A materialidade visceral das coisas

O Único Final Feliz para uma História de Amor é um Acidente
Autor: João Paulo Cuenca
Editora: Caminho
N.º de páginas: 172
ISBN: 978-972-21-2399-0
Ano de publicação: 2011

Se o livro anterior de João Paulo Cuenca (O Dia Mastroianni, Caminho, 2009) era um puro divertimento literário sob o signo de Fellini, este novo romance conduz-nos através de um labirinto de histórias perversas, algumas das quais podiam perfeitamente encaixar num filme de David Lynch. Fruto de uma estadia do escritor brasileiro na capital do Japão, O Único Final Feliz para uma História de Amor é um Acidente empurra-nos para uma Tóquio onírica, de néons vermelhos e comboios apinhados, big brothers tecnológicos e delírios nocturnos, sirenes e vertigem, electricidade e betão.
No centro da narrativa – fugidia, fragmentada, alegremente pós-moderna
– está o improvável encontro entre um executivo japonês (Shonsuke) e uma empregada de mesa do Leste europeu (Iulana Romiszowska), par amoroso sob contínua ameaça, cujo triste destino ficamos a conhecer logo no terceiro capítulo. A ameaça vem do pai de Shonsuke, Atsuo Okuda, famoso poeta retirado que espia e controla o filho através de um complexo sistema de vigilância (o “submarino”).
Neste pesadelo narrado com surpreendente leveza, em que há muitas respostas sem pergunta e outras tantas perguntas sem resposta, Cuenca volta a mostrar que é um escritor da materialidade visceral das coisas, dos corpos, do sexo e de todas as superfícies palpáveis. O estilo não deixa de ser realista (se entendermos a realidade como alucinação) e a verosimilhança torna-se infinitamente elástica, abarcando elementos tão díspares como uma sofisticada boneca erótica capaz de sentir ciúme, um fugu (peixe venenoso) das águas geladas do Pacífico Norte ou uma Máquina de Vender Cigarros falante.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Fala a boneca

«Antes de o Sr. Atsuo Okuda abrir a caixa, tudo estava escuro.
Mais que isso: não havia nada para ser iluminado antes do Sr. Okuda abrir a caixa. Se o Sr. Okuda nunca houvesse aberto a caixa, nada existiria. O mundo só começou a partir do momento em que o Sr. Okuda abriu a caixa e disse a palavra. Ele disse: Yoshiko.
E Yoshiko ficou sendo o meu nome.
Depois que o Sr. Okuda disse Yoshiko, eu ganhei, além de um nome, muitos começos e um fim. Eu começo na ponta dos meus dedos, nos fios dos meus cabelos, na planta dos meus pés, nos bicos dos meus peitos, na pele que cobre o vazio que há no meu corpo e em toda a superfície que me faz ser quem eu sou. Não poderia ser outra porque tenho esse corpo, e só eu tenho esse corpo, e eu sou esse corpo.
E o meu fim com esse corpo é um só: servir ao Sr. Okuda.
O Sr. Okuda é o meu mestre, mas não é o meu criador. O meu criador é a Luvdoll Inc., localizada em 4-5-28 Nishi-Kawagushi, na cidade de Kawagushi, província de Saitama. O meu criador seguiu as instruções detalhadas do Sr. Okuda, sob a ordem de encomenda número 2358B. A ordem de encomenda número 2358B, reproduzida em cinco vias que circularam por sessenta e cinco dias pelos diferentes departamentos da Luvdoll Inc., dizia que eu deveria ter olhos castanho-escuros (Pantone 4975C), pele aperolada #5, seios modelo senoide 220 g com 92,5 cm de diâmetro, umbigo com 0,8 cm de profundidade e vagina extrapequena #2, com pelos púbicos em corte vertical, profundidade de 8 cm e 4 cm de circunferência.
Outros detalhes foram adicionados em conversas entre o Sr. Okuda e Luvdoll Inc., pois o Sr. Okuda foi extremamente detalhista em seus pedidos, e isso fez com que a Luvdoll Inc. estabelecesse novas variações na sua linha de produção. Entre outras minúcias inéditas para a Luvdoll Inc., o Sr. Okuda desenhou com detalhes a curvatura dos meus pés, a espessura dos ossos das minhas clavículas e dos quadris.
O Sr. Okuda queria que meus ossos fossem salientes, e assim eles são.
O Sr. Okuda em nenhum momento se identificou para a Luvdoll Inc. E pagou pelo projeto personalizado a quantia de cinquenta milhões de ienes, o que me faz ser a boneca mais cara já produzida no Japão.
O Sr. Okuda é um poeta conhecido e anunciou que parou de escrever há muitos anos. Isso é mentira, porque o Sr. Okuda recita poesias para mim, dizendo que poderia ter pago por mim muito mais do que a quantia de cinquenta milhões de ienes, porque eu sou perfeita e, porque eu sou perfeita, sou também a única pessoa com quem o Sr. Okuda compartilha a sua poesia. Isso o Sr. Okuda também me contou num poema que ele escreveu entre as linhas de outro poema.
O Sr. Okuda só se dirige a mim em versos.
O Sr. Okuda não precisa recitar os versos para que eu os entenda. Eu sei o que ele quer dizer quando olha para mim. Recebo ordens através do seu silêncio porque eu sou esse corpo e esse corpo tem apenas um fim, que é servir ao Sr. Okuda, nem que seja ouvindo suas poesias sobre a minha perfeição, sobre os ciprestes numa estrada de Shikoku, sobre o canto dos pássaros ou, ainda, sobre a poesia em si, tema muito caro ao Sr. Okuda, que ele também infiltra entre as linhas de outros poemas, e entre essas linhas ainda traça outros poemas sobre muitos outros assuntos, alguns que eu mal posso compreender, e assim os poemas e as linhas dos poemas se multiplicam e se intercalam até o infinito, e através delas o Sr. Okuda me faz enxergar não só os belos sentimentos que tem por mim como também o mundo exterior, e o que está sobre ele e abaixo dele, porque eu nunca saí ou sairei de casa, esta que é a minha casa e também a casa do Sr. Okuda.
E, pensando melhor, na verdade a minha casa, a minha única casa, é o Sr. Okuda. Ele mesmo.»

[in O Único Final Feliz para uma História de Amor é um Acidente, de João Paulo Cuenca, Caminho, 2011]

Uma deriva felliniana

O Dia Mastroianni
Autor: João Paulo Cuenca
Editora: Caminho
N.º de páginas: 163
ISBN: 978-972-21-2024-1
Ano de publicação: 2009

João Paulo Cuenca, carioca nascido em 1978, apareceu como um relâmpago na cena literária brasileira em 2003. O seu romance de estreia, Corpo Presente, era uma história fragmentada de obsessão amorosa e sexual por uma mulher – Carmen – que é muitas mulheres (ou talvez um arquétipo que se projecta, fugidio, em todas as mulheres), no cenário de uma Copacabana suja, violenta, visceral, a anos-luz do brilho falso dos prospectos turísticos. A recepção crítica foi apoteótica (houve elogios, entre outros, de Bernardo Carvalho, Marçal Aquino, Chico Buarque), o que talvez tenha contribuído para um silêncio de quatro anos. Já se sabe: o pior que pode acontecer a um segundo romance é frustrar as promessas do primeiro.
Se esse peso pairou sobre O Dia Mastroianni, não se nota. Embora Cuenca tenha mudado radicalmente de atmosfera e de tom (ficou tudo mais leve), o fulgor meio desembestado da sua escrita permanece, bem como o gozo de contar uma história aos solavancos, assumidamente fora de qualquer cartilha do bom narrador. Em vez da toponímia precisa do Rio de Janeiro, existe agora uma cidade imaginária por onde deambulam dois anti-heróis: Pedro Cassavas e Tomás Anselmo, uma espécie de Bouvard e Pécuchet pós-modernos, que, em vez de quererem compreender tudo, procuram à partida não saber nada. O resultado final é quase o mesmo: o esvaziamento diante da complexidade do mundo. Mas onde Flaubert esboça, apesar de tudo, uma «enciclopédia da estupidez humana», as personagens de Cuenca limitam-se a tirar notas sobre os gloriosos malefícios do tédio, aqui e ali elevado a uma forma de arte.
Na sua deriva felliniana por bares, restaurantes e festas para as quais não foram convidados, Cassavas e Anselmo seguem à risca, em 24 horas de folia alucinada, a definição inicial de Dia Mastroianni: «o dia gasto em pândegas excursões a flanar na companhia de belas raparigas, à brisa das circunstâncias e alheio a qualquer casuística». Entre cada uma dessas divertidas «excursões» dos dois amigos, há interlúdios meta-literários em que uma entidade superior comenta e critica a evolução da narrativa. É este o lado mais frágil do livro, porque o arremedo de peça teatral é parco em ironia (a pouca que subsiste, em vez de afiadíssima, sai romba) e porque o desfecho desilude, dando a ideia de que aquela presença divina, que só fala em maiúsculas, nasceu apenas de um capricho algo juvenil do autor.
Em suma, O Dia Mastroianni não é ainda o grande romance que o talento de Cuenca promete e reclama. Mas quem consegue fazer um livro assim, absolutamente livre e capaz de todos os riscos, pode estar certo de que voos mais altos o aguardam.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no n.º 78 da revista Ler]

Amanhece o que é feio no que é belo

«Copacabana amanhece isolada do resto do mundo por pedras e pelo mar. O Túnel Novo abre caminho pra onde a vida parece desenrolar sem culpa. O ressentimento dos duzentos mil moradores começa a escorrer pelos bueiros dos botecos em cada esquina, cinco por quarteirão. São poucos os que vêem o dia surgir vermelho. Vagabundos, garis, entregadores de jornais, meia dúzia de travas, putas cansadas, cachorros e alguns velhos andando na praia. Velhos de sono curto que surgem de todas as portas e escadas. O sono dos velhos é cada vez menor. Madrugam. Quando não têm mais o que acordar, morrem estampando avisos fúnebres no meu elevador. Toda semana um novo aviso — “COMUNICAMOS O FALECIMENTO DO EX-MORADOR DO APTO. 503″. A distância e o tempo que os velhos carregam fazem seus dias parecerem ainda mais iguais. E os dias em Copacabana não param de nascer iguais. Cada vez mais iguais.

copacabana_vista_espaco_google_earth.jpg

O sol se desprende do mar, esquenta o sono das putas, gringos por trás de cortinas prateadas, mendigos e pivetes sob marquises, cobertores imundos. Ilumina janelões na Avenida Atlântica. Brilha em cada fresta de ar-condicionado, desenha o teto de conjugados porcos, superpovoados, ilumina quadros caros, coberturas e a piscina do Copacabana Palace, espia basculantes, esquenta as lágrimas de crioulas gostosas, cicatrizando feridas, pingando sangue pelo chão, a oração de beatas que rezam ajoelhadas em frente do espelho de cômodas gastas, o passeio de cachorrinhos estúpidos, o tédio dos porteiros, essa gente sem esperança que dorme cada vez menos enquanto seus dias somem num ralo comum. O sono dos velhos é cada vez menor. Amanhece em Copacabana, as crianças vendendo pó na Djalma Ulrich. Sonhos caindo do céu. Amanhece por trás dos prédios, amanhece o que é feio no que é belo. Amanhece até que não exista diferença.»

[in Corpo Presente, de João Paulo Cuenca, Planeta (Brasil), 2003]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges