When Paul writes to John (and viceversa)

Eis um excerto da correspondência entre Paul Auster e J.M. Coetzee, reunida no livro Here and Now: Letters (2008-2011). Os dois escritores falam essencialmente sobre a importância do desporto nas suas vidas (o críquete para Coetzee; o futebol americano para Auster), mas a parte que me pareceu mais interessante é a que menciona o xadrez. Coetzee fala de um jogo que eclipsou a sua chegada aos EUA. Auster responde com o seguinte parêntesis:

«(I haven’t played chess in years, by the way, but there was a time in my early twenties when I became immersed in it, too. It is without question the most obsessive, most mentally damaging game invented by man. After a while, I found myself dreaming about chess moves in my sleep—and decided that I had to stop playing or else go mad.)»

Não diria «mentally damaging», mas lá obsessivo é. E eu, que redescobri recentemente os prazeres e angústias do xadrez online, sei-o bem.

Uma narrativa sem corpo

Verão
Autor: J.M. Coetzee
Título original: Summertime
Tradução: J. Teixeira de Aguilar
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 279
ISBN: 978-972-20-3986-4
Ano de publicação: 2010

Nos dois primeiros volumes das suas «memórias ficcionadas» – Boyhood (1997) e Youth (2002), ainda não editados em Portugal –, J.M. Coetzee já explorava a ambiguidade deste género literário híbrido, deixando o leitor na dúvida quanto à distância existente, ou não, entre os factos narrados pela sua personagem autobiográfica e os factos reais vividos pelo escritor sul-africano durante a infância e juventude.
Neste terceiro volume, o conceito é ainda mais sofisticado, porque no tempo do romance o escritor John Coetzee morreu, na Austrália (onde o autor verdadeiro vive agora), antes de publicar o que seria a continuação de Youth. É então que entra em cena um biógrafo inglês, Mr. Vincent, disposto a reconstruir esse livro perdido, sobre um período em que Coetzee «estava ainda a apalpar terreno como escritor» (1972-1977), não apenas recorrendo aos seus diários e cadernos de apontamentos, mas procurando «por detrás das ficções que eles elaboram»; ou seja, ouvindo «as pessoas que o conheceram directamente». Em viagens sucessivas (Inglaterra, África do Sul, Brasil, França, Canadá), ele entrevista cinco dessas pessoas: uma mulher, então casada, de quem Coetzee foi amante quando vivia na Cidade do Cabo; a prima preferida, que com ele passou uma noite no deserto, dentro da sua carripana avariada; uma bailarina brasileira a cuja filha deu lições de inglês; e dois professores universitários, seus colegas no meio académico (incluindo uma francesa com quem teve um caso).
O retrato que emerge destes depoimentos é tudo menos lisonjeiro. Além de socialmente inapto, emocionalmente reprimido e sexualmente autista, as entrevistadas vêem-no como um homem com «ar de fracasso», «incompleto», «frouxo», «arrogante», «deslocado como um pássaro, um daqueles pássaros que não voam», «incompetente com as mulheres», um «empecilho», um «tolo», uma «figura de comédia» (mas «comédia sisuda»). Em suma, alguém que nunca se sentiu à-vontade na sua pele: «movia-se como se o corpo fosse um cavalo que estivesse a montar, um cavalo que não gostasse do cavaleiro e resistisse».
Acabado de regressar à África do Sul, após uma longa estadia nos EUA, Coetzee vive naqueles anos uma espécie de impasse. Publica os primeiros livros, ainda sem grande reconhecimento público; é obrigado a cuidar do pai viúvo e doente; obstina-se contra o tabu do trabalho braçal para os brancos; sente-se excluído pelos africânders; sufocado numa sociedade que perpetua o apartheid; e incapaz de relacionamentos duradouros com outras pessoas. Na única oportunidade que tem de mudar a vida, por amor, bate em retirada, enfiando de novo «a couraça no coração, desta vez com correntes e um cadeado duplo».
Mais original ainda do que este perturbante e avassalador exercício de auto-depreciação, construído através do olhar dos outros, é a própria estrutura do livro. Como alguém assinala a dado momento, «esta é uma narrativa sem corpo». Uma obra apenas esboçada, composta por materiais em bruto, a que faltam alicerces e arquitectura. É como se Mr. Vincent tivesse deixado o trabalho a meio, com muitos hiatos e espaços em branco, ciente de que a ‘verdade’ biográfica de uma pessoa fica sempre para além do nosso alcance; ou então como represália pela desconfiança dos entrevistados, que lhe respondem torto, pondo em causa as suas intenções, recusando a reescrita que ele vai fazendo de algumas passagens e lançando-lhe até ameaças («se sair daqui e começar a manipular o texto, tudo se transformará em cinzas nas suas mãos»).
Dito isto, convém lembrar que o verdadeiro manipulador do texto final, este que podemos ler, não é obviamente Mr. Vincent mas o próprio J.M. Coetzee, o morto que está vivo, o mestre que revela tanto quanto dissimula.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Recusa perante o tempo

«”Acreditas mesmo nisso?”, perguntou ele. “Que os livros dão sentido à nossa vida?”
“Acredito”, respondi. “Um livro deve ser um machado para abrir o mar gelado que temos dentro. Que mais havia de ser?”
“Um gesto de recusa perante o tempo. Uma tentativa de conseguir a imortalidade.”
“Ninguém é imortal. Os livros não são imortais. Todo o globo em que estamos há-de ser sugado pelo sol e desfeito em cinzas. Após o que o próprio universo implodirá e desaparecerá por um buraco negro abaixo. Nada sobreviverá, nem eu, tu, nem certamente os livros de interesse minoritário sobre imaginários colonos fronteiriços da África do Sul do século XVIII.”
“Não quis dizer imortal no sentido de existir fora do tempo. Quero dizer sobreviver para além do nosso desaparecimento físico.”
“Queres que as pessoas te leiam depois de morto?”
“Dá-me um certo consolo ater-me a essa perspectiva.”
“Mesmo que cá não estejas para ver?”
“Mesmo que cá não esteja para ver.”
“Mas porque é que as pessoas do futuro se hão-de dar ao trabalho de ler o livro que tu escreves se ele não lhes diz nada, se não as ajuda a encontrarem sentido para as suas vidas?”
“Talvez ainda gostem de ler livros bem escritos.”
“Isso é uma tolice. É como dizer que, se eu fizer um rádio com gira-discos suficientemente bom, as pessoas continuarão a usá-lo no século XXV. Mas não continuam. Porque os rádios com gira-discos, por mais bem feitos que sejam, já hão-de ser obsoletos. Não dirão nada às pessoas do século XXV.”
“Talvez no século XXV ainda haja uma minoria com curiosidade de ouvir como era o som de um aparelho de telefonia.”
“Coleccionadores. Gente com passatempos. É assim que tencionas passar o resto da vida? Sentado à secretária a manufacturar um objecto que pode ser ou não conservado como curiosidade?
Ele encolheu os ombros. “Tens alguma ideia melhor?”»

[in Verão, de J.M. Coetzee, trad. de J. Teixeira de Aguilar, Dom Quixote, 2010; chega às livrarias na próxima sexta-feira, dia 26]

O que aí vem (Dom Quixote)

Verão

Antes de Ser Feliz

Nas livrarias em Fevereiro. Sobre o romance de Coetzee já escrevi aqui.

Hat trick?

Se lhe for atribuído o Man Booker Prize, no próximo dia 6 de Outubro, J.M. Coetzee, Nobel da Literatura em 2003, tornar-se-á o primeiro escritor a conseguir três vitórias num dos mais prestigiados prémios literários do mundo anglo-saxónico. E há quem não se coíba de usar, a propósito, uma expressão futebolística: hat trick.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges