adobe photoshop cs3 extended tutorial Adobe Creative Suite 5 Web Premium Download adobe photoshop cs 2 download adobe photoshop elements 2.0 windows vista Adobe InCopy CS5 for Mac Download adobe acrobat 8 cheap adobe creative suite premium cs2 win Adobe Photoshop Lightroom 3 Download convert word to adobe acrobat adobe photoshop 5 0 free download Adobe Dreamweaver CS5 Download cropping jpegs in adobe illustrator 9.0 adobe illustrator number serial Adobe Creative Suite 5 Design Premium Download adobe photoshop for dummies dvd adobe acrobat v6.0 professional tryout Adobe Photoshop CS5 Extended Download adobe acrobat viewer 6 free adobe acrobat 7 reader Adobe Creative Suite 5 Master Collection Download adobe photoshop cs free trial adobe acrobat 7.0 professional crack download Adobe Acrobat 9 Pro Extended Download adobe store adobe acrobat capture adobe acrobat error 1321 Adobe Premiere Pro CS5 Download adobe photoshop product registration key adobe incopy cs v3.0 Adobe Illustrator CS5 Download adobe photoshop 4.0 tutorial

A beleza dos destinos trágicos

adoecer

Adoecer
Autora: Hélia Correia
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 293
ISBN: 978-989-641-160-2
Ano de publicação: 2010

A história deste magnífico romance – sem dúvida um dos melhores da literatura portuguesa neste início de século – começa por ser a história de uma fascinação. A fascinação de Hélia Correia por Elizabeth Siddal (1829-1862), uma das musas dos pintores Pré-Rafaelitas, para quem posou em quadros célebres – como Ofélia, de John Everett Millais; ou Beata Beatrix, de Dante Gabriel Rossetti. Hélia aproximou-se de Lizzie pelo lado da realidade factual, biográfica. Leu todos os livros escritos sobre a modelo (e são muitos, tantos que chegam «para encher uma estante»), seguiu os seus passos, tocou em objectos um dia tocados pelas suas mãos, esteve até na cripta em que a enterraram duas vezes (no cemitério de Highgate). Uma aproximação obsessiva, digna de um doppelgänger. «Nada dela me é estranho», escreve Hélia. E pressente-se que não há na frase o mínimo exagero.
Ao contrário dos biógrafos oficiais, porém, a romancista não tem os «pulsos amarrados» pela estrita objectividade do que aconteceu efectivamente a Lizzie e às dezenas de pessoas concretas (artistas, patronos, familiares, amigas protectoras) com que se foi cruzando. Aqui, a avalanche documental é só um ponto de partida, o primeiro degrau. O resto é ficção em estado puro, um instrumento de vertigem que talvez permita compreender, como que por instinto, a verdade daquela figura feminina que existiu fora do tempo, corpo destinado a uma morbidez sublime e movido por «uma espécie de impulso para as trevas». Com a sua cabeleira ruiva flamejante, a magreza assexuada, a palidez de fantasma, a arrogância dissuasora, uma espécie de culto da doença, ela foi sempre «aquela coisa que fugia, menos uma mulher que uma ilusão».
Na verdade, Lizzie só não foge de Dante Gabriel Rossetti, esse génio impulsivo com «vocação para a rebeldia» e «perante quem todos os outros deviam inclinar-se, contemplando». Num «mundo intensamente deformado pela beleza dos destinos trágicos», eles estão condenados a convergir, consumidos por uma «energia negra» que desfoca tudo à volta: «Alguma coisa os atirara um contra o outro e, a cercá-los, estava a dança de uma fera». O que Adoecer capta, com extraordinária veemência expressiva e uma intensidade aforística digna de Agustina Bessa-Luís, é o carácter único desta relação que recupera o «mito do eterno reencontro dos amantes» (Rossetti projectava em Lizzie a Beatriz do Dante medieval) e o modo como este amor, por não ter moldura que o enquadrasse, perturbou e assustou a rígida sociedade vitoriana.
Com uma certa indisciplina formal, o romance mostra-nos o século XIX inglês em todo o seu esplendor e negrume. Assistimos ao apogeu e declínio da irmandade Pré-Rafaelita, à acção discreta das primeiras feministas e à acção nada discreta de Florence Nightingale, ao magistério do gosto exercido por John Ruskin e à influência artística de grandes escritores, como Lord Tennyson, Algernon Swinburne, Robert Browning ou Charles Dodgson (Lewis Carroll). Contudo, o foco nunca se afasta muito de Lizzie e da sua trajectória para a morte, um percurso que provoca todo o tipo de distorções e desajustes na atmosfera, como se ela fosse um corpo celeste que emite uma radiação maligna.
Em alguns momentos, a excessiva nitidez dos detalhes pode cansar o leitor, desorientá-lo. Mas esta desmesura a que temos de nos ir acomodando em nada belisca a perfeição do livro, antes a sustenta. Mais do que qualquer outra coisa, Adoecer é um prodígio de linguagem, escrito por uma ficcionista em estado de graça.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no número 91 da revista Ler]

A Grande Exposição de Manchester (1857)

«Havia qualquer coisa de irritante numa modéstia que se desmentia e que tinha o efeito de humilhar. Na viagem a Manchester, pareceu que Lizzie revelava finalmente a sua natureza. Não era uma estudante que acedia à Escola de Artes pela porta das traseiras. Para entrar na Exposição, tinha aplicado o que aprendera na passagem por Paris. Usava uma armação de crinolina como as suas colegas. No entanto, continuava a distinguir-se delas. A saia de balão punha em realce os dons reprodutivos da mulher ao mesmo tempo que a tornava inapta para os mais pequenos afazeres autónomos. Enquanto o cérebro ia elaborando o seu ajustamento à percepção, sucediam-se embates nos obstáculos. Imaginamos graciosidade naqueles movimentos. Na verdade, eles forçavam o corpo a uma atenção, a uns cuidados que se assemelhavam a tacteios de velhice. É certo que ocultava as formas e isso tinha muitas contrapartidas no erotismo. Talvez fosse essa a principal razão para o sucesso de uma moda que não era senão um passo atrás. Havia outras. Elizabeth Barrett Browning, que vivia com Robert em Florença, sofrendo os brutais verões italianos, gostava do efeito de frescura que o tecido arredado das pernas provocava.
Sobre a conformação longilínea de Lizzie, a crinolina operava um equilíbrio, corrigia a tendência para a pose de abatimento que a caracterizava. O facto de se achar naquele recinto, onde também os Pré-Rafaelitas estavam representados com pinturas, devolvia aos seus modos a altivez que mantivera dominada em Sheffield. Ela sabia usar todo o poder que tinha o seu cabelo e, ao levar as mãos à nuca, para o desprender, sabia o que fazia. Apenas uma espécie de mulheres, para além das rameiras, exibia a cabeleira solta. Eram mulheres que existiam a duas dimensões e cuja improbabilidade sexual lhes permitia quase uma nudez. Mesmo as figuras das fotografias buscavam um estatuto de inocência igual à das pintadas sobre tela. Na Exposição, no meio de muitas outras que, com a sua novidade técnica, desorientavam o olhar do público, a visita de um jovem a um bordel onde o esperavam cortesãs despidas provocou atitudes de censura. Mas a rainha decidiu que não passava de uma obra de arte e retirou-lhe o peso do real. Ela, a quem se devia a inspiração para a moralidade de uma época, comprou-a por dez libras para o marido.
Lizzie, com o seu cabelo desarranjado como por acidente de viagem, e onde a pequena touca não passava de uma folha caída, cruzava uma influência com os quadros. Saía deles, ardendo, sem que a chama fosse mais do que luz e pigmento. O próprio nome dessa cor, ticiano, provindo do pictórico, fugia ao catálogo comum. O termo «ruiva», que subentendia a crença em marcadores genéticos de aviso sobre pessoas pouco aconselháveis, foi-lhe aplicado com frequência. No entanto, o que quer que existisse de vermelho perdia-se na massa acobreada. A chuva que caía sobre os vidros daquele tecto em abóbada não podia apagar todo o brilho que emanava.
Para ouvidos do século dezanove, os comentários e chamados de mil vozes e a insistência da orquestra que, afinal, veio a durar como Hallé Orchestra até hoje, soavam como o estrondo de uma guerra. Somente nos extremos dos dois braços do edifício, que era cruciforme, as vibrações do ar se atenuavam. Lizzie arrastou Annie para longe do conjunto escultórico do centro que detivera os estudantes de Sheffield. Um episódio de amazonas musculadas intimidava e deslumbrava os visitantes. Na galeria lateral, atrás das esguias colunas, encontravam-se aqueles quadros de Turner que John Ruskin amava mais que tudo. Entre ele e Lizzie havia então um afastamento cuja iniciativa ela tomara. E, naquele desconforto em que se achava por se furtar a uma adoração, olhava com cuidado para as pinturas, projectando escrever a dar-lhe conta do prazer que tivera em contemplá-las. Estendia a mão direita para trás, segurando Annie que não via nada. Entre quadros a óleo e aguarelas, havia mais de cem Turners expostos. Lizzie inclinava-se para ler os pequenos cartões informativos. Os suaves empurrões das crinolinas punham uma graciosa ondulação no desespero do ajuntamento. Annie acabou por se soltar para compor uma madeixa que se lhe escapava. Os visitantes que se aproximavam olhavam os cabelos de Lizzie Siddal e a impressão pictórica levava-os a duvidarem da orientação. Charles Howell, porém, não hesitou e atravessou o espaço que parecia um pouco desfocado. Inclinou-se sobre ela e não havia na sua voz intensidade erótica que prevenisse Lizzie contra o homem que estava a querer entrar na sua vida.»

[in Adoecer, de Hélia Correia, Relógio d'Água, 2010]

Apresentação de ‘Adoecer’, de Hélia Correia, na Biblioteca Nacional


Fotografia de Graça Sarsfield

Esta tarde, Isabel Fernandes apresentará o mais recente romance de Hélia Correia (Adoecer, Relógio d’Água) no auditório da Biblioteca Nacional, a partir das 17h30. Ernesto Rodrigues abordará depois o conjunto da obra desta autora, composta por dezassete novelas, romances e peças de teatro.
Mais informação aqui.

‘O Rancor’ nas Aguncheiras


Fotografia: Margarida Oliveira

A peça O Rancor – Exercício sobre Helena, de Hélia Correia, com encenação de São José Lapa e Alberto Lopes, transferiu-se, a partir de ontem, da Fortaleza de Sesimbra para o Espaço das Aguncheiras, onde ficará em cena até ao início do próximo mês. Espectáculos hoje à noite e dias 18, 19, 25 e 26 de Julho, mais 1 e 2 de Agosto, sempre a partir das 20h15. Bilhetes a cinco euros. Explicação para chegar ao Espaço das Aguncheiras aqui (e alfinete no Google Maps aqui).

‘O Rancor’, de Hélia Correia, em Sesimbra


Fotografia: Margarida Oliveira

A peça teatral O Rancor – Exercício sobre Helena, de Hélia Correia, vai ser apresentada hoje, amanhã e domingo, sempre a partir das 20h15, na Fortaleza de Sesimbra, num espectáculo encenado por São José Lapa e Alberto Lopes. Do elenco fazem parte os actores Valerie Bradell, Jorge Fraga, São José Lapa, Paulo Pinto, Rui Pedro Cardoso, Inês Lapa Lopes e João Paiva. O preço do bilhete é cinco euros.

Um laboratório para o mal

Contos
Autora: Hélia Correia
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 111
ISBN: 978-989-641-059-9
Ano de publicação: 2008

«Dos contos que escrevi, só gosto destes», assume Hélia Correia, com desarmante sinceridade e veemência, na nota final do volume que a Relógio d’Água acaba de publicar, reunindo apenas cinco prosas curtas e uma quase novela da autora de Lillias Fraser. Num país em que não faltam escritores a publicar demais, ou com pouco critério, louve-se a coragem de reduzir a própria obra ao essencial, num movimento de exigência e depuração que estamos habituados a ver nalguns poetas (sendo Herberto Helder um caso limite) mas bastante raro nos ficcionistas – curiosamente, Carlos de Oliveira, o exemplo que nos ocorre de imediato, era também um poeta.
Mais do que na simples eliminação de contos menos bons, essa exigência de Hélia Correia consigo mesma reflecte-se na matéria textual das ficções sobreviventes. Cada frase é trabalhada com um extremo cuidado, cada metáfora tem a intensidade justa, cada substantivo sinaliza uma certeza semântica indiscutível (quando uma personagem se depara com o «primeiro livor da madrugada», sabemos que aquela luminosidade não podia ser descrita de outra forma). É como se as palavras fossem feitas de poeira e alguém ameaçasse abrir uma janela, por onde entrasse um vento destruidor. A prosa de Hélia Correia paira sobre as coisas, ampliando tanto a beleza como o horror. E acede obliquamente às zonas mais escondidas da experiência humana, animada por um impulso tão visceral que chega a parecer mediúnico.
Nos seis textos deste livro, ressurgem algumas das obsessões temáticas de HC: o universo feminino, marcado pelo apelo da maternidade e respectivos fantasmas; o esmagamento de um certo mundo rural, desfasado do seu tempo; a mitologia clássica; ou a resiliência das superstições e dos preconceitos. Em Sul, o astrólogo Joan de Sória vive resguardado da peste num torreão de adobe e pedra, de onde contempla as «tarefas despóticas dos homens», empurrando-os para o fim do mundo, atrás de quimeras nascidas da sua suposta capacidade de ler o que dizem os astros, quando o que o céu lhe oferece é «a mudez dos corpos luminosos». De Capadores, pode dizer-se que é um diálogo impossível entre dois homens impossíveis, resquícios de um passado à beira da extinção (ou talvez já extinto). Eirene é uma bela parábola: a deusa da Paz, estátua enterrada debaixo de «séculos e séculos de pó», volta à superfície e torna-se humana, depois de lhe arrancarem do colo o cego deus da abundância, descobrindo então o pavor da guerra num lugar em que a entropia destrutiva triunfou e já não se escuta «a encantadora duração das sílabas helénicas». Escrita originalmente em inglês, Doroteia é uma história de miséria e obscurantismo, na órbita de Emily Brontë; enquanto Nessa noite oferece a mais fantástica das explicações para o nascimento dos heterónimos de Pessoa, na célebre noite de 8 de Março de 1914.
Com 54 páginas, A Compaixão aproxima-se da cadência das narrativas mais longas de Hélia Correia e é atravessada por uma energia negra, que devora a protagonista e a projecta contra as suas pulsões mais fundas. Como diz uma das personagens, «tudo começa no desgosto», porque o desgosto é «um laboratório para o mal».

Avaliação: 8,5/10

[Versão ligeiramente ampliada de um texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

“Um roçar pelas pernas, uma frase”

Hélia Correia e a gata Emily Duncan

Sempre me fascinou o modo como a escrita depende, em Hélia Correia, de certas condições meteorológicas. A autora de Lillias Fraser confessou-o várias vezes: só consegue trabalhar os seus livros quando chove (o que seria óptimo para uma autora belga ou escocesa, mas é problemático para quem vive em paragens tão meridionais como as nossas).
Hélia voltou a falar do assunto num texto publicado na Time Out Lisboa, texto de uma delicadeza rara em que equipara o lugar que ocupam, na sua vida, a escrita e os gatos. Começa assim:

«Há sujeições que posso tornar públicas e essas são os gatos e a escrita. Devo dizer que reconheço nas duas entidades semelhanças. Talvez os gatos e a escrita tenham vindo do mesmo ovo que um deus fertilizou. Instalaram um trono vitalício dentro da minha vida desde cedo. Incorporei-os tão intensamente que nem sei onde acabo e eles começam. Há uma simbiose que pertence à mais baixa biologia. Mas a palavra simbiose é mal escolhida. Eles viveriam muito bem sem mim. Eu, sem eles, é que não. E sabem isso. Sabem perfeitamente que dominam.
Comportam-se ambos com igual sobranceria. Vêm se querem, quando querem, para que os sirva, mas se sou eu a convocá-los, não me ligam. Se entendem que lhes devo abrir a porta, chamam às horas mais desconfortáveis. Lá me levanto, às quatro da manhã, ou para escrever ou para deitar whiskas no prato. A retribuição é coisa pouca: um roçar pelas pernas, uma frase. E eu, ciente da minha condição, renunciando à dignidade humana, agradeço a bondade do incómodo.»

O texto completo pode ser lido aqui.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges