Ler o ‘Ulisses’ no Twitter

Na passada quinta-feira, dia 16, celebrou-se um pouco por todo o mundo mais um Bloomsday. De entre todas as evocações da obra-prima de James Joyce, houve uma que teve qualquer coisa de Rossio enfiado à força na Rua da Betesga. Refiro-me ao projecto de condensar as quase 800 páginas do romance em 96 sequências de tweets (com um máximo de 140 caracteres cada um). O resultado desta micronarrativização de um clássico pode ser conferido aqui. E aqui encontramos um apanhado das reacções ao Bloomsday Burst.

Hoje foi Bloomsday em Dublin

E o dia, para alguns dos admiradores de Joyce, começou com um lauto pequeno-almoço no Caviston’s. Na ementa, rins fritos. What else?
Reportagem completa no Irish Times.

Hemingway não tinha telefone

«October 8, 1929
Paris

Dear Hemingway,

Joyce would telephone to you if you had one. He asked me to ask you and Pauline to go to their house this evening at about nine. He hopes you will excuse the invitation coming at the last minute, but the party is quite impromptu. They only just now decided to have you. He hopes you are free.

Yours hastily,
Sylvia
(Please excuse scrawl)»

Eis uma carta de Sylvia Beach, do tempo em que ainda se enviavam cartas com convites para o próprio dia, partilhada por Mark Sarvas no seu blogue. E se fosse hoje? Joyce enviaria uma SMS? Hemingway andaria com um iPhone no bolso?

‘Finnegans Wake’ for dummies

«Thirty years of work and 9,000 amendments later, a new edition of James Joyce’s most perplexing novel, Finnegans Wake, is promising to provide readers with a smoother, more comprehensible version of the author’s final work.»

O artigo completo de Alison Flood, no The Guardian, pode ser lido aqui.

Enrique Vila-Matas face a ‘Finnegans Wake’

«Como tengo insomnio, pasaré la noche con mi lenguaje nocturno. Me entretengo imaginando que soy un crítico, un especialista en ficción crítica. Y también imagino que me he pasado media vida leyendo Finnegans Wake en una edición de Faber and Faber de 1939, siempre acercándome a ella con cautelosos sorbos, porque esta última novela de James Joyce no es para leerla de un tirón, sino para abrirla en cualquier parte y sumergirse en su fascinante pluralidad, ambigüedad y lúdica riqueza. Siempre que me acerco al Finnegans lo hago sabiendo que estoy ante el más denso de los tapices y con el temor de que una vez más, como lector, me llegue una sensación, primero, de estar al borde del colapso y, después, el colapso mismo.»

É uma crónica do autor de O Mal de Montano, no suplemento Babelia, do El País. Continuar a ler aqui.

Desculpe lá, mas a sua obra-prima não nos interessa


(Clique para aumentar)

Eis uma das 40 cartas de recusa enviadas a James Joyce pelos editores a quem ofereceu, durante nove anos, a possibilidade de serem os primeiros a publicar os contos de Dubliners.

[via Senhor Palomar]

“A gramática é uma grande profissional, tem uma longa carreira, mas se calhar não está habituada a ser dominada desta maneira ao longo de um parágrafo inteiro”

Há muito tempo, mas mesmo há muito tempo, que um texto não me provocava tantas gargalhadas (daquelas aos solavancos, imparáveis, que nos inclinam o corpo para a frente e causam burburinho na sala, se a sala não estiver vazia).
Portugal até consegue sobreviver à licença sabática dos Gato Fedorento, mas não sei como é que se aguentaria sem o “Rogério Casanova”.

Leitores puros (de Cervantes a Joyce)

James Joyce

«Primeira questão: a leitura é uma arte da microscopia, da perspectiva e do espaço (não são só os pintores que se ocupam dessas coisas). Segunda questão: a leitura é um assunto de óptica, de luz, uma dimensão da física.
Joyce também sabia ver mundos múltiplos no minúsculo mapa da linguagem. Numa foto, vemo-lo vestido como um dândi, um olho tapado com uma pala, a ler com uma lupa de grande aumento.
O Finnegans Wake é um laboratório que submete a leitura à sua prova mais extrema. À medida que nos aproximamos, aquelas linhas baças convertem-se em letras e as letras encavalitam-se e misturam-se, as palavras transmutam-se, trocam-se, o texto é um rio, uma torrente múltipla, sempre em expansão. Lemos restos, pedaços soltos, fragmentos, a unidade do sentido é ilusória.
A primeira representação espacial deste tipo de leitura já está presente em Cervantes, sob a forma dos papéis rasgados que apanhava na rua. É essa a situação inicial do romance, o seu pressuposto, melhor dizendo: “Lia inclusive os papéis rasgados que encontrava na rua”, diz-se no D. Quixote (I, 5).

Cervantes

Poderíamos ver ali a condição material do leitor moderno: vive num mundo de sinais; está rodeado de palavras impressas (que, no caso de Cervantes, a imprensa tinha começado a difundir pouco tempo antes); detém-se no turbilhão da cidade para apanhar papéis espalhados no chão, quer lê-los.
Só que agora, diz Joyce no Finnegans Wake — quer dizer, na outra extremidade do arco imaginário que se abre com D. Quixote — estes papéis rasgados estão perdidos numa lixeira, debicados por uma galinha que esgravata. As palavras misturam-se, sujam-se, são letras corridas, mas ainda legíveis. Já se sabe que o Finnegans é uma carta perdida numa lixeira, uma “multidão de borrões e de manchas, de gritos e convulsões e fragmentos justapostos”. Shaum, o que lê e decifra no texto de Joyce, está condenado a “esgravatar para sempre cada vez mais até derreter a moleirinha e perder a cabeça, o texto destina-se a esse leitor ideal que sofre de uma insónia ideal” (by that ideal reader suffering an ideal insomnia).
O leitor dependente, o que não consegue deixar de ler, e o leitor insone, o que está sempre acordado, são representações extremas do que significa ler um texto, personificações narrativas da complexa presença do leitor na leitura. Chamar-lhes-ia leitores puros; para eles a leitura é não só uma prática, como uma forma de vida.»

[in O Último Leitor, de Ricardo Piglia, tradução de Jorge Fallorca, Teorema, 2007]

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges