Um homem determinado

O Livro Negro
Autora: Hilary Mantel
Título original: Bring Up the Bodies
Tradução: Miguel Freitas da Costa
Editora: Civilização
N.º de páginas: 439
ISBN: 978-972-26-3594-3
Ano de publicação: 2013

Poucas épocas da História inglesa foram tão escrutinadas pela literatura como o reinado de Henrique VIII, o monarca conhecido por ter casado seis vezes. Hilary Mantel, uma grande escritora a quem durante décadas faltou o reconhecimento pela excelência da sua prosa, entrou por isso num território já muito explorado quando publicou Wolf Hall (2009), um romance que conduzia mais uma vez os leitores contemporâneos através dos labirintos de intriga e conspiração na corte dos Tudor, a braços com uma crise dinástica nas primeiras décadas do séc. XVI.
As circunstâncias são por demais conhecidas: obcecado pela necessidade imperiosa de um sucessor, Henrique VIII separou-se da rainha que só lhe deu uma filha (Catarina de Aragão) e casou novamente (com Ana Bolena), provocando um cisma com a Igreja de Roma. O golpe de asa de Mantel foi centrar o seu livro não na figura do rei mas na de Thomas Cromwell, o seu secretário-mor, tradicionalmente representado como um vilão determinadíssimo e ambicioso, inteligente e cruel, que veio do nada para se tornar o braço-direito do monarca, o seu cão de guarda, responsável pelo lado mais negro e sujo de uma diplomacia que não olhava a meios para atingir os fins.
Em Wolf Hall, assistimos à ascensão de Cromwell, filho de um ferreiro que se ergue a pulso até aos círculos mais altos do poder, terminando com a condenação e execução de um dos seus muitos inimigos: Thomas More. Em O Livro Negro, segundo volume de uma trilogia (distinguido, tal como o primeiro, com o Booker Prize), a escrita de Mantel – que conseguiu o feito de tornar verdadeiramente literária a ficção histórica – é ainda mais depurada e precisa, à medida que acompanha as diligências, esquemas e manobras de Cromwell, com vista a trocar Ana Bolena (também ela incapaz de dar à luz um rapaz) pela nova amante do rei, Jane Seymour.
A figura de Cromwell – um homem com «pele de lírio» e olhar «direto e brutal», que deu o nome da mulher e das filhas mortas aos seus falcões – surge nestas páginas com a nitidez do retrato de Hans Holbein, descrito por Mantel como se fosse uma metonímia da personalidade do seu anti-herói. Não deixando de ser um fresco da sociedade inglesa da época, O Livro Negro traz-nos sobretudo a visão de uma personagem que molda, na sombra, o destino de um país. Com perto de 50 anos, Cromwell está no auge das suas capacidade políticas – é genial a forma como arquitecta a queda de Ana Bolena, aproveitando para se vingar ao mesmo tempo dos homens que desgraçaram o cardeal Wolsey, seu mentor – mas não ignora que a confiança depositada em si pelo rei é precária. Ou seja, também ele pode cair um dia; como descobriremos no muito aguardado terceiro tomo da trilogia (O Espelho e a Luz).
Mantel articula com elegância e vigor narrativo as muitas pequenas histórias de que se faz a grande História. Porém, é na perfeição estilística que o seu triunfo se materializa. Veja-se como transforma, em meia dúzia de linhas, o relato de uma viagem na manifestação de um estado de espírito, de uma angústia: «Certas imagens serão tudo o que resta da viagem ao centro de Inglaterra. Os bagos de azevinho a arder nas suas matas. O voo sobressaltado de uma galinhola, afugentada de quase debaixo dos seus cascos. A sensação de nos aventurarmos num lugar aquoso, onde solo e pântano são da mesma cor e não há nada sólido debaixo dos nossos pés.»

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Hilary Mantel: “Começar um livro é sempre um passo na escuridão, uma questão de fé”

Numa rua esconsa, perpendicular a High Holborn, bem no centro de Londres, fica a sede da A. M. Heath & Company, a agência literária que representa Hilary Mantel, neste momento a estrela maior das letras britânicas, depois de ter obtido dois prémios Man Booker com os seus romances históricos sobre Thomas Cromwell: Wolf Hall e Bring Up the Bodies (o primeiro já publicado em Portugal pela Civilização; o segundo com saída prevista para esta Primavera na mesma editora). Foi num sofá azul e desconfortável, junto a um janelão por onde entrava a luz cinza de uma tarde invernosa, que conversámos com a escritora, sempre cordial e aparentemente ainda capaz de falar com paixão sobre o que a move na paisagem literária, mesmo depois de toda a sobrecarga mediática a que tem sido sujeita nos últimos anos. A dois metros, Gerald, marido e secretário, esperou mais de uma hora, lendo uma revista.

Durante muito tempo, apesar dos elogios da crítica, os seus livros raramente chegavam à shortlist dos principais prémios literários. Ao vencer o Man Booker Prize com Wolf Hall, em 2009, essa tendência inverteu-se. Agora, com o segundo romance sobre Thomas Cromwell, Bring Up the Bodies, não só ganhou outra vez o Booker (feito inédito para um autor britânico) como juntou-lhe o importante Costa Award, entre outros. A que se deve esta mudança?
Para ser franca, não sei. Admito que o facto de escrever sobre o reinado de Henrique VIII, um período da História que continua a fascinar os ingleses (e não só), possa ter contribuído para a mudança. O certo é que eu era o exemplo da escritora que nunca ganha nada e de repente transformei-me no tipo de autor que colecciona prémios. Houve até um crítico que se mostrou aborrecido com a atribuição do primeiro Booker, porque me considerava o seu pequeno segredo. Na verdade, eu só posso sorrir com tudo isto, na medida em que sou a mesma pessoa, a mesmíssima escritora. A única diferença é que de repente me tornei visível.

Não deixa de ser curioso que a consagração tenha chegado com livros de ficção histórica, precisamente o género em que deu os primeiros passos literários.
É verdade. Quando comecei a escrever, via-me como uma escritora de romances históricos. Como nunca fui boa a construir enredos, deixava que a História se encarregasse dessa parte. Gosto muito de procurar os factos reais, de consultar os documentos, procurando os buracos, os hiatos, os intervalos em que não se sabe o que aconteceu, abrindo espaços para a invenção, para a criatividade do ficcionista. Aos vinte e tal anos, eu andava fascinada com a Revolução Francesa e queria muito ler um bom romance sobre o assunto. Não o encontrando em lado nenhum, decidi escrevê-lo eu mesma.

Eis uma regra de ouro para um romancista: escrever o livro que gostaria de ler.
Exacto! Os romances que encontrava sobre a Revolução Francesa, em inglês, eram todos sobre a rainha e os aristocratas, enquanto eu queria saber coisas sobre os revolucionários. As suas histórias eram melhores, mais fortes, mais humanas. Supunha que outros leitores deviam sentir o mesmo que eu. Mas naqueles dias, finais da década de 70, a ficção histórica gozava de tão má reputação que não consegui sequer que o romance fosse lido, quanto mais publicado. Optei então por deixá-lo na gaveta, onde ficou vários anos, enquanto ia escrevendo romances contemporâneos, todos muito diferentes uns dos outros. Curiosamente, foi enquanto trabalhava em A Place of Greater Safety que tive a ideia de abordar a figura de Thomas Cromwell.

Wolf Hall podia ter sido o segundo romance?
Podia. Depois da Revolução Francesa, viriam os Tudor. Mas ainda bem que isso não aconteceu.

Porquê? Teria sido demasiado cedo?
Sim. Começar um livro é sempre um passo na escuridão, uma questão de fé. E para cada livro há um tempo certo. Felizmente, acho que soube esperar.

Quando é que compreendeu que chegara o momento do regresso à ficção histórica, quase trinta anos depois?
Digo-lhe uma coisa: o momento podia nunca ter chegado. Eu fui adiando, adiando, adiando. Até que, por volta de 2004, apercebi-me que se aproximava uma efeméride importante em 2009: os 500 anos da subida ao trono de Henrique VIII. Era inevitável que o mundo cultural britânico se virasse para a evocação do rei. Henrique VIII estaria em todo o lado: na imprensa, nos museus, nas livrarias. Se havia um tempo para escrever o livro sobre Cromwell, era aquele. Ou aproveitava a ocasião, ou mais valia esquecer o assunto.

Foi um bom antídoto para a procrastinação?
Sem dúvida. Na altura, assinei contrato para dois livros. O sobre Thomas Cromwell e um romance contemporâneo, passado em África. Comecei pelo de temática africana, mas ao fim de poucas semanas tinha os nervos em frangalhos, pesadelos, um sentimento de angústia permanente. O livro estava a dar cabo de mim por ser tão colado à minha experiência pessoal. Um amigo disse-me: aceita-se que fiques assim quando terminas um livro, não quando começas. Decidi por isso interromper o projecto e experimentar escrever o primeiro capítulo do livro de Cromwell, a ver no que dava. E o que aconteceu foi um estado de felicidade instantânea. Um daqueles momentos mágicos, em que sentimos as luzes a acenderem-se.

Já tinha a investigação feita?
Andava a ler sobre o assunto há uns dois anos, mas ainda tinha muito que investigar. Por isso fiz só o capítulo inicial, que de certo modo está fora da História, porque a infância de Cromwell não é mencionada nas crónicas. Sabe-se pouco sobre essa fase da sua vida, o que me deu muita liberdade. Wolf Hall começa com Cromwell em criança, caído no chão, espancado pelo pai, pensando que está a momentos de morrer. Então levanta-se, afasta-se, segue o seu caminho e reinventa-se. Sai do país, deixa para trás a sua religião, a família, a língua materna, e começa a jornada da sua vida. É o tipo de história que sempre me atraiu.

Como é que chegou a um estilo a que toda a gente reconhece uma grande clareza e precisão, reflectindo o tom da época mas sem forçar a nota?
Tem parcialmente a ver com a escolha de certas palavras, mas sobretudo com o ritmo. É essencial que o leitor não se esqueça que estamos a falar de outro tempo, por isso lanço aqui e ali uma palavra pouco usual, algum vocabulário quinhentista, mas sem exagerar. Não quero que o leitor sinta necessidade de pousar o livro para ir ao dicionário.

Leu autores da época para compreender e apreender esses ritmos?
Sim. Os documentos da época eram quase sempre escritos num registo muito solene, júridico, estereotipadamente oficial. Não se aprende grande coisa por aí. Mas há uma fonte contemporânea maravilhosa: a biografia do Cardeal Wolsey (mentor de Cromwell), feita por um dos seus discípulos, George Cavendish, que escrevia como um romancista. É um livro essencial. Li-o e reli-o, até incorporar os seus ritmos na minha prosa. Mas foi um processo lento. Levei alguns anos a entrar naquele mundo.

E agora tornou-se fácil imaginar como eram as coisas há quase cinco séculos?
Agora sinto-me em casa. Fecho os olhos e o que ouço? Badaladas do sino da igreja, um relâmpago, nada mais sonoro do que isto. A não ser que esteja num campo de batalha, onde ressoam os tiros de canhão. Os nossos sentidos vão-se moldando ao que escrevemos.

O terceiro livro vai ser mais fácil ou mais difícil do que os outros?
Mais difícil. Porque terá de integrar os dois primeiros. Chamar-se-á O Espelho e a Luz porque iluminará, espero, tudo o que foi contado antes. Aborda o processo da História. O passado atrás de nós vai mudando, não é estático. Para Cromwell, é também sobre os trabalhos da memória.

No fim de Bring Up the Bodies ele dá a entender isso, quando diz que durante o dia só pensa no futuro, mas à noite é assediado pelas recordações do passado.
É nessa altura que entram em cena os mortos. E o número de mortos vai aumentando. Os fantasmas dos que lhe foram próximos.

Já sabe como fechar a trilogia?
Sei para onde ela se dirige, mas há ainda muita coisa pelo meio por resolver. Sinto neste momento uma pressão enorme para avançar com o terceiro volume o mais rápido possível. Mas tentarei resistir. Não me posso dar ao luxo de não fazer isto bem. Até porque este projeto é o centro da minha vida de escritora.

O seu opus magnum?
Absolutamente. Em certo sentido, eu estou na posição de Cromwell. As expectativas são muito altas. Tenho tudo a perder. Por isso estou determinada a não ter pressa, a não me precipitar. O terceiro livro está lá fora, algures, e eu tenho de ser capaz de lhe dar uma forma.

Alguma estimativa para o tempo de que necessita?
Estou a apontar para 18 meses, dois anos. Gostava de o publicar em 2015.

Como é viver há oito anos com Cromwell?
Tenho uma espécie de ecrã duplo na minha cabeça, sabe. Um para a vida real, outro para a ficção que estou a escrever. Mesmo quando vou às compras ou arrumo a casa, a história dos Tudors não se interrompe na minha mente. O livro está sempre a trabalhar. E não é um processo de sentido único. Não é só o escritor que trabalha o livro. O livro também altera o escritor. Quando acaba, não se é o mesmo.

No seu caso, acha que se tornou uma pessoa melhor?
Não em termos morais (risos). Mas acho que sou uma pessoa mais forte, isso sim.

De que traços da personalidade de Cromwell se sente mais próxima? E de quais mais se afasta?
O que mais nos aproxima é a ambição. Quando era criança, eu queria ser alguém. Não necessariamente uma escritora. Mas queria conseguir algo e afastar-me do meu meio de origem. Queria cumprir o meu potencial. Nesse aspecto, identifico-me muito com Cromwell. Não me identifico com a capacidade que ele tinha de ignorar as opiniões alheias. Como outros escritores, não consigo distanciar-me do que as pessoas dizem, pensam, ou sentem. Se alguém ao meu lado se queixa de dores de cabeça, em menos de meia hora fico com uma enxaqueca. Cromwell, não. Era invulnerável. Usava uma armadura, escondia-se atrás dela.

Inveja essa capacidade?
Oh, sim! A vida seria tão mais fácil se eu tivesse a pele dura como ele.

[Entrevista publicada no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Mrs. Booker

1. Vejam a alegria desta mulher. Tentem compreender a alegria desta mulher. Chama-se Hilary Mantel. Aos 60 anos, rosto redondo, corpo enorme sob a túnica, não pertence ao grupo das escritoras que aliam, ao talento da escrita, os tão apreciados good looks. Ela não quer saber dos good looks para nada. Ela não é um rosto que se fotografa, em pose. Ela é uma escritora que escreve. Ponto. Creio aliás que a sua alegria ao receber o Man Booker Prize deste ano, pelo romance Bring Up the Bodies, não teve a ver com aquilo que todos os jornais destacaram: o ser a primeira mulher e o primeiro autor britânico a ganhar duas vezes o cobiçado prémio (os anteriores foram o australiano Peter Carey e o sul-africano Coetzee), ainda por cima no intervalo mais curto (apenas três anos depois de Wolf Hall). Nem teve a ver com o prémio de 50 mil libras, quase 62 mil euros, ou com o mais que previsível acréscimo exponencial de vendas deste livro e, por arrasto, dos anteriores. Quando agradeceu a distinção, no palco do Guildhall, em Londres, Mantel disse: «Esperas vinte anos para vencer o Booker e depois vêm logo dois de seguida.» Dois que até podem vir a ser três, quando for publicado o volume final da sua trilogia sobre Thomas Cromwell e o tempo dos Tudor, The Mirror and the Light, sobre o qual já se fazem todo o tipo de apostas. Agora que se tornou quase consensual, uma espécie de Mrs. Booker a pairar, soberana, etérea, sobre o mundo das letras inglesas («Não creio ter lido nos últimos tempos nenhum outro autor anglófono que controle tão completamente a linguagem para conseguir o que pretende fazer», resumiu Sir Peter Stothard, presidente do júri do Man Booker, além de editor do The Times Literary Supplement), agora que se instalou no trono do establishment, o que se deve sublinhar é a primeira parte da sua frase: «Esperas vinte anos…» Foi longo o caminho. Um caminho com travessias do deserto e zonas de sombra que a escritora evidentemente não esqueceu.

2. No final dos anos 70, Mantel entregou-se à escrita da sua primeira narrativa, um romance histórico de 800 páginas sobre a Revolução Francesa (A Place of Greater Safety), obra que foi recusada e só viu a luz muito mais tarde, em 1992. Enquanto o escrevia, aconteceu algumas vezes enganar-se ao datar os cheques: em vez de 1978, escrevia 1798. Era a História a impor-se na sua vida, mesmo se literariamente acabou a circular por outros lados, mudando de estilo e género de livro para livro, até se fixar novamente, em 2009, na ficção histórica, seguindo os passos do maquiavélico conselheiro do rei Henrique VIII.

3. Antes de chegar aos trinta anos, quando vivia no Botswana com o marido, geólogo, Hilary descobriu por si mesma, lendo livros de Medicina e fazendo autodiagnóstico, a explicação para o seu estado de constante sofrimento: uma doença chamada endometriose. As células do útero migram para outras partes do corpo e provocavam hemorragias. Operada em Inglaterra, na mesma altura em que A Place of Greater Safety era recusado, saiu do hospital sem ovários, sem útero, desfeito o desejo de ser mãe. Depois, ganhou peso devido a um tratamento hormonal intenso, a forma do corpo que nunca mais perdeu. No seu lugar, muita gente colapsaria. Mantel seguiu em frente, reinventou-se, atravessou o deserto, esperou o que teve de esperar. «Agora levanta-te», a primeira frase de Wolf Hall, é talvez um dos mandamentos da sua vida.

4. No começo do livro que lhe deu o primeiro Booker, o protagonista, Thomas Cromwell, ainda criança, está a ser espancado pelo pai. Pontapés, murros, sangue por todo o lado. Antes de perder os sentidos, deitado por terra, ele sente uma espécie de movimento, o «chão nojento» a tornar-se líquido como o Tamisa. O resto do romance é extraordinário, mas bastaram-me aquelas páginas iniciais para saber que descobrira uma grande escritora. Dois Bookers depois, ela sabe que muitos partilharam esta descoberta. Será essa, mais do que a glória efémera, a razão da sua alegria.

[Texto publicado no n.º 118 da revista Ler, Novembro de 2012]

Primeiros parágrafos

«His children are falling from the sky. He watches from horse-back, acres of England stretching behind him; they drop, gilt-winged, each with a blood-filled gaze. Grace Cromwell hovers in thin air. She is silent when she takes her prey, silent as she glides to his fist. But the sounds she makes then, the rustle of feathers and the creak, the sigh and riffle of pinion, the small cluck-cluck from her throat, these are sounds of recognition, intimate, daughterly, almost disapproving. Her breast is gore-streaked and flesh clings to her claws.
Later, Henry will say, ‘Your girls flew well today’. The hawk Anne Cromwell bounces on the glove of Rafe Sadler, who rides by the king in easy conversation. They are tired; the sun is declining, and they ride back to Wolf Hall with the reins slack on the necks of their mounts. Tomorrow his wife and two sisters will go out. These dead women, their bones long sunk in London clay, are now transmigrated. Weightless, they glide on the upper currents of the air. They pity no one. They answer to no one.
Their lives are simple. When they look down they see nothing but their prey, and the borrowed plumes of the hunters: they see a flittering, flinching universe, a universe filled with their dinner. All summer has been like this, a riot of dismemberment, fur and feather flying; the beating off and the whipping in of hounds, coddling of tired horses, the nursing, by the gentlemen, of contusions, sprains and blisters. And for a few days at least, the sun has shone on Henry. Sometime before noon, clouds scudded in from the west and rain fell in big scented drops; but the sun re-emerged with a scorching heat, and now the sky is so clear you can see into Heaven and spy on what the saints are doing.
As they dismount, handing their horses to the grooms and waiting on the king, his mind is already moving to paperwork: to dispatches from Whitehall, galloped down by the post routes that are laid wherever the court shifts. At supper with the Seymours, he will defer to any stories his hosts wish to tell: to anything the king may venture, tousled and happy and amiable as he seems tonight. When the king has gone to bed, his working night will begin.»

[in Bring Up the Bodies, de Hilary Mantel, Fourth Estate, 2012]

She did it again

Hilary Mantel volta a ganhar o Man Booker Prize, com Bring Up the Bodies, três anos depois da primeira vitória, com Wolf Hall.

Será que Hilary Mantel se vai juntar a Peter Carey e J. M. Coetzee no mui restrito grupo dos escritores que ganharam duas vezes o Booker?

Há quem ache que sim.

PS – Ao contrário do que se passou nos últimos anos, não me aventurei desta vez na leitura dos seis finalistas. Não deu. Não consegui. Houve outras prioridades profissionais e da vida privada que se interpuseram. Mas espero retomar a maratona-Booker em 2013.

‘Wolf Hall’ em segunda edição

O elevado volume de pré-reservas e encomendas do romance Wolf Hall, de Hilary Mantel, Prémio Man Booker 2009, fez com que a Civilização começasse a reimprimir o livro ainda antes deste chegar às livrarias (o que acontecerá apenas no dia 9).

‘Wolf Hall’ (booktrailer)

A Civilização acaba de lançar Wolf Hall, de Hilary Mantel, um extraordinário romance histórico que ganhou o Man Booker Prize 2009, como expliquei aqui.

Thomas Cromwell dá a Hilary Mantel o Man Booker Prize

Pela primeira vez desde 2002, o romance favorito à vitória no Man Booker Prize – o mais mediático dos prémios literários de língua inglesa – foi mesmo o livro vencedor. Há sete anos, aconteceu com A Vida de Pi, de Yann Martel. No passado dia 6, a sorte coube a Wolf Hall, da britânica Hilary Mantel (n. 1952), autora desde cedo apontada como principal candidata à vitória por toda a gente: críticos literários, agências de apostas, leitores em geral.
Numa edição vintage (das mais fortes e equilibradas dos últimos anos), com abundância de romances históricos, o júri presidido por James Naughtie, jornalista da rádio BBC, decidiu premiar «a absoluta grandeza deste livro, a audácia da sua narrativa e o esplendor dos seus detalhes». Ao receber 50 mil libras (54 mil euros), Mantel afirmou que o dinheiro lhe permitirá «comprar tempo», aquilo de que um escritor mais necessita. A principal recompensa, porém, é a explosão de notoriedade. Em menos de 24 horas, as vendas de Wolf Hall na Amazon aumentaram 1500%, o que lhe permitiu assumir a liderança no top da livraria online e relegar o último Dan Brown (The Lost Symbol) para segundo lugar.
Com dez romances na sua bibliografia, Mantel já experimentara a ficção histórica de grande fôlego em A Place of Greater Safety (1992), um épico sobre a Revolução Francesa centrado nas figuras-chave de Robespierre, Danton e Desmoulins. Nas 650 páginas de Wolf Hall (4th Estate), faz igualmente o escrutínio minucioso de uma época: as décadas de 1520/1530 em Inglaterra, durante o reinado de Henrique VIII. Com uma prosa quase perfeita e um ritmo imparável, que hipnotiza e subjuga o leitor, Mantel acompanha a ascensão, na agitada corte dos Tudor, de Thomas Cromwell, um maquiavélico advogado de origens humildes que se torna o principal conselheiro do rei e arquitecta a ruptura com a Igreja de Roma.
O romance andou duas décadas a ganhar balanço na cabeça de Mantel, exigiu-lhe cinco anos de trabalho e vai ter uma sequela – The Mirror and the Light – ainda em estado embrionário: «Por enquanto, a única coisa que existe é uma enorme caixa cheia de apontamentos.»
Apesar do entusiasmo com Wolf Hall, a decisão do júri não foi unânime. Houve três votos em Mantel e dois noutro autor, não revelado – provavelmente J.M. Coetzee, o escritor sul-africano que vive na Austrália e cultiva uma certa distância em relação ao mundo literário. Único dos finalistas que não esteve presente na cerimónia de atribuição do prémio, realizada no London’s Guildhall, em Londres, Coetzee, caso tivesse ganho com Summertime, tornar-se-ia o primeiro triplo vencedor do Booker, depois dos triunfos de 1983 (A Vida e o Tempo de Michael K) e 1999 (Desgraça).
Simona Catabiani, directora editorial da Civilização, que vai publicar Wolf Hall em Março ou Abril de 2010, ficou em êxtase com a vitória de Mantel, a que assistiu em directo pela BBC: «É um sonho pessoal que se cumpre: ver um dos nossos livros a ganhar o Booker. Nos últimos quatro anos estivemos perto, sempre com pelo menos um título entre os finalistas. Este ano foram dois [o outro sendo A Sala de Vidro] e tive a sensação de que Wolf Hall ia mesmo ganhar, porque o livro é fortíssimo e a autora consegue transmitir-nos um olhar pessoal, muito inovador, sobre a vida de Cromwell», explicou. Quanto ao previsível êxito comercial, será sempre uma espécie de bónus: «Comprei os direitos do livro ainda antes de ele ser escolhido para a longlist

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges