Borboletas amarelas

Como combinado, pelas nove horas o David estava à nossa espera no átrio do hotel. Na véspera, quando decidimos aproveitar a manhã de sábado para dar uma volta pelos bairros antigos da capital, um telefonema bastou para garantir um guia improvisado, disponível e simpático – como são quase todos os colombianos com que nos cruzámos durante a nossa estadia a 2600 metros de altitude, na cordilheira dos Andes, para acompanhar a presença de Portugal como país-convidado na Feira do Livro de Bogotá, uma das maiores da América Latina. David tem 22 anos, cabelo abundante e barba, estuda literatura na universidade e mete-se num táxi connosco, a caminho de La Candelaria.

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Cumpridas as visitas obrigatórias ao opulento Museu do Ouro e ao senhorial Museu Botero (mais interessante pela vasta colecção de arte europeia do pintor do que pelos seus retratos de criaturas obesas), David mostrou-nos a Plaza Bolívar, ampla mas claustrofóbica na sua imponência colonial, como que abafada pelos cumes das montanhas que cercam a cidade, e levou-nos por ruas estreitas onde os vendedores de fruta estacionam no passeio os seus carrinhos, enquanto militares de metralhadora a tiracolo montam vigilância nas esquinas. «Ali à frente fica o Centro Cultural Gabriel García Márquez», apontou. «Vale a pena. E tem uma das maiores livrarias do país.»

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Uma livraria é sempre irresistível, seja em que latitude for. E a Fondo de Cultura Económica, com a sua oferta de 80 mil títulos e 120 mil exemplares, não desiludiu. É circular, uma espécie de anel feito de estantes e livros, com janelões que dão para um lago interior, dentro do grande edifício do Centro Cultural, desenhado pelo arquitecto Rogelio Salmona. Foi lá que comprei Gabo – memorias de una vida mágica (R+N, 172 págs.), aproximação ao percurso e à obra de Gabriel García Márquez que recorre à flexibilidade da novela gráfica, a partir de um guião do escritor Óscar Pantoja. O livro está dividido em quatro partes e a cada uma delas corresponde um artista e uma cor dominante diferentes: amarelo (Miguel Bustos), azul claro (Tatiana Córdoba), cor-de-rosa (Felipe Camargo Rojas) e verde eléctrico (Julián Naranjo).

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Em vez de seguir uma estrutura linear, os quatro blocos são compostos por episódios marcantes da vida do autor de Ninguém Escreve ao Coronel, apresentados sem ordem cronológica. É como se Pantoja transformasse cada um dos momentos essenciais da trajectória de Gabo numa peça desirmanada, deixando ao leitor o trabalho de montar o puzzle. Não sendo original, é um dispositivo narrativo eficaz. Logo a abrir, assistimos a uma epifania que se tornou mítica: após muitos anos às voltas com os materiais que haveriam de conduzir à sua obra-prima (Cem Anos de Solidão), um romance que durante muito tempo esteve para se chamar A Casa, Márquez estava a caminho das praias de Acapulco, com a mulher Mercedes e os filhos, conduzindo um Opel branco, quando de repente percebeu que sabia finalmente como contar a história dos Buendía, a começar pela celebérrima frase inicial que fala da «tarde remota» em que o pai do coronel Aureliano o levou a «conhecer o gelo».
Segue-se um imbricado labirinto de saltos no tempo, da infância em Aracataca, criado pelos avós, à entrega do Nobel em Estocolmo (1982), passando pelo nascimento dos filhos, o trabalho como jornalista, os anos de formação, o amor louco e para a vida toda com Mercedes, rapariga que conheceu quando ela tinha 14 anos, os vários períodos de absoluta penúria (enviou o manuscrito de Cem Anos de Solidão ao editor em duas remessas, porque não tinha 82 pesos para pagar os portes), o envolvimento político, as amizades com outros escritores, as desilusões, os fracassos, os cumes da glória literária. Em vários momentos aparecem a pairar, talvez inevitavelmente, as borboletas amarelas que perseguiam Mauricio Babilonia pelas ruas de Macondo. Elas desprendem-se deste livro como da memória que temos do outro, aquele em que as «estirpes condenadas» não têm «uma segunda oportunidade sobre a terra». Ficamos a pensar: para quando uma homenagem como esta ao nosso Nobel? A história de Saramago é igualmente forte. E ilustradores de qualidade não nos faltam.

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[Texto publicado no n.º 125 da revista Ler]

As histórias de Macondo, agora em e-book

Na próxima terça-feira, dia em que Gabriel García Márquez completa 85 anos, será publicada a primeira versão electrónica de Cem Anos de Solidão, cuja edição original faz 45 anos. Mas há mais efemérides em torno de Gabo: 60 anos sobre o conto de estreia e 30 sobre a atribuição do Nobel. A propósito destas múltiplas celebrações, o El País organizou um interessante dossier.

Choque de titãs

Para perceber como funciona o Google Books Ngram Viewer (neste caso tomando como ponto de partida o corpus de livros mais vasto do Google Books, o de língua inglesa), lembrei-me dos seguintes duelos literários: José Saramago vs. António Lobo Antunes; Luís Vaz de Camões vs. Fernando Pessoa; Mario Vargas Llosa vs. Gabriel García Márquez.
Eis os resultados:

José Saramago vs. António Lobo Antunes

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(clique para aumentar esta imagem e as seguintes)

No início dos anos 80, Saramago e Lobo Antunes andavam mano a mano. Depois, em 1988, uma década antes do Nobel, Saramago descola. Não deixa de ser curioso que o auge das referências a Saramago, em livros escritos na língua inglesa, tenha acontecido em 2003.

Luís Vaz de Camões vs. Fernando Pessoa

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Na década de 40, Camões estava em grande. Depois, veio por ali abaixo, com picos ocasionais. Já Pessoa começa a subir na década de 80 (coincidindo com o centenário e com a internacionalização da sua obra). A tendência é para que a curva do Camões propriamente dito e a curva do putativo «super-Camões» fiquem cada vez mais próximas.

Mario Vargas Llosa vs. Gabriel García Márquez

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Quanto a uma das maiores rivalidades literárias do século passado, a que opôs Vargas Llosa a García Márquez, é nítido que a ligeira vantagem do segundo se acentuou a partir de 1982, quando o colombiano ganhou o Nobel. Infelizmente, os dados disponíveis terminam em 2008. Seria interessante verificar se Llosa, ao ganhar o Nobel este ano, já recuperou da desvantagem e passou de novo para a frente, como no final da década de 60.

Afinal, Gabo ainda não acabou para a literatura

Segundo esta notícia do The Guardian, Gabriel García Márquez estará a retocar a quinta versão do próximo romance (ainda sem título). Depois de ter anunciado o fim da carreira literária, parece que o escritor colombiano “redescobriu a sua musa”.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges