João Aguardela (1969-2009)

Esta apanhou-me desprevenido. A morte aos quase 40 anos é sempre de uma violência que nos esmaga.
O João Aguardela, em palco, parecia um feixe de energia. Disso eu lembro-me. Um corpo completamente à mercê da música, do seu poder transfigurador. E é transfigurado que o recordo, quer nos tempos da permanente aceleração (Sitiados), quer nos modos mais suaves do projecto A Naifa.
Em rigor, não posso dizer que o conhecia. Meia dúzia de frases trocadas num camarim, no final de um concerto, não permitem conhecer ninguém. Mas agora que penso nesse encontro tão breve, nos bastidores do Maria Matos, em 2004, consigo ver o sorriso e o movimento do queixo, «A sério? Gostaste mesmo?», quando lhe disse que apreciara muito a canção que ele e Luís Varatojo fizeram de um poemeto meu, publicado há muito tempo na revista Bíblia.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges