João Aguiar (1943-2010)

Morreu hoje, vítima de cancro, o escritor João Aguiar. Revelado em 1984, com o romance histórico A Voz dos Deuses, nunca deixou de ter os favores do público (mais do que os favores da crítica). Cruzei-me com ele algumas vezes. Recordo a sua bonomia, uma certa delicadeza galante, os ditos de espírito por entre o fumo do cachimbo.
Há uns 20 anos, a tertúlia de quase imberbes colaboradores do DN Jovem a que eu pertencia costumava gozar com uma frase que Aguiar dissera, creio que numa entrevista: «O objectivo do escritor de ficção é imitar a fogueira à volta da qual os nossos antepassados se reuniam, para ouvir histórias» (cito de memória). Para nós, aquela era uma visão redutora da literatura. A ficção serve para muito mais do que apenas contar histórias perfeitinhas, com princípio, meio e fim.
Entretanto, deixámos de ser imberbes e alguns de nós ainda hoje gozariam com a frase (outros talvez não). A fogueira de Aguiar, essa, apagou-se. E ele já nem teve tempo de concluir um livro que andava a escrever sobre a crise de 1383-1385.

João Aguiar troca LeYa pela Porto Editora

O romancista João Aguiar anunciou que vai publicar os seus dois próximos romances na Porto Editora, única forma de “continuar a trabalhar” com Manuel Alberto Valente, o ex-director-geral da Asa que o foi buscar à Dom Quixote e o acompanhou durante 18 anos. Além de Aguiar, consta que Valente vai conseguir roubar alguns nomes fortes do catálogo internacional da sua antiga editora, como Luis Sepúlveda e Paul Auster. Resta saber se, no universo de autores da LeYa, estas serão fugas pontuais ou o início de um êxodo.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges