Nomear o indizível

As Coisas
Autora: Inês Fonseca Santos
Editora: Abysmo
N.º de páginas: 52
ISBN: 978-989-97448-3-7
Ano de publicação: 2012

Numa nota inicial, Inês Fonseca Santos (n. 1979) explica que os poemas de As Coisas – o seu livro de estreia – foram escritos em poucos dias, «mas levaram anos a formar-se». De facto, pressente-se nesta obra uma lentidão quase geológica, um avanço que se faz por acumulações e sobreposições, através de sucessivas camadas de memórias, experiências, sedimentos. É uma poesia em torno de um tema só (o desafio de nomear o que é indeterminado ou indizível) e com a consciência exacta de que nos escapa sempre o essencial, de que nunca conseguiremos fechar dentro do recorrente aquário verde no topo da estante (o poema?) esses «peixes-palavras» que são as únicas «coisas inquebráveis».
Há nestes textos cheios de arestas – frágeis, opacos, feitos de vidro (e por isso cortantes quando se partem) – um «nome de todas as coisas» que se desfaz e recompõe continuamente. É um nome que evoca uma ausência, uma perda, esse «algo que já lá não está ou se perdeu» de que fala Manuel António Pina no poema As Coisas (incluído no seu último volume de originais: Como se Desenha uma Casa, Assírio & Alvim), poema que serve de mote a este livro e, segundo a autora, «confirmou o seu eventual sentido». Mais do que um trabalho de luto, ou de nostalgia, os textos procuram uma espécie de recomposição, uma forma de organizar os «restos», de colar os cacos do que um dia se partiu. «Puxei-te pela mão. A mão soltou-se do teu corpo. / Coloquei-a no lugar do coração; com as unhas / construí um fecho novo para o colar de pérolas; / vendi a pele e voltei a encher o frigorífico.»
Elíptica e desconcertante, a escrita de Inês Fonseca Santos faz da estranheza uma forma de defesa. Nada é transparente neste universo em que tudo se remenda: os copos, as palavras, o coração. Um mundo estanque, urdido com repetições e circularidades, em que fazer versos equivale a fumar um cigarro apagado: «Apago-o antes / que me chegue aos lábios. // Está frio neste lugar. A boca abre-se / como uma coisa lenta em forma de espanto.»

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no n.º 111 da revista Ler]

Quatro poemas de Inês Fonseca Santos

AS COISAS

São feitas de vidro.
Partem-se quando digo em voz alta
o teu nome. Nome de todas as coisas.

***

AS COISAS DO CORPO

Demasiado internas para lhes conhecermos os contornos.
Demasiado ocultas para lhes saber as razões.
Ostensivas, as coisas do corpo exibem-se perfeitas. Segundos
em que cheguei a odiá-las. Estavam demasiado longe
dos lugares a que devíamos regressar quando eu envelhecesse.
Puxei-te pela mão. A mão soltou-se do teu corpo.
Coloquei-a no lugar do coração; com as unhas
construí um fecho novo para o colar de pérolas;
vendi a pele e voltei a encher o frigorífico.
Alguém se sentou à mesa. Tinha o teu nome gravado;
um rosto sem marcas, irreconhecível,
aguardava a mão capaz de lhe levar coisas à boca.
Coisas de alimento às coisas do corpo. Como esta mão a bombear-te
o coração do lado errado do peito.

***

AS COISAS NAS PONTAS DOS DEDOS

Cortam os vasos, as veias. Minúsculas,
as coisas nas pontas dos dedos
são feitas de vidro partido.
Invisíveis aos olhos, levam com elas
as nossas impressões
digitais.

***

AS COISAS FRÁGEIS

Pegava-te no nome como no aquário
verde, quando era ainda cidade de peixes –
bichos de alimento diário e morte mensal,
silenciosa, sem desgosto ou pânico,
indiferente à vida. (As nossas, as deles.)
Hoje caminho, como todas as manhãs, com a tua existência
nas mãos (na cabeça, nos pés), seguro-a como coisa frágil,
quebradiça – coisa morta do dia em que morreste.

Recordo apenas o pássaro. Tinha no nome ruivo
e no bico o som atenuado de uma canção.

[in As Coisas, Abysmo, 2012]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges