Haruki Murakami: “Por vezes parece-me que estou a viver no mundo errado”

A pretexto do lançamento da trilogia 1Q84 (edição Casa das Letras), Haruki Murakami, o mais famoso e mediático dos escritores japoneses da actualidade, deu-nos uma entrevista que viu a luz com uma espécie de vagar oriental. Enviadas as perguntas por e-mail, em língua inglesa, estas passaram por vários agentes e intermediários até chegarem ao escritor, que as devolveu, semanas mais tarde, em japonês. Algumas questões foram ignoradas, outras respondidas com uma brevidade digna de um haiku (o clássico poema nipónico de apenas três versos). Pelo caminho, alguma coisa se terá perdido nas sucessivas traduções. Mas até isso bate certo com a estranheza que os leitores de Murakami se habituaram a encontrar nos seus livros.

A sua ficção mais recente, 1Q84, vendeu mais de um milhão de exemplares no Japão só no primeiro mês e está neste momento a ser publicada em todo o mundo, com reconhecimento da crítica e dos leitores. Ainda se surpreende com o seu sucesso à escala global?
Uma pessoa que no meu lugar não ficasse surpreendida com o sucesso só poderia ter uma infinita confiança no seu talento ou ser idiota. Nenhuma dessas condições se aplica a mim. Por isso, todos os dias me espanto com o que acontece à minha volta e à volta dos meus livros.

As suas personagens tendem a viver entre dois mundos paralelos: o nosso, o real, e um outro só ligeiramente diferente, em que por exemplo há duas luas no céu. Por que razão explora tão insistentemente a fronteira entre a vida normal e essa outra dimensão onde acontecem coisas estranhas?
Porque as nossas vidas são feitas de ilusão, sobre a qual colocamos uma camada fina daquilo que é concreto, material. Se não o fizéssemos, não seríamos capazes de viver normalmente. Mas lá no fundo sabemos que a ilusão existe mesmo. É por isso que o vai-vém das minhas personagens, entre realidade e fantasia, acaba por ser verosímil.

No capítulo inicial de 1Q84, Aomame é assaltada por um sentimento de «torção interna» que a leva a pensar que o mundo enlouqueceu. Já alguma vez sentiu algo de semelhante ou é uma experiência a que só acede através da ficção?
Houve uma menina que um dia também conheceu esse sentimento. Chamava-se Alice. A Alice do País das Maravilhas, de Lewis Carroll. Eu por vezes sinto-me como ela e como Aomame. Vejo as coisas um pouco distorcidas. Ou parece-me que estou a viver no mundo errado. É aquele momento em que perguntamos: será que me enganei no caminho? Onde é que me desviei da realidade? Acho que todas as pessoas sentem isso numa altura ou noutra das suas vidas.

O título do livro faz alusão à obra-prima de George Orwell, 1984. De que forma é que a sua ficção dialoga com os temas e o estilo do escritor inglês?
Não quis propriamente dialogar com Orwell. Limitei-me a olhar para o ano de 1984 a partir do futuro, como ele fez a partir do passado.

Curiosamente, 1984 foi publicado pela primeira vez em 1949. Isto é, no seu ano de nascimento.
É verdade. Mas não passa de uma coincidência. No ano de 1984 propriamente dito, eu estava a escrever o livro Em Busca do Carneiro Selvagem [editado pela Casa das Letras em 2007].

Uma das personagens desta trilogia, Komatsu, diz que para o aspirante a escritor o mais importante é ter prazer no acto da escrita. Com mais de 30 anos de carreira, ainda sente esse prazer?
Se não sentisse, pararia de escrever e voltava a abrir um clube de jazz em Tóquio, onde só se ouvissem as minhas músicas preferidas. Para mim, escrever é tão divertido como tocar música. É tão divertido como voar no céu em completa liberdade. Embora eu, infelizmente, à semelhança dos restantes humanos, nunca tenha voado no céu em completa liberdade.

Outra personagem, Fuka-Eri, uma adolescente que vence um concurso literário, vê o texto ser editado por Tengo, romancista frustrado que consegue melhorar muito a escrita da rapariga. Qual é a importância do processo de revisão nos seus livros?
O processo de revisão é a minha grande alegria. De cada vez, acontece a mesma coisa. Começo por escrever a história em bruto, sem pensar muito, seguindo a urgência de narrar. Depois, revejo muito, faço várias versões, emendo e corrijo, vou melhorando a prosa o mais que posso. Ou seja, dentro de mim coincidem a Fuka-Eri e o Tengo, eles são as duas faces da minha actividade de escritor.

Uma das linhas narrativas de 1Q84 centra-se numa assassina profissional que ataca e mata homens que odeiam as mulheres e abusam delas. Essa justiceira fez-me pensar em Lisbeth Salander. Já leu a trilogia ‘Millennium’, de Stieg Larsson?
Sim. Mas li os livros de Stieg Larsson só depois do lançamento de 1Q84 aqui no Japão. Ainda bem que não foi ao contrário. A trilogia dele é muito interessante e quando comecei a ler já não consegui parar. Curiosamente, o 1Q84 foi lançado na Suécia pela mesma editora que publicou o Larsson.

Depois da tragédia que assolou o Japão em 2010, com o tsunami e as fugas radioactivas nos reactores da central de Fukushima, fez declarações públicas que punham em causa a política nuclear seguida pelo seu país. Enquanto cidadão, como é que analisa os problemas que a sociedade japonesa enfrenta actualmente?
Não posso responder, pois essa é uma pergunta imensa.

Alguma vez considerou a hipótese de escrever um livro sem música ou sem gatos?
Nunca pensei nisso, mas acho improvável abdicar dos temas que mais me interessam. Por outro lado, garanto-lhe que sou perfeitamente capaz de escrever um livro sem cebolas vermelhas e riquexós.

[Entrevista publicada na Revista do jornal Expresso]

No mundo das duas luas

1Q84 – Livro 1
Autor: Haruki Murakami
Título original: 1Q84
Tradução: Maria João Lourenço e Maria João da Rocha Afonso
Editora: Casa das Letras
N.º de páginas: 487
ISBN: 978-972-46-2053-4
Ano de publicação: 2011

O primeiro volume de 1Q84, o complexo e gigantesco romance de Haruki Murakami (composto por três livros que já venderam milhões de exemplares no Japão e ameaçam tornar-se a versão 2011-2012 do fenómeno Stieg Larsson), começa numa auto-estrada engarrafada de Tóquio, em 1984. Dentro de um táxi, Aomame desespera com a quase certeza de chegar atrasada a um importante encontro. Na sofisticadíssima aparelhagem do automóvel ouvem-se os compassos agrestes da Sinfonietta, de Janacek, e a música provoca na jovem uma «sensação estranha», equivalente a uma «torção interna». Às tantas, o motorista sugere que ela pode descer por umas escadas de emergência com ligação ao solo e depois apanhar um comboio na estação mais próxima. Aomame aceita a ideia, depois de ouvir o taxista alertá-la para o facto de as coisas nem sempre serem o que parecem. E não são, de facto. Chegada ao nível da rua, Aomame já não está em 1984 mas sim em 1Q84 («Q é a letra inicial da expressão ‘question mark’, o signo de qualquer coisa carregada de interrogações»). Isto é, uma realidade paralela e quase igual, à excepção de ligeiras diferenças. Um mundo, por exemplo, em que os uniformes e o armamento da polícia sofreram uma súbita melhoria. E em que há duas luas, em vez de uma só. A normal continua no seu sítio, mas a seu lado surgiu uma outra, mais pequena e verde («como se estivesse coberta por uma fina camada de musgo»).
É neste território de «estranheza subtil» que Murakami se sente como peixe na água. À semelhança de outros romances deste autor, a narrativa alterna entre duas histórias independentes que se vão aproximando pouco a pouco, à medida que se vislumbram nexos entre as respectivas personagens e enredos. Uma das histórias tem como protagonista Aomame, a rapariga que desceu as escadas para um outro mundo, na verdade uma assassina profissional, a mando de uma velha senhora que elimina homens que maltratam as mulheres (nem de propósito, um tema recorrente nos livros de Larsson). A outra história gira em torno de Tengo, professor de matemática com aspirações literárias, instigado pelo seu editor a reescrever um romance com enorme potencial, mas estilisticamente fraco, enviado para um concurso de primeiras obras por uma estudante de 17 anos. Os elementos fantásticos dessa ficção, sobre um «Povo Pequeno» que emerge da boca de uma cabra cega e morta, podem ser menos irreais do que parecem à primeira vista, acabando por estabelecer uma das pontes entre as duas histórias (juntas, elas formam a crónica lenta de um reencontro deixado nas mãos do acaso).
Murakami gosta de personagens solitárias, alienadas, assombradas por perdas, ausências, memórias traumáticas, vazios interiores. Quase todas as figuras com que deparamos em 1Q84 encaixam neste perfil, escondendo umas das outras os seus segredos «profundos e obscuros». O estilo é neutro, muito preciso nas descrições, quase clínico de tão eficaz, mas não isento de lugares-comuns e passagens menos conseguidas (por exemplo, a dada altura Tengo rumina os «fragmentos» de uma cena «como uma vaca num prado», obtendo «valiosos nutrientes que alimentavam a sua imaginação»). Ainda assim, o escritor japonês consegue aprisionar com mestria o leitor dentro da lógica alucinada dos seus mundos paralelos, mergulhando-o aos poucos na textura onírica da narrativa.
Na edição original, os dois primeiros livros foram editados em simultâneo e só o terceiro, que é uma espécie de prolongamento, mais tarde. Ao publicar o Livro 1 de forma isolada, a Casa das Letras fez uma pequena maldade ao seus leitores, porque as histórias ficam em suspenso e o Livro 2 tem edição prevista apenas para Março de 2012.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Primeiros parágrafos

O site The Millions revelou em exclusivo as primeiras linhas (na verdade, o primeiro parágrafo) da tradução para inglês do último romance de Haruki Murakami, 1Q84. Ei-las:

«The taxi’s radio was tuned to a classical FM broadcast. Janáček’s Sinfonietta—probably not the ideal music to hear in a taxi caught in traffic. The middle-aged driver didn’t seem to be listening very closely, either. With his mouth clamped shut, he stared straight ahead at the endless line of cars stretching out on the elevated expressway, like a veteran fisherman standing in the bow of his boat, reading the ominous confluence of two currents. Aomame settled into the broad back seat, closed her eyes, and listened to the music.»

O romancista que corre maratonas

Auto-retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo
Autor: Haruki Murakami
Título original: Hashiru Koto Ni Tsuite Kataru Toki Ni Boku No Kataru Koto
Tradução: Maria João Lourenço
Editora: Casa das Letras
N.º de páginas: 186
ISBN: 978-972-46-1923-1
Ano de publicação: 2009

No final da década de 70, Haruki Murakami geria um clube de jazz perto da estação de Sendagaya, em Tóquio. Foi então que decidiu escrever um romance, ideia que lhe ocorreu enquanto assistia a um jogo de basebol. A maior parte das pessoas que decidem escrever um romance nunca chegam a escrever um romance, mas Murakami, na altura quase a fazer trinta anos, não é como a maior parte das pessoas. E lá escreveu, madrugada fora e à mão, depois de fechar as contas do dia, o seu primeiro livro (Escutem o Canto do Vento, nunca traduzido para português). Seguiu-se um outro (Pinball, 1973), redigido nas mesmas precárias condições, pelo que Murakami decidiu, «contra tudo e contra todos», abandonar os negócios da noite para viver apenas da escrita. Opção arriscada mas acertadíssima, até porque o terceiro romance (Em Busca do Carneiro Selvagem) marcou o início da sua rápida ascensão no meio literário.
Estávamos em 1982. Murakami, para se manter em forma, cortou com o tabaco (fumava três maços por dia) e começou a correr todas as manhãs. De então para cá, mantém uma média semanal de 60 quilómetros e disputa uma maratona por ano. Embora não seja um Carlos Lopes, ou sequer um Toshihiko Seko (para referir um dos melhores fundistas japoneses, com quem por vezes se cruzou), o escritor leva muito a sério a sua actividade desportiva, preparando-se para cada corrida com um regime de treinos rigorosos, aqui e ali complementados com umas sessões de squash e umas provas de triatlo.
É justamente a longa preparação para uma maratona específica (a de Nova Iorque, em Novembro de 2005) que estrutura esta «espécie de livro de memórias», em que Murakami evoca os seus primeiros tempos de escritor, no tal clube perto de Sendagaya, e reúne dezenas de breves «reflexões pessoais sobre a corrida». Ao longo de vários meses, com passagens pela ilha de Kauai (Havai), por Tóquio e Cambridge (Massachusetts), acompanhamos em detalhe as suas rotinas diárias, as suas obsessões e idiossincrasias. Em excessivo detalhe, diga-se. Sobre o desportista, ficamos a saber quase tudo: que aprecia o balouçar dos rabos-de-cavalo das alunas de Harvard, quando estas o deixam para trás nos trilhos junto ao rio Charles; que a música escutada no seu leitor de minidiscos (Lovin’ Spoonful e Red Hot Chili Peppers, mas também Creedence Clearwater Revival e Eric Clapton) o ajuda a manter o ritmo das passadas; que usa sapatilhas Mizuno; que tem o título de uma canção de Bryan Adams (18 Til I Die), sim, Bryan Adams, inscrito na sua bicicleta de titânio; etc. Sobre o escritor, porém, ficamos a saber quase nada.


Murakami na estrada, entre Atenas e Maratona (fotografia de M. Kageyama)

Parte da desilusão que o livro nos provoca nasce desta opacidade, deste exibicionismo um pouco fútil, que se perde em irrelevâncias enfadonhas e faz até da insistência nas próprias limitações – as marcas da idade, o sofrimento físico, o declínio atlético – uma espécie de retorcida glorificação pessoal. Murakami acredita que «escrever romances e correr a maratona são coisas muito parecidas», porque em ambos os casos é necessária «uma motivação interior, uma força calma que não precisa de aprovação nem de ser validada através de critérios exteriores». A analogia é legítima, claro, mas Murakami nunca a aprofunda, ficando-se por generalidades, pensamentos soltos, aforismos descosidos, frases de efeito fácil. Às tantas, por exemplo, afirma: «Quase tudo o que sei como escritor aprendi-o correndo na rua todos os dias». Refere-se à concentração, à persistência, à vontade de superar os objectivos a que se propõe. Mas não imaginamos Nabokov a dizer «quase tudo o que sei como escritor aprendi-o a apanhar lepidópteros nos bosques», pois não?
Nalguns capítulos, Murakami consegue ser brilhante. Veja-se o relato do percurso feito entre Atenas e Maratona, num tórrido verão grego; ou a épica narrativa da ultramaratona de cem quilómetros, à volta do lago Saroma, na ilha de Hokkaido. Infelizmente, 90% deste livro foi escrito pelo Murakami-atleta, muito menos interessante do que o Murakami-escritor.

Avaliação: 5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges