Três poemas de João Miguel Fernandes Jorge

PEQUENOS VIDROS AZUIS

Cobria a mesa com velas acesas
a macerada tarde do mês último —
e escrevia em rectângulo
de papel bem aparado,

depois rasgava. Todos o podiam ver
sentado a essa mesa no cimo do parque,
a casa,
o vidro azul da janela

canal de água a par do caminho. Foi
quando surgiu o levadeiro
— as velas de um sopro apagou —
caía a água na extensão da rocha

no perfume magoado de dezembro
entre o rumor do vento
a sombra não se movia nem se prendia ao
traço do corpo, não imitava os gestos

em doce modo apagou todas as velas
ao que escrevia sem qualquer sentido
ao muro branco do nevoeiro
a última folha da faia rubra prendia a

vazia escrita do desejo, seguia-o
com o passo de um ladrão e o tremor
de quem falta a secreto juramento.

***

ESCHSCHOLZIA

Além naquele requebro sobre o mar, ao passar o pinhal
e os cálices brancos da esteva (tão grandes nunca assim os vi
no continente) está o chão de amarelo Chamisso. É a eschscholzia.
Semelhante à vulgar papoila
se não fôra o amarelo intenso
sobre o mar da ilha
estremece ao menor sopro de vento
ferida de pele queimada que recorda vencedores e derrotados no plaino de [Waterloo.

Pôs o chapéu de palha e levou-me pelo caminho da casa velha,
acachorrada, campestre. Em voz medida, a flor do acaso
rente ao passar — eufórbia, trevo rosa, artemisa,
o azul da chicória, a sombra desenhada da bardana, o
caminho do herbário. Na despedida,
não sei porque me disse em castelhano Y
las más de las veces la excelencia
sólo está en los mimados por los dioses. O obscuro azul da noite
descia, triste cravo de bronze sobre a leal flor
do linho que vinga sem cuidado.

***

OS AMARELOS DE NOVEMBRO

Não tem palavras a minha canção preferida. Tem antes
os amarelos queimados de novembro. Gosto de gente antiga e
obscura, gente culpada, jovem ou envelhecida para
quem a vida não passa de um contínuo de sombra
por isso sei abraçar por isso partem sem regresso.
Sombras que surpreendo — não quebres não
estragues o amarelo de novembro.

E aquele que está sentado à nossa frente é entre
todas as coisas
a ideia mais perfeita, a mais real, a mais sólida.
No instante seguinte nada sabemos.
É assim o nosso modo de ser e a própria
condição do amor. Destruir,
riscar até desaparecerem os amarelos de novembro.

[in Lagoeiros, Relógio d’Água, 2011]

Três poemas de João Miguel Fernandes Jorge

MAR DE SETEMBRO / OSTINATO RIGORE

Sobre a mesa os dois livros. Somente um
volume do “Mar de Setembro”, mas do “Ostinato
Rigore”, três exemplares. O meu, o do Manuel, o
do Joaquim. No final do dia ainda se juntaria

um outro, o do José Manuel Bulhão Martins.
Comprados nessa manhã na Guimarães; os três
decidiam-se pelo novo título, eu permaneci fiel,
até hoje, ao mar de setembro. Nenhum deles tinha

a minha relação com o mar, por isso viam no
verso de Eugénio um jovem a trabalhar a terra
vermelha do verão – o seu tronco, o vigor da argila vermelha do verão
mas o mar de setembro dava-me o melhor nadador
de agosto, o que perseguia desde maio até às marés vivas
o apelo absurdo da beleza
o espaço de tempo de um relâmpago

«com o rosto para sempre perdido / com o sorriso e
a sua tez dourada» algum de nós disse, mas nenhum
o chegou a escrever nas folhas que se espalhavam
sobre as mesas de fórmica.

***

CASTELO DE AGROMONTE

À distância da alta janela
era uma mulher sem idade. Estou em crer
era ainda rapariga
sob a trovoada e a chuva
seguia por entre os jazigos – góticas
capelas imperfeitas –
ia pelo caminho de saibro
ao encontro dos amados mortos. Abriu a torneira, a água
correu, lavou a jarra,
água para amarelos crisântemos. Água
límpida para os seus amados mortos
em véspera de todos-os-santos (amanhã é feriado,
reclamam-na os vivos
bem menos amados – dos vivos não pode dizer “seus” não
pode pousar
sobre a pedra branda dos leitos
a jarra, roxos crisântemos amarelos)

– Como se chama o cemitério, além
– Agromonte, senhor

***

OS DIAS DE BRUEGEL

Os campos estão lavrados, mesmo sob a
neve do inverno permanecem
estendem o horizonte de terra fértil e a ave
marinha voa sobre o íris amarelo

estão armados os cavaleiros d’áustria e de
filipe segundo, rei espanhol,
massacram os inocentes, o sentido das vidas
a história de imaginada Flandres

dão o passo sobre a branca paisagem os
caçadores, desliza na água do degelo
uma barca de improviso, mas logo

desce de novo a luz do outono sobre a aldeia e o
silêncio, cor do inverno. (Acontece,
há caminhos mais longos do que
outros. O destino a que

é suposto chegarmos está desenhado à
partida. Desculpa ser tão bruto – o destino,
triunfo da morte.)

[in Sobre Mármore, Teatro de Vila Real, 2010; por motivos de formatação, os itálicos destes poemas, em vez de passarem a redondo, foram substituídos por aspas]

O fogo por vários dias

mae-do-fogo

Mãe-do-fogo
Autores: João Miguel Fernandes Jorge (texto) e João Cruz Rosa (desenhos)
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 65
ISBN: 978-989-641-134-3
Ano de publicação: 2009

Nestes 25 novos poemas, completados por uma série de desenhos de João Cruz Rosa (a tinta-da-china sobre papel feito à mão), João Miguel Fernandes Jorge prossegue a sua linha estética de grande rigor e austeridade, pontualmente iluminada por efusões de um lirismo que nunca abandona um recorte clássico. Como sempre, há poemas que se inspiram nas artes visuais (a pintura de Rembrandt; uma fotografia de Ed van der Elsken) e outros que captam a natureza epifânica das coisas mais simples: o melro que bebe de um prato de barro com «água a rasar», uma capela, a «ondulada lâmina // do desejo» que «desarma o corpo», o licor de leite filtrado gota a gota, os «cambiantes» cromáticos dos medronhos maduros.
Se o título do livro faz alusão ao «toro de madeira branca que sustenta o fogo por vários dias», arrisco dizer que a «mãe-do-fogo» deste conjunto de poemas é a memória («talvez / não se possa fazer mais nada na vida senão / recordar»), uma memória onde cabe tanto a evocação da pedra de mármore onde o pai, farmacêutico, pousava a espátula, como a experiência de visitar, aos nove anos, um doente moribundo e ouvir o «estranho rumor» da sua agonia. Também há pequenos vínculos simbólicos entre os poemas (num, a maçã vermelha do ramo mais baixo comida por uma ovelha; noutro, a maçã do ramo mais alto à mercê do bico preto do corvo) e densas meditações sobre a paisagem, ou as ruínas da ausência.
O tom da escrita, esse, nunca esconde a amargura, nem a nostalgia de um mundo aldeão em vias de desaparecimento, como o descrito no início do poema XIII (pág. 24):

Tenho para mim neste derrotado começo de século
neste farrapo de país em que a própria língua virá em
breve a ser idioma secreto
e a quem ninguém chamará pátria nem tão-pouco
nação, apesar da vigilância sobre a nossa existência
ser matéria autocrática e clerical,

tenho para mim que nesta geografia
a casa rural é a expressão mais pura que sobrevive

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no número 87 da revista Ler]

Dois poemas de João Miguel Fernandes Jorge

Chamava-se Tito. Deu-lhe colar
de ouro, pele de raposa, boina de veludo vermelho.
Não te preocupes com o castanho olhar
única seta, único golpe, ferida

sobre a terra. É um dos vivos.
A prece lançou sobre ardente pedra

suspensa de um fio –
a luz, a casa entre muros.
Vã esperança aproxima o perigo a
cruel extremidade a claridade do dia
abre o holocausto da manhã.

Humilde, esvaído
as mãos, os trespassados pés, estirados os membros
rubro coração
rio de esperma dolente e desolado.

***

titus
Titus, o filho do artista, de Rembrandt van Rijn (1655)

***

«Tito, o filho de Rembrandt», disse o velho padre e
fazia o sinal-da-cruz e dobrava o joelho
quer em dias de paz e calor e vida quer
de tempestade ou de morte –
rondava em círculo e ceifava rente

onde passava a estrada real, a ponte, pedra a cair
ondulavam as ervas ao menor vento.
Pelo fim da aldeia
ia ao encontro do semeador – labaça negra
no maior mês do verão –
guerrilha táctil, os dedos
não para gostar como todos os outros
chegava para o amor, perfilado archeiro, soldado
da batalha que regressa e reconhece o único soberano, a

prece as oferendas que lhe são devidas
devotado, pérfido mortal.
Vê os lábios do barbeiro a cada passagem da navalha
e vai pelo sono da noite
a par do selvagem licorne recolhe o injusto lucro do dinheiro

Eros cunhou a sua própria moeda, livrou-o do engano –
mancha rósea, pétala de rosa flutua – começa a descer
desliza sobre o gelo de janeiro, aproxima-se agora a
passo de ferro
o fumo lá em baixo
cidade com as suas casas, estrada, palácio, profunda praça

ilegível. Nome escrito ao avesso
indiferente voz desse nome no ar gelado
sem qualquer som a voz nem os olhos
olhar. Sentiu as lágrimas, mas não devia chorar; a chuva
pelo estreito vidro da janela

[in Mãe-do-fogo, Relógio d’Água, 2009]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges