A mãe e o fim da União Soviética

«Tendo em conta que era sábado, levantou-se cedo: oito horas e quinze minutos. Vestiu-se: calças de ganga, blusa vermelha, sandálias. Penteou-se: rabo-de-cavalo a descair ligeiramente sobre o ombro esquerdo. Comeu um iogurte natural. Comeu metade de uma banana. Lavou os dentes. Saiu de casa. Chamou o elevador, mas a luz do botão não se acendeu. Esperou seis segundos, voltou a carregar no botão. Nada. Desceu as escadas: três andares. A porta do prédio escapou-lhe das mãos, fechou-se num estrondo. Pôs os óculos escuros. Entrou no café. Tomou uma bica. Pediu uma caixa de chicletes verde. Saiu do café. Foi à praça. Comprou maçãs: um quilo e cem gramas. Peras: um quilo e setecentos gramas. Bananas: novecentos e cinquenta gramas. Morangos: um quilo. Cerejas: um quilo e quinhentos gramas. Carapaus: doze. Pescadas: duas. Robalos: quatro. Bacalhau: um. Abóbora: uma talhada. Nabos: dois. Espinafres: um molho. Cenouras: dez. Batatas: quatro quilos. Agriões: um molho. Brócolos: quatrocentos gramas. Flores: gerberas. Pão: dois de Mafra e doze carcaças. Tremoços: meio litro. Saiu da praça. Voltou a pôr os óculos escuros. Pousou cinco vezes os sacos no chão para descansar os braços. Entrou no prédio. Chamou o elevador. A luz do botão não acendeu. Subiu as escadas: três andares. Pousou duas vezes os sacos no chão: no primeiro andar e entre o segundo e o terceiro. Pousou novamente os sacos no chão para abrir a porta de casa. Largou os sacos na cozinha. Sentou-se. Esticou os braços. Esticou os dedos. Bebeu um copo de água. Levantou-se para ir à casa de banho. Mijou. Lavou as mãos. Voltou para a cozinha. Arrumou as compras: no frigorífico o que era do frigorífico, na despensa o que era da despensa. Colocou as flores numa jarra com água. Colocou a jarra sobre a mesa da sala. Saiu de casa. Desceu as escadas sem chamar o elevador. Segurou a porta do prédio com cuidado. Pôs os óculos escuros. Atravessou dois quarteirões. Entrou no supermercado. Pegou num carrinho. Comprou leite: quatro litros, meio gordo. Café: cem gramas, moagem média. Arroz: carolino, uma embalagem de um quilo. Esparguete: duas embalagens de quinhentos gramas. Fiambre: da perna extra, duzentos gramas. Queijo flamengo: duzentos gramas fatiados. Queijo fresco: embalagem de seis unidades. Feijão encarnado: uma lata de oitocentos e quarenta e cinco gramas. Feijão frade: uma lata de oitocentos e quarenta e cinco gramas. Grão de bico: uma lata de oitocentos e cinquenta gramas. Atum: seis latas. Ovos: classe L, doze unidades. Sacos do lixo: trinta litros, quarenta unidades. Detergente para a loiça: um litro. Detergente para a máquina da loiça: em pó, embalagem de dois quilos e quinhentos gramas. Detergente para a máquina da roupa: quarenta doses. Sabão azul e branco: barra de quatrocentos gramas. Sabonete líquido: duas embalagens de trezentos mililitros. Pasta de dentes: duas embalagens. Champô: uma embalagem para cabelos normais. Amaciador: uma embalagem para cabelos normais. Iogurtes: oito naturais, oito de pedaços de morango, quatro sabor tuti-fruti. Sumos naturais: maçã, um litro, pêra, um litro. Água das pedras: quatro garrafas de trinta e três centilitros. Saiu do supermercado. Atravessou dois quarteirões. Abriu a porta do prédio. Subiu as escadas. Entrou em casa. Arrumou as compras: no frigorífico o que era do frigorífico, na despensa o que era da despensa. Fechou-se na casa de banho. Abriu a torneira da água quente. Sentiu a temperatura. Aguardou uns segundos. Abriu ligeiramente a torneira da água fria. Sentiu a temperatura. Tapou o ralo da banheira. Despiu-se. Olhou-se ao espelho. Os dois pés. As duas pernas. As duas mãos. Esticou os dedos das mãos. Fletiu os braços. Baixou os braços. Olhou os seios. Apalpou-os. Sentiu-lhes o volume. A firmeza. O peso. Acariciou os mamilos. Primeiro o esquerdo. Depois o direito. Os mamilos reagiram de imediato. Sorriu. Desfez o rabo-de-cavalo. Sacudiu o cabelo. Colocou-se em cima da balança: cinquenta e dois quilos. Fechou as torneiras. Mergulhou na ba- nheira. Deixou-se ficar. Submersa. Acima da linha de água: apenas o nariz e os dedos grandes dos pés. Abaixo da linha de água: o silêncio. Às vezes um pulsar. O coração. Depois, de novo o silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Até que, com a mão direita, procurou o ralo por baixo da nuca e destapou-o. O corpo começou a emergir lentamente. Primeiro os olhos. A testa. Depois a boca. O queixo. As orelhas. Os mamilos. A barriga. Os pés. As pernas. Os ombros. Os braços. As mãos. Os dedos. Toda. Levantou-se. Cobriu-se de champô e sabonete. Abriu as torneiras. Sentiu a temperatura. Abriu mais um pouco a torneira da água fria. Segurou o chuveiro sobre a cabeça. Sobre o peito. Sobre as costas. Saiu da banheira. Enrolou-se numa toalha branca. Abriu a porta de um armário. Tirou lá de dentro uma gilete. Levantou os braços e passou a gilete pelas axilas. Primeiro a esquerda, depois a direita. Sentou-se no tampo da sanita. Pousou os pés na borda do bidé. Abriu as pernas. Passou a gilete pelas virilhas. Espalhou creme pelo corpo. Vestiu-se: vestido branco de algodão. Saiu da casa de banho. Entrou na cozinha. O marido estava a tomar o pequeno-almoço: sopas de café com leite. O filho estava a tomar o pequeno-almoço: leite simples e uma carcaça com manteiga. Trocaram bons-dias. Estendeu a toalha do banho. Disse ao marido que o elevador estava avariado. O marido disse-lhe que talvez não estivesse avariado, talvez a porta estivesse mal fechada em algum dos andares. Saiu novamente. Voltou a chamar o elevador. A luz do botão não se acendeu. Subiu ao quarto andar e verificou a porta do elevador. Subiu ao quinto andar e verificou a porta do elevador. Desceu as escadas. No segundo andar, verificou a porta do elevador. No primeiro andar, verificou a porta do elevador e carregou no botão. A luz não se acendeu. No rés do chão, verificou a porta do elevador. Saiu para a rua. Pôs os óculos escuros. Tirou os óculos escuros. Entrou no salão de cabeleireiro. A empregada que a costumava atender e que, para além de cabeleireira, era vidente e cartomante e lançava os búzios e lia as palmas das mãos, viu-a entrar e disse: “Ai, dona Paula, mas que luz, que bom astral. A senhora hoje anda rodeada de anjos.” Ela riu-se e disse: “Minha querida, é o branco que me fica bem, mais nada.” Depois, sentou-se na cadeira giratória, reclinou a cabeça para trás, fechou os olhos e acrescentou: “Olha, Daniela, hoje vou fazer-te a vontade. Quero que me ponhas loira. Podes cortar, podes escolher o tom, podes pentear como achares melhor. Quando acabares, avisa-me.” A empregada deixou escapar uma risada de contentamento e lançou-se na desafiante empreitada. Não trocaram uma palavra durante todo o tempo. Os olhos mantiveram-se fechados, não tanto como os de quem aguarda, com expectativa, uma surpresa, mas sobretudo como os de quem se entrega, de corpo e alma, a uma volúpia. As mãos de Daniela, auxiliadas por uma parafernália de utensílios, pareciam não ter dúvidas sobre o caminho a seguir, como se a estratégia de intervenção já há muito estivesse delineada. Na verdade, desde que Daniela começara a trabalhar naquele salão de cabeleireiro que se criara, imediatamente, uma empatia entre as duas. Daniela fazia-lhe confidências, pedia-lhe conselhos. Em troca, lia-lhe a mão, lançava-lhe as cartas e não só lhe previa o futuro, como lhe adivinhava o passado. O passado anterior ao passado: “Dona Paula, a senhora, noutra vida, já foi loira. Tenho a certeza. Temos de experimentar.” “Eu já fui loira e tu és doida.” Andaram nisto durante anos: “A senhora, um dia, vai dar-me razão.” “E o meu marido vem cá dar-te uma tareia.” Daniela deu os últimos retoques e virou a cadeira para o espelho, suspirou fundo, ganhou coragem, anunciou: “Já está, dona Paula.”
“Só volto a abrir os olhos se me prometeres que nunca mais me tratas por dona.”
Daniela prometeu e ela abriu os olhos. E o que viu diante de si foi o rosto da mãe, tal como o recordava. Ao seu lado, por cima do seu ombro, as lágrimas da Daniela esborratavam-lhe os olhos e desenhavam-lhe, nas faces ainda adolescentes, dois riscos de rímel. Olharam-se através do espelho. Apertaram as mãos. Abraçaram-se. Daniela disse: “Desejo-lhe as maiores felicidades. Fico a rezar por si.”
Pôs os óculos escuros e saiu do salão de cabeleireiro. Entrou no café. Pediu uma bica e um pastel de nata. Cumprimentou um vizinho que estava sentado a uma das mesas a resolver palavras cruzadas. Perguntou-lhe se ele já se apercebera de que o elevador estava avariado. O vizinho lembrou-a de que morava no rés do chão e que por isso nunca utilizava o elevador. Tomou a bica. Comeu o pastel de nata. Pagou. Disse até logo ao vizinho e ao empregado do café. Entrou na papelaria do senhor Sabino. Comprou o jornal. Abriu a porta do prédio. Subiu as escadas: três andares. Entrou em casa. O filho perguntou: “O pai já viu?” Ela respondeu: “Não, ainda não.” Percorreu a casa. Apanhou cuecas do chão. Meias. Pijamas. Lenços de papel. Abriu as janelas. Mudou os lençóis. Ligou a máquina de lavar roupa. Vestiu o avental. Descascou oito batatas. Colocou-as dentro de um tacho com água. Juntou sal. Acendeu o bico maior do fogão. Lavou os robalos. Encheu uma panela com água. Acendeu o bico médio do fogão. Juntou sal e pimenta. Uma rodela de limão. Um pouco de leite. Assim que a água começou a ferver, mergulhou, com cuidado, os robalos. Pôs o lume no mínimo. Olhou o relógio. Deixou cozer. Ligou o forno. Untou com margarina um tabuleiro de pirex. Pousou os robalos no tabuleiro. Juntou as batatas cozidas. Polvilhou tudo com pimenta. Regou com sumo de limão. Cobriu com natas. Colocou o tabuleiro no forno. Olhou o relógio. O marido entrou na cozinha e disse: “Já chamaram o piquete dos elevadores, deve vir ainda hoje.” Reparou no cabelo loiro da mulher. Quatro segundos a olhar para o cabelo loiro da mulher. Esteve quase para dizer “Fazes-me lembrar alguém”. Disse: “Oh, cum caralho.” Depois, espreitou para dentro do forno. Ela pediu-lhe que pusesse a mesa. O marido pôs a mesa. Ela olhou o relógio. Espreitou para dentro do forno. Chamou o filho. Tirou o tabuleiro de dentro do forno. Pousou-o sobre a mesa. Polvilhou com salsa picada. Sentaram-se a almoçar. O marido perguntou-lhe se queria vinho. Respondeu que sim. O marido encheu-lhe o copo. “O que é que te deu na cabeça?”, perguntou-lhe o marido. “Apeteceu-me”, respondeu. Comeram cerejas. No final, o marido acendeu um cigarro. O filho levantou-se. Ela disse: “Não vou tomar café. Já bebi dois hoje de manhã.” O marido apagou o cigarro no molho do prato. Ela levantou a mesa. Arrumou a cozinha. Estendeu a roupa. Ligou a máquina de lavar loiça. Sentou-se no sofá. O filho fechou-se no quarto. Ela fechou os olhos. Lembrou-se de um poema de Cesário Verde. Levantou-se. Procurou o livro de Cesário Verde. Retirou-o da estante. Sentou-se no sofá com o livro nas mãos. Sem o abrir. Deixou-o ficar no colo. Fechou os olhos. Na memória desenhou-se-lhe o rosto de Cesário Verde. Nem bonito nem feio. Uma soturnidade. Uma melancolia. Recordou-se do pai que não gostava de Cesário Verde. Demasiado doente. Demasiado confuso. O pai que recitava sonetos de Shakespeare de cor, com a mãe a corrigir-lhe a pronúncia. Ele a responder: “Às vezes esqueces-te de que sou de Torres Vedras. Saber quem foi Shakespeare já é um milagre.” “De prédios sepulcrais, com dimensões de montes”, era assim o poema de que se lembrara. Talvez tenha adormecido. Sobressaltou-se com o barulho do telefone. O filho saiu disparado do quarto, a dizer que ia começar o jogo. Sentaram-se em frente da televisão. O filho a torcer pela Holanda. Ela a torcer pela União Soviética. O marido a torcer para que alguém se aleijasse, para que houvesse invasão de campo, para que viessem os tanques de Moscovo, para que fossem a penaltis e falhassem todos para sempre, o resto da eternidade a marcarem penaltis e a falharem, ao fim de não sei quantas horas, as pessoas a abandonarem o Estádio Olímpico de Munique, as televisões a interromperem as transmissões em direto, e os jogadores, abandonados no relvado, a falharem penaltis. O assunto a ser discutido em Assembleia Geral das Nações Unidas. Até que o Van Basten, do bico da pequena área, a cruzamento de Mühren, remata de primeira, e a bola, numa trajetória improvável – que, como o filho, perspicazmente, observou, não era compatível com a velocidade do remate e das duas uma: ou, por breves momentos, a força gravítica exercida pela Terra aumentara, ou então o fenómeno não podia ser descrito pelas três leis fundamentais de Newton e tinha de ser entendido à luz da mecânica quântica –, passa por cima do Dasayev e entra na baliza. Uma coisa linda de se ver, admitiu ela. Um soviético jamais marcaria um golo assim, admitiu ela. O resultado estava feito, admitiu ela. Setenta anos de socialismo científico, de ditadura do proletariado, de democracia avançada, e nem a merda de um campeonato da Europa, admitiu ela. Pronto, ganharam um há não sei quantos anos. Mas agora é que era preciso. Milhões de mortos congelados na Sibéria e o cabrão do Van Basten, sozinho no bico da pequena área do Estádio Olímpico de Munique, admitiu ela. Uma coisa linda de se ver. O filho aos pulos a gritar golo. O marido a garantir que havia fora de jogo. O filho a dizer que o pai estava maluco, qual fora de jogo, qual quê. Até que o pai se rendeu às evidências das múltiplas repetições proporcionadas de diversos ângulos a várias velocidades e disse que o cruzamento do Mühren era uma vergonha de cruzamento, que o remate do Van Basten era um charuto, que o Dasayev tinha sido mal batido, e que desde o Beckenbauer que não se via futebol a sério. E que a única coisa de jeito que os Soviéticos tentaram fazer foi acabar com os padres, e que não conseguia entender como é que ela, uma beata, era capaz de torcer pela União Soviética. Ela não respondeu. Foi para a cozinha. Já não quis ver o resto do jogo. Nem a entrega da taça. Nem a distribuição das medalhas. Não queria ver mais nada. Fechou-se na cozinha. Fez sopa. Fez bacalhau com natas. Fez mousse de chocolate. Preparou o jantar: bifes com batatas fritas e ovos estrelados. Sentaram-se à mesa. Comeram. O marido acendeu um cigarro. Fumou o cigarro. Apagou o cigarro na tigela suja de mousse. Ela disse: «Tenho um cancro.» Encostou a mão ao seio esquerdo e disse: “Aqui.” Depois disse: “Vou ser operada na segunda-feira, amanhã dou entrada no hospital.” Depois disse: “A despensa está cheia, fiz bacalhau com natas, que está no congelador, e uma panela de sopa.” Depois disse: “No congelador também há bifes e hambúrgueres e costeletas.” Depois disse: “Devo ficar internada, pelo menos, uma semana, depois logo se vê.” Não disse mais nada. O filho começou a dividir pedacinhos de pão em pedacinhos cada vez mais pequenos. Quando já eram demasiado pequenos para os voltar a dividir, mesmo com a ponta da unha, juntava-os num montinho que ia crescendo com o passar dos minutos. O marido acendeu um cigarro. Tocaram à campainha. Ninguém se levantou.»

[in O Teu Rosto Será o Último, de João Ricardo Pedro, LeYa, 2012]

Como uma música que se parte

O Teu Rosto Será o Último
Autor: João Ricardo Pedro
Editora: LeYa
N.º de páginas: 207
ISBN: 978-989-660-209-3
Ano de publicação: 2012

Na edição de 2011, o Prémio LeYa distinguiu pela primeira vez um romancista estreante: João Ricardo Pedro, ex-engenheiro electrotécnico que aproveitou uma situação de desemprego para cumprir, aos 36 anos, o sonho adiado da escrita. Há uma certa justiça poética em ver entregues os cem mil euros do prémio a alguém que verdadeiramente precisa deles, mas o júri está sobretudo de parabéns por ter distinguido um belíssimo primeiro romance, obra que nos permite assistir ao fenómeno raro de ver um autor a nascer diante dos nossos olhos, nos seus rasgos mas também nos seus tropeços. Quando terminamos a leitura de O Teu Rosto Será o Último, fica a sensação de que o romance é uma espécie de crisálida, dentro da qual o escritor descobriu a sua voz e a sua natureza narrativa. A crisálida, porém, não é neste caso um mero invólucro que se deixa para trás, testemunha esvaziada de uma metamorfose, mas uma entidade digna de admiração por si mesma.
O livro começa no dia 25 de Abril de 1974. Estamos longe de Lisboa, numa «aldeia com nome de mamífero» lá para o norte, no sopé da Serra da Gardunha, e o «vento da mudança» que empurrará Marcello Caetano para o exílio e o país para a liberdade democrática ainda não chegou àquelas paragens, onde as pessoas «viviam da cruel aritmética dos alqueires, dos cinchos, das safras, das luas, das maleitas, das malinas, das geadas». As primeiras páginas circulam por paisagens rurais, alternando entre os escassos ecos da revolução, dissecados em conclave pelas forças vivas da aldeia, e a história do desaparecimento de uma personagem misteriosa, Celestino, que há-de ser encontrado morto, «a cara crivada de chumbos». O tom é próximo do realismo rústico praticado por José Riço Direitinho nos seus primeiros livros: uma aproximação à maldade humana e à aspereza social dos meios pequenos e fechados, com personagens incapazes de escapar aos «azares da vida».
Se o leitor cria algum tipo de expectativa em relação à história que começou a ler (por exemplo, a de saber quem matou Celestino e porquê), ela é imediatamente desfeita pelo segundo capítulo, que nos apresenta o verdadeiro protagonista do romance: Duarte, um rapazinho que vive em Queluz com o pai, António, veterano com duas comissões na Guerra Colonial, filho do doutor Augusto Mendes, médico que há quatro décadas ofereceu a Celestino o seu olho de vidro. O tempo, em O Teu Rosto Será o Último, não é linear. Não há ordem cronológica, só momentos isolados, em sucessivos avanços e recuos. As histórias das três gerações da família entrelaçam-se assim num vertiginoso movimento de deriva. Tão depressa acompanhamos os dilemas adolescentes de Duarte, pianista dotado que desiste de tocar – e de ser «o maior beethoveniano do seu tempo» – por «ódio» ao dom, como estamos numa picada em Angola com o furriel António Mendes, ou descobrimos as cartas scherazadianas de Policarpo, o velho amigo do avô Augusto, que abandona o país quando Salazar sobe ao poder.
À medida que a narrativa avança, bifurcando-se cada vez mais em sub-enredos que por vezes se resumem a duas ou três páginas (uma sucessão de artistas falhados e figuras enigmáticas, como o barbeiro Alcino ou a professora de canto eslovaca), o efeito de deriva acentua-se. Este é um romance atravessado pela música, mas uma música que a dado momento se parte, se desarticula, levando Duarte ao silêncio dos dedos sobre o teclado e a narrativa ao seu próprio colapso, à incapacidade assumida de atar os fios que talvez só façam sentido soltos. Pelo meio, fala-se de castigos e vinganças, de amputações, da história portuguesa (a guerra, a campanha de Humberto Delgado, a PIDE), de vários tipos de orfandade. A orfandade literal, dos filhos que perdem os pais, mas também a orfandade ideológica, de quem viu ruir as ilusões nascidas com o 25 de Abril ou assistiu, com uma certa incredulidade, ao fim da União Soviética. Um momento que João Ricardo Pedro faz coincidir simbolicamente com a derrota da URSS na final do Campeonato da Europa de futebol de 1988, num capítulo extraordinário que está entre o que de melhor se escreveu na ficção portuguesa recente.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

João Ricardo Pedro: “Nunca percebo o que faz mover o quê no livro, se são as frases a construir a história, se é ao contrário”

Há qualquer coisa de exemplar nesta história. Formado em Engenharia Electrotécnica, João Ricardo Pedro (n. 1973) trabalhou durante mais de uma década numa empresa de telecomunicações, embora sem aplicar «as admiráveis equações de Maxwell», como explica na sua curta nota biográfica. Paralelamente, desenvolveu um gosto pela leitura que se tornou obsessivo. Quando saiu a tradução de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, feita por Pedro Tamen, leu os volumes todos de enfiada. E ficou-lhe o fascínio pela frase enquanto unidade narrativa. A leitura despertou ainda o desejo de escrever e a certeza de que seria capaz de acabar um livro, se a isso se dedicasse.
Quando a empresa em que trabalhava o despediu, abriu-se uma janela de oportunidade. Desempregado, com o tempo por sua conta, inventou uma rotina de escrita. Sem ajudas de qualquer tipo, experimentando por si mesmo, arregaçou as mangas e atirou-se às teclas do computador. Nos primeiros meses, procurou um estilo, uma voz. Depois, começou a dar corpo a um novelo mais ou menos caótico de histórias, quase todas deixadas em aberto. Ao aperceber-se de que poderia concorrer ao Prémio LeYa, acelerou o processo de desbaste e reduziu as mais de mil páginas do seu manuscrito proliferante a cerca de duzentas. Nunca mostrando o texto a ninguém, enviou o livro para o concurso, um pouco às cegas mas confiante no valor literário da obra de estreia.
No final de 2011, chegou a boa nova. O Teu Rosto Será o Último foi o romance escolhido pelo júri do mais valioso prémio literário português – de que fazem parte, entre outros, Manuel Alegre, Nuno Júdice, Pepetela e José Castello. Quando receber o cheque de cem mil euros, João Ricardo Pedro vai sentir um «conforto» financeiro que lhe permitirá dedicar-se à escrita durante uns anos. «A minha mulher é economista e conto com ela para gerir bem o dinheiro», assume num tom desprendido. Quanto à projecção mediática associada ao prémio, ainda lhe faz alguma «confusão», porque «há livros muito melhores do que o meu que não tiveram esta sorte».
O Teu Rosto Será o Último, com chancela da LeYa, é posto à venda no dia 31 de Março. Será depois editado no Brasil, em Angola e em Moçambique.

Em 1975, quando foi demitido da direção do Diário de Notícias, José Saramago decidiu não procurar trabalho e dedicar-se a tempo inteiro à literatura. De certa forma, o desemprego empurrou-o para a descoberta do seu estilo, no romance Levantado do Chão, e deu-lhe o impulso para uma carreira literária tardia. Salvaguardadas as devidas distâncias, ter perdido o emprego foi o seu momento saramaguiano?
Essa comparação é muito honrosa para mim. Na verdade, acho que foi um desses «azares da vida» (como diz o Celestino, uma das minhas personagens) que depois descobrimos ser um instante de sorte, uma oportunidade que se abre, inesperada e irónica. Eu lia muito e a partir de uma dada altura, por volta dos vinte anos, fiquei com a ideia de que era capaz de escrever. Ao ler os livros dos outros, sentia que se quisesse muito, se me dispusesse a isso, também conseguiria fazer aquilo. Depois, a ideia tornou-se quase uma obsessão. Mas com a minha vida familiar e profissional era impossível. Há pessoas que conseguem chegar à noite, depois de um dia de trabalho, e ter disponibilidade para a escrita. Eu não conseguia essa disciplina.

Chegou a procurar trabalho?
Não. A escrita aconteceu logo, de uma forma súbita. No primeiro dia sem emprego, levei os filhos à escola, voltei para casa, fiz as camas, essas coisas todas. Havia no ar aquele vazio do «e agora?» Então, liguei o computador, abri um ficheiro de Word e comecei a escrever. Uma coisa em bruto, seis horas por dia. Desse primeiro material, não se aproveitou nada. O que está no livro começou a surgir ao fim de sete, oito meses. E só no final do primeiro ano é que me apercebi, aos poucos, do que estava a fazer.

Nunca tinha escrito ficção antes?
Nem ficção nem poesia, nem outra coisa qualquer. Absolutamente nada. Nem sequer tive um blogue. Fui aprender tudo.

Começou da estaca zero?
Sim. O primeiro problema foi: eu não sei fazer isto. Ignorava as coisas mais simples. Como descrever um tipo que desce as escadas. Como pôr de repente um homem a falar com outro. Comecei aí uma aprendizagem autodidacta. Relia os meus escritores preferidos para ver como é que eles faziam, como é que eles resolviam as situações. O José Cardoso Pires, por exemplo, foi fundamental. Aprendi muito com ele. Mas escrevia sozinho, só para mim. Ninguém acompanhou o processo de criação. Avancei voluntariamente desamparado.

Nunca mostrou o que ia fazendo a ninguém?
Nunca. É mais uma questão de feitio do que de orgulho. Ainda hoje é para mim difícil saber que alguém está a ler o livro. A minha mulher só o leu depois de ter sido enviado para o concurso da LeYa. E mesmo assim foi doloroso, o ela estar ali ao meu lado, a ler aquilo.

Confiava no valor literário do romance?
Sim, caso contrário não o sujeitaria ao concurso. Tinha aliás o pressentimento de que poderia ganhar. Um pressentimento estúpido, porque não fazia a mínima ideia da qualidade dos outros concorrentes. É absurdo, eu sei, mas convenci-me de que poderia perfeitamente ganhar.

Quais foram as principais dificuldades?
O mais difícil foi descobrir o meu tom, a minha voz. Eu ia pôr os filhos na escola, chegava a casa às oito e meia e ficava até às quatro e meia a escrever, com uma hora de intervalo para o almoço. Fui avançando de forma um bocado caótica, até perceber que tinha de dar uma certa unidade àquilo. Então cortei muito, fiz desaparecer algumas das personagens e reduzi mais de mil páginas a trezentas e tal. No fim, ficaram cerca de duzentas. O principal trabalho de edição foi esse: tirar, tirar, tirar. A dada altura, tive a sensação de que poderia ficar a escrever este livro para sempre. Quando é que isto acaba? O prémio foi bom também nesse sentido. Impôs-me uma data limite. Acelerou o processo final de lapidação.

O livro começa, certamente não por acaso, no dia 25 de Abril de 1974.
Foi simbólico. Essa decisão surgiu já a meio do livro. Os meus avós são da província e uma coisa que sempre me impressionou foi o afastamento das pessoas em relação ao que se passava no país. No primeiro capítulo isso é evidente. Quando pensamos no 25 de Abril, pensamos numa coisa extraordinária que aconteceu ao país, mas esquecemos que houve muita gente para quem aquilo passou completamente ao lado. Interessava-me tudo o que aconteceu a seguir à revolução mas também o que estava para trás. O meu pai andou na Guerra Colonial, todos os meus tios andaram, toda a minha infância foi vivida a ouvir aquelas histórias.


Foto: DN

Como é que alguém nascido em 1973, quando a guerra estava a acabar, aborda esse tema?
É evidente que não podia falar de experiência própria. Só pude falar do que me contaram. O episódio mais forte que aparece no livro, com o Spínola, é completamente inventado. O Spínola interessa-me enquanto personagem complexo da História, um homem cheio de contradições, com uma força hollywoodesca.

Duarte, a personagem principal de O Teu Rosto Será o Último, é pianista. Qual a importância da música na estrutura do romance?
A música é absolutamente essencial. Durante o processo de escrita, não parei de ouvir as 32 sonatas para piano do Beethoven, na interpretação do Alfred Brendel. São sonatas em que se nota claramente a evolução estética do compositor: nas primeiras, está muito próximo de Mozart e de Haydn; mas nas três últimas é já outra coisa, estilhaça a forma da sonata, tem andamentos muito longos e outros curtos, com finais abruptos. No meu livro acontece algo de semelhante. Os primeiros capítulos são mais convencionais, os últimos são muito mais livres. Quis que o leitor se sentisse à beira de uma falésia escarpada.

Quase todos os capítulos são construídos em torno de cenas fortes, violentas, com uma grande carga dramática. Como se o narrador procurasse, na vida das personagens, apenas os momentos de maior intensidade.
Precisamente. É claro que as personagens viveram outras coisas, entre esses momentos de maior intensidade, mas essas coisas não me interessam. Nesse sentido, o romance assemelha-se ao resumo de um jogo de futebol em que apenas são mostrados os golos. Os passes para o lado, as bolas que vão fora, não quis nada disso.

Há um cuidado muito grande na forma como são nomeadas as personagens. O doutor Augusto Mendes, médico, nunca deixa de ser doutor, mesmo no espaço da intimidade familiar. Mas há um inspector Artur Monteiro que de repente volta a ser o soldado Monteiro, e essa inflexão muda tudo.
Fico contente que se tenha apercebido dessa transformação. Ela dá-nos as várias faces de uma pessoa no tempo. Artur Monteiro foi soldado, agora é inspector, mas a qualquer momento volta a ser soldado outra vez.

Como é que lhe surgem estes artifícios literários?
Não sei. São acasos. São milagres. Quando acontecem, até me vêm as lágrimas aos olhos. Fico com a ideia de que as mãos trabalham sozinhas, como as do Duarte quando toca piano. Não consigo compreender de onde é que aquilo aparece. São os mistérios da criação. Nunca percebo o que faz mover o quê. Se é a linguagem e as frases a construirem a história, se é ao contrário.

Uma das ideias fortes que atravessam o livro é a da orfandade, tanto individual como coletiva.
Sim. Há a orfandade do protagonista, há a orfandade da mãe, mas igualmente a orfandade em relação a certos ideais da esquerda, a orfandade provocada pelo fim do comunismo na União Soviética, por exemplo.

Fim que é relatado simbolicamente, por via da derrota da selecção da URSS na final do Campeonato da Europa de Futebol de 1988, contra a Holanda.
Lembro-me perfeitamente desse dia. Em casa dos meus pais, estavam uns homens a pintar as paredes. Eram comunistas. Quando o jogo acabou, ficaram tristíssimos, pouco faltou para começarem a chorar. Acho que o fim da União Soviética teve um impacto muito forte numa parte da população e eu quis mostrar esse impacto.

O romance tem uma clara dimensão política.
Sim. Num dos últimos capítulos, duas personagens assistem pela televisão à tomada de posse do governo de Cavaco Silva, no início dos anos 90. E aí refreei-me. Não quis vincar demasiado a ideia de que terminavam ali as ilusões criadas no período revolucionário. Mas a ideia está lá, implícita, e espero que os leitores a compreendam. Quem escreveu este livro tem um pensamento político. E uma leitura atenta acaba por discernir esse pensamento.

Na versão impressa, o livro segue as regras do Acordo Ortográfico. Já o escreveu assim?
Não. E a editora pôs-me completamente à vontade. Se eu quisesse, podia manter a grafia antiga. Mas é daqueles assuntos sobre os quais não tenho opinião formada. Pode parecer estranho, isto de alguém escrever um livro e não ter uma posição definida sobre este assunto, mas é o meu caso.

Daqui a dez anos, imagina-se a viver como escritor?
Não sei. Neste momento, só sei que quero escrever pelo menos mais um livro. E isso para mim é suficiente. Não tenho a ambição de ser escritor. Enquanto me apetecer fazer isto, faço. Enquanto tiver este impulso, continuo. Quando me fartar, parto para outra. Monto um quiosque, sei lá. Qualquer coisa.

[Entrevista publicada no suplemento Actual do jornal Expresso]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges