Um poema de Hugo Claus

GRAVO-TE NO PAPEL

(do poema O Grilo de Pedra)

Minha mulher, meu altar pagão,
que toco e afago com dedos de luz,
meu bosque viçoso onde hiberno,
sinal neurótico, terno, impudico,
gravo o teu bafo e o teu corpo no papel
em papel de música pautado.

E contra o teu ouvido sussurro horóscopos felizes
e falo-te de viagens à volta do mundo
com paragem na Áustria ou coisa do género.

Mas apesar dos deuses e dos signos do Zodíaco
a felicidade eterna também se cansa,
e eu não tenho casa, não tenho cama,
nem flores para te oferecer nos teus anos.

Gravo-te no papel
enquanto inchas e desabrochas como um pomar em Julho.

[do livro Een huis dat tussen nacht en morgen staat, Uma casa entre a noite e a alvorada, trad. de Ana Maria Carvalho, revista DiVersos n.º 13, Junho de 2008]

Clarke e Claus

Durante esta semana desapareceram dois escritores muito diferentes: no estilo, nos temas e na escala das respectivas obras. O britânico Arthur C. Clarke (1917-2008) e o belga flamengo Hugo Claus (1929-2008).
O primeiro era obcecado com o infinitamente grande (os mistérios do universo) e tão visionário que inventou uma fronteira, o ano 2001, a que chegámos muito aquém do que ele imaginara. Morreu na plena posse das suas faculdades, lúcido e depois de terminar o que sabia ser o seu últimpo opus.
O segundo era obcecado pelo infinitamente pequeno (a identidade da Bélgica) e estabeleceram-lhe um objectivo inalcançado, o Nobel. Morreu na plena posse do seu livre arbítrio, porque ao ver-se destruído pela doença de Alzheimer pediu que lhe encurtassem o sofrimento através da eutanásia.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges