O senhor Valéry no Barreiro

«O senhor Valéry não era bonito. Mas também não era feio.
Há muito tempo atrás havia decidido trocar os espelhos por quadros de paisagens. Desconhecia, pois, o seu aspecto exterior actual.
O senhor Valéry dizia:
— É preferível assim.
E explicava:
— Se me visse bonito ficaria com medo de perder a beleza; e se me visse feio ficaria com ódio às coisas belas. Assim, não tenho medo nem ódio.
E sem ser bonito nem feio, o senhor Valéry passeava pelas ruas da cidade, olhando, com atenção, para as pessoas com quem se cruzava.
Ele explicava:
— Se me sorriem percebo que estou bonito, se desviam os olhos percebo que estou feio.
Teorizando dizia ainda:
— A minha beleza é actualizada a cada instante pela cara dos outros.
Por vezes, depois de se cruzar com alguém que desviava os olhos, o senhor Valéry, percebendo, passava a mão pelo seu cabelo, penteando-se ao mesmo tempo que procurava um outro rosto dentro de si próprio, agora mais agradável.
O senhor Valéry comentava, em jeito de conclusão:
— O espelho é para os egoístas.
— E o desenho? — perguntaram-lhe.
— Hoje não há desenho — respondeu o senhor Valéry, e despediu-se logo de todos com um movimento brusco, mas gentil.
As pessoas gostavam do senhor Valéry.»

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A companhia teatral Vigilâmbulo Caolho apresenta pela última vez, hoje e dia 9, no Auditório Municipal Augusto Cabrita (Barreiro), pelas 16h00, o espectáculo O Senhor Valéry, a partir do livro de Gonçalo M. Tavares, com Carlos Marques, Nicolas Brites e Pedro Manuel, dirigidos por Júlio Mesquita.

“Demoro, sei lá, dez vezes mais a rever uma página do que a escrevê-la”

O blogue Orgia Literária publicou uma extensa e interessante entrevista (em bruto, sem edição) a Gonçalo M. Tavares, feita por Gonçalo Mira.
Um excerto:

Li já há bastante tempo uma entrevista, creio, em que falavas desse tempo dos 20 anos, quando começaste a escrever a sério. Tinhas uma grande disciplina. Ias para o café cedo e lias, escrevias. Continuas a ter essa disciplina tão rigorosa?
Sim. Menos. Continuo a ter disciplina, mas não essa disciplina, por exemplo, ligada às manhãs. O Água, Cão, Cavalo, Cabeça, por exemplo, foi escrito à noite. Ou seja, continuo a ter disciplina, mas não é uma disciplina que seja repetida. Às vezes num mês tenho uma determinada disciplina, escrevo a determinadas horas, e se calhar passados uns meses mudo. Realmente dos 20 aos 30 foi uma coisa de regularidade completa. Agora, por determinadas circunstâncias, não é possível ser tão — eu acho que não é disciplinado, eu continuo a ser disciplinado — mas não é possível manter esses horários todos com rigidez.

E ainda escreves em cafés?
Menos. Ainda escrevo, mas bastante menos do que escrevia. Ou seja, gradualmente — e é interessante que é quase também a entrada nos romances que corresponde a isso, porque eu escrevo os romances em computador — fui deixando de escrever em cafés para passar a escrever no computador, em casa. É interessante porque isso também correspondeu a uma mudança. Vários escritores, no passado e ainda hoje, escrevem romances em cafés, à mão. Eu não consigo isso. A escrita à mão é uma escrita mais fragmentada. E portanto ultimamente tenho escrito mais a computador. Mas continuo a ir a cafés. O que faço nos cafés é mais a segunda fase da escrita, cortar, rever, etc. Isso faço muito em café. A primeira escrita, que é o mais importante, porque fica a pedra bruta, faço em casa. E depois é dar retoques, que são muito importantes. Eu demoro horas e horas. Demoro, sei lá, dez vezes mais a rever uma página do que a escrevê-la. E esta parte de revisão, corte, é em cafés. A escrita, agora, é mais em casa.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges