O discurso ambíguo

Escrever depois de Auschwitz
Autor: Günter Grass
Título original: Schreiben nach Auschwitz
Tradução: Helena Topa
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 52
ISBN: 978-972-20-3651-1
Ano de publicação: 2008

Proferido a 13 de Fevereiro de 1990, no âmbito de umas Conferências de Poética na Universidade Johann Wolfgang Goethe (Frankfurt), este discurso insere-se num recorrente olhar de Günter Grass sobre a História da Alemanha no século XX e o seu próprio percurso, cheio de zonas de sombra que o impelem a exercícios de retórica autojustificativa. Não por acaso, ao dirigir-se a estudantes de «uma geração que, em comparação com a minha, cresceu em condições radicalmente diferentes», Grass começa por projectar-se na sua adolescência, perto do fim da II Guerra Mundial, em Maio de 1945, quando aos 17 anos se viu num campo de prisioneiros, partilhando um «buraco feito na terra, a céu aberto» com outros cem mil alemães. «O meu único objectivo era, por estar a morrer de fome, a sobrevivência, com esperteza sôfrega; quanto ao resto, não fazia grande ideia.»
Tal como noutros textos, Grass faz desta ignorância, desta imersão na «estupidez geral», uma espécie de álibi para o facto de ter participado, mesmo se às cegas, no horror nazi. Depois da guerra, quando a realidade dos campos de concentração começou a ser conhecida, a primeira reacção foi de incredulidade. «Eu dizia para mim próprio e a outros, eles diziam para si próprios e a mim: Nunca os Alemães fariam uma coisa destas.» Mas fizeram. E a «monstruosidade chamada Auschwitz», por muito «incompreensível» e «inconcebível» que fosse, instituiu um «corte» radical cujas consequências Grass, à distância, procura compreender.
A questão central nasce de uma célebre frase de Adorno: «… Escrever um poema depois de Auschwitz é bárbaro e isto corrói também o conhecimento das razões pelas quais hoje é impossível escrever poemas». Grass admite que fez da frase, como tantos outros, uma leitura linear e superficial: «O mandamento de Adorno pareceu-me uma proibição francamente contrária à natureza; era como se alguém se tivesse apropriado do papel de Deus-pai e proibido os pássaros de cantar.» A única forma de refutar Adorno, então, era «escrevendo» contra o suposto imperativo categórico. Encontrar na escrita a via para superar a «consciência entre o nítido e o nebuloso de pertencer, não como criminosos, mas do lado dos criminosos, à geração de Auschwitz».
Grass faz assim um balanço literário da sua obra, dos poemas dos anos 50 às peças em um acto, aos romances, ao «Grupo 47» e aos conselhos de Paul Celan, o sobrevivente de Auschwitz que não foi capaz de suportar a ideia de ter sobrevivido. Mas há algo de problemático neste texto – e não é a sua desarrumação, a sua permanente deriva. É o sabermos hoje que Grass ocultava em 1990 aos alunos de Frankfurt, como ocultou de toda a gente (talvez até de si mesmo) durante 60 anos, o facto de se ter alistado voluntariamente nas Waffen-SS durante a guerra. E isso faz com que esta justificação moral da escrita pós-Auschwitz se torne particularmente ambígua.

Avaliação: 5,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges