Cinco fragmentos felinos de João Paulo Cotrim

A minha gata faz-se equilibrista em mim.
Ainda não caiu, mas guardo a memória
dos arranhões.

***

A minha gata sabe ser só um olho, rente ao chão,
ao dobrar de uma esquina. E de nada faz uma
esquina.

***

A minha gata enche-nos de pêlo.
Acha estranho que, pertencendo à
mesma família, tenhamos tão pouco.

***

A minha gata abre as garras como navalhas
em flor. Sabe fazê-lo surgindo do nada.

***

A minha gata não dorme nunca sem deixar
activa uma pequena orelha trémula, periscópio
das sonolências. E o meu olhar não a protege,
incomoda-a.

[in A minha gata, Companhia das Ilhas, 2012]

Crónica de uma orelha perdida

O Branco das Sombras Chinesas
Autores: João Paulo Cotrim e António Cabrita
Ilustrador: João Fazenda
Editora: Abysmo
N.º de páginas: 78
ISBN: 978-989-97448-0-6
Ano de publicação: 2011

No verão de 2001, João Paulo Cotrim e António Cabrita assinaram no Diário do Notícias um «folhetim a meelas». Escrita a prestações, a «noveleta», com os repentes e solavancos próprios de quem não sabe muito bem para onde seguir, era uma daquelas histórias encomendadas que os jornais de vez em quando se lembram de oferecer aos seus leitores nos meses mais quentes, em parte para desenterrar uma tradição oitocentista, em parte para fintar a falta de notícias e a trivialidade da silly season (entretanto extinta – e muito bem – por uma crise que não está para brincadeiras).
Agora, passada «uma década de misérias», os autores voltaram ao intempestivo «divertimento rabelaisiano» e perceberam que «não se esgotava na paródia e exibia ainda alguma energia genesíaca», motivo mais do que suficiente para o reabilitar das «traças da memória». A edição é cuidada (bom papel, cadernos cosidos), inclui magníficas ilustrações de João Fazenda e marca o lançamento auspicioso de uma nova editora: a Abysmo (com ‘y’, que «escrevê-la com i latino é fechar a boca do abysmo, é transformá-lo numa superfície banal», como avisou Teixeira de Pascoaes).
Ora, justamente, em O Branco das Sombras Chinesas nada é banal. Nem o enredo, que mete orelhas perdidas, tráfico de arte, malandrins e galdérias, esquemas de corrupção, sovas épicas, crimes ambientais e uma fantástica chuva de símbolos comunistas; nem as personagens, desenhadas a traço grosso mas firme, em precioso contraluz; nem sobretudo a linguagem, toda ela um primor de invenção e risco, ora delirante, demorada, barroca, como que à deriva, ora capaz de cortar rente e desembrulhar a trama quando é preciso.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges