucial, porém, é a que leva Jaime Ramos na pista de Jaime Ramos. Ele julga-se impermeável à melancolia e acredita que «um vendaval» eliminou a sua memória, «para impedi-lo de ser um velho nostálgico». A realidade desmente-o, fazendo da sua existência uma espiral de desencanto melancólico, sonhos, chuva e recordações. O corpo, esse, atraiçoa-o: subir escadas tornou-se um tormento e sente cãibras no peito, depois de «uma espécie de AVC». Ele pertence a outro tempo, é um homem «à moda antiga», deslocado, fora do mundo, «em desuso». É aquele «que se despede sem que ninguém saiba», um «objecto flutuante, como os papéis da rua, os ramos quebrados das árvores, o fumo dos autocarros que atravessam as pontes». Para sobreviver, veste uma carapaça de cinismo, mas por baixo há só cansaço, desprendimento e auto-ironia feroz: «De vez em quando distraio-me, fico humano.»
A estratégia é esquecer o passado, sabendo que o passado – caótico, confuso, implacável – virá sempre ter com ele. E vem. Um novelo onde se misturam os traumas da guerra colonial (Guiné), as memórias da emigração (Venezuela), o sangrento apocalipse das ilusões revolucionárias (Angola) e os labirintos da História. As pessoas que importa seguir são as que não deixam rasto, as que «preferem a sombra». Como Adelino Fontoura, chave perdida de uma narrativa «sem solução», sem fecho, mesmo depois de cumpridas todas as vinganças.
No fim, há como que uma passagem de testemunho (para Isaltino) e paira no ar a hipótese de que Jaime Ramos talvez se afaste de vez, da actividade policial e da literatura que o inventou. Esperemos que não.

Avaliação: 7,5/10

[Versão ampliada de um texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

FJV is back

Ainda bem. Já se sentia a falta.

Agora é público

Que a Ler vai regressar aos escaparates no final deste mês, já se sabia. Que o Francisco José Viegas me convidou para ser um dos cronistas (e colaboradores permanentes) da revista, ficou a saber-se hoje através de uma notícia do ípsilon. Acrescento apenas que é com muito prazer que embarco nesta aventura.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges