Fragmento de um texto que devia ser lido em voz alta, pelas ruas

«(…) Com o abuso do estilo, fomos deixando para trás a frescura das origens, a fisicalidade da palavra, ela que é parte do real e nele se inscreve. Sei que o caminho para a abstracção foi útil e foi bom porque nos fez aceder, por exemplo, aos conceitos. Mas, mutatis mutandis, assim como Hölderlin teve certo desígnio ao traduzir Antígona, também eu gostaria de repor a primeira energia da linguagem, recordando a nudez inicial. Falemos de “catarse” — que se aplica à gritaria das manifestações. Serve a catarse para energizar? Não serve. Uma catarse é má medida. Uma catarse era concretamente vómito de ressaca. O alívio de estômago a seguir a uma bebedeira. Era deitar para fora e ficar limpo. Transposta para a lição do teatro, assim durou, implicando sempre uma transformação. É isso o que se quer saindo à rua? Que a vivência nos lave do mal-estar? Falar não deve aliviar do mal. Pelo contrário, deve torná-lo inteligível e discutível. Torná-lo, a bem dizer, manipulável. Um material exterior e que, com esforço, consigamos dobrar. Nós precisamos tanto de catarses como de sonhos. Temos de levar outra intenção para as ruas.
O que é manifestar? É dar a ver. Dar a ver com as mãos. Não necessariamente mãos em festa — a etimologia é duvidosa. Provavelmente mãos conflituantes. Há com certeza uma finalidade para juntar num desfile a multidão, mas nós não somos já gente de ritos, não somos gente de re-ligação. Temos de inaugurar tudo novamente, a começar pelas frases de incentivo, pois as que ouvimos, de tão velhas, tão usadas, perderam o vigor. Estão transformadas em ladainhas de beatitude. Aliás, as mais das vezes não serviam como motores de mobilização, fracas de rima, rastejantes de sentido. Mas enquanto se caminhou a passo forte, enquanto, a velocidades várias, se manteve uma leitura histórica das coisas, uma certeza de alma potenciava aquele vocabulário esmaecido.
Se hoje as pessoas continuam a marchar é porque, à força de repetição, os sapatos estão enfeitiçados. Não é de dança, mas de espasmo, o movimento. O grito que invectiva já não faz estremecer o seu destinatário. O seu destinatário olha para “aquilo”, chama-lhe “aquilo”, e vai à sua vida. Mostra um grande talento para apoucar. Nós que talento revelamos? O da fé? O da brava teimosia? Repetimos os nossos argumentos… “até à náusea”: assim acaba a frase que herdámos da retórica latina. Não é possível refazer a língua? É, sim.»

Hélia Correia, num artigo lido nas páginas do Público.

Hélia Correia, ao receber o Prémio Casino da Póvoa

Imagens desta tarde, no Auditório Municipal da Póvoa de Varzim, durante o encerramento das Correntes d’Escritas, um acontecimento cultural que Hélia comparou à ágora grega, acrescentando que «não pode acabar», nem que seja preciso «fazer a revolução aqui».

Dois fragmentos finais (de A Terceira Miséria)

32.

Estão as praças,
Como ágoras de outrora, estonteadas
Pela concentração dos organismos,
Pelo uso da palavra, a fervilhante
Palavra própria da democracia,
Essa que dá a volta e ilumina
O que, por um instante, a empunhou.
Oh, os amigos, os abandonados,
Esses, os destinados ao extermínio,
Esses os belos despojados, nus,
Os que, mesmo nascendo no Inverno,
Pouco sabem do frio, gente que dorme
Na sombra do meio-dia, ouvindo o canto
Das cigarras, o canto sobre o qual
Hesíodo escreveu. Gente do Sul,
Gente que um dia se desnorteou.

33.

De que armas disporemos, senão destas
Que estão dentro do corpo: o pensamento,
A ideia de polis, resgatada
De um grande abuso, uma noção de casa
E de hospitalidade e de barulho
Atrás do qual vem o poema, atrás
Do qual virá a colecção dos feitos
E defeitos humanos, um início.

Hélia Correia

E o vencedor do Prémio Literário Casino da Póvoa é…

Hélia Correia, pelo livro A Terceira Miséria (Relógio d’Água). O júri decidiu por maioria.

Em tempo de indigência

A Terceira Miséria
Autora: Hélia Correia
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 41
ISBN: 978-989-641-281-4
Ano de publicação: 2012

No seu regresso à poesia, com A Terceira Miséria, Hélia Correia parte da famosa e devastadora pergunta de Friedrich Hölderlin: «para que servem os poetas em tempo de indigência?» Uma questão que faz tanto sentido hoje como fazia há dois séculos, porque mesmo «sem deuses» ou o «sentimento / sequer da sua falta», mesmo reduzidos agora à condição de «pobres confortáveis», sofremos de «idêntica indigência». Ameaçada por Persas que desta vez chegam do Norte, é na Grécia que se volta a jogar o nosso futuro enquanto civilização.
A par de Hölderlin, o da «meiga loucura», Hélia convoca Nietzsche, outro germânico condenado a enlouquecer, porque «uma vida / não chegaria para tanto adeus». E se o primeiro Friedrich «falava com fantasmas», o segundo foi o «anunciador», o que «caminha / sobre águas estagnadas e parece, / ao afundar-se, desenhar no lodo / Um mapa para o qual não há leitura». O que há é o «rasto extraordinário» da beleza, a imagem de uma Grécia idealizada, ardente, esplendorosa, que também chamou Byron e os «jovens da Europa», a Grécia da «rápida alegria / que levanta o cavalo em plena guerra», onde os sábios eram «enfurecidos gloriosos» que muito bebiam e cantavam, recitando a Ilíada de cor e desdenhando da paciência.
A helénica Hélia lamenta os «amados vestígios entretanto / pisados, arrastados pelos becos, / os véus de outrora presos na imundície» e enumera as três misérias que se foram abatendo umas sobre as outras. Primeiro, a «deserção dos deuses». Depois, a «miséria da interpretação / que tudo trai». E por fim a miséria actual: «A de quem já não ouve nem pergunta. /
 A de quem não recorda. E, ao contrário / Do orgulhoso Péricles, se torna
/ Num entre os mais, num entre os que se entregam, / Nos que vão misturar-se como um líquido / Num líquido maior, perdida a forma, / Desfeita em pó a estátua.»
Esta é uma poesia do desencanto e da revolta diante do «apetrecho dos destruidores», essa «arrogância / pela qual o ocidente se perdeu». Há nestes versos muita melancolia, uma tristeza face às ruínas (hoje mais simbólicas do que literais), um sentido agudo do que ficou perdido talvez para sempre, mas também uma vontade de escapar ao abismo da resignação. Por baixo do «ferro retorcido», acredita a autora dos «exercícios» sobre Antígona e Medeia, esconde-se uma Atenas que se mantém oculta, à espera de novos mensageiros que esvoacem pelo éter, alimentando a «ardência do improvável».
Como as ágoras de há 2500 anos, as praças voltaram a ser lugares onde se escuta a «fervilhante / palavra própria da democracia» e a «gente do Sul» que um dia «se desnorteou» encontrará decerto formas novas de se orientar. Uma esperança que se materializa, inteira, no poema final:

De que armas disporemos, senão destas
Que estão dentro do corpo: o pensamento,
a ideia de polis, resgatada
De um grande abuso, uma noção de casa
E de hospitalidade e de barulho
Atrás do qual vem o poema, atrás
Do qual virá a colecção dos feitos
E defeitos humanos, um início.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 112 da revista Ler]

Quatro poemas de Hélia Correia

1.

Para quê, perguntou ele, para que servem
Os poetas em tempo de indigência?
Dois séculos corridos sobre a hora
Em que foi escrita esta meia linha,
Não a hora do anjo, não: a hora
Em que o luar, no monte emudecido,
Fulgurou tão desesperadamente
Que uma antiga substância, essa beleza
Que podia tocar-se num recesso
Da poeirenta estrada, no terror
Das cadelas nocturnas, na contínua
Perturbação, morada da alegria;

2.

Essa beleza que era também espanto
Pelo dom da palavra e pelo seu uso
Que erguia e abatia, levantava
E abatia outra vez, deixando sempre
Um rasto extraordinário. Sim, a hora,
Dois séculos antes, em que uma ausência
E o seu grande silêncio cintilaram
Sobre a mão do poeta, em despedida.

7.

Nós, os ateus, nós, os monoteístas,
Nós, os que reduzimos a beleza
A pequenas tarefas, nós, os pobres
Adornados, os pobres confortáveis,
Os que a si mesmos se vigarizavam
Olhando para cima, para as torres,
Supondo que as podiam habitar,
Glória das águias que nem águias tem,
Sofremos, sim, de idêntica indigência,
Da ruína da Grécia.

23.

A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.

[in A Terceira Miséria, Relógio d’Água, 2012]

A beleza dos destinos trágicos

adoecer

Adoecer
Autora: Hélia Correia
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 293
ISBN: 978-989-641-160-2
Ano de publicação: 2010

A história deste magnífico romance – sem dúvida um dos melhores da literatura portuguesa neste início de século – começa por ser a história de uma fascinação. A fascinação de Hélia Correia por Elizabeth Siddal (1829-1862), uma das musas dos pintores Pré-Rafaelitas, para quem posou em quadros célebres – como Ofélia, de John Everett Millais; ou Beata Beatrix, de Dante Gabriel Rossetti. Hélia aproximou-se de Lizzie pelo lado da realidade factual, biográfica. Leu todos os livros escritos sobre a modelo (e são muitos, tantos que chegam «para encher uma estante»), seguiu os seus passos, tocou em objectos um dia tocados pelas suas mãos, esteve até na cripta em que a enterraram duas vezes (no cemitério de Highgate). Uma aproximação obsessiva, digna de um doppelgänger. «Nada dela me é estranho», escreve Hélia. E pressente-se que não há na frase o mínimo exagero.
Ao contrário dos biógrafos oficiais, porém, a romancista não tem os «pulsos amarrados» pela estrita objectividade do que aconteceu efectivamente a Lizzie e às dezenas de pessoas concretas (artistas, patronos, familiares, amigas protectoras) com que se foi cruzando. Aqui, a avalanche documental é só um ponto de partida, o primeiro degrau. O resto é ficção em estado puro, um instrumento de vertigem que talvez permita compreender, como que por instinto, a verdade daquela figura feminina que existiu fora do tempo, corpo destinado a uma morbidez sublime e movido por «uma espécie de impulso para as trevas». Com a sua cabeleira ruiva flamejante, a magreza assexuada, a palidez de fantasma, a arrogância dissuasora, uma espécie de culto da doença, ela foi sempre «aquela coisa que fugia, menos uma mulher que uma ilusão».
Na verdade, Lizzie só não foge de Dante Gabriel Rossetti, esse génio impulsivo com «vocação para a rebeldia» e «perante quem todos os outros deviam inclinar-se, contemplando». Num «mundo intensamente deformado pela beleza dos destinos trágicos», eles estão condenados a convergir, consumidos por uma «energia negra» que desfoca tudo à volta: «Alguma coisa os atirara um contra o outro e, a cercá-los, estava a dança de uma fera». O que Adoecer capta, com extraordinária veemência expressiva e uma intensidade aforística digna de Agustina Bessa-Luís, é o carácter único desta relação que recupera o «mito do eterno reencontro dos amantes» (Rossetti projectava em Lizzie a Beatriz do Dante medieval) e o modo como este amor, por não ter moldura que o enquadrasse, perturbou e assustou a rígida sociedade vitoriana.
Com uma certa indisciplina formal, o romance mostra-nos o século XIX inglês em todo o seu esplendor e negrume. Assistimos ao apogeu e declínio da irmandade Pré-Rafaelita, à acção discreta das primeiras feministas e à acção nada discreta de Florence Nightingale, ao magistério do gosto exercido por John Ruskin e à influência artística de grandes escritores, como Lord Tennyson, Algernon Swinburne, Robert Browning ou Charles Dodgson (Lewis Carroll). Contudo, o foco nunca se afasta muito de Lizzie e da sua trajectória para a morte, um percurso que provoca todo o tipo de distorções e desajustes na atmosfera, como se ela fosse um corpo celeste que emite uma radiação maligna.
Em alguns momentos, a excessiva nitidez dos detalhes pode cansar o leitor, desorientá-lo. Mas esta desmesura a que temos de nos ir acomodando em nada belisca a perfeição do livro, antes a sustenta. Mais do que qualquer outra coisa, Adoecer é um prodígio de linguagem, escrito por uma ficcionista em estado de graça.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no número 91 da revista Ler]

A Grande Exposição de Manchester (1857)

«Havia qualquer coisa de irritante numa modéstia que se desmentia e que tinha o efeito de humilhar. Na viagem a Manchester, pareceu que Lizzie revelava finalmente a sua natureza. Não era uma estudante que acedia à Escola de Artes pela porta das traseiras. Para entrar na Exposição, tinha aplicado o que aprendera na passagem por Paris. Usava uma armação de crinolina como as suas colegas. No entanto, continuava a distinguir-se delas. A saia de balão punha em realce os dons reprodutivos da mulher ao mesmo tempo que a tornava inapta para os mais pequenos afazeres autónomos. Enquanto o cérebro ia elaborando o seu ajustamento à percepção, sucediam-se embates nos obstáculos. Imaginamos graciosidade naqueles movimentos. Na verdade, eles forçavam o corpo a uma atenção, a uns cuidados que se assemelhavam a tacteios de velhice. É certo que ocultava as formas e isso tinha muitas contrapartidas no erotismo. Talvez fosse essa a principal razão para o sucesso de uma moda que não era senão um passo atrás. Havia outras. Elizabeth Barrett Browning, que vivia com Robert em Florença, sofrendo os brutais verões italianos, gostava do efeito de frescura que o tecido arredado das pernas provocava.
Sobre a conformação longilínea de Lizzie, a crinolina operava um equilíbrio, corrigia a tendência para a pose de abatimento que a caracterizava. O facto de se achar naquele recinto, onde também os Pré-Rafaelitas estavam representados com pinturas, devolvia aos seus modos a altivez que mantivera dominada em Sheffield. Ela sabia usar todo o poder que tinha o seu cabelo e, ao levar as mãos à nuca, para o desprender, sabia o que fazia. Apenas uma espécie de mulheres, para além das rameiras, exibia a cabeleira solta. Eram mulheres que existiam a duas dimensões e cuja improbabilidade sexual lhes permitia quase uma nudez. Mesmo as figuras das fotografias buscavam um estatuto de inocência igual à das pintadas sobre tela. Na Exposição, no meio de muitas outras que, com a sua novidade técnica, desorientavam o olhar do público, a visita de um jovem a um bordel onde o esperavam cortesãs despidas provocou atitudes de censura. Mas a rainha decidiu que não passava de uma obra de arte e retirou-lhe o peso do real. Ela, a quem se devia a inspiração para a moralidade de uma época, comprou-a por dez libras para o marido.
Lizzie, com o seu cabelo desarranjado como por acidente de viagem, e onde a pequena touca não passava de uma folha caída, cruzava uma influência com os quadros. Saía deles, ardendo, sem que a chama fosse mais do que luz e pigmento. O próprio nome dessa cor, ticiano, provindo do pictórico, fugia ao catálogo comum. O termo «ruiva», que subentendia a crença em marcadores genéticos de aviso sobre pessoas pouco aconselháveis, foi-lhe aplicado com frequência. No entanto, o que quer que existisse de vermelho perdia-se na massa acobreada. A chuva que caía sobre os vidros daquele tecto em abóbada não podia apagar todo o brilho que emanava.
Para ouvidos do século dezanove, os comentários e chamados de mil vozes e a insistência da orquestra que, afinal, veio a durar como Hallé Orchestra até hoje, soavam como o estrondo de uma guerra. Somente nos extremos dos dois braços do edifício, que era cruciforme, as vibrações do ar se atenuavam. Lizzie arrastou Annie para longe do conjunto escultórico do centro que detivera os estudantes de Sheffield. Um episódio de amazonas musculadas intimidava e deslumbrava os visitantes. Na galeria lateral, atrás das esguias colunas, encontravam-se aqueles quadros de Turner que John Ruskin amava mais que tudo. Entre ele e Lizzie havia então um afastamento cuja iniciativa ela tomara. E, naquele desconforto em que se achava por se furtar a uma adoração, olhava com cuidado para as pinturas, projectando escrever a dar-lhe conta do prazer que tivera em contemplá-las. Estendia a mão direita para trás, segurando Annie que não via nada. Entre quadros a óleo e aguarelas, havia mais de cem Turners expostos. Lizzie inclinava-se para ler os pequenos cartões informativos. Os suaves empurrões das crinolinas punham uma graciosa ondulação no desespero do ajuntamento. Annie acabou por se soltar para compor uma madeixa que se lhe escapava. Os visitantes que se aproximavam olhavam os cabelos de Lizzie Siddal e a impressão pictórica levava-os a duvidarem da orientação. Charles Howell, porém, não hesitou e atravessou o espaço que parecia um pouco desfocado. Inclinou-se sobre ela e não havia na sua voz intensidade erótica que prevenisse Lizzie contra o homem que estava a querer entrar na sua vida.»

[in Adoecer, de Hélia Correia, Relógio d’Água, 2010]

Apresentação de ‘Adoecer’, de Hélia Correia, na Biblioteca Nacional


Fotografia de Graça Sarsfield

Esta tarde, Isabel Fernandes apresentará o mais recente romance de Hélia Correia (Adoecer, Relógio d’Água) no auditório da Biblioteca Nacional, a partir das 17h30. Ernesto Rodrigues abordará depois o conjunto da obra desta autora, composta por dezassete novelas, romances e peças de teatro.
Mais informação aqui.

‘O Rancor’ nas Aguncheiras


Fotografia: Margarida Oliveira

A peça O Rancor – Exercício sobre Helena, de Hélia Correia, com encenação de São José Lapa e Alberto Lopes, transferiu-se, a partir de ontem, da Fortaleza de Sesimbra para o Espaço das Aguncheiras, onde ficará em cena até ao início do próximo mês. Espectáculos hoje à noite e dias 18, 19, 25 e 26 de Julho, mais 1 e 2 de Agosto, sempre a partir das 20h15. Bilhetes a cinco euros. Explicação para chegar ao Espaço das Aguncheiras aqui (e alfinete no Google Maps aqui).

‘O Rancor’, de Hélia Correia, em Sesimbra


Fotografia: Margarida Oliveira

A peça teatral O Rancor – Exercício sobre Helena, de Hélia Correia, vai ser apresentada hoje, amanhã e domingo, sempre a partir das 20h15, na Fortaleza de Sesimbra, num espectáculo encenado por São José Lapa e Alberto Lopes. Do elenco fazem parte os actores Valerie Bradell, Jorge Fraga, São José Lapa, Paulo Pinto, Rui Pedro Cardoso, Inês Lapa Lopes e João Paiva. O preço do bilhete é cinco euros.

Um laboratório para o mal

Contos
Autora: Hélia Correia
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 111
ISBN: 978-989-641-059-9
Ano de publicação: 2008

«Dos contos que escrevi, só gosto destes», assume Hélia Correia, com desarmante sinceridade e veemência, na nota final do volume que a Relógio d’Água acaba de publicar, reunindo apenas cinco prosas curtas e uma quase novela da autora de Lillias Fraser. Num país em que não faltam escritores a publicar demais, ou com pouco critério, louve-se a coragem de reduzir a própria obra ao essencial, num movimento de exigência e depuração que estamos habituados a ver nalguns poetas (sendo Herberto Helder um caso limite) mas bastante raro nos ficcionistas – curiosamente, Carlos de Oliveira, o exemplo que nos ocorre de imediato, era também um poeta.
Mais do que na simples eliminação de contos menos bons, essa exigência de Hélia Correia consigo mesma reflecte-se na matéria textual das ficções sobreviventes. Cada frase é trabalhada com um extremo cuidado, cada metáfora tem a intensidade justa, cada substantivo sinaliza uma certeza semântica indiscutível (quando uma personagem se depara com o «primeiro livor da madrugada», sabemos que aquela luminosidade não podia ser descrita de outra forma). É como se as palavras fossem feitas de poeira e alguém ameaçasse abrir uma janela, por onde entrasse um vento destruidor. A prosa de Hélia Correia paira sobre as coisas, ampliando tanto a beleza como o horror. E acede obliquamente às zonas mais escondidas da experiência humana, animada por um impulso tão visceral que chega a parecer mediúnico.
Nos seis textos deste livro, ressurgem algumas das obsessões temáticas de HC: o universo feminino, marcado pelo apelo da maternidade e respectivos fantasmas; o esmagamento de um certo mundo rural, desfasado do seu tempo; a mitologia clássica; ou a resiliência das superstições e dos preconceitos. Em Sul, o astrólogo Joan de Sória vive resguardado da peste num torreão de adobe e pedra, de onde contempla as «tarefas despóticas dos homens», empurrando-os para o fim do mundo, atrás de quimeras nascidas da sua suposta capacidade de ler o que dizem os astros, quando o que o céu lhe oferece é «a mudez dos corpos luminosos». De Capadores, pode dizer-se que é um diálogo impossível entre dois homens impossíveis, resquícios de um passado à beira da extinção (ou talvez já extinto). Eirene é uma bela parábola: a deusa da Paz, estátua enterrada debaixo de «séculos e séculos de pó», volta à superfície e torna-se humana, depois de lhe arrancarem do colo o cego deus da abundância, descobrindo então o pavor da guerra num lugar em que a entropia destrutiva triunfou e já não se escuta «a encantadora duração das sílabas helénicas». Escrita originalmente em inglês, Doroteia é uma história de miséria e obscurantismo, na órbita de Emily Brontë; enquanto Nessa noite oferece a mais fantástica das explicações para o nascimento dos heterónimos de Pessoa, na célebre noite de 8 de Março de 1914.
Com 54 páginas, A Compaixão aproxima-se da cadência das narrativas mais longas de Hélia Correia e é atravessada por uma energia negra, que devora a protagonista e a projecta contra as suas pulsões mais fundas. Como diz uma das personagens, «tudo começa no desgosto», porque o desgosto é «um laboratório para o mal».

Avaliação: 8,5/10

[Versão ligeiramente ampliada de um texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

“Um roçar pelas pernas, uma frase”

Hélia Correia e a gata Emily Duncan

Sempre me fascinou o modo como a escrita depende, em Hélia Correia, de certas condições meteorológicas. A autora de Lillias Fraser confessou-o várias vezes: só consegue trabalhar os seus livros quando chove (o que seria óptimo para uma autora belga ou escocesa, mas é problemático para quem vive em paragens tão meridionais como as nossas).
Hélia voltou a falar do assunto num texto publicado na Time Out Lisboa, texto de uma delicadeza rara em que equipara o lugar que ocupam, na sua vida, a escrita e os gatos. Começa assim:

«Há sujeições que posso tornar públicas e essas são os gatos e a escrita. Devo dizer que reconheço nas duas entidades semelhanças. Talvez os gatos e a escrita tenham vindo do mesmo ovo que um deus fertilizou. Instalaram um trono vitalício dentro da minha vida desde cedo. Incorporei-os tão intensamente que nem sei onde acabo e eles começam. Há uma simbiose que pertence à mais baixa biologia. Mas a palavra simbiose é mal escolhida. Eles viveriam muito bem sem mim. Eu, sem eles, é que não. E sabem isso. Sabem perfeitamente que dominam.
Comportam-se ambos com igual sobranceria. Vêm se querem, quando querem, para que os sirva, mas se sou eu a convocá-los, não me ligam. Se entendem que lhes devo abrir a porta, chamam às horas mais desconfortáveis. Lá me levanto, às quatro da manhã, ou para escrever ou para deitar whiskas no prato. A retribuição é coisa pouca: um roçar pelas pernas, uma frase. E eu, ciente da minha condição, renunciando à dignidade humana, agradeço a bondade do incómodo.»

O texto completo pode ser lido aqui.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges