O silêncio necessário

pedi

Painel que abre uma exposição sobre Mário Viegas, cedida pelo Museu Nacional do Teatro ao I Encontro Nacional de Dezedores de Poesia. Pode ser vista, até dia 13, no átrio do Auditório do Ramo Grande, em Praia da Vitória (ilha Terceira).

Recital nemesiano

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Os espectadores que faltaram na sessão da tarde vieram à noite (cerca de 70 pessoas), provando que há público para a poesia na terra onde nasceu Vitorino Nemésio. O fecho do I Encontro Nacional de Dezedores de Poesia, em Praia da Vitória, decorreu justamente sob o signo de Nemésio, com um recital de tributo ao autor de Eu, Comovido a Oeste em que cada dezedor escolheu um ou dois poemas. Curiosamente, houve repetições: Imagem, escolhido por Luís Lucas e Rui Spranger; e Semântica Electrónica, lidas em registos muito diferentes por – nem de propósito – Maria do Céu Guerra e São José Lapa.

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Seguiu-se uma homenagem, em cena aberta, a Maria de Jesus Barroso e a leitura, em conjunto, de quadras de Nemésio sobre a Terceira. As seis primeiras, de um conjunto de 42, rezam assim:

Lá vai a Ilha Terceira
Por riba dos mares afoitos,
Carregadinha de amores,
De mistérios e biscoitos!

Esta nossa Ilha Terceira
Sempre foi alto lugar:
Em amores, bodos e toiros
Fica bem a desbancar.

A Ilha Terceira é fêmea,
Sã Miguel saiu varão,
A Graciosa rapariga
E Sã Jorge tubarão…

Olha os Ilhéus a Sã Bento
Olha Sã Jorge à Feiteira!
Olha o meu amor comigo
Numa cisma verdadeira!

A nossa Ilha Terceira
Em dois pontos fica atrás:
De Deus do Céu e de ti
Que tanta graça lhe dás!

A Graciosa lá longe
Quando te viu na Serreta
Teve tanta invejidade
Que de roxa ficou preta

O momento mais alto da noite, porém, foi a leitura – apaixonada e exacta – do belíssimo poema Pedra de Canto, por Maria do Céu Guerra.

MCG vs. SJL

Na diversidade de opiniões de que se tem feito o I Encontro de Dezedores de Poesia, há um antagonismo que se destaca, até porque foi verbalizado nas duas sessões. É o que opõe São José Lapa, para quem a poesia dita em palco não faz sentido nos moldes tradicionais (antes exigindo, para ser eficaz e chegar às novas gerações, a exploração dos meios tecnológicos entretanto disponíveis), e Maria do Céu Guerra, para quem os poemas valem como os textos que são, sem necessitarem do recurso a imagens ou outros efeitos extraliterários. Para vincar a sua posição, Céu Guerra chegou mesmo a citar um poema de António Ramos Rosa que começa com estes dois versos:

«Onde a poesia se exibe como um espectáculo espectacular
não é poesia»

De que falam, entre eles, os ‘dezedores’ de poesia? (2)

Se ontem à noite a assistência foi razoável, esta tarde o público simplesmente não compareceu à segunda sessão do I Encontro Nacional de Dezedores de Poesia. Na plateia, excluindo organizadores, jornalistas e funcionários do auditório, estavam quatro pessoas. No palco, dez. Uma pena.
Uma pena, sim. Até porque os dezedores disseram, finalmente, poemas. Pedro Lamares começou por ler O Fraseador, de Manoel de Barros; Fanha cantarolou um rap para crianças de sua autoria (O quê de cão); Maria do Céu Guerra leu António Ramos Rosa; e Rui Spranger interpretou, com ganas, versos de Joaquim Castro Caldas. No resto do tempo, os dezedores evocaram a forma como descobriram a poesia e a razão porque a dizem, pretexto para depoimentos ora emocionados, ora divertidos. Álamo Oliveira, por exemplo, lembrou que os primeiros versos que disse em voz alta, aos dez anos de idade, foram três quadras de João de Deus. O rapaz ficou feliz com os elogios que lhe fizeram mas a avó, que ganhava dinheiro a escrever cartas que os conterrâneos analfabetos enviavam para os familiares emigrados na América, logo o fez descer à terra: «Está tudo muito bem, mas a vida não cabe em três quadras de João de Deus.» E não cabe mesmo.

Impressões telegráficas da Terceira

As vacas (claro). Os pequenos impérios coloridos. As neblinas. Uma família a descarregar, de uma carrinha de caixa aberta, lancheiras para o picnic. Os militares norte-americanos que falam alto nas esplanadas nocturnas. A lagartixa sobre a alcatifa azul do meu quarto. A humidade húmida, água pairando no ar. As vacas na estrada (claro), som de cascos no asfalto. O dragoeiro majestoso derramando-se sobre a rua, preso entre duas fachadas. As manchas de luz no mar. Um cacto em forma de louva-a-deus. A nostalgia dos actores. O donete capaz de enlouquecer Homer Simpson, comido junto às piscinas naturais dos Biscoitos. Uma procissão com banda filarmónica e fatos de domingo. Mais vacas (claro).

De que falam, entre eles, os ‘dezedores’ de poesia?

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Esta noite, no Auditório do Ramo Grande (Praia da Vitória), estiveram onze dezedores em palco. Entre outras coisas, disseram-se frases como estas:

«A função do dezedor é revelar o poema» (José Fanha)

«A poesia é o cristal da literatura, o seu momento mais apurado» (Maria do Céu Guerra)

«Se há poemas que sei de cor, é porque os aprendi com o coração» (Rui Spranger)

«Quando era miúdo, tive dois amigos imaginários: um panda de peluche e o Alberto Caeiro» (Pedro Lamares)

«Não devemos escancarar o poema, temos que respeitar as suas zonas de sombra» (Maria do Céu Guerra)

«Quando alguém diz um poema, está a dizer-se a si próprio» (José Fanha)

«Há poetas que dizem muito bem os seus poemas, como o David Mourão-Ferreira. E há os que dizem muito mal, como o Torga ou o Sebastião da Gama. Eu costumava dizer-lhe: “Ó Sebastião, não digas os teus poemas, que os estragas!”» (Maria Barroso)

«Nós é que precisamos da poesia, não é a poesia que precisa de nós» (Maria do Céu Guerra)

«A poesia é um xarope contra a tosse do dia-a-dia» (Álamo Oliveira)

«Gosto de me infiltrar no poema, como a sardanisca do O’Neill» (Maria do Céu Guerra)

«A mim, parece-me que só dizemos bem um poema se conseguirmos namorar o texto» (José Fanha)

«A poesia pode mudar a vida das pessoas, mas não se pode impingir. Não é uma missa, é um encontro.» (Maria do Céu Guerra)

Sentido de humor

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À chegada, uma surpresa. A Companhia Independente de Artes, associação cultural que organiza o Encontro de Dezedores, transportou os seus convidados para o hotel numa limusina, bem ao estilo da outra C.I.A., a verdadeira. Isto tudo a dois passos da base das Lajes. Uma piada digna de quem estilizou o A do acrónimo, acrescentando-lhe um círculo como fazem os anarquistas.

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Programa

Eis o programa do I Encontro Nacional de Dezedores de Poesia, que decorrerá no Auditório do Ramo Grande (Praia da Vitória, ilha Terceira, Açores):

Dia 5

15h00 – Sessão de abertura
21h30 – 1.º painel: «Interpretar o poema será levar o ouvinte/leitor à preguiça?»

Dia 6

15h30 – 2.º painel: «Interpretar o poema será trair o poeta?»
21h30 – «Vozes para Nemésio» – recital com Maria Barroso, São José Lapa, Maria do Céu Guerra, Luís Lucas, Rui Spranger, Pedro Lamares e José Fanha.

I Encontro Nacional de Dezedores de Poesia

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Amanhã e depois, a cidade de Praia da Vitória (ilha Terceira), acolhe o primeiro Encontro Nacional de Dezedores de Poesia, organizado pela Companhia Independente de Artes. Eu vou cobrir os debates e leituras para o Expresso, mas parto já hoje (quer dizer, daqui a nada) para os Açores.
Se no fim-de-semana virem por aqui imagens de prados e vaquinhas, não se espantem.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges