Três poemas de Joana Serrado

‘Doem-me os cafés da minha cidade
os que fecham ao domingo
os que fecham para obras
os que fecham para férias
os que fecham indefinidamente

os que fecham por fechar
os que não precisam de fechar e se trespassam trespassando-me.

Sei que vou morrer com eles, sei que vou morrer sem eles.

Sei que o teu corpo é um corpo perecível, corruptível.
Sinto a tua morte nos meus ossos e não consigo salvar-te.
A tua frigidez, a tua alvura apodrecida
a maneira como os teus maxilares se adormecem um no outro.

Só o perfume das violetas que brotam do teu corpo me faz acalmar.’

in Autonecrografia de uma Península

Dói-me a cidade que escolhi para morrer.
Não tenho lugar para escrever um poema de amor.

***

BOXES

Vejo do topo das escadas os 140 lugares indisponíveis
para as palavras de amor.

Como o que eu procuro não se encontra catalogado
ando aqui por cima,
entre o gás
as nuvens
e os pequenos sofás verdes
à espera de entrar.

Encontro o meu lugar vago
todos os lugares vagos com livros que ninguém lê.

***

OS ESTATUTOS DO AMOR

1. (Direito à Possibilidade)
Que todo o abraço seja tão contundente como o teu olhar.
Que todo o olhar seja tão emergente como a tua palavra.
Que toda a palavra seja tão urgente como a tua mão nos meus cabelos.

2. (Direito ao Espaço e ao Tempo)
Que haja tempo em bloco e não ruptura de tempo.
Que a minha ilha seja teu porto e teu porto nos seja santo.
Que a comunhão se faça tanto no beijo como no silêncio.

3. (Direito à Fecundidade)
Que do teu umbigo nasçam flores com seiva de primavera.
Que eu possa viver do seu perfume e sobreviver à sua acidez sem as desflorar.
Que o prazer não precisa de extrema-unção mas que a unção do prazer seja extrema.

4. (Direito à Perfeição)
Que a palavra “amor” nunca seja proferida em vão.
Que o amor venha já feito, perfeito e não por fazer.

[in Guarany, 4Águas Editora, 2012]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges