A nobre arte do caminhante que se perde nos bosques

Caminhada
Autor: Henry David Thoreau
Título original: Walking
Tradução: Maria Afonso
Editora: Antígona
N.º de páginas: 83
ISBN: 978-972-608-225-5
Ano de publicação: 2012

A 23 de Abril de 1851, no Concord Lyceum, em Massachusetts, Henry David Thoreau proferiu uma palestra que viria a fixar-se como um dos textos essenciais da sua filosofia da Natureza. Esse discurso, breve mas categórico, é agora recuperado em magnífica tradução de Maria Afonso, juntando-se no catálogo da Antígona a Walden ou a Vida nos Bosques (1854), obra maior de Thoreau e corolário de algumas das ideias propostas nesta Caminhada.
A tese principal é bastante prosaica: «Deixai-me viver onde quero. De um lado, fica a cidade; do outro, a natureza; e eu cada vez mais me afasto da cidade para me embrenhar na natureza.» No fundo, sugere-se o regresso a um estado original de comunhão com o mundo, anterior aos excessos destrutivos do progresso civilizacional e à lógica de submissão das leis sociais, que domesticam o homem e amaciam os seus instintos. A caminhada, para Thoreau, exige o imprevisto dos atalhos que nos levam onde nunca fomos, uma entrega quase religiosa ao acto de andar, um alheamento «de todas as preocupações terrenas» (ou seja, uma absoluta liberdade espiritual) e, sobretudo, a «nobre arte» de saber perder-se nos bosques.
Patriota, Thoreau canta a magnificência e superioridade dos grandes espaços da América do Norte («O Atlântico é como o rio Letes: na sua travessia tivemos oportunidade de esquecer o Velho Mundo e as suas instituições»). Provocador, diz preferir o «pântano sombrio» ao «jardim de bairro mais belo alguma vez concebido pelo engenho humano», porque «o mais vivo é o mais selvagem». A elevação que Thoreau procura não se alcança com palavras, mas trepando ao topo das árvores: vendo lá de cima as coisas que não se avistam cá de baixo.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges