Dois poemas de Joan Margarit

ESPACIO Y TIEMPO

Y de pronto la casa es demasiado grande.
Tu madre y yo vaciamos tus armarios
y seguimos por mesas y anaqueles,
de retrato en retrato, tus sonrisas.
De noche los espejos, bajo la luz eléctrica,
muestran con más relieve tu vacío.
Los muebles son ahora más oscuros.
Por la escalera bajan la cálida baranda,
que aún recuerda tu pequeña mano,
y los peldaños que aún sienten
el roce de tus pasos. Y la casa,
grande y vacía ahora,
a su propio silencio mira y mira.

UN CUENTO

No digas nada, Joana,
tan sólo escúchalo y no digas nada.
Íbamos caminando en la lluviosa
mañana por el pueblo adormecido,
entrábamos despacio
por una larga calle de adoquines
que no llevaba hacia ninguna parte.
Los niños nos llamaban con canciones
para acercarnos al canal, que viésemos
su casa reflejándose en el agua.
Te gustaba, ¿recuerdas?,
ver a los niños. Al marcharnos
quedaban sus caritas pegadas al cristal,
sus voces apagándose en el agua.
Llegamos tarde. Demasiado. Tanto,
que siempre volveremos separados:
ese es el precio por haber podido
entrar dentro de un cuento.
Y qué suerte encontrarte ahora aquí,
de madrugada, convertida en patio:
esto quiere decir que todo el tiempo
estabas junto a mí en la oscuridad

[in Joana, Hiperión, edição bilíngue (catalão e castelhano), 2008]

‘Catalunha em Pó’

Fármaco para hoje (a partir das 18h30, na livraria Pó dos Livros): Casa da Misericórdia, de Joan Margarit (OVNI). Estarão presentes Rita Custódio e Àlex Tarradellas (tradutores) e Álvaro Góis (editor).

Um microsite para Margarit

A OVNI é uma microeditora que faz microsites para os seus autores. O de Joan Margarit merece uma visita. Entre informações úteis sobre a sua vida e obra, há um ficheiro áudio em que Margarit lê o poema Tres Dones (do livro Càlcul d’estructures). Vale também a pena visitar a página oficial do poeta, com textos em catalão, castelhano e inglês.

O javali e a orquídea

Casa da Misericórdia
Autor: Joan Margarit
Título original: Casa de Misericòrdia
Tradução: Rita Custódio e Àlex Tarradellas
Editora: OVNI
N.º de páginas: 156
ISBN: 978-989-8026-07-1
Ano de publicação: 2009

Num poema intitulado O Procurador de Orquídeas, o catalão Joan Margarit explica que começou «pelo lugar mais sujo da literatura»: nem mais nem menos do que o Mein Kampf, com as «palavras de Hitler, tão vulgares», a revelarem «um poço negro». Seguiu-se um acaso feliz:

Por sorte, choquei com a realidade.
Foi aí que começou a poesia,
nada fácil, sem esperanças.
Eu sempre fiz como o javali,
que busca e, delicado, escolhe e come
o bulbo, chamado
orquis, da orquídea.

Estamos, pois, diante de um autor que assume uma visão pouco lírica da poesia, mais preocupado com as raízes, cheias de terra, do real do que com as flores perfeitas da retórica. «Nada é poético na poesia», diz-se algures neste belo e magoado livro, mas a verdade não é tão simples, porque mesmo nos textos mais duros e desolados, mesmo nos versos com arestas cortantes, o lirismo irrompe, às vezes apenas no contorno de uma imagem surpreendente («dentro de nós, como dentro da música, / rugia o temporal de neve e ferro / que se desata quando a história passa a página») ou na justeza de versos como estes: «Ser velho é a guerra já ter acabado. / Saber onde estão os refúgios, agora inúteis.»
Além das marcas da História, do frio e fome da infância em contraponto com a miséria de hoje («que nem sabe que é miséria»), os poemas lidam sobretudo com a solidão da idade e com a certeza amarga das ausências: a do pai («Não sei se agora nos entenderíamos, / dois homens velhos, cansados e desiludidos»), mas sobretudo a da filha morta, Joana, fantasma que assombra muitos dos poemas com um rasto de tristeza lancinante — cf. as páginas 19, 29, 37, 47, 65, 81, 83, 89, 93, 103, 109, 113, 123, 129. Eis um deles (o da página 123):

BAGAGEM

Quando vamos de viagem, eu e a tua mãe
fazemos as malas em cima da tua cama.
A roupa bem dobrada, os
necéssaires,
os livros, bilhetes e medicamentos,
espalhados mas em ordem.
Todas as viagens começam aqui,
neste espaçoso quarto íntimo
que pintámos de um fúcsia suave
ao saber que tu nunca mais voltarias.
O quarto ganhou raízes que, pouco a pouco,
se tornam profundas dentro da tua ausência.
Fazemos as malas para um comboio nocturno.

A memória «vai-se desfiando / como as cordas laceradas das barcas / que o temporal levou». É precária, sim, mas é também um esconderijo — como essas Casas da Misericórdia que acolhiam os órfãos da Guerra Civil Espanhola, os filhos dos fuzilados, lugares agrestes mas ainda assim menos agrestes do que a «intempérie». Lugares que Margarit compara à poesia, isso a que nos agarramos quando «não há mais nada», sabendo que «um bom poema, / por mais belo que seja, tem de ser cruel».

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Cinco poemas de Joan Margarit

CASA DA MISERICÓRDIA

O pai fuzilado.
Ou, como diz o juiz,
executado.
A mãe, a miséria e a fome,
a instância que alguém lhe escreve à máquina:

Saludo al vencedor, Segundo Año Triunfal,
Solicito a Vuecencia deixar os filhos
nesta Casa da Misericórdia.

O frio do seu amanhã está numa instância.
Os orfanatos e hospícios eram duros,
mas ainda mais dura era a intempérie.
A verdadeira caridade dá medo.
É como a poesia: um bom poema,
por mais belo que seja, tem de ser cruel.
Não há mais nada. A poesia é agora
a última casa da misericórdia.

***

SATURNO

Rasgaste os meus livros de poemas
e deitaste-os para a rua pela janela.
As folhas, como estranhas borboletas,
iam pairando por cima das pessoas.
Não sei se agora nos entenderíamos,
dois homens velhos, cansados e desiludidos.
De certeza que não. Deixemo-lo assim.
Tu querias devorar-me. Eu, matar-te.
Eu, o filho que tiveste durante a guerra.

***

VOZES DE CRIANÇAS

O amanhã nos meus olhos é de um cinzento triste,
é uma teia de luz cansada
onde recordo quando iam dormir.
Ainda lhes leio naquele quarto,
debaixo da lâmpada ao lado da cama,
os contos com capas duras de cores brilhantes.
De súbito, em alguma madrugada,
ouço uma criança que me chama e incorporo-me,
mas não há ninguém, só um velho
que ouviu o rumor da memória,
um leve fragor de ar na escuridão
como se uma bala atravessasse a casa.
Ao apagar a luz guardava um tesouro.

***

SHOSTAKOVICH. SINFONIA “LENINGRADO”

Lembras-te? A Joana tinha morrido.
Tu e eu íamos de carro para o norte,
até ao apartamento em frente ao mar,
e ouvíamos esta sinfonia.
Começámos a viagem
numa manhã luminosa. No interior da música,
o dia era de muros cobertos de gelo,
sombras de transeuntes com sacas meio vazias
e trenós com cadáveres sobre o lago.
Como uma pista de aterragem ao sol,
a auto-estrada fugia e, através dos sons,
estendia-se a névoa dos obuses
e as impressões dos tanques na neve.
Era uma manhã de Julho de ouro azul
a lampejar no vidro do mar.
Nos metais e cordas ressoava
a glória, que está sempre no passado,
recusando, sempre recusando, a vida.

De noite ficava apenas o rumor
das ondas debaixo do terraço.
Por outro lado, dentro de nós, como dentro da música,
rugia o temporal de neve e ferro
que se desata quando a história passa a página.

***

O SAPATEIRO

Costumávamos jogar ali à bola.
A praça da igreja erguia-se
uns dois metros acima de umas pequenas hortas
que estavam ao lado de um sapateiro.
Quando a bola caía, algum dos nossos
tinha de ir rápido dependurando-se.
Se o sapateiro chegava lá antes,
cortava-a com o seu cutelo.
Não sei que pescoço cortava na bola
de borracha daquelas crianças. Dava-me medo.
Um medo que já não era o mesmo
que o dos contos ou do quarto escuro.
Era um medo mais duro. Mais real.
Como quando tu estavas com outro,
ou quando morreu a nossa filha.

[in Casa da Misericórdia, trad. de Rita Custódio e Àlex Tarradellas, Ovni, 2009]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges