Quatro poemas de Henrique Manuel Bento Fialho

AUTO-ESTRADA DO SUL

A velocidade dos veículos
é proporcional à ânsia de chegar.
Jamais saberemos se os veículos
chegarão à velocidade com que circulam,
mas temos noção de que
em todas as chegadas há uma velocidade
a circular dentro de quem parte.
Uma velocidade conduzida, talvez,
pela vontade de novamente circular
dentro de tudo o que nos impele para o regresso,
dentro de tudo quanto transita,
dentro de tudo aquilo que já não existe.

***

Retomo a casa onde as noites têm a luz dos dias.
Não é a mesma casa de onde parti, nada é o mesmo
quando se regressa. Só o canto dos grilos, a dança
dos canaviais e o mar ao longe permanecem

intactos. Também as constelações, desde o sono
divino as mesmas, abraçam a quietude terrena.
Oferecem-nos vinho, batatas e ovos, pimentos
e tomates, sorrisos, uma certa nostalgia no olhar.

Nunca tinha reparado, onde as portas se abrem
sossegam os anseios. Se ao menos pudéssemos
aprender o proveito de estarmos sempre perto

de quem nos quer bem. Mas que bem nos querem
aqueles cuja ausência é só mais uma lição
de que estamos vivos e, por isso mesmo, quase mortos?

***

Pelas 7 a maré está baixa. Os polvos, escondidos
nas rochas, ficam à mão de semear. Balde num braço,
gancho nos dedos, descemos ao mar. Das enseadas
todas as marés são baixas. Puxamos das rochas

estrelas do mar, anémonas, cracas. Os polvos estarão
já, a esta hora, na cozinha de um restaurante onde
hordas de turistas lambuzarão os dedos. Velhos e
novos, nenhum escapa aos mergulhadores pelas 4.

Metemos as mãos a medo, mordem-nos caranguejos,
enchemos um balde com burriés. Uma cabana rente
ao mar numa aldeia piscatória, nada de telefone, nada

de rendas. As nossas academias amanham percebes
como quem devolve ao passado os promontórios
da sabedoria. Malcolm Lowry aos jantar, pelas 10.

***

NOITE ESTRELADA

Onde as flores sobrelevam fronteiras
e desabrocham para lá dos vasos,
para lá dos canteiros,
assomando à beira dos regaços
uma luz que queima a terra de alegria,
encontra o consolo a sua satisfação.

Onde as estrelas perdem a idade
que as separa umas das outras,
a distância que distingue a efemeridade do eterno,
encontra a satisfação o seu consolo.

[in Rogil, Volta d’Mar, 2012]

Quatro poemas de Henrique Manuel Bento Fialho

ADÃO A EVA

Não temas a trovoada,
o aconchego do relâmpago.
Senti-la aqui tão perto
é um regalo a poucos concedido.

Se a casa tremer,
lembra-te que não é de medo
nem do frio das paredes.

As casas só tremem
porque estão de pé,
fundadas na terra que recebe
as ossadas dos relâmpagos:
as trovoadas.

Não temas os mortos
nem o aconchego dos vivos,
nem deixes morrer nos vivos
as trovoadas que fazem tremer
as casas.

***

ERNESTO SAMPAIO A FERNANDA ALVES

Não temos mão na treva –
fio de lama que escorre
à superfície da pele,
acusação afectuosa
de um brilho esmorecido,
morte trespassada
de anúncios que nos embalam
à hora de adormecer os ninhos.

Viemos do nada, errámos
pelo corpo como a força
de uma raiz exaurindo o caminho
que vai dos tímpanos ao coração.

Por isso palpitamos
e tememos e agimos.
Por isso resgatamos num sopro
a explicação das pontadas.
Por isso dizemos ser o mundo
esta treva e nós a luz que destoa.
Por isso contrabandeamos paixões,
consentindo no insulto que é dizer:
amo-te.

Não sei quem és. Não sabes quem sou.
Somos apenas alguém à espera,
fantasiando o absurdo da vida,
crentes de que um dia o nada de onde vimos
possa tornar-se o tudo para onde vamos.

***

CESARE PAVESE A TINA PIZZARDO

Onde os pássaros fazem o ninho
e debicam os pulsos,
onde as crianças constroem casas
e afinam os dentes,
onde as marés arrebatam as luas
que o desejo renova,
onde um dia eu disse
que viria a desfalecer,
onde um dia no chão,
sob um manto de estrelas
a caírem do céu,
onde um dia no terraço,
onde um dia na cama,
onde um dia na mesa,
na praia, onde um dia
num vão de escada,
onde um dia no elevador,
na banheira, no sofá,
onde um dia cozinhámos a história
que ficou por acontecer.

***

SYLVIA PLATH A TED HUGHES

Dobra bem os versos por baixo do colchão,
estica a pele até ao ponto de rasgar.
Depois areja os nervos, os músculos,
tudo o que puderes fazer sair de dentro do corpo.

E com as palmas das mãos inscreve
a ansiedade que te escorre dos poros
neste espelho de cambraia quase invisível.

Tenho uma flor à tua espera, uma ferida
nos sulcos do meu ventre. Vem regá-la,
colhê-la, faz com ela o arranjo da refeição
que agora termina e de novo começa.

[in A Dança das Feridas, de Henrique Manuel Bento Fialho, edição do autor, 2011]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges