Memória de uma residência

Em Setembro do ano passado, eu, a Margarida Vale de Gato e o Jaime Rocha participámos numa residência poética inserida no encontro ‘Poesia, Um Dia‘, organizado pela Biblioteca Municipal José Baptista Martins (Vila Velha de Ródão). Na aldeia de Foz do Cobrão, deambulámos, conversámos muito e escrevemos alguns poemas que foram lidos numa sessão aberta ao público.
Desta experiência nasceu o documentário Portugal: Poema em Construção, produzido pela Biblioteca, para o qual contribuí (sem saber na altura o destino que teriam aquelas imagens) na qualidade de interveniente e de operador de câmara. Eis o resultado final:

Primeiros parágrafos

«O corpo da mulher rola para dentro de casa como um embrulho, as roupas encardidas pela humidade. O cabelo está de tal modo entrelaçado que nem a água quente o conseguirá desembaraçar com a lavagem. Estende-se no chão da sala, exausta. O primeiro movimento que faz é mostrar as cicatrizes dos braços e apontar para alguns sinais junto do umbigo. A carpete fica molhada ao contacto com a roupa, desenhando uma pequena silhueta, uma mancha que há-de ficar para sempre gravada naquele espaço do chão. Mateus está de pé junto a ela, descalço, incapaz de dizer ou fazer o que quer que seja. Sente o calor subir-lhe pelas pernas e as mãos trémulas. Deixa a porta aberta. Das escadas vêm uns grunhidos, alguém grita para que acendam a luz, alguém apanhado na escuridão entre dois andares. Um dos vizinhos abre a porta e pergunta se querem que ele desça com uma pilha. Quem grita é a mesma mulher que ali passa diariamente cheia de sacos de plástico e que agora ameaça deitar fogo ao prédio.»

[in A Rapariga sem Carne, de Jaime Rocha, Relógio d’Água, 2012]

Poesia em Vila Velha de Ródão

De 14 a 19 de Setembro, a Biblioteca Municipal José Baptista Martins, em Vila Velha de Ródão, vai receber uma série de espectáculos, exposições e ateliers centrados em textos poéticos. Uma das iniciativas é uma residência literária, na aldeia de Foz de Cobrão, em que fui convidado a participar na companhia de Margarida Vale de Gato e Jaime Rocha. Ecos e imagens do que se passar nesses dias chegarão, mais tarde ou mais cedo, a este blogue. Mais informações sobre o ‘Poesia, Um Dia’ e a programação completa, aqui.

Sob o signo da beleza extrema

necrophilia

Necrophilia
Autor: Jaime Rocha
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 88
ISBN: 978-989-641-162-6
Ano de publicação: 2010

Jaime Rocha encerra, em Necrophilia, um ciclo poético iniciado com Os Que Vão Morrer (2000), Zona de Caça (2002) e Lacrimatória (2005). Inspirada no universo pictórico dos pré-rafaelitas, em particular na relação obsessiva entre Dante Gabriel Rossetti e Elizabeth Siddal (sua musa e modelo), a Tetralogia da Assombração fecha com o livro «da Culpa e do Lamento». Estamos no domínio do amor para além da morte, do amor na morte, o que significa que Jaime Rocha prossegue a partir do ponto em que o romance Adoecer, de Hélia Correia (também publicado pela Relógio d’Água, quase em simultâneo), se suspende. Fixando visões paralelas e complementares sobre a mesma matéria literária, os livros são como que o reverso um do outro, nascendo de uma fascinação comum e partilhada pelo mistério do «desejo negro» que uniu Rossetti e Siddal.
No seu iluminador prefácio, João Barrento sugere que esta poesia instaura um «tempo suspenso», uma «temporalidade sem tempo». E é nessa espécie de hiato que se recortam as figuras que atravessam todos os livros da tetralogia, como projecções do imaginário medieval dos pré-rafaelitas: o pedreiro («construtor de túmulos»), o cavaleiro, o guerreiro, o homem da montanha. Todos eles subjugados, aqui, pela «sombra mágica» que emana do peito da mulher que deixou de viver mas cujo corpo ainda parece dar sentido a todas as coisas. Edgar Allan Poe, em epígrafe, afirma que não há tópico mais poético do que a morte de uma mulher bela. Morte que se transforma, neste caso, numa «presença devoradora», capaz de obliterar as paisagens e de nos aproximar da loucura, de um paroxismo em que o olhar se despedaça, como «uma palavra cortada por um fio / de nylon».
Se há neste longo poema em cinquenta estrofes uma narratividade, trata-se de uma narratividade estática. O texto avança por golpes e fulgurações, uma vertigem de imagens poderosas sucedendo-se umas às outras, deixando atrás de si um rasto de desolação, sofrimento e desamparo. Absolutamente singular no contexto da poesia portuguesa contemporânea, a escrita de Jaime Rocha surge-nos neste livro em todo o seu esplendor, sob o signo de uma «beleza extrema», torturada e herbertiana:

O homem vê uma mancha ao fundo a
mexer-se na sua direcção. É a barca de
Caronte que regressa. A terra engrossa
quando a água é empurrada e o homem
devorado pelo lixo. Os seus pulmões
enchem-se de vazio e morrem, como dois
milhafres deitados num campo de sal. A sua
dor tornou-se mais forte do que as raízes que
rompem o alcatrão. Uma coisa não pássaro
o que ele vê, um vidro a nascer dos socalcos,
um crepúsculo.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no número 92 da revista Ler]

Quatro poemas de Jaime Rocha

1.

A mulher caminha pelas urzes, no auge
do vento, já depois da morte, enovelada
pelos ramos que cortam a paisagem.
O homem está parado como uma ave
de pedra, batida pelo fumo. Depois, é o
corpo dela desfeito sobre os rochedos,
uma faísca que incendeia um pedaço
de madeira. O homem, amarrado a uma
mancha de ferro, contempla o corpo vazio.
Um pássaro cego cai em cima de um espelho.
É o rosto dele despedaçado, a dor.
Tudo é medonho à sua volta, a parte
de trás da luz, a humidade, a respiração
das plantas.

***

13.

Toda aquela assombração está gravada
na tinta como se pertencesse a um livro
queimado, roído pelo sol. O homem sabe
que se trata de uma morta, mas não
entende que é a cicatriz do seu peito que
lhe ocupa o sono e o cativa para um ritual
demoníaco. Conhece os seus cabelos, os
lábios a descerem pelas amoras, pela cera.
E toda a sua pele sobressai, pintada na
parede, nos pregos, nas mãos que descansam
em cima de uma toalha. Um navio incendeia-se
contra um recife. É ela ou os seus vestidos a
desaparecerem no horizonte, no fim de tudo.

***

38.

Ela diz, é a sua primeira fala depois de morta,

tapar-te-ei com os meus cetins como se o meu
corpo fosse um risco no céu.

O homem sabe que as palavras são apenas uma
memória. A sua cintura procura reviver depois
de os cães o terem dilacerado. É um grito, um
beijo frio. Ela avança com a roupa ensanguentada.
Mas é apenas uma moldura envolvida pelo âmbar,
uma luminosidade difusa, saída de uma necrópole.
Um dos lados do seu rosto fica negro, como se a
lua tivesse passado por cima dele e o deixasse
marcado por uma dor.

***

48.

A mulher mostra-se na luz, entre a folhagem.
A cor dos seus cabelos está intacta. Ela tece
um caminho para o homem, mas as mãos dele
colaram-se ao cimento, os seus olhos pararam
no tempo. Todo o seu corpo se assemelha agora
a uma árvore acorrentada pelas heras onde não
entra a música, nem o tempo que separa os dias.
As ondas sustiveram o movimento em direcção
à praia, regressando ao outro lado do horizonte.
As nuvens caíram. As aves perderam as asas.
Tudo, até os cães, desapareceu na escuridão.
Apenas umas pétalas esvoaçaram ao acaso,
seguindo o rasto dos morcegos, num último
torpor, numa vergonha.

[in Necrophilia, Relógio d’Água, 2010; um ciclo de 50 poemas em torno do quadro Beata Beatrix, de Dante Gabriel Rossetti]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges