Uma viagem sem regresso

Raga – Abordagem do continente invisível
Autor: J.M.G. Le Clézio
Título original: Raga – Approche du continent invisible
Tradução: Manuela Torres
Editora: Sextante
N.º de páginas: 125
ISBN: 978-989-8093-80-6
Ano de publicação: 2008

No discurso de aceitação do Prémio Nobel de Literatura, proferido em Estocolmo a 7 de Dezembro de 2008, J.M.G. Le Clézio recorreu, quando quis reflectir sobre o lugar do escritor no mundo actual, a um paradoxo de Stig Dagerman: «Aquele que deseja escrever para os que têm fome, e apenas para estes, logo descobre que só os que enchem a barriga se apercebem da sua existência.» Levar a palavra aos excluídos, aos que muitas vezes nem sequer sabem ler, continua a ser uma tarefa particularmente difícil. «Porquê?», perguntou-se o autor franco-maurício diante do rei da Suécia, para logo lembrar: «Os povos sem escrita, como os antropólogos gostam de os nomear, conseguiram inventar uma comunicação total, através de cantos e de mitos. Por que razão isso já não acontece na nossa sociedade industrializada? Será preciso reinventar a cultura? Será preciso regressar a uma comunicação imediata, directa?»
Estas são questões que atravessam o conjunto da obra de Le Clézio, desde os primeiros livros – sobre a dificuldade de viver nas grandes cidades – às sucessivas abordagens a povos que escapam aos paradigmas da civilização ocidental: os índios do Panamá, os herdeiros dos maias no México, os nómadas do Norte de África. Ou os ilhéus da Melanésia, a quem Le Clézio dedica este belíssimo Raga, relato publicado agora, numa magnífica tradução, pela Sextante.
Se África é o continente esquecido, começa por dizer Le Clézio, a Oceania é o «continente invisível», porque «os viajantes que pela primeira vez aí se aventuraram não se aperceberam dela, e porque hoje continua a ser um lugar sem reconhecimento internacional, uma passagem, de certa forma uma ausência». Foi neste não-lugar, nesta imensidão oceânica semeada de ilhas, ilhotas e atóis, que se deu «a mais temerária odisseia marítima de todos os tempos». Isto é, o povoamento ancestral dos arquipélagos do Pacífico Sul, para Le Clézio menos fruto do acaso de ventos e correntes (como quis provar Heyerdhal) do que das navegações de quem sentia a urgência de descobrir um mundo novo para habitar.
Esse mundo ganha forma em Raga, nome nativo da antiga ilha de Pentecostes, nas Novas Hébridas (Vanuatu desde a independência, em 1980), quase dois mil quilómetros a leste da Austrália. É sobre esta «muralha de lava» que o livro nos faz planar, entrelaçando várias linhas narrativas, como as mulheres melanésias entrelaçam as folhas secas de pandano nas suas esteiras (objectos que hoje são tanto um símbolo de identidade cultural como moeda de troca). Uma das linhas narrativas ficciona a «viagem sem regresso» dos primeiros povoadores, enquanto atravessam o mar de piroga e se orientam pelas estrelas. Outras consistem na descoberta física da ilha (um assombro vegetal), na enumeração dos respectivos mitos (recorrendo a quase duas dezenas de fontes etnográficas) e na evocação dos aspectos mais negros da sua História (sobretudo os raptos dos blackbirders, que enchiam os porões de homens condenados à escravatura nas plantações de algodão de Queensland ou nas minas da Nova Caledónia).
Por fim, a fechar este hino à resistência dos povos que não se deixam engolir pela globalização, Le Clézio, fiel a si mesmo, não deixa de fustigar o Ocidente que «ferrou os dentes nos arquipélagos», mais o seu cortejo de colonos, turistas e missionários «vindos para extirpar os demónios e vestir a nudez dos habitantes».

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]

Le Clézio por Assouline

No momento em que publiquei, ontem, os links para as primeiras reacções francesas ao Nobel 2008, Pierre Assouline ainda não tinha escrito nada sobre o assunto no seu blogue, o mais lido e influente da blogosfera literária francófona. Era uma questão de tempo, claro. Umas horas depois, o post apareceu. E começa assim:

«Pour un fois, pas de malentendu ni d’ambiguïté : les académiciens suédois membres du comité Nobel n’ont pas cherché à biaiser en couronnant l’engagement d’un intellectuel à travers un essayiste ou un dramaturge, mais bien un écrivain pour son oeuvre. Rien qu’un écrivain. Juste un écrivain. Du genre romancier, celui “qui se pose des questions”. Ce n’est ni réducteur ni restrictif dès lors que le territoire de la fiction a occupé toute la vie de celui-ci, Jean-Marie-Gustave Le Clézio, 68 ans. Non qu’il ne fût bon qu’à ça (un peu d’enseignement, tout de même), mais il ne rêvait que de ça depuis son plus jeune âge. Tant et si bien qu’on a rarement vu écrivain si dégagé, si retranché, si préservé des miasmes de l’actualité et de la chronique des évènements courants (excepté les débats sur le colonialisme, qui le touchent de près en tant que descendant de Mauriciens blancs). On chercherait en vain son nom au bas des pétitions. Il n’encombre les médias, à reculons et sans hausser le ton, que lorsque paraît l’un de ses livres. Cet homme sans pays natal, mauricien de coeur, de mémoire et de papiers, appartient au paysage littéraire français depuis un demi-siècle. Nice où il est né et où il a vécu n’est qu’une des haltes d’un nomade qui a élu domicile à Albuquerque (Nouveau-Mexique), dans la baie de Douardenez en Bretagne d’où venaient les siens il y a longtemps et même récemment, de manière provisoire, à Séoul où il a enseigné l’écriture et vécu dans une famille. Entre Le Procès-verbal (Renaudot, 1963), son premier roman d’une modernité, d’une force et d’un culot formels remarquables, retrouvés dans La guerre ou Désert notamment, et certains de ses derniers titres beaucoup plus faibles (Ourania, Diego et Frida, Ballaciner), il a été nécessairement inégal. Le dernier épisode de son infini roman des origines vient juste de paraître. Ritournelle de la faim (207 pages, 18 euros, Gaillimard) renoue avec son meilleur mais dans un style moins ardent, gagné par la maturité de l’âge. Une histoire écrite en mémoire d’une jeune fille aux semelles de vents, sa mère-courage en fait, qui fut malgré elle une héroïne à 20 ans, racontée aux accents du Boléro de Ravel à la première duquel elle assista.»

O resto do texto pode ser lido aqui.

Horas antes

J.M.G. Le Clézio falando aos microfones da rádio France Inter, esta manhã.

Citação (2)

«Frida está deitada sob o espelho que lhe devolve a sua imagem imóvel, o rosto encerrado na paz da morte, o frágil corpo vestido como para uma última festa, a saia negra e a longa camisa branca de Yalalag – é assim que surge na última foto feita por Lola Alvárez Bravo na tarde de terça-feira, 13 de Julho de 1954, em que se vê Frida estendida na cama, rodeada dos objectos familiares, o ramo de rosas, os livros de través na estante, as bonecas, as fotos, com essa mosca insolente poisada no seu braço, como se tudo isso não passasse de um sonho, e ela fosse voltar a respirar, a despertar, a recomeçar a viver. Então a Casa Azul entra suavemente na lenda. Lá fora, os cães esperam diante da porta fechada, enquanto uma chuva miúda faz tremular os charcos no jardim silencioso.

Nos últimos tempos, Frida já não saía desta casa, deste jardim. Tinha feito deles uma réplica do mundo, ao mesmo tempo imaginária e enraizada na realidade através dos laços da dor. Para ela, a Casa Azul era como o templo do amor por Diego, que devia durar para lá das vicissitudes da vida, para lá da morte.
Quando Frida partiu, Diego nunca mais voltou a Coyoacán. Quis que a Casa Azul se tornasse não um museu – a ideia teria sido bastante horrível – mas um santuário, uma casa aberta em que cada um pudesse receber um pouco de beleza que emanava de Frida e que impregnara as paredes, os objectos familiares, as plantas do jardim.
Tudo aqui está imóvel, parado como que à espera do despertar da niña

[in Diego & Frida, de J.M.G. Le Clézio, trad. de Manuel Alberto, Relógio d’Água, 1994]

Livros de Le Clézio quase todos esgotados em Portugal

J.M.G. Le Clézio tem seis livros traduzidos no nosso país: Deserto e Estrela Errante (ambos na Dom Quixote), O Processo de Adão Pollo (Europa-América), Diego & Frida (Relógio d’Água), Índio Branco (Fenda) e O Caçador de Tesouros (Assírio & Alvim). Como se explica aqui, quatro destes títulos estão esgotadíssimos (e dois deles até fora de catálogo). Sobram exemplares, poucos, de O Caçador de Tesouros e de Diego & Frida, mas é óbvio que todas estas obras vão ser rapidamente reeditadas.
Já agora, que alguém se chegue à frente e aproveite para traduzir o último livro do escritor, lançado este mês em França pela Gallimard: Ritournelle de la Faim. Críticas ao romance (de tom autobiográfico) aqui, aqui e aqui. Conversa com o escritor aqui.

“Muito emocionado e muito sensibilizado”

Eis como reagiu Le Clézio ao anúncio do Nobel, em entrevista a uma rádio sueca.

Primeiras reacções em França ao Nobel de Le Clézio

Jornais: Le Monde, Libération, Le Figaro.

Blogues: Bibliobs (que publicou logo um dossier especial), Liminaire, e La République des Livres (Pierre Assouline ainda não escreveu nada mas os seus leitores já festejam aqui).

Prémio Nobel para J.M.G. Le Clézio

O Nobel de 2008 não foi para Philip Roth nem para nenhum outro dos vários norte-americanos nobelizáveis, como já se previa. Foi para J.M.G. Le Clézio. O último escritor francês a ganhar o prémio tinha sido Claude Simon, em 1985.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges