Formas de cair

In Situ
Autora: Inês Dias (com ilustrações de Daniela Gomes)
Editora: Língua Morta
N.º de páginas: 52
ISBN: 978-989-97718-4-0
Ano de publicação: 2012

Editora da Averno e da revista Telhados de Vidro, Inês Dias publicou o seu livro de estreia no final de 2011: Em Caso de Tempestade Este Jardim Será Encerrado (tea for one). Logo no primeiro poema dessa recolha, ao aperceber-se da passagem do tempo sobre a rua da infância, o sujeito poético sente «o sol a queimar o futuro / e o desmoronar tímido / da última casa em que podia / deixar confiadamente o coração». O tom de lamento atravessa o livro inteiro, é uma espécie de música em que a autora se compraz, enquanto olha de frente a morte que tudo cerca e da qual foge, aceitando a inevitabilidade da perda e a natureza tão perecível da beleza.
Esta toada melancólica mantém-se no segundo livro, In Situ, mas as imagens tornaram-se mais duras, mais cortantes: «Quero um amor que tenha / a lealdade de um cancro, / que alastre apenas dentro de mim / e me escolha os ossos / com dedos ligeiros mas demorados / de nódoa negra». Há também o «coração no fio», «sangue emparedado» e uma delicadeza que magoa: «Aprendi a bordar / iniciais, às vezes na própria pele, / a construir diques cada vez mais frágeis / de palavras».
A morte volta a circular por estas páginas como uma ameaça, sempre à espreita «para reclamar o seu rebanho de sombras». À margem da vida – e dos seus «dias armados de pedras» – fica a aguda consciência de estar «do lado errado», esse território onde ninguém parece capaz de suster «o avanço das águas». Se os «compromissos com o absoluto» estão fora de questão, é preciso procurar «um sentido codificado dentro de / outro sentido como um tiro no escuro». A indeterminação contamina tudo, espalhando-se como as metástases de um «tumor enferrujado».
Inês Dias procura novas «formas de cair», outras aproximações possíveis à matéria negra de uma realidade despida de mistério. Mas, no meio de tanta desolação, de tanto desconsolo, não deixa de entrever a recôndita e talvez inesperada força de um gesto poético que «perturbasse destinos, / acordasse motins serenos, fosse o grão / de pólen no mecanismo sensível do mundo».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 116 da revista Ler]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges