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Sinopse de 2666

«– Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio… Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro… Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida… compreende?… a nossa vida, a vida inteira, está ali como… como um acontecimento excessivo…»

[in Os Passos em Volta, de Herberto Helder, sexta edição, Assírio & Alvim, 1994]

Herberto escreve a Eugénio

Hoje, dia em que Eugénio de Andrade faria 86 anos, o site da revista A.23 publica uma carta inédita de Herberto Helder: quatro páginas manuscritas, enviadas ao poeta de Rente ao Dizer no final do ano 2000.
É um documento notável e revelador, sobretudo por nos mostrar a visão «pessoal» de Herberto sobre a poesia portuguesa da segunda metade do século XX, na qual Eugénio é colocado no lugar cimeiro. «Não há nenhum poeta português que possa ombrear consigo neste meio século», diz HH. «Talvez o Cesariny e a Sophia se aproximem de si, mas seria necessário, tanto a um como a outra, eliminar vários poemas maus. Quanto a si, não existe um só verso que deva ser eliminado.»
Falo por mim, mas esta admiração por Eugénio e esta certeza no veredicto não deixam de ser surpreendentes, vindas de quem vêm.

Uma boa notícia para quem ficou sem o último livro de Herberto Helder

A história de A Faca Não Corta o Fogo é conhecida. Editado no final de 2008 pela Assírio & Alvim, o livro com a «súmula & inédita» de Herberto Helder esgotou num ápice 3.000 exemplares, o que faz de A Faca Não Corta o Fogo um best-seller poético, se me permitem o oxímoro. Acontece que Herberto recusa quaisquer reedições da obra, pelo que muita gente lamenta agora não ter sido mais lesta a comprar aquele que a crítica literária, quase unanimemente, considerou o melhor livro de 2008 publicado por um autor português.
Se também faz parte deste grupo de órfãos, não desespere. A Assírio & Alvim acaba de anunciar o lançamento, em breve, de Ofício Cantante – Poesia Completa, um volume de 624 páginas que incluirá, além de mais poemas inéditos (e outros retrabalhados), todos os textos que constavam de A Faca Não Corta o Fogo. Custará 48 euros. Agora não se distraia.
Eis um excerto:

«não chamem logo as funerárias,
cortem-me as veias dos pulsos pra que me saibam bem morto,
medo? só que o sangue vibre ainda na garganta
e qualquer mão e meia me encha de terra a boca,
sei de quem se tenha erguido, de pura respiração, do fundo da madeira,
saibro, roupa, gôtas de orvalho ou cêra,
ornatos, espadanas, lágrimas,
últimas músicas,
não é como no escuro o trigo que ressuscita,
sei sim de quem despedaçou as tábuas e ficou entre caos e nada com o
sangue alvoroçado nos braços e nas têmporas,
que se não pare nunca entre as matérias intransponíveis,
cortem-me cerce o sangue fresco,
que a terra me não côma vivo,
»

A Assírio prepara ainda a edição do segundo volume de um catálogo raisonné de Amadeo de Souza Cardoso, um livro de ensaios de Mário Cesariny sobre a dupla Vieira da Silva-Arpad Szenes e os textos críticos reunidos de Gastão Cruz (A Vida da Poesia).

Livro de Herberto quase esgotado

Numa altura em que as edições de poesia vendem cada vez menos, é bom receber notícias como esta, enviada pela Assírio & Alvim:

Informa-se que o novo livro de Herberto Helder, A Faca Não Corta o Fogo – súmula e inédita, esgotou no armazém da editora e não será reeditado. Estão disponíveis, portanto, apenas os exemplares colocados nas livrarias.

Menos bom é perceber que o livro não terá segunda edição (suponho que por exigência do autor).

HH

Amanhã, o novo opus de Herberto Helder, A Faca não Corta o Fogo – súmula & inédita (Assírio & Alvim), começa a chegar às livrarias. É, não tenham dúvidas, um dos maiores acontecimentos editoriais do ano. E para o comprovar basta que leiam três dos poemas inéditos do livro:

a vida inteira para fundar um poema,
a pulso,
um só, arterial, com abrasadura,
que ao dizê-lo os dentes firam a língua,
que o idioma se fira na boca inábil que o diga,
só quase pressentimento fonético,
filológico,
mas que atenção, paixão, alumiação
¿e se me tocam na boca?
de noite, a mexer na seda para, desdobrando-se,
a noite extraterrestre bruxulear um pouco,
o último,
assim como que húmido, animal, intuitivo, de origem,
papel de seda que a rútila força lírica rompa,
um arrepio dentro dele,
batido, pode ser, no sombrio, como se a vara enflorasse com as faúlhas,
e assim a mão escrita se depura,
e se movem, estria atrás de estria, pontos voltaicos,
manchas ultravioletas a arder através do filme,
leve poema técnico e trémulo,
linhas e linhas,
línguas,
obra-prima do êxtase das línguas,
tudo movido virgem,
e eu que tenho a meu cargo delicadeza e inebriamento
¿tenho acaso no nome o inominável?
mão batida, curta, sem estudo, maravilhada apenas,
nada a ver com luminotecnia prática ou teórica,
mas com grandes mãos, e eu brilhei,
o meu nome brilhou entrando na frase inconsútil,
e depois o ar, e os objectos que ocorrem: onde?
fora? dentro?
no aparte,
no mais vidrado,
no avêsso,
no sistema demoroso do bicho interrompido na seda,
fibra lavrada sangrando,
uma qualquer arte intrépida por uma espécie de pilha eléctrica
como alma: plenitude,
através de um truque:
os dedos com uma, suponhamos, estrela que se entorna sobre a mesa,
poema trabalhado a energia alternativa,
a fervor e ofício,
enquanto a morte come onde me pode a vida toda

*

aparas gregas de mármore em redor da cabeça,
torso, ilhargas, membros e nos membros,
rótulas, unhas,
irrompem da água escarpada,
o vídeo funciona,
água para trás, crua, das minas,
tu próprio crias pêso e leveza,
luz própria,
levanta-os com o corpo,
cria com o corpo a tua própria gramática,
o mundo nasce do vídeo, o caos do mundo, beltà, jubilação, abalo,
que Deus funciona na sua glória electrónica

*

rosto de osso, cabelo rude, boca agra,
e tão escuro em baixo até em
cima a linha
de ignição das pupilas
¿em que te hás-de tornar, em que nome, com que
potência e inclinação de cabeça?
o rosto muito, o ofício turvo, o génio, o jogo,
as mãos inexplicáveis,
a luz nas mãos faz raiar os dedos,
que a luz se desenvolva,
e a madeira se enrole sobre si mesma e teça e esconda a obra
e retorne e abra e mostre então
a abundância intrínseca,
porque se eriça num arrepio e se alvoroça
o espaço, e brilha quando,
no dia global,
espacial, no visível,
o caos alimenta a ordem estilística:
iluminação,
razão de obra de dentro para fora
— mais um estio até que a força da fruta remate a forma

Poema de Herberto Helder que supostamente era inédito (mas afinal não é)

NOTAO post que se segue foi escrito na convicção de que o poema publicado pela revista Time Out Lisboa pertencia à secção de inéditos do novo livro de Herberto Helder. Afinal, como se explica aqui, o poema era tudo menos novo, tendo já sido publicado nas várias edições da Poesia Toda, a abrir a secção ‘Última Ciência’. Aos leitores as nossas desculpas.

No último número da Time Out Lisboa, Isabel Lucas fala do “longo silêncio” de 15 anos que Herberto Helder se prepara para quebrar, no início de Outubro, com A Faca Não Corta o Fogo – Súmula & Inédita (Assírio & Alvim). Ao seu texto, Lucas junta um dos poemas inéditos incluídos por Herberto no novo livro. Acontece que o link do artigo omite os versos revelados na edição em papel, pelo que decidimos resgatá-los aqui para o blogue, a pensar nos muitos leitores que vivem longe da área metropolitana de Lisboa (onde a revista é vendida):

Com uma rosa no fundo da cabeça, que maneira obscura
de morte. O perfume a sangue à volta da camisa
fria, a boca cheia de ar, a memória
ecoando com as vozes
de agora. Onde está sentada brilha de tantas
moléculas
vivas, tanto hidrogénio, tanta seda escorregadia dos ombros
para baixo. Toca em
de onde rompe a rosa. Uma criança
luciferina. A mãe fechava,
abria em torno a torrente dos átomos
sobre a cara. Aquilo que a estrangula dos pulmões
à garganta
é a rosa infundida. Leva um braço às costas,
suando, raiando
pelo sono fora. Está queimada onde lhe toca. Falaria alto
se o peso a enterrasse à altura das vozes.
Via a matéria radiosa de que é feito o mundo.
A língua doce de leite,
a mão direita na massa agre, o sexo banhado
no manancial secreto.
O dom que transtorna a criança ardente é leve como
a respiração, leve como
a agonia.
Uma rosa no fundo da cabeça.

O acontecimento literário do ano

Não é um, são dois. Durante o mês de Setembro, a Assírio & Alvim vai publicar um livro de Herberto Helder com material poético inédito e Myra, o novo romance de Maria Velho da Costa (que assim se transfere para a editora de Manuel Rosa, deixando para trás a Dom Quixote e a Caminho; ou seja, a LeYa). O título de Herberto não podia ser mais herbertiano: A Faca não Corta o Fogo – súmula & inédita.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges