O eco dos fantasmas

biografia_involuntária

Biografia involuntária dos amantes
Autor: João Tordo
Editora: Alfaguara
N.º de páginas: 415
ISBN: 978-989-672-259-3
Ano de publicação: 2014

Desde que se estreou em 2004, com O Livro dos Homens sem Luz, João Tordo vem apurando, de romance para romance, uma das dimensões tradicionalmente mais frágeis na ficção literária feita por autores portugueses: o enredo. Fiel a uma linha anglo-saxónica, Tordo é um bom contador de histórias que domina a arte do diálogo, sabe gerar e gerir conflitos entre as personagens, conhece a estrutura dos arcos narrativos, coloca os plot points no sítio certo; enfim, aplica sem mácula um vasto conjunto de técnicas que aprendeu (e ensina) em cursos de escrita criativa. A principal consequência é uma espécie de legibilidade absoluta, sem escolhos. Por muito complexas que se tornem as tramas, por muito retorcidos que sejam os dilemas dos protagonistas, tudo bate certo, tudo se explica, tudo se justifica. E até a ambiguidade, quando existe, assume a forma de um imperativo racional. Ao escritor interessa levar cada história ao seu limite, desdobrá-la e estendê-la até onde ela consiga chegar. O trabalho sobre a linguagem, esse, é secundário, embora venha ganhando importância nos livros mais recentes. Em Biografia involuntária dos amantes é notório o salto na qualidade estilística, mas muitas das descrições de lugares, estados atmosféricos ou ambientes domésticos ainda se limitam a cumprir, com certo grau de artificialismo, uma função utilitária (de transição entre cenas, por exemplo).
O narrador deste romance é um professor universitário que vive em Pontevedra, na Galiza. Divorciado, com uma filha adolescente muito problemática, ele avança a passo de caracol na sua tese de pós-doutoramento sobre Harold Pinter e Sarah Kane, tem um programa de rádio com um nome beckettiano (Dias Felizes), e uma existência bastante monótona, para não dizer banal. Tudo muda quando se cruza com um poeta mexicano desterrado, Miguel Saldaña Paris, de quem se torna amigo. Quando este lhe pede, após um acidente em que atropelam um javali, para ler o manuscrito deixado pela ex-mulher, Teresa, recentemente falecida, vítima de cancro, inicia-se uma verdadeira descida aos infernos. Saldaña Paris não tem coragem de ler o texto deixado pelo objecto do seu amor obsessivo porque sabe que o «problema das palavras» não está no que permitem recordar mas no que «podem ajudar a destruir». A melancolia extrema do mexicano contamina então o narrador, ao descobrir no tal texto as primeiras memórias de Teresa, indiciadoras de um negrume tremendo que a investigação subsequente confirmará.
Decidido a «averiguar o passado para que este não se transformasse no monstro do futuro», o professor universitário pede uma licença sem vencimento e dedica-se a tempo inteiro ao amigo (entretanto internado no hospital, em estado catatónico), procurando solucionar aquela vida e dar-lhe sentido, para assim solucionar e dar sentido à sua. Parte então numa demanda, a de compreender a relação amorosa condenada de Saldaña Paris e Teresa, o que o leva a descer degraus atrás de degraus, até ao fundo de uma realidade duríssima e escabrosa, onde reverbera o «grito contínuo dos velhos terrores» de que fala um poema de Dylan Thomas. Pelo caminho, encontra muitas sombras e equívocos, uma corte de fantasmas e seus ecos. Vai da Galiza a Londres, depois ao Canadá e a Lisboa, seguindo pistas e indícios, sob o signo dos acasos, que o levam, entre outros, a questionar personagens que vêm de romances anteriores de Tordo, como Luís Stockman (de O Ano Sabático) ou Raul Cinzas (de Anatomia dos Mártires).
À semelhança de O Ano Sabático, este é um livro sobre o poder redentor da amizade. Na sua busca incansável para compreender a história de Saldaña Paris, o narrador não deixa pedra por virar nem ponta por unir. Infelizmente, essa exaustividade nem sempre joga a favor do romance. Há demasiadas conversas à mesa e ao telefone; quase sempre excelentes diálogos, mas muito parecidos uns com os outros. As melhores páginas do livro são as 80 do «manuscrito de Bríon», supostamente escritas por Teresa sobre a sua adolescência, a descoberta da sexualidade com um adulto, a obsessão por um tio e a fuga a uma família claustrofóbica. É um texto arriscadíssimo na temática e no tom, mas surpreendentemente bem conseguido – um sinal de que Tordo pode e deve sair da sua zona de conforto. No fim, ficamos com pena de que esse capítulo não seja mais longo e o resto do livro mais curto.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

João Tordo na Alfaguara

Da editora Alfaguara, acabei de receber o seguinte comunicado:

«No ano em que comemora o seu 5.º aniversário em Portugal, e o seu 50.º aniversário a nível internacional, a Alfaguara anuncia com orgulho a contratação de mais um excelente autor português para o seu catálogo.
João Tordo, vencedor do Prémio José Saramago e um dos mais relevantes nomes da literatura portuguesa contemporânea, junta-se a um jovem mas cuidado catálogo de ficção literária, em que se destacam autores portugueses como Afonso Cruz, Ricardo Adolfo e Valter Hugo Mãe.
O próximo romance de João Tordo – Biografia involuntária dos amantes – sairá já em Abril com a chancela Alfaguara.»

Convém lembrar que embora a Alfaguara ainda detenha os direitos sobre alguns dos romances de Valter Hugo Mãe, o autor de A Desumanização transferiu-se recentemente para a Porto Editora.

João Tordo goes to Xangai

João Tordo está neste momento em Xanghai (China), a participar na Residência de Escritores da Shanghai Writer’s Association. Tordo é o primeiro escritor português a quem é dada esta oportunidade. Durante dois meses, participará em sessões de leitura, debates sobre literatura e outros acontecimentos culturais, dos quais talvez venha a dar conta no seu blogue.

Um contrabaixo (ou ‘barco baixo’) na Avenida de Roma


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Salão Literário de Porto Rico

Termina hoje o Salón Literario Libroamérica, de Porto Rico. O representante português foi João Tordo.

Residências literárias

Do Clube Português de Artes e Ideias (CPAI) recebi esta notícia:

«O escritor João Tordo começa já em Junho, em Montreal, a residência de criação literária para que foi escolhido, no âmbito do protocolo entre o Clube Português de Artes e Ideias e o Conseil des arts et des lettres du Québec, organismo tutelado pelo Ministério da Cultura desta província canadiana. João Tordo vai aproveitar a sua estadia no Québec para completar o seu próximo romance que se desenrola em vários lugares, nomeadamente em Montreal.
Por outro lado, Tiago Patrício, prémio revelação do concurso “Agustina Bessa-Luís”, e por várias vezes publicado pelo CPAI, partirá, também em Junho, em residência para a Letónia, no âmbito do programa M4m, da associação europeia Pépinieres Européenes pour Jeunes Artistes, que o CPAI representa em Portugal.»

A memória dos mortos

Anatomia dos Mártires
Autor: João Tordo
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 271
ISBN: 978-972-20-4875-0
Ano de publicação: 2011

Logo na primeira página do quinto romance de João Tordo, surge uma espécie de linha de força programática: a ideia de que a nossa existência é «indissociável da memória dos mortos». Quando os queremos resgatar ao esquecimento, ou aos equívocos da História, eles acabam «por assombrar o resto dos nossos dias». É precisamente isso que acontece ao narrador de Anatomia dos Mártires. Jornalista ambicioso, à espera de uma oportunidade para brilhar no suplemento de fim-de-semana, ele decide abordar o tema do martírio num artigo em que associa Catarina Eufémia — a camponesa assassinada em Baleizão, símbolo da resistência anti-fascista — ao suicídio de um místico americano, que saltou do 37.º andar de um prédio em Nova Iorque com um manuscrito amarrado ao peito (segundo o qual o verdadeiro silêncio é o único caminho de aproximação a Deus e aos seus desígnios).
O artigo desperta uma onda de protestos que ganham uma dimensão preocupante quando Raul Cinzas, o editor-chefe do jornal, entra em coma depois de ser atacado na rua por desconhecidos. Cinzas, conhecido por ser um «velho comunista» (mas menos empedernido do que aparenta), saíra em defesa do «jovem» arrogante e este, ainda aturdido com a magnitude das reacções ao texto e com o ataque ao seu superior hierárquico, decide lançar-se numa investigação séria sobre a história de Catarina Eufémia. Para compreender o presente, ele sente que é preciso esclarecer o passado, mas depressa se descobre perdido num «labirinto cheio de espelhos». A partir das muitas versões contraditórias sobre os acontecimentos de 19 de Maio de 1954 – da questão da suposta gravidez da ceifeira aos gestos exactos do assassino (o tenente Carrajola, da GNR) – impôs-se uma narrativa que sobrepõe a «Catarina-mártir» (desde então o símbolo maior da luta comunista no Alentejo) à «Catarina-mãe» ou à «Catarina-mulher», predispostas estas a viver e não a morrer. Cinco décadas após os acontecimentos, o resgate da Catarina real – a de carne e osso, não a lendária – é impossível. Porque atrás do mito não há nada: ele assenta apenas em «meias-verdades» e em «meias-mentiras» que conduzem inevitavelmente ao «cepticismo mais absoluto ou ao dogmatismo mais desenfreado».
Enquanto se entrega à busca obsessiva de um sentido para a história da ceifeira que morreu a exigir um pagamento justo para o trabalho duro, mas também paz, o narrador coloca entre parêntesis as outras frentes da sua vida: o romance com Lorna Figgis, uma irlandesa cheia de segredos; a relação conflituosa com o pai (um antigo maestro à beira da loucura, sempre a escavar o fosso geracional que o separa do único filho); os encontros tensos com Tom Kapus, o biógrafo de Francis Dumas, o tal suicida místico americano; ou a amizade com Afonso, um gestor de investimentos em fundos que perdeu tudo com a crise financeira mundial (tema que atravessa o romance de ponta a ponta, como um inquietante ritornelo).
A dada altura, o protagonista convence-se de que resolvendo o mistério de Eufémia, a mártir involuntária alentejana, poderá encontrar a «chave» para as suas restantes histórias. Pura ilusão. O mistério não se resolve, pelo contrário. E é ele que se deixa apoderar pela «funesta sombra de Catarina», como outros se tinham apoderado dela antes. Só depois de dar quase tudo por perdido – o emprego, o amor, as expectativas de conseguir transformar a morosa investigação num livro – é que a libertação surge, num final épico e optimista, com vozes ao alto, bandeiras ao vento, promessas de sublevação e a memória dos mortos finalmente resgatada.
João Tordo conhece bem as técnicas narrativas, sabe criar conflitos entre as personagens e domina a difícil arte do diálogo. A prosa, porém, ressente-se de uma certa rigidez estilística, do abuso de adjectivos, de uma grandiloquência nem sempre justificável e da vaga sensação de que tudo nesta escrita obedece a uma fórmula. Os livros de Tordo são densos, coesos, eficazes, mas muito construídos, muito certinhos, pouco dados à saudável subversão das regras e dos códigos.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Primeiros parágrafos

«Foi na Primavera de há três anos, no princípio da crise que abalou este lado do mundo, que visitei a terra onde mataram Catarina Eufémia. Aconteceu por acaso; foi também por acaso que, nessa mesma viagem, ouvi falar pela primeira vez do homem que saltara do topo de um edifício com um manuscrito amarrado ao peito. Naquela altura, estas duas figuras – tão distantes no tempo e na geografia, porém tão próximas naquilo que incompreensivelmente as acabou por unir – diziam‑me menos do que nada. Começarei por aí. Nesses tempos, dificilmente a história de um mártir me suscitaria interesse ou, o que é mais exacto e verdadeiro, dificilmente qualquer história que não fosse a minha me suscitaria interesse; era também exacto e verdadeiro que eu andava adormecido – num sentido quase literal do termo –, uma vez que a vida decorria na sua boçal normalidade: a minha carreira ainda tinha importância, o meu pai ainda não enlouquecera e eu ainda não compreendera nada, isto é, ainda não me dera conta de que a nossa existência era indissociável da memória dos mortos. Também desconhecia que, paradoxalmente, só ignorando os mortos poderíamos passar incólumes por esta vida, uma vez que, ao procurar resgatá‑los, eles acabariam por assombrar o resto dos nossos dias. Naquele tempo, portanto, tudo era mais simples porque eu me esquivava a despertar e, talvez por isso – porque qualquer despertar é doloroso e nos obriga a ver e porventura a tentar compreender a realidade –, não podia sequer desconfiar da maneira como Catarina (e a sua história confusa, cruel e fascinante) seria, ao mesmo tempo, a origem da minha libertação e de todos os meus equívocos.»

[in Anatomia dos Mártires, de João Tordo, Dom Quixote, 2011]

Primeiros parágrafos

«Pusemos o homem dentro do cesto do balão e deixámo-lo desaparecer no céu pálido do Lácio. Foi um momento dramático e, se não houvéssemos caído naquele torpor pesado e ruminante que de nós se apoderou, alguém teria erguido um braço para, por entre lágrimas ou sorrisos, acenar um último adeus a Don Metzger. Foram precisos oito braços para transportar o corpo do carro até à gôndola de verga, junto da qual o sinistro Bosco havia, com a ajuda do fiel Alipio, insuflado de ar frio o envelope de nylon preto, a grande ventoinha ensurdecendo aquele dia tão fúnebre. Acomodámos Don dentro da gôndola o melhor que pudemos – tanto quanto era possível acomodar um gigante – e depois, com um gesto de amor que chegou a parecer cruel, Bosco abriu a válvula de propano e acendeu o maçarico, as chamas incendiaram o ar e ergueram a gôndola do chão como se o carregassem na palma de uma mão invisível. Era ainda cedo naquela manhã e Don já partia em direcção ao infinito, onde conjuntos de nuvens em vários tons de cinzento, banhadas por um sol melancólico, avançavam lentamente em direcção à montanha, sobrevoando-a como anjos coléricos que trouxessem o prenúncio de tempos terríveis.»

[in O Bom Inverno, de João Tordo, Dom Quixote, 2010; chega às livrarias amanhã]

O João Tordo mudou de casa

Na Internet, entenda-se. O blogue é o mesmo, o endereço (e o aspecto) é que não.

Tordo bem recebido em França

Embora o romance As Três Vidas (Le Domaine du Temps, Actes Sud) só comece a chegar hoje às livrarias francesas, João Tordo já conta com uma primeira recensão positiva, publicada na última sexta-feira na revista Livres Hebdo. Depois de resumir o enredo do livro, Sean Jame Rose escreve:

«João Tordo réussit à nous faire tourner les pages au rythme angoissé de l’impossible quête. L’ auteur portugais né en 1975 invente un thriller poétique où la tristesse l’emporte encore sur le suspense et le désir de verité.» [«João Tordo consegue fazer-nos virar as páginas ao ritmo angustiado de uma busca impossível. O autor português, nascido em 1975, inventa um thriller poético em que a tristeza se sobrepõe ao suspense e ao desejo de conhecer a verdade.»]

Entretanto, Tordo anunciou há uns dias, no seu blogue, a conclusão de novo romance.

João Tordo no hexágono

A edição francesa de As Três Vidas, romance que deu a João Tordo o Prémio Saramago 2009, sai em Fevereiro com título adaptado (Le Domaine du Temps), chancela da Actes Sud e tradução de Dominique Nédellec. Eis a capa, revelada hoje pelo escritor no seu blogue:

‘As Três Vidas’ de João Tordo em francês

O romance As Três Vidas, de João Tordo (QuidNovi), que acaba de ganhar, por unanimidade, o Prémio José Saramago 2009, vai ser editado em França pela Actes Sud, com data de lançamento prevista para Fevereiro de 2010. Traduzido por Dominique Nédellec, Les Trois Vies é apresentado pela editora como a obra mais recente do «chef de file de la jeune garde des lettres portugaises».

70%

Presente no Museu Municipal de Penafiel para a atribuição do Prémio que ostenta o seu nome, José Saramago insistiu nesta ideia: «Tal como o corpo humano é composto por 70% de água, a literatura compõe-se de 70% de linguagem.» Após um discurso improvisado e longo, cheio de derivas e referências aos clássicos (Padre António Vieira, D. Francisco Manuel de Melo), Saramago dirigiu-se por fim a João Tordo, dizendo-lhe (talvez com menos entusiasmo do que seria de esperar) que gostou de As Três Vidas, obra que revela raros dotes de efabulação: «Ele não perde nunca o pé na narrativa, nunca se afoga.» E depois deixou um conselho: «Caro João, cuide sempre da linguagem, defenda-a, proteja-a. Não se esqueça: ela é 70% da arte literária.»
Quanto a João Tordo, afirmou ser este um prémio que premeia o futuro e não o passado. «É para o que ainda se vai fazer, não para o que já se fez.»

João Tordo na Almedina

O romance As Três Vidas (QuidNovi), de João Tordo, vai ser discutido na Comunidade de Leitores da Almedina, coordenada por Filipa Melo, nos próximos dias 1 e 8 de Julho, a partir das 19h00 (na livraria Almedina do Atrium Saldanha). Como leitura paralela, está prevista uma obra magnífica de Roberto Bolaño: Os Detectives Selvagens (Teorema).

Pré-publicação: ‘As Três Vidas’, de João Tordo

No seu blogue, o autor já publicou as primeiras páginas. O que se segue aparece muito mais para a frente no romance, na terceira parte, “página 260 ou por aí…”:

«A Quinta do Tempo deixara de existir. Chegámos em menos de dez minutos, percorrendo os caminhos de terra, onde algumas casas recém-construídas, à beira da estrada, levavam com a poeira dos carros. Em redor da quinta, o isolamento era idêntico ao que eu conhecera, embora os campos parecessem agora desolados, como se ninguém mais os cultivasse. Quando percorremos o carreiro em direcção ao casarão, porém, a devastação causada pelo fogo começou a mostrar-se. Tanto o casarão como a casa das heras eram esqueletos instáveis, carbonizados na parte superior pelas cinzas, o interior das divisões visível do exterior. Apenas metade do tecto da casa das heras sobrara – curiosamente, a parte que cobria o antigo consultório de Millhouse Pascal, porque o resto fora levado pelo fogo, pelo vento e pelas chuvas. As portas permaneciam iguais, os candeeiros ainda intactos, de lâmpadas estilhaçadas, mas as heras pareciam ter ganho uma vida retorcida e haviam atravessado a fronteira entre as duas habitações, começando a trepar pelo que restava da parede do casarão, como um vírus fora de controlo. A folhagem já não era verde e brilhante, como outrora, mas castanha e ressequida, aflita da falta de água do Verão no Alentejo.
O pior cenário era o do jardim, por onde passeei um pouco, enquanto Artur se encostara à porta das traseiras da nossa antiga habitação. A relva havia crescido até à altura dos joelhos, o terreno seco como a pele gretada de um velho, por toda a parte as ervas daninhas atacando o solo. A grande árvore continuava ali, menos frondosa do que há uns anos, mas ainda assim a heróica sobrevivente naquele vale da morte. Os ramos tinham descido um pouco, a copa estava menos expandida e, no geral, parecia que também ela envelhecera – mas era um ser de uma força bestial, certamente o único que sobraria depois de tudo o resto desaparecer. Caminhando pelo meio da relva selvagem, recordei as tardes que ali passara com Camila, Gustavo e Nina, tentando relembrar a posição exacta da corda bamba, o lugar especial onde a neta de Millhouse Pascal, equilibrada sobre um fio, sonhava com as possibilidades imensas do futuro. Parecia ter sido noutra vida. Agora, o próprio futuro se tornara passado, e as sombras tinham descido sobre a Quinta do Tempo, transformando-a numa terra de ninguém. O meu patrão morrera, Camila desaparecera como uma nuvem num dia ventoso, e uma solidão imensa, opressiva, ruminante, cercara a duvidosa existência que eu levava.
“É inútil andarmos para aqui a passear”, disse Artur em voz alta, claramente incomodado por se encontrar ali. “Este lugar tem mau-olhado, ainda se pega.”
Voltámos no Bentley para a casa de Artur. Quando chegámos, não havia sinal da mulher ou do filho. Num gesto despropositado, dei-lhe um abraço atrapalhado, uma palmada reticente nas costas, a que ele respondeu com outra palmada, forçando um sorriso.
“Tem uma caneta e um papel?”, perguntei-lhe.
O homem entrou na cozinha e regressou com o que lhe pedira. Escrevi o meu nome e número de telefone na pequena folha em branco, e acrescentei uma pequena mensagem: No caso de encontrares este recado. Entreguei a folha a Artur.
“Posso pedir-lhe um favor? Volte a colocar as fotografias no apartado, e deixe lá este papel junto com elas. É o meu telefone de casa.”
“Para quê?”, perguntou Artur, segurando o papel.
Encolhi os ombros.
“Nunca se sabe. Tenho a suspeita de que os fantasmas também sabem fazer telefonemas.”
Nem eu próprio sabia exactamente o que pretendia com aquele gesto. Era impossível dizer se Gustavo alguma vez chegaria a ler o recado, mas alguma coisa me dizia que isso poderia acontecer. Talvez eu quisesse recuperar alguma esperança, ou descobrir, depois da visão apocalíptica da Quinta do Tempo, que restava ainda a possibilidade de alguma ligação ao passado. Porque eu era, na verdade, o único que tinha ficado para trás; o único que, para escapar ao que o futuro guardava, me ausentara da vida.
Meti-me no meu Fiat e, depois de ouvir as indicações de Artur – não saberia chegar ao lugar sozinho – parti quando a noite já descia sobre o mundo. Enganei-me algumas vezes no percurso, voltei atrás, consultei o pequeno mapa que o jardineiro desenhara. E, depois, quando a escuridão já consumira a luz e abraçava os campos, cheguei ao lugar que procurava, reconhecendo-
o, sem surpresa, depois de tanto tempo, por causa da lua: era o mesmo vale mergulhado na vertigem, o astro branco e luminoso suspenso entre dois montes. Saí do carro, pegando numa lanterna, e caminhei pelo campo. Não tinham passado cinco minutos quando, concentrado no foco de luz que me abria caminho por entre terra e arbustos secos, encontrei a árvore junto da qual Tito Puerta fora sepultado.
As árvores sobrevivem à passagem do tempo. A menos que um tremor de terra as engula, nenhum homem é capaz de arrancar uma árvore apenas pelo prazer de o fazer, a menos que queira desbastar o terreno onde ela se encontra, ou seja louco. Aquele terreno parecia intocado há muitos anos, e os loucos não abundam nos campos desertos e por cultivar do Alentejo. Agachei-me junto da cova e, apagando a lanterna e largando-a ao meu lado, enfiei as mãos na terra seca, deixando que os meus dedos penetrassem no interior daquela massa bolorenta e quebradiça. Apenas o céu me iluminava quando comecei a cavar com as mãos, sentindo, de repente, uma aflição do tamanho da eternidade, uma angústia colossal que me trouxe lágrimas aos olhos – tantas lágrimas que, ao final de alguns segundos, era incapaz de ver o que estava a fazer, e a terra saltava por todos os lados, atingindo-me os lábios, os olhos, agarrando-se às minhas roupas, torrões entrando para dentro da minha camisa.
Cavei, cavei e cavei, até os meus dedos estarem em carne viva, até não conseguir mais mover os braços, até a lua me parecer a íris de um deus silencioso e os cadáveres fugirem do meu desespero.»

João Tordo tem novo romance no prelo e um blogue já a funcionar

capa livro João Tordo

O romance sai em Setembro, com chancela QuidNovi. Intitula-se As Três Vidas e é uma história de funâmbulos, equilibristas atraídos pelo abismo, gente na corda bamba. A acção passa pelo Alentejo, por Lisboa e por Nova Iorque nos anos 80, “época de todas as ganâncias”, cruzando “a história sangrenta do século xx com a das personagens”.
O blogue, esse, tem o nome de quem o escreve e pode ser lido aqui.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges