Quatro poemas de Gastão Cruz

3

Fotografia de uma personagem
de ti inseparável: nela pesa
essa parede a arder que sem querer ao
procurar ainda ver-te
vi, já não corpo deitado
somente a luz informe da passagem

***

5

Tornara-se perfeita a coincidência:
sobre a mesa puseras os braços e subia
o teu olhar; ameaçavas mas eras
o ser ameaçado, por um tiro talvez;
nesse momento não podias
nem mesmo suspeitar de como era tão breve
a personagem
de que não te separaras

***

13

Os mortos estão
mortos? Onde existe o seu
tempo de vivos? Há dias em que
o traço desses dias
morre infinitamente e todavia o filme
de actos findos
continua a passar numa tela vazia

***

33

Eu vivi nesses anos mas não sei
o que foi por exemplo ter vivido
em mil novecentos e setenta e sete
embora lembre bem a face e o
movimento de cada actor
no palco de cimento,
e o que fora de cena era a alegria
e a dor da minha noite e do meu dia

[in Fogo, Assírio & Alvim, 2013]

O frágil abismo da linguagem

Escarpas
Autor: Gastão Cruz
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 86
ISBN: 978-972-37-1482-1
Ano de publicação: 2010

Quatro anos após o último volume de inéditos (A Moeda do Tempo, 2006), Gastão Cruz regressa com um livro em que a passagem dos anos, o confronto com esse território por vezes ambíguo que é o passado, volta a estar no centro das suas preocupações. Mais do que reminiscências biográficas (aliás bastante cifradas), há aqui a procura dos «restos de sentido / que num instante incerto alguma coisa fez». O poeta sabe que a memória «deforma» tudo, até a percepção de um Agosto axial, quase mítico, atravessado por uma luz que acendia a pele e desfocava os corpos, vulneráveis à «súbita / angústia do desejo». Esse «verão desmoronado / cedo» em que «todos estávamos vivos» e «o ar / era ouro» pode ser entrevisto ou intuído, mas apenas isso. O que foi claro é hoje vago, a própria consistência da realidade parece discutível, o «oculto fio / do passado» perde-se entre sombras. E desocultá-lo, a esse fio, pode ser tão desesperante «como procurar / no mar os afogados».
Se há nestes versos uma função de resgate («para evitar que tudo a morte recolhesse»), Gastão Cruz nunca deixa de associar à poesia um «conceito árduo», a necessidade de um trabalho verbal rigoroso que dê sentido à forma: «Não é usando o adjectivo escuro / ou obscuro / que o poema se escurece // ele possui a sua escuridão». O poeta procura, ainda, adequar as palavras às coisas. Vê na matéria do tempo a sua própria substância, evoca o omnipresente (embora «duvidoso» e «porventura inútil») desígnio do amor, dialoga com outros poetas (Drummond, Luís Miguel Nava, Sandro Penna, Manuel Gusmão), faz da Lituânia uma litania, estabelece um olimpo de pianistas (Gould, Gilels, Richter, Michelangeli, Horowitz), mas nunca deixa de se questionar quanto à possibilidade, ou talvez até a legitimidade, de uma representação do mundo: «o que é / o mundo para que eu o represente?» E conclui: «Mesmo se conseguíssemos transpor / as nossas incertezas para o frágil / abismo da linguagem // como num vão espectáculo em que actores / mantivessem a arte de falar / persistiria a dúvida traçando // a fronteira entre as luzes / dos prédios que ocultavam o passado / e a casa onde só restam as palavras».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no número 91 da revista Ler]

O som inesquecível da linguagem

Os Poemas
Autor: Gastão Cruz
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 372
ISBN: 978-972-37-1432-6
Ano de publicação: 2009

Um dos aspectos essenciais do trabalho de Gastão Cruz radica num certo culto da exigência que se manifesta tanto na análise dos livros alheios (cf. A Vida da Poesia, deste ano) como no escrutínio a que submete os seus próprios poemas. Talvez por isso, o corpus da sua obra poética tem sido sujeito a sucessivas depurações, de cada vez que GC volta a reunir todos os seus livros num único volume.
Os Poemas é a quinta recolha deste tipo e inclui os quatro livros publicados desde 1999 (data da anterior colectânea): Crateras, Rua de Portugal, Repercussão e A Moeda do Tempo. Como Luis Maffei realça no seu deambulante prefácio, não faz muito sentido distinguir o actual Gastão do antigo, porque esse antigo Gastão também «é novo». Nas palavras do próprio, «muito mudou, mas nada essencial mudou».
Entre as linhas de força que atravessam os 17 livros, e o seu arco temporal de quase meio século (1960-2006), está a preocupação obsessiva com a linguagem. Não por acaso, Maffei inicia o seu périplo pelos vários núcleos temáticos «gastonianos» precisamente pela análise do poema inicial do livro Câmpanula (1978):

SOM DA LINGUAGEM

Por vezes reaprendo
o som inesquecível da linguagem
Há muito desligadas
formam frases instáveis as

palavras
Aos excessos do céu cede o silêncio
as constelações caem vitimadas
pelo eco da fala

Quanto a uma maior «inteligibilidade» das últimas obras, apontada por alguns críticos, Gastão responde muito ao seu jeito: «A poesia nunca é inteligível, ou é-o sempre. Inclino-me para a segunda hipótese.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

A luz forte da auréola

A Vida da Poesia
Autor: Gastão Cruz
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 398
ISBN: 978-972-37-1364-0
Ano de publicação: 2009

«Falar sobre poesia parece-me tão natural como fazê-la», escreveu Gastão Cruz num breve testemunho publicado na revista Relâmpago, em 2000. De facto, o autor de Repercussão vem mantendo as duas actividades em paralelo, como faces da mesma moeda, e a complementaridade entre a sua obra poética e a reflexão teórica é particularmente evidente em A Vida da Poesia, o volume que reúne o essencial da sua produção crítica entre 1964 (três anos após a estreia literária, na publicação colectiva Cadernos de Poesia 61) e 2008.
Acrescentando mais de três dezenas de textos, escritos na última década, ao corpus das duas edições de A Poesia Portuguesa Hoje (a primeira, de 1973; a segunda, de 1999), esta súmula permite confirmar a persistência dos seus pontos de vista, que um «certo número de repetições e insistências temáticas» apenas reforçam. Pensadas para circunstâncias tão diversas como entregas de prémios, prefácios, obituários, evocações, programas de espectáculo ou artigos de imprensa, estas abordagens são colocadas por Gastão Cruz no mesmo plano dos poemas sobre os quais se debruçam e sujeitas a um crivo estético igualmente apertado. «A tensão e o rigor exigidos para o poema deverão igualmente consolidar a reflexão que toma por objecto a poesia: um texto de que a emoção não pode estar excluída e em que o poder da palavra continua a ser essencial. Falar de poesia, se não é tentar o impossível aprisionamento do poema ou do seu fugidio sentido entre as linhas do quadrilátero onde eles não hão-de caber, não poderá ser, também, o desajustado divagar extrapolante que tantas vezes encontramos na chamada crítica de poesia.»
Um tópico recorrente é o declínio da poesia portuguesa contemporânea, quando comparada com as gerações anteriores, às quais são dedicadas a maior parte destas páginas (Sophia, Jorge de Sena, Herberto Helder, Carlos de Oliveira, Eugénio de Andrade, Ramos Rosa, Cesariny, Ruy Belo, Fiama Hasse Pais Brandão, Luís Miguel Nava). Para Gastão Cruz, falta «densidade» e «espessura verbal» aos poetas de hoje, muitos dos quais «supõem que escrever poemas é alinhar um fraseado frouxo, de decrépitas imagens e metáforas exaustas». Apontadas as excepções a este «definhamento da linguagem poética» (Luís Quintais, Daniel Faria, José Tolentino Mendonça, Rui Coias), não é difícil entender quem fica na mira: o grupo dos «poetas sem qualidades», agrupados em torno de Manuel de Freitas e verberados de forma nem sempre subtil. No prefácio, Gastão acusa: a baudelairiana «perda de auréola» passou a ser uma «justificação para a mediocridade instalada» e «para a imposição de uma “poesia” light». O desfecho do raciocínio tem tanto de irónico como de declaração de guerra: «Tentei, nestes textos, dizer alguma coisa sobre poetas que, com a sua auréola, iluminaram a minha existência. Não a tinham perdido, nem creio que a venham a perder: alguns leram-me a sua poesia, ou mostraram-ma, acabada de ser escrita – e, lembro-me bem, uma luz forte irradiava deles.»

Avaliação: 8/10

[Versão ligeiramente mais longa de um texto publicado no n.º 78 da revista Ler]

Um poema de Gastão Cruz

RELATÓRIO EM FORMA FECHADA

Os estragos da noite foram vastos,
inversos ao pulsar da primavera:
há tempo em que se luta pelos gastos
rastos da vida e o tempo novo gera

desilusão somente, esse viscoso
correr da insónia como se já água
as lágrimas não fossem e no fosso
há pouco aberto qualquer outra água

de natureza opaca suspendesse
a sua interminável queda; voltas
por fim à noite espessa que já tece
a madrugada com as linhas soltas

da minha vida, versos que transformam
em realidade as sílabas que os formam

[in A Moeda do Tempo, de Gastão Cruz, Assírio & Alvim, 2006]

Prémio Literário Correntes d’Escritas/Casino da Póvoa para Gastão Cruz

O livro A Moeda do Tempo (Assírio & Alvim, 2006), de Gastão Cruz, é o vencedor por unanimidade do Prémio Literário Correntes d’Escritas/Casino da Póvoa 2009, este ano dedicado à poesia e com o valor de 20 mil euros. Do júri fizeram parte Ana Luísa Amaral, Casimiro de Brito, Fernando Guimarães, Jorge de Sousa Braga e Patrícia Reis. A lista dos outros 11 finalistas pode ser consultada aqui.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges