As mil faces da verdade

As Vozes do Rio Pamano
Autor: Jaume Cabré
Título original: Les Veus del Pamano
Tradução: Jorge Fallorca
Editora: Tinta-da-China
N.º de páginas: 653
ISBN: 978-972-8955-72-4
Ano de publicação: 2008

Ao fim de muitas décadas de persistência, Elisenda Vilabrú, a mulher mais rica e poderosa de Torena (aldeia fictícia, perdida nos Pirenéus catalães), consegue cumprir o desígnio maior da sua vida. No Vaticano, assiste à cerimónia em que o Papa João Paulo II beatifica Oriol Fontelles, pacato mestre-escola e herói franquista, a quem é atribuída uma morte de mártir, às mãos dos guerrilheiros ateus que supostamente pretendiam profanar, em Outubro de 1944, o sacrário da Igreja de Sant Pere. Única testemunha viva, Elisenda dá por bem empregues os rios de dinheiro com que oleou os lentíssimos mecanismos da burocracia eclesiástica, ganhando o apoio de figuras influentes – entre as quais o Monsenhor Escrivà de Balaguer, fundador da Opus Dei.
Mas será que o «falangista» Oriol caiu mesmo «por Deus e por Espanha», como sugerem a lápide no cemitério e a placa toponímica numa das ruas de Torena (placa que a transição democrática se apressará a substituir)? A história real é muito mais complexa e ambígua do que o mito criado por Elisenda, ao manipular a verdade dos factos a seu bel-prazer, com uma obstinação nascida da fé, sim, mas de uma fé pouco católica.
Involuntário símbolo do fascismo, Oriol só começa a ser redimido quando uma professora, Tina Bros, encontra quatro cadernos escritos pela sua mão, no interior de uma caixa de charutos escondida atrás de um quadro de ardósia, numa escola prestes a ser demolida. Esses textos secretos, dirigidos a uma filha que Fontelles não chegou a conhecer, permitem então iluminar, aos poucos, o denso labirinto de histórias que se foram sobrepondo, durante seis décadas, nas pedras ásperas de Torena, esse lugar marcado por mal-entendidos trágicos e vinganças brutais, onde as divergências políticas criam muros de desprezo entre as famílias e «o ódio cola-se às paredes».
Com uma notável inteligência narrativa, Jaume Cabré nunca perde o controlo das muitas intrigas paralelas, mesmo quando estas se fundem num mesmo parágrafo (por vezes até numa mesma frase), ignorando a tradicional rigidez do binómio Espaço/Tempo. Se é certo que o livro começa por ser uma reflexão sobre o problema da memória colectiva (ainda hoje gerador de crispações na sociedade espanhola), circunscrevê-lo à categoria do romance histórico não lhe faz justiça. Porque As Vozes do Rio Pamano é também uma impressionante saga familiar (sobre os Vilabrú e o seu império económico, que vai da exploração das pistas de ski ao fabrico de roupa desportiva), uma história de amor desesperado, com recorte oitocentista, e um exercício de experimentação literária.
Dos muitos jogos a que Cabré se entrega com visível gozo, destaco um dos mais recorrentes: a adequação camaleónica do estilo da prosa às personagens descritas. Por exemplo, quando Tina fala com uma amiga do filho, adolescente ou quase, o diálogo enche-se de abreviaturas e palavras com «k», sinalizando que a rapariga pertence à geração dos telemóveis, capaz de dizer por SMS o que não diz em voz alta.
Uma última nota para a tradução – magnífica – de Jorge Fallorca, feita directamente do catalão.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Lançamento de ‘As Vozes do Rio Pamano’

Na semana passada, apresentei na Pó dos Livros o magnífico romance As Vozes do Rio Pamano (Tinta da China), do escritor catalão Jaume Cabré. O Jaime Bulhosa filmou tudo e pôs no blogue da livraria um excerto da coisa:

Se não conseguiram perceber nada do que eu disse, não culpem o operador de câmara nem o microfone. O problema esteve mesmo na minha garganta e no incapacitante estado alérgico em que me encontrava naquela quinta-feira, ao fim da tarde.
Com muito melhor som, vale a pena ouvir a entrevista que Cabré concedeu a Carlos Vaz Marques, na TSF.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges