‘Jerusalém’ sobe à cena em Atenas

Editado recentemente na Grécia, pela editora Kastaniotis, o romance Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares foi adaptado para teatro por Vana Pefani e Yannis Karkanevatos. A peça, encenada por Pefani, estará em cena até 2 de Outubro, na sede da Fundação Michael Cacoyannis, em Atenas.

Llansol, Belo, Tavares

O Centro de Estudos Portugueses do Departamento de Linguística, Letras Clássicas e Vernáculas da Universidade Federal do Paraná, em Curitiba (Brasil), vai acolher, na próxima segunda-feira, uma sessão em torno das obras de três autores portugueses: Maria Gabriela Llansol, Ruy Belo e Gonçalo M. Tavares. Participam os professores e escritores Júlia Studart, Davi Pessoa e Manoel Ricardo de Lima.

Um sedativo moral

Canções Mexicanas
Autor: Gonçalo M. Tavares
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 88
ISBN: 978-989-641-262-3
Ano de publicação: 2011

No ano passado, Alexandra Lucas Coelho publicou um livro de viagens (Viva México, Tinta da China) que captava, com nitidez, a escala imensa e a pulsação da Cidade do México, antes de viajar para outras regiões do país. Em Canções Mexicanas, Gonçalo M. Tavares assinala alguns dos espaços por onde andou a jornalista – lugares obrigatórios como a praça do Zócalo, a casa de Frida Kahlo e os murais de Rivera – mas sublimados (ou, melhor dizendo, distorcidos) pelo trabalho da ficção. Onde Lucas Coelho era objectiva como uma repórter deve ser (mesmo quando foge, com brilho, aos espartilhos jornalísticos), Tavares deixa-se tomar pelos delírios do mezcal, que provoca redemoinhos «em cima da cabeça» de quem o bebe e entorna a realidade para o lado da alucinação, ao mesmo tempo que funciona como «sedativo moral» para o excesso de violência.
A Cidade do México tem, sobre o narrador destas histórias curtas e oníricas, um efeito semelhante ao da tarantela, esse ritual das pessoas que foram picadas por uma aranha venenosa e têm de dançar para não morrer. É isso que a prosa de Tavares faz: dança para não morrer, cura-se pelo movimento, segue o fluxo das multidões («não há rua, não se vê o chão, se olhas para baixo és empurrado, se olhas para cima és empurrado»), os textos correm, saltam, tropeçam, tentam escapar para longe dos bairros tenebrosos onde o fio de uma navalha espera o turista incauto, o estrangeiro vulnerável. Enquanto isso, na praça central, muito lentamente, ano após ano, milímetro a milímetro, a catedral vai sendo engolida pelo solo, «enterrada como um vivo que enquanto caminha se afunda». Algo que também acontece a todos nós – e só «não o notamos porque é no tempo, não no espaço».
Aqui tudo é estranho, tudo é excessivo. Numa ponta da cidade, esconde-se o homem mais feliz do mundo, «um passo antes de começar o inferno». Há ameaças brutais («se gritas, cortam-te a cabeça»), uma Maldade que é nome próprio (da dona de um tugúrio onde se organizam combates de galos), há crianças que se alimentam de ódio, há marginais, anões, pedintes, hordas de loucos, metafísicos cavalos de Quixote (sem Quixote), matilhas de cães esfomeados, há uma prostituta que pergunta pelo «plano de viagem» do cliente e lhe pede que beije os pés de um crucifixo, há pedradas que rasgam um ecrã de cinema, suicidas que não conseguem morrer e reincidem.
Ao captar o avesso do México exótico, Gonçalo M. Tavares experimenta novos caminhos para a sua escrita, descentrando-a da matriz original (mais controlada e europeia), mas nunca perdendo a identidade.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 109 da revista Ler]

Prémio Fundação Inês de Castro para Gonçalo M. Tavares

Depois de ter sido distinguido com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores e com o Prémio Fernando Namora, o romance Uma Viagem à Índia (Caminho), de Gonçalo M. Tavares, acaba de ganhar o Prémio Fundação Inês de Castro. Do júri fizeram parte José Carlos Seabra Pereira, Mário Cláudio, Fernando Guimarães, Frederico Lourenço e Pedro Mexia. Fernando Echevarría, de 82 anos, recebe um Tributo de Consagração pelo conjunto da obra literária.
A entrega do prémio será feita a 4 de Fevereiro na Quinta das Lágrimas, em Coimbra.

Grande Prémio de Romance e Novela da APE para ‘Uma Viagem à Índia’

Gonçalo M. Tavares venceu o mais prestigiado prémio atribuído a uma obra de ficção em Portugal com um livro belíssimo, para mim efectivamente o melhor de 2010. No entanto, se o prémio distinguisse o romance Adoecer, de Hélia Correia, também ficaria muito bem entregue.

Uma teoria geral das ligações

Matteo Perdeu o Emprego
Autor: Gonçalo M. Tavares
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 210
ISBN: 978-972-0-04290-3
Ano de publicação: 2010
Avaliação: 9/10

O Senhor Eliot
Autor: Gonçalo M. Tavares
Editora: Caminho
N.º de páginas: 74
ISBN: 978-972-21-2081-4
Ano de publicação: 2010
Avaliação: 7,5/10

Após um ano de rara acalmia, Gonçalo M. Tavares voltou ao seu vertiginoso ritmo de publicação. Com poucas semanas de intervalo, chegaram às livrarias três novas obras (no total são já 29, desde 2001). Primeiro surgiu Uma Viagem à Índia (Caminho), portentosa anti-epopeia decalcada da estrutura de Os Lusíadas, livro ambicioso (mais de 400 páginas de fragmentos, divididos por dez cantos) e muito arriscado (medir-se com Camões, o vate da pátria, não é para todos), de escrita fulgurante e belíssima, um verdadeiro triunfo literário que o confirma, se dúvidas houvesse, como o grande escritor português do século XXI. Depois, como se aquele monumento não bastasse, eis que surgem, de rajada, mais dois opus: Matteo Perdeu o Emprego e O Senhor Eliot e as conferências.
Matteo Perdeu o Emprego compõe-se de duas partes. A primeira é um conjunto de 25 contos muito curtos, em que personagens com nomes judaicos – retirados de um trabalho do fotógrafo Daniel Blaufuks – vivem situações caricatas ou absurdas. Temos Cohen, académico cheio de tiques que sofre de copropraxia (repetição de gestos obscenos) e de um compreensível ostracismo social; temos Goldstein, um cego fascinado pelas substâncias raras (como o Escândio) e pela tabela periódica, ao ponto de pedir ao seu amante para a tatuar, em Braille, nas costas; temos Helsel, cujo «hobby estúpido» consiste na recolha e armazenamento de baratas vivas num armazém rigorosamente monitorizado; ou Kashine, um rapaz de 16 anos que escreve «não» em tudo o que pode, lançando o caos à sua volta – porque basta acrescentar o não onde estava o sim «para dar início ao inferno, ao desassossego». Há também rotundas reais e imaginárias, um labirinto perigoso e uma «barca da razão» que é só um navio dos loucos adiado.
Cada história encadeia-se na seguinte por via de um pormenor comum, um qualquer ponto de contacto, criando uma espécie de estafeta narrativa em que cada personagem passa o testemunho à personagem seguinte (cujo nome é assinalado a negrito, para vincar a transmissão). Aparentemente, o livro obedece a uma lógica circular e a uma ordem alfabética. Quando chegamos a Matteo, a «personagem central» (única com direito a uma história mais desenvolvida, em 12 capítulos) e suposto fim da linha, ele acaba por encontrar um tal Nedermeyer que assistiu, uma hora antes, ao atropelamento da primeira personagem, Aaronson.
Este aparente círculo pode, contudo, não passar de uma elipse. É pelo menos o que sugere o autor na segunda parte do livro, um brilhante posfácio que funciona como exegese do que acabámos de ler. Olhando para os seus próprios contos como se fossem de outro, Gonçalo M. Tavares estabelece nexos, esmiúça ideias, relaciona conceitos, generaliza. À nossa percepção inicial das histórias contrapõe a sua leitura, que desmonta os próprios fundamentos em que assenta a obra («o alfabeto como hierarquia», por exemplo, um «elemento aleatório que dá uma ordem que nos parece sensata» e que pode, afinal, ser apenas gratuita). Numa destas notas finais, GMT assume: «Há, de facto, aqui, como em qualquer romance ou obra de ficção, um sistema de ligações.» Ligações que se estabelecem não só dentro de cada livro mas também entre livros. Justamente o que acontece entre Matteo Perdeu o Emprego e O Senhor Eliot e as conferências.
Protagonista do décimo volume da série ‘O Bairro’, o senhor Eliot profere numa sala quase às moscas, a convite do senhor Manganelli, uma série de seis conferências (mais uma fantasma) em que pretende explicar um só verso de vários poetas: começa com Cecília Meireles e continua com René Char, Sylvia Plath, Marin Sorescu, W. H. Auden, Joseph Brodsky e Paul Celan. Mas chamar-lhe «explicação de um verso» induz em erro. Porque o senhor Eliot não explica nada. O que ele faz é: 1) desmontar grosseiramente os versos até ao ponto em que deixam de fazer sentido, um exercício sofístico com qualquer coisa de cruel; 2) dar-se ao luxo, ó heresia suprema, de os corrigir. As conferências não são análises, são autópsias. E o bisturi utilizado é o da racionalidade mais estrita, o instrumento cortante que expurga o que há de ambíguo, e por isso de radicalmente poético, na poesia.
O pensamento do senhor Eliot, no fundo, é anti-poético. Basta ver o que acontece na segunda conferência, em que o trabalho sobre o verso de René Char se limita ao acrescento de um «não». Um «não» que sabota e dissolve o sentido, como o «não» de Kashine em Matteo Perdeu o Emprego. E um exemplo concreto do tal «sistema de ligações» que atravessa a proliferante obra de Gonçalo M. Tavares.

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Luz sobre papel

«Nos crimes: vê esta fotografia? É este homem? Sim, dizem 10 testemunhas.
A fotografia prova; a fotografia como o processo racional por excelência; a imagem substituiu o 2+ 2 = 4. Imagem: luz sobre papel. O verdadeiro iluminismo não é, pois, o da enciclopédia ou o do grande raciocínio do cientista, a principal luz é a que forma a imagem, a fotografia, o filme; tudo isto é o topo do iluminismo, o grande destino do homem: a luz finalmente chegou, a luz que tudo prova. É este o homem? Sim, é este: o da fotografia.
É este também o criminoso (e apontamos agora para quem mostra a fotografia) pois é ele que põe no lugar da inteligência, da dedução, indução e outros processos, é ele que substitui estes métodos, de uma vez e para melhor, por uma imagem. É este o criminoso, dirá quem ainda viver noutro século, e quem ainda julgar que ser racional é pensar. Mas nada disso, pois claro. No século XXI: ser racional é ver.»

[in Matteo Perdeu o Emprego, de Gonçalo M. Tavares, Porto Editora, 2010]

Gonçalo M. Tavares por Pierre Assouline

«Voilà un écrivain pour lequel on a vraiment envie de se faire propagandiste. Non pour assurer sa promotion ou sa publicité mais bien sa propagande, avec tout ce que cela suppose de militant. Car en dépit de son immense notoriété dans son pays, de l’enthousiasme dont il y bénéficie à chacun de ses livres tant du public que de la critique, des prix prestigieux qui ont d’ores et déjà couronné son œuvre dès son premier livre aussitôt traduit en trente langues (Jérusalem), du soutien d’aînés sous forme d’adoubement en les personnes de José Saramago, Antonio Lobo Antunes, Enrique Vila-Matas et Alberto Manguel pour ne citer qu’eux, et de la fidélité active de son éditrice française Viviane Hamy, les livres de Gonçalo M. Tavares n’ont pas encore trouvé en France l’écho qu’ils méritent. Le Prix du meilleur livre étranger vient de lui être attribué à Paris pour Apprendre à prier à l’ère de la technique (Aprender a rezar na era da técnica, traduit du portugais par Dominique Nédellec, 368 pages, 22 euros), et ce n’est qu’un début.»

O texto completo pode ser lido no blogue do antigo director da revista Lire, aqui.

O grafitador do bairro

«Numa das paredes exteriores do auditório a frase grafitada:

“O doutor Rojas (cuja história da literatura argentina é mais extensa do que a literatura argentina).”

Todos olharam para o senhor Borges, o grafitador do bairro. O senhor Borges sorriu. Abanou a cabeça e murmurou um pouco convincente: não fui eu.»

[in O Senhor Eliot, de Gonçalo M. Tavares, Caminho, 2010]

Gonçalo M. Tavares recebe Prémio do Melhor Livro Estrangeiro (em França)

O romance Aprender a Rezar na Era da Técnica (publicado pela Viviane Hamy, com tradução de Dominique Nédellec) ganhou o Prémio para o Melhor Livro Estrangeiro de 2010, em França. Uma distinção importantíssima, não só pela qualidade e abrangência do júri (composto por responsáveis das principais editoras francesas), mas também pelo seu historial. Em mais de seis décadas, o prémio foi atribuído a escritores como Robert Musil, Gabriel García Márquez, John Updike, Adolfo Bioy Casares, Mario Vargas Llosa, Günter Grass, Salman Rushdie, Orhan Pamuk, Philip Roth ou António Lobo Antunes.

Gonçalo M. Tavares na selecção final do Prix Fémina

O romance Aprender a Rezar na Era da Técnica (Apprendre à prier à l’ère de la technique, na tradução francesa de Dominique Nédellec, publicada pela Viviane Hamy) é um dos cinco livros que passaram o último crivo do Prix Fémina Étranger. Os outros são La maladie, de Alberto Barrera Tyszka (Gallimard); Rosa candida, de Audur Ava Olafsdottir (Zulma); Purge, de Sofi Oksanen (Stock); e Un autre amour, de Kate O’Riordan (Joëlle Losfeld). O vencedor será anunciado a 2 de Novembro.

Gonçalo M. Tavares candidato aos prémios Femina Étranger (com Maria Velho da Costa) e Médicis


Foto de Matej Povse

O júri do Prix Femina anunciou ontem à noite a sua première sélection (que é como quem diz longlist em francês). Entre os autores candidatos ao Femina Étranger estão Gonçalo M. Tavares (por Apprendre à prier à l’ère de la technique, Viviane Hamy) e Maria Velho da Costa (por Myra, La Différence). Já o Femina para romances franceses será disputado entre 13 escritores, entre os quais Michel Houellebecq (La Carte et le territoire, Flammarion), Virginie Despentes (Apocalypse Bébé, Grasset) e Antoine Volodine (Ecrivains, Seuil).
Gonçalo M. Tavares está ainda na lista de finalistas do Prix Médicis para romances estrangeiros, onde terá pela frente alguns pesos-pesados, como Thomas Pynchon, William Boyd ou Per Petterson.
Apprendre à prier à l’ère de la technique chegou ontem às livrarias francesas, juntamente com mais um volume da série ‘O Bairro': Monsieur Brecht (ambos traduzidos por Dominique Nédellec). A propósito do lançamento do último volume da tetralogia do Reino, vale a pena ler a entrevista que GMT deu ao site Chroniques de la Rentrée Littèraire.com.

No início do ano…

«No início do ano, uma donzela do Oriente diz ao seu amado esposo:
– Não caminhes em direcção ao Leste. Se o fizeres encontrarás a morte.
Mas o amado nada ouviu, pois, nesse momento, pensava numa outra mulher, numa mulher mais jovem, mais bela, mais inteligente.
Seguiu assim o homem em direcção a leste – e não morreu. Pelo contrário, foi recebido em casa pela tal amante mais jovem, mais bela, mais inteligente.
Na manhã seguinte, ao levantar-se, a amante disse-lhe:
– Não caminhes em direcção ao Oeste. Se o fizeres encontrarás a morte.
Mas o homem nada ouviu, pois, nesse momento, pensava na sua esposa legítima que o esperava.
Seguiu assim o homem em direcção a oeste – e não morreu. Pelo contrário, foi recebido em casa, com alegria e calor, pela sua esposa.
Na manhã seguinte, ao levantar-se, ouviu da sua amada esposa, uma donzela do Oriente:
– Não caminhes em direcção ao Leste. Se o fizeres encontrarás a morte.
Mas o amado nada ouviu, pois, nesse momento, pensava numa outra mulher, numa mulher mais jovem, mais bela, mais inteligente.
Seguiu assim o homem em direcção a leste e depois a oeste e depois a leste e assim sucessivamente, dias e dias, meses e meses, anos e anos – e não morreu.
A morte surgiu apenas quando o homem já velho e sem forças ficou incapaz de se mover – quer para leste quer para oeste.»
Gonçalo M. Tavares

[Texto publicado na revista Visão n.º 879]

Gonçalo M. Tavares sobre Albert Camus

Para um hors-série dedicado a Albert Camus, nos 50 anos da sua morte, a revista Télérama encomendou um texto ao escritor português Gonçalo M. Tavares. A prosa, intitulada A mãe e os três filhos, foi traduzida por Dominique Nédellec, que dela diz ser «uma espécie de alegoria camusiana muito violenta e estranha». O número especial da revista pode ser encomendado aqui, por 7,90€.

Gonçalo M. Tavares em inglês

No seu acelerado processo de internacionalização, que já o introduziu nos catálogos de algumas das mais importantes editoras do mundo (a italiana Feltrinelli, a espanhola Mondadori, a brasileira Companhia das Letras, entre outras), Gonçalo M. Tavares acaba de dar mais um passo importante, ao ver os direitos de nove livros – os quatro do “Reino” e cinco de “O Bairro” – vendidos para os EUA e Reino Unido.
Num dos últimos números do The Times Literary Supplement, o crítico Toby Lichtig escreveu sobre a edição em inglês de Jerusalém (Dalkey Archive), recensão que termina com o seguinte parágrafo: «This is a powerful little book and the Dalkey Archive should be commended for bringing it to an anglophone audience. The rest of the “kingdom” series is forth coming; if Jerusalem is anything to go by, Tavares’s standing will soon be global.»
Além desta incursão no difícil território anglófono, destaque ainda para duas traduções recentes em França (O Senhor Calvino e O Senhor Kraus, com prefácios de Alberto Manguel e Jacques Roubaud), além de outras edições no México (Água, Cão, Cavalo, Cabeça e Jerusalém), Brasil (Biblioteca e O Senhor Breton), Israel e Eslovénia.

Uma casa para o Senhor Valéry

«Quando entramos na Rua da Saudade [em Alfama] podemos descobrir uma ausência de matéria, um vazio urbano que nos leva a visão até à margem Sul. Já quando percorremos a Rua de São Mamede o vazio é-nos dado como a falta de uma muralha alta que suportava terreno», explica Hélder Nascimento na memória descritiva do seu projecto de casa, feito a pensar no Senhor Valéry, uma «personagem com alguns problemas de identidade» e que, para os contornar, «põe em prática ideias que de tão racionais, muitas vezes, se tornam absurdas». Mais do que uma casa, este é um edifício que se atravessa, marcado pelo percurso público que une as duas ruas e assinala diferentes percepções do tempo, incluindo a paragem num pátio onde uma escultura de Rui Chafes sugere a dicotomia «peso/leveza». Unidas por uma biblioteca que define a organização da casa, as áreas privadas ficam na cota mais alta e incluem um «espaço secreto» – aberto sobre o rio, a Baixa e o Bairro Alto – de onde o Senhor Valéry pode contemplar a cidade.

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso, como caixa deste artigo]

Moldar o ‘Bairro’


Da esquerda para a direita: Hélder Nascimento, Marta Aranha e Diogo de Castro Guimarães

O interesse de Gonçalo M. Tavares pela arquitectura remonta à infância. «Em pequeno, lembro-me de me fascinar com a forma como as casas crescem. Antes de serem uma coisa em altura, elas são um buraco. Começam lá em baixo, nas fundações; só depois são capazes de elevar-se.» Há também o traço. O traço do desenho arquitectónico, irmão do traço que inscreve letras e palavras numa página. Com uma diferença: o traço arquitectónico, «quando é responsável», faz no mundo «o que prometeu no papel». Ou seja, «tem uma consequência material», transforma-se em «coisas com volume».
Foi justamente à transformação das suas ideias literárias em «coisas com volume» que o escritor assistiu, durante as várias fases do projecto promovido pelo professor Fernando Hipólito no curso de Arquitectura da Universidade Lusíada de Lisboa. Noutros anos lectivos, Hipólito já tinha desafiado os seus estudantes a criarem espaços habitáveis por anões e gigantes ou por irmãos desavindos, «motéis para viajantes sem destino, museus para os mares e sons, centros de descompressão cerebral». Este ano, a escolha recaiu no universo narrativo da série “O Bairro”, de Gonçalo M. Tavares, e os resultados ultrapassaram todas as expectativas. Os cerca de 400 alunos, do segundo e quinto ano, leram os livros da colecção e puseram-se a desenhar: os mais novos, casas concretas para cada Senhor ou então a biblioteca do bairro imaginário; enquanto os finalistas idealizaram propostas para o conjunto urbanístico completo.
Deste manancial de trabalhos escolares, foram escolhidos 29 projectos (23 de alunos do segundo ano; seis de finalistas) que podem ser vistos, a partir de terça-feira, dia 21 [hoje], na Sala das Colunas da Lx Factory, em Alcântara, onde a exposição “Senhores Projectos” ficará até 26 de Julho (aberta ao público entre o meio-dia e a meia-noite). Para a comissária desta mostra, Helena Botelho, a selecção foi difícil porque a qualidade média dos projectos se revelou surpreendentemente alta: «Havia outros trabalhos que também mereciam ser expostos, mas tínhamos que definir um limite.»
Apesar do carácter virtual do exercício, pretendeu-se que estes projectos funcionassem como «respostas a problemas específicos de requalificação da cidade de Lisboa», procurando soluções para «vazios urbanos parados no tempo» e áreas particularmente degradadas de bairros históricos da cidade, como Alfama e o Castelo. As casas dos Senhores foram pensadas para ocupar um terreno desocupado, entre a Rua de São Mamede (junto ao Teatro Romano) e a Rua da Saudade, com uma considerável diferença entre as cotas. As Bibliotecas ficariam, se fossem mesmo construídas, num espaço entre o Beco do Maldonado e o Miradouro das Portas do Sol. E as propostas de um Bairro completo ocupariam o Pátio D. Fradique, perto do Castelo de S. Jorge.
Embora saiba que é muito difícil que isso venha a acontecer, Helena Botelho gostava de acompanhar a transformação de um destes projectos num edifício real – feitas as necessárias adaptações, claro, às necessidades das pessoas de carne e osso. «Creio que não exagero ao dizer que muitos destes trabalhos poderiam de facto ser construídos», diz Botelho, que ainda não perdeu a esperança: «Era bonito que Lisboa ficasse com uma marca arquitectónica associada ao universo ficcional do Gonçalo M. Tavares.»
Mais do que um edifício isolado, o autor de Jerusalém apreciaria assistir à materialização do Bairro inteiro: «Ver os melhores projectos destes alunos de pé corresponderia a levar ao extremo a ideia de interpretação de um texto. A interpretação de cada livro seria a própria casa. E o leitor transformar-se-ia em construtor.» Contudo, mesmo que os edifícios saíssem do papel, o Bairro ficaria sempre incompleto porque é um work in progress. Basta dizer que do caderno de encargos entregue aos alunos finalistas faziam parte, como clientes virtuais, os oito Senhores publicados até 2008 (Senhor Valéry, Senhor Henri, Senhor Juarroz, Senhor Brecht, Senhor Kraus, Senhor Calvino, Senhor Walser e Senhor Breton) mas entretanto Gonçalo M. Tavares publicou mais um, em Março deste ano: O Senhor Swedenborg e as investigações geométricas (Caminho). Aliás, este livro será lançado precisamente no dia de abertura da exposição, terça-feira, às 19h00 [hoje], na mesma sala, com uma conferência proferida pelo autor.
Dos 28 alunos seleccionados, falámos com três: Hélder Nascimento, 20 anos, a concluir o segundo ano, autor de uma casa para o Senhor Valéry; Diogo de Castro Guimarães, 19 anos (também no segundo ano do curso), que projectou uma casa para o Senhor Breton; e Marta Aranha, 22 anos, finalista, que imaginou uma hipótese de Bairro para oito Senhores. Dos três, só Diogo conhecia o trabalho de Gonçalo M. Tavares: «Tinha lido O Senhor Valéry mas antes de começar este trabalho quis entrar a fundo no mundo do escritor, para definir conceptualmente o projecto.» Já Marta começou por se assustar: «Eu tive que analisar os oito Senhores e a perspectiva de ler oito livros de seguida pareceu-me terrível. Só fiquei mais descansada quando percebi que eram volumes fininhos e fáceis de assimilar.» Hélder, por seu lado, assume outro tipo de dificuldades: «Sou disléxico, por isso tive que ler o livro várias vezes. O que foi bom. De cada vez, apercebia-me de mais detalhes. E gostei muito. Fiquei com vontade de conhecer o resto da obra dele.»
Ao estudar as idiossincrasias de cada Senhor, Marta depressa compreendeu que seria impossível conciliar mundos tão díspares: «Se fizesse oito casas diferentes, cada uma ao estilo de um dos Senhores, aquilo ficava uma feira, uma confusão. Não dava. Preferi interpretar os livros e criar uma narrativa global. Todas as casas obedecem ao mesmo princípio, em torno de pátios privados, onde eles funcionam como se fossem toupeiras.»
Com os seus perfis de betão, o trabalho de final de curso de Marta faz pensar em Siza Vieira e a quase arquitecta não desdenha a comparação: «É uma referência, claro, mas para ser sincera não tenho heróis. Tento ir buscar ideias a todo o lado, da Biblioteca Pública de Seattle (desenhada por Rem Koolhaas) ao Panteão de Roma, até porque já não há coisas novas, é preciso misturar tudo.» Diogo concorda: «O arquitecto tem que ser uma esponja.» Também ele refere Siza no topo das suas referências, lado a lado com Peter Zumthor, o Prémio Pritzker deste ano. Hélder faz que sim com a cabeça e junta mais um nome: Carrilho da Graça, Prémio Pessoa em 2008.
Ao imaginar um espaço para o Senhor Breton, Diogo não se limitou ao respectivo livro de Gonçalo M. Tavares: «Fui ler também o Manifesto Surrealista e podia ter lido ainda mais coisas. O trabalho de preparação para uma obra nunca está terminado.» Quanto à exequibilidade do seu projecto, não tem dúvidas: «É viável, sim. Com bons engenheiros, tudo se faz. E qualquer pessoa podia viver ali, desde que essa pessoa fosse, claro está, o Senhor Breton.»
O balanço que Marta faz da experiência é igualmente positivo: «Gostei muito. É verdade que o Gonçalo nos deu óptimas ideias, mas acho que ele também vai tirar óptimas ideias dos nossos trabalhos.»

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Inauguração de ‘Senhores Projectos’

A exposição “Senhores Projectos”, que reúne 29 trabalhos de alunos de Arquitectura da Universidade Lusíada de Lisboa, inspirados pela colecção “O Bairro”, de Gonçalo M. Tavares, vai ser inaugurada esta tarde, a partir das 19h00, na Sala das Colunas da Lx Factory, em Lisboa.
Gonçalo M. Tavares aproveitará para lançar o seu último livro: O Senhor Swendenborg e as investigações geométricas (Caminho).
Os alunos do 2.º ano fizeram casas para os Senhores do Bairro e Bibliotecas para o “Bairro”: as casas num terreno vazio e desocupado situado entre a Rua de São Mamede (junto ao Teatro Romano) e a Rua Saudade; as Bibliotecas num espaço situado entre o Beco do Maldonado e o Miradouro das Portas do Sol. Foram seleccionados trabalhos dos seguintes alunos: Ana Menezes (Casa do senhor Henri), Ana Catarina Domingues (Biblioteca), Ana Sanches (Biblioteca), Carlos Pereira (Casa do Senhor Valéry), David Maciel (Biblioteca), Diogo Figueiredo (Casa do Sr. Jaurroz), Diogo de Castro Guimarães (Casa do senhor Breton), Diogo Lourenço (Biblioteca), Eugénio Sousa (Casa do senhor Breton), Geoconda Teca (Casa do senhor Walser), Hélder Nascimento (Casa do Senhor Valéry), Inês Belmarço (Biblioteca), Joana Lopes (Biblioteca), Joaquim Sátiro (Biblioteca), Marta Dray (Casa do senhor Brecht), Nuno Cunha (Biblioteca), Pedro Cruz (Biblioteca), Raul Serra (Casa do Senhor Kraus), Ricardo Félix (Casa do Senhor Calvino), Sebastião de Botton (Biblioteca), Sérgio Santa (Casa do Sr. Calvino e Biblioteca) e Teresa Correia (Biblioteca).
Aos alunos do 5.º ano (finalistas) foi proposto que urbanizassem o bairro inteiro dos Senhores, num terreno situado no Pátio D. Fradique. Os seis projectos escolhidos têm a assinatura de Jorge Carvalheiro, Marta Aranha, Miguel Ramos, Pedro Moacho, Rita Salvador e Stefano Cerolini.
A exposição estará aberta ao público de 21 a 26 de Julho, entre as 12h00 e as 24h00.

Alunos de Arquitectura desenham casas para ‘O Bairro’ de Gonçalo M. Tavares

Da Editorial Caminho, recebi o seguinte comunicado:

«Cerca de 400 alunos da cadeira de projecto do curso de Arquitectura da Universidade Lusíada de Lisboa estão a projectar casas para os oito senhores do Bairro já editados. No final deste ano lectivo surgirão, assim, 40 casas para o senhor Valéry, 40 para o senhor Breton, etc. São dez turmas que estão envolvidas. De seguida farão uma biblioteca para o bairro.
O projecto é elaborado num sítio real, na rua de S. Mamede/Rua da Saudade, na zona do Castelo, em Lisboa. O tema é: “uma casa para um livro” e, mais especificamente, para uma personagem. E os alunos entregarão projecto, maquete, etc.
Este projecto envolve 14 docentes de Arquitectura, da cadeira de projecto, da Universidade Lusíada, coordenados pelo Professor Fernando Hipólito.
Prevê-se uma exposição dos trabalhos no final e, eventualmente, a entrada de alguns projectos, de uma forma ou de outra, no bairro dos Senhores de Gonçalo M. Tavares.
Por outro lado, os alunos do 5.º e último ano do curso de Arquitectura da Lusíada estão a projectar, de uma forma integrada, o bairro no seu conjunto.
No programa “uma casa para um livro” estão previstos espaços sociais, lavabo de apoio; espaços privados em suite; biblioteca; espaço para preparação de alimentos; arrumos de alimentos; arrumos de limpeza; lavandaria; espaço privado dedicado a cada senhor, etc. Veremos como os senhores Calvino ou Valéry se adaptam a cada um destes projectos.»

Entretanto, já se sabe que o próximo volume da colecção “O Bairro” será O Senhor Swedenborg e as investigações geométricas, nas livrarias a partir de 14 de Maio.

Gonçalo M. Tavares na Porto Editora

Segundo um comunicado que acabo de receber, a Porto Editora (PE) vai publicar «uma nova linha de ficção» de Gonçalo M. Tavares, um escritor que amplia assim a considerável lista de editoras com que trabalha ou já trabalhou (Caminho, Relógio d’Água, Campo das Letras, Assírio & Alvim, Difel, Teatro do Campo Alegre). Embora o projecto não esteja completamente definido, Tavares avança que a nova «linha» terá como ponto de partida «o conceito de cidade».
No final de 2008, o escritor publicara já um texto – Bucareste-Budapeste: Budapeste-Bucareste – numa colectânea da PE intitulada Contos Policiais. Cláudia Gomes, responsável pela Divisão Editorial Literária do Porto da PE, congratula-se com o acordo e adianta que este é mais um passo dado no sentido de «reforçar a presença no âmbito da ficção portuguesa e apostar nas novas vozes da nossa literatura».

Dez perguntas

O Senhor Breton e a entrevista
Autor: Gonçalo M. Tavares
Editora: Caminho
N.º de páginas: 56
ISBN: 978-972-21-2014-2
Ano de publicação: 2008

Munido de um gravador, frente ao espelho da sala («janela com a velocidade ideal»), o Senhor Breton desafia-se para uma auto-entrevista. Respostas, não há; ele está ali só «para fazer perguntas». Dez perguntas com formulações derivativas, que «complicam a realidade», e a que o entrevistado tenta fugir, pretextando pausas para estender as pernas ou passear pelo bairro. É durante essas interrupções que encontra personagens de livros anteriores (Valéry, Kraus) ou futuros (Woolf, Eliot, Duchamp). A entrevista tem como único tema a poesia, mais os respectivos poderes e limites. A poesia enquanto «coisa parada» que «resolve, ao mesmo tempo, o tédio e o medo», mas também fissura numa vida «coberta por palavras», ou «o momento em que a linguagem está prestes a partir-se», ou ainda a «energia que nos torna bípedes mais lúcidos». Fiel ao seu estilo, Gonçalo M. Tavares arruma as frases como um geómetra com queda para o aforismo. E transforma este livrinho – denso mas leve, irónico mas sério, reflexivo mas lírico – em mais um brilhante exercício de estilo, algures entre a ars poetica e a lição de anatomia.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

4.ª Pergunta

«Tenho a convicção de que um escritor acredita mais na palavra deus do que em Deus propriamente dito. E este modo de colocar a linguagem no quarto principal do palácio não é de forma alguma exclusivo dos poetas, pois também os que trabalham com leis confiam mais nas palavras do que na vida em geral. Ou seja: confiam menos nas coisas que vão acontecendo antes ou durante a existência do verbo do que no verbo propriamente dito. Para descrever o aparecimento da Surpresa no mundo não há decreto-lei, mas haverá certamente um verso. Para a descrição da Repetição não existirá um verso, mas um decreto-lei que a entende, explica e prevê. A vida inteira encontra-se, assim, coberta por palavras. Apenas com vinte e seis letras se dá nome a todas as coisas do mundo e se explicam os inteiros movimentos de todas as coisas do mundo. O que se conseguiria, então, se o alfabeto tivesse vinte e sete letras? Há quem considere, aliás, que o brutal desconhecimento de Deus se deve precisamente à ausência desta última letra do alfabeto. E a qualquer Língua falta uma última letra. Terminámos cedo demais e, assim, ficámos com os Mistérios no mundo. Mas isto é outro assunto, senhor Breton.
O que lhe queria mesmo perguntar, senhor Breton, surge, afinal, de uma outra preocupação, e é esta: será que só a realidade onde a expectativa existe é que se pode transformar em verso? Isto é: poderá a poesia ser entendida como os momentos (plural) que antecedem o momento (singular) em que uma cadeira, por exemplo, se parte? Ou, dito de outra forma assim definitiva: parece-me que poesia é, nas palavras, o momento em que a linguagem está prestes a partir-se em dois. E porquê? Porque aí foi colocado um peso excessivo: os versos pousam palavras sobre a linguagem, palavras que, lado a lado, pesam mais do que o suportável. E a frase pode nunca cair, mas até ao fim dos dias promete cair, ameaça cair. E cairá.
Ou não? O que lhe parece, senhor Breton?»

[in O Senhor Breton e a entrevista, de Gonçalo M. Tavares, Caminho, 2008]

Gonçalo M. Tavares no ‘Magazine Littéraire’

No número de Outubro da revista Le Magazine Littéraire, que inclui um excelente e oportuníssimo dossier sobre Karl Marx, Sandrine Fillipetti escreveu uma recensão ao romance Jerusalém (Jérusalem), de Gonçalo M. Tavares, editado pela Viviane Hamy e traduzido por Marie-Hélène Piwnik. Eis o texto de Fillipetti:

«Rarement oevre romanesque a possédé autant de densité. En cela, le poète e romancier Gonçalo M. Tavares est une révélation. Un psychanaliste trompé par sa femme schizophrène avec un autre interné, obsedé par la quête d’une formule qui permettrait de comprendre «si l’horreur diminue au long des siècles ou augmente», son fils adoptif aux jambes trop maigres, un ancien soldat et une prostituée: les six personnages de Jérusalem naissent de la nuit et, voulant s’éprouver vivants, jouent leur destin dans les rues menaçantes d’une ville endormie. Parce qu’il y a chez eux un divorce entre le moi et le monde qui les rend littéralement étrangers à tout ce qui les entoure, ils accroissent le chaos dans lequel ils se débattent. Pour tenter de cerner l’inquiétante beauté de ce drame qui avance sans répit – premier opus d’une série, Le Royaume, centrée sur le Mal –, il faut se tourner du côté de Georg Kaiser, de Gottfried Benn, d’Ernst Toller ou des premiers poèmes de Johannes R. Becher, de la littérature et du théâtre expressionistes. Effaçant l’accessoire, balayant les frontières entre mauvais rêve et réalité, Tavares en brasse les principaux thèmes: rejet du principe d’autorité et de l’hypocrisie des prescriptions de la morale sociale, traumatisme de la guerre, corps entamés par la dégradation, exaltation de l’instinct, violence des individus et des sentiments, désespoir et lyrisme prophétique. Fragile et périlleux équilibre entre folie et raison, vérité et mensonge, mêlant la technique du Stionendrama à un style âpre et antinaturaliste d’une grande puissance évocatrice, Jérusalem renvoie à la vision de pourrissement d’un monde où tout n’est que mort et agonie, douleur et affliction. Le Victor Hugo des Misérables n’est pas non plus si loin: “L’homme que ne médite pas vit dans l’aveuglement. L’homme qui médite vit dans l’obscurité. Nous n’avons que le choix du noir.»

O senhor Valéry no Barreiro

«O senhor Valéry não era bonito. Mas também não era feio.
Há muito tempo atrás havia decidido trocar os espelhos por quadros de paisagens. Desconhecia, pois, o seu aspecto exterior actual.
O senhor Valéry dizia:
— É preferível assim.
E explicava:
— Se me visse bonito ficaria com medo de perder a beleza; e se me visse feio ficaria com ódio às coisas belas. Assim, não tenho medo nem ódio.
E sem ser bonito nem feio, o senhor Valéry passeava pelas ruas da cidade, olhando, com atenção, para as pessoas com quem se cruzava.
Ele explicava:
— Se me sorriem percebo que estou bonito, se desviam os olhos percebo que estou feio.
Teorizando dizia ainda:
— A minha beleza é actualizada a cada instante pela cara dos outros.
Por vezes, depois de se cruzar com alguém que desviava os olhos, o senhor Valéry, percebendo, passava a mão pelo seu cabelo, penteando-se ao mesmo tempo que procurava um outro rosto dentro de si próprio, agora mais agradável.
O senhor Valéry comentava, em jeito de conclusão:
— O espelho é para os egoístas.
— E o desenho? — perguntaram-lhe.
— Hoje não há desenho — respondeu o senhor Valéry, e despediu-se logo de todos com um movimento brusco, mas gentil.
As pessoas gostavam do senhor Valéry.»

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A companhia teatral Vigilâmbulo Caolho apresenta pela última vez, hoje e dia 9, no Auditório Municipal Augusto Cabrita (Barreiro), pelas 16h00, o espectáculo O Senhor Valéry, a partir do livro de Gonçalo M. Tavares, com Carlos Marques, Nicolas Brites e Pedro Manuel, dirigidos por Júlio Mesquita.

“Demoro, sei lá, dez vezes mais a rever uma página do que a escrevê-la”

O blogue Orgia Literária publicou uma extensa e interessante entrevista (em bruto, sem edição) a Gonçalo M. Tavares, feita por Gonçalo Mira.
Um excerto:

Li já há bastante tempo uma entrevista, creio, em que falavas desse tempo dos 20 anos, quando começaste a escrever a sério. Tinhas uma grande disciplina. Ias para o café cedo e lias, escrevias. Continuas a ter essa disciplina tão rigorosa?
Sim. Menos. Continuo a ter disciplina, mas não essa disciplina, por exemplo, ligada às manhãs. O Água, Cão, Cavalo, Cabeça, por exemplo, foi escrito à noite. Ou seja, continuo a ter disciplina, mas não é uma disciplina que seja repetida. Às vezes num mês tenho uma determinada disciplina, escrevo a determinadas horas, e se calhar passados uns meses mudo. Realmente dos 20 aos 30 foi uma coisa de regularidade completa. Agora, por determinadas circunstâncias, não é possível ser tão — eu acho que não é disciplinado, eu continuo a ser disciplinado — mas não é possível manter esses horários todos com rigidez.

E ainda escreves em cafés?
Menos. Ainda escrevo, mas bastante menos do que escrevia. Ou seja, gradualmente — e é interessante que é quase também a entrada nos romances que corresponde a isso, porque eu escrevo os romances em computador — fui deixando de escrever em cafés para passar a escrever no computador, em casa. É interessante porque isso também correspondeu a uma mudança. Vários escritores, no passado e ainda hoje, escrevem romances em cafés, à mão. Eu não consigo isso. A escrita à mão é uma escrita mais fragmentada. E portanto ultimamente tenho escrito mais a computador. Mas continuo a ir a cafés. O que faço nos cafés é mais a segunda fase da escrita, cortar, rever, etc. Isso faço muito em café. A primeira escrita, que é o mais importante, porque fica a pedra bruta, faço em casa. E depois é dar retoques, que são muito importantes. Eu demoro horas e horas. Demoro, sei lá, dez vezes mais a rever uma página do que a escrevê-la. E esta parte de revisão, corte, é em cafés. A escrita, agora, é mais em casa.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges