Benite

1. Quando penso no Joaquim, a primeira coisa que recordo é a voz. Ao contrário da fisionomia, na minha memória a sua voz nunca mudou. Era uma voz escura, ao mesmo tempo áspera e de veludo, uma voz de tabaco. Voz teatral, das que se fazem ouvir no outro lado do palco, voz a erguer-se do fundo da plateia, a encher a sala quando é preciso avisar o actor de que a marcação não é assim, de que falta qualquer coisa num gesto, de que o silêncio naquela cena de Tchékhov devia durar mais (ou menos). Agora, o silêncio durará para sempre. A voz calou-se. E ainda não me habituei à sua ausência.

2. Em Julho de 1984, eu tinha 12 anos. A poucos metros de minha casa, no coração de Almada Velha, ficava o Beco dos Tanoeiros. Chão empedrado, casas baixas, janelas abertas, bancos corridos, um palco de madeira ao fundo da rua estreita. Por cima, o céu de verão. Eu já sabia o que era o teatro, já vira algumas peças, mas foi ali que me tornei espectador. Ali, no berço do Festival de Teatro de Almada, esse projecto que cresceu como uma planta ávida de luz, alastrando pela cidade, ganhando corpo e dimensão internacional, até se tornar um dos maiores acontecimentos da cultura deste país. Na minha cabeça, acende-se um mapa: Pátio do Prior do Crato, Palácio da Cerca (de onde se aprecia a mais bela vista de Lisboa, Tejo e tudo), o minúsculo Teatro Municipal antigo (de colunas vermelhas à entrada), o moderníssimo e amplo Teatro Azul, as bancadas íngremes da Escola António da Costa (onde em tempos fiz o chamado Ciclo Preparatório). Em todos esses lugares fui assistindo ao milagre da criação de um público, essa «obra-prima» do Joaquim, como lhe chamou Jorge Silva Melo, e não podia estar mais certo. Quando trocou Campolide pela margem Sul, Benite seguiu de certa forma o que Bernard Sobel fizera nos anos 60 em Paris, ao sair do centro para a periferia suburbana (Gennevilliers), com o propósito de começar do zero um teatro que nascesse da comunidade, ao serviço da comunidade. Era uma tarefa difícil, muito difícil, mas passo a passo cumpriu-se.

3. Ao longo dos anos, nos convívios após os espectáculos, quando os actores já haviam deixado as personagens e a adrenalina cénica nos camarins, aparecendo à nossa frente como quem sai cansado do emprego e bebe um copo com os amigos, nesses encontros em que o Joaquim sorria muito, feliz de ver a máquina do teatro a mostrar as suas entranhas, falei muitas vezes com ele sobre o que acabara de acontecer no palco. Nem sempre estávamos de acordo e creio que isso o animava. Perdia-se em discussões longas, argumentativas, apaixonadas, porque não entendia o teatro como um lugar de consensos. Exigente por natureza, consigo e com os outros, agradecia a exigência do seu público. Respeitava-a. E partilhava a sua visão dramatúrgica, explicava as suas escolhas, justificava a vinda de um determinado encenador ou daquela companhia andaluza. Sempre tive a sensação de que para ele o teatro começava muito antes do primeiro ensaio e continuava muito depois da última representação. O teatro era a própria matéria dos dias, uma forma de respirar.

4. Quando olho para trás, vejo uma amálgama de espectáculos. Personagens de Brecht num cenário de Beckett. Monólogos e coros gregos. A história dos homens, contada do princípio, uma e outra vez. Palavras ditas à boca de cena, murmúrios e gritos. O mundo inteiro atrás da cortina que se abre, interrompe a vida, reinventa a vida, e depois se fecha. Lá atrás, na sombra, o Joaquim.

5. Na tarde em que desci a alameda do cemitério, uma multidão enterrava os pés na lama, por baixo de um céu diluviano. Eram centenas de pessoas: amigos, companheiros de ofício, espectadores agradecidos. Houve quem falasse do Joaquim, quem lembrasse a sua obra. Não consegui ouvir essas despedidas. Ao sair do Alto de São João, debaixo da chuva, acompanhou-me a voz de veludo e tabaco: «Depois apagam-se as luzes e tudo acaba, não é?»

[Texto publicado no n.º 120 da revista Ler, Janeiro de 2012]

Joaquim Benite (1943-2012)

Estou demasiado triste para escrever sobre a morte deste homem extraordinário que fez uma coisa extraordinária: inventou um público para o teatro onde o teatro é mais necessário. Isto é, do outro lado do rio, na outra margem, na periferia da grande cidade e dos poderes instituídos. Ele fez outras coisas magníficas, mas só esta chega e sobra para dar a medida da sua importância na cultura portuguesa das últimas décadas. Lembro a voz do Joaquim, grave (de nicotina e vida vivida até ao tutano), lembro o desassombro com que falava das peças, dos actores, do mundo à sua volta. Há quase uma década, escrevi: «É um homem tenaz, obstinado, teimoso, um homem que insiste em tornar real a matéria dos sonhos (…) e ama o teatro da única forma possível: com a inteligência e a sensibilidade, mas também com o sangue, com as vísceras». Foi sempre isso, o Joaquim. As coisas continuarão, porque tudo continua sempre. A Companhia de Teatro de Almada. O Festival. A alegria milagrosa do teatro. Mas vamos sentir tanto a tua falta.

O Festival

Eu estava sentado na terceira fila. Por baixo de mim, a dureza do banco de madeira, a ser mais um degrau da grande plateia erguida na Escola D. António da Costa, desde há muitos anos o «coração» do Festival de Teatro de Almada. Por cima, o céu muito escuro, poucas estrelas, a luz vagabunda de um satélite. À minha volta, o silêncio do público. O silêncio de quem está preso ao que se passa em cima do palco e gosta de se sentir assim: preso. À minha frente, o palco. O palco iluminado. Luzes de projectores como se fossem o sol na Inglaterra do séc. XVI. O palco sem nada. Nenhum cenário, nada, nem sequer uma cadeira. Só um homem e a sua mala. Um homem mais a sua mala (de vez em quando pousada no chão; de vez em quando aberta para tirar, lá de dentro, um pano ou uma máscara). E as palavras. As palavras de Tubal – a personagem – ditas por Manel Barceló, o actor.
Eu não conhecia Tubal e creio que o público silencioso – muitas cabeças no escuro, à minha volta – também não. Porque Tubal é uma das mais obscuras personagens de Shakespeare, com um papel ainda menos importante, no enredo do Mercador de Veneza, do que o de Rosencrantz e Guildenstern na trama de Hamlet. Antes de ser resgatada por este brilhante monólogo de Gareth Armstrong, Tubal era uma sombra fugaz que durava oito réplicas. Oito frases num diálogo com Shylock, o judeu que empresta dinheiro a António, o mercador, exigindo uma libra da carne deste como penhor. Tubal não é apenas o melhor amigo de Shylock. «Sou o único», diz com orgulho, uma e outra vez. É talvez por ser seu amigo que tenta mostrar-nos outra imagem do «judeu maldoso», livrando-o do labéu diabólico e aproveitando para fazer a exegese desta peça de Shakespeare (devidamente enquadrada na restante obra do bardo, bem como no contexto do teatro isabelino), isto enquanto narra as desventuras e tragédias da História dos judeus na Europa.

Estava portanto sentado na terceira fila, contemplando Tubal a desmultiplicar-se em narrativas dentro de narrativas, transfigurando-se em 43 personagens diferentes – actores, bispos, soldados, o próprio rei – quando aquilo aconteceu. E não sei sequer explicar o que cabe na palavra «aquilo». Foi talvez uma frase dita num murmúrio, um gesto brusco, uma risada, o som da enorme mala a poisar nas tábuas. Foi qualquer coisa que accionou subitamente os mecanismos da memória, uma versão teatral da madalena de Proust. Sei apenas que me ausentei por momentos dali, da terceira fila. E regressei aos meus 12 anos.
Em 1984, eu tinha 12 anos e assisti ao primeiro Festival de Teatro de Almada. Era outra coisa, muito mais pequena, muito mais modesta. Um palco diminuto, ao fundo do Beco dos Tanoeiros, cadeiras de café em ferro (emprestadas daqui e dali), cem pessoas no máximo a assistir, mais as que espreitavam das janelas. Grupos amadores, erros e ingenuidades, uma alegria imensa de ver o mundo a ganhar forma sobre o palco. Depois, fui crescendo e o Festival também. Recordo todos os lugares por onde passou, por onde passámos: o Pátio do Prior do Crato (sempre à cunha; e mais ainda quando lá foi o Mário Viegas), o Largo da Boca do Vento (com as primeiras companhias estrangeiras), o Palácio da Cerca (inclinado sobre Lisboa, recebendo as brisas frescas que sobem do Tejo), o Teatro Municipal e, por fim, a Escola D. António da Costa. A minha antiga escola, a escola onde fiz o ensino preparatório. Abre-se uma memória dentro da memória e revejo as tropelias, as corridas, os cromos com as caras feias dos futebolistas, o jogo do alho, o cerco às raparigas (na fase dos apalpões), as conversas com o meu amigo Prakash Pratapsi Udeshi, um matulão indiano que viera de Moçambique (às vezes ainda tomava banho com leite de cabra, dizia ele) e que foi o meu adversário, vencido, na final do campeonato escolar de xadrez.
Recordo-me depois dos espectáculos que me marcaram. E foram tantos. De alguns perdi as referências: aqueles quatro actores que simulavam um quarteto de cordas (como se chamava a peça? de onde vinham eles?) ou o grupo que interpretou magistralmente a peça O Aumento, de Georges Perec. De outros lembro-me bem: o actor Rafael El Brujo Alvarez a levar ao rubro o Palácio da Cerca, com o seu esfomeado Lazarillo de Tormes; os Touros, Majas y otras Zarandajas, do colectivo Margen (Oviedo), a incendiarem as ruas de Almada; a hipnótica Viagem ao Centro da Terra no comboio transfigurado dos chilenos La Troppa; a poesia de Lorca dita por Núria Espert; as principais peças das grandes companhias portuguesas; ou os trabalhos recentes dos melhores encenadores europeus (Peter Brook, Joan Font, Bernard Sobel; a lista é longa).
Em todos estes anos – sou testemunha credível, porque não falhei uma edição que fosse – há uma figura que permanece no centro das operações e é a própria essência do Festival, mesmo quando se esconde atrás das cortinas para dar a ribalta aos actores. É um homem tenaz, obstinado, teimoso, um homem que insiste em tornar real a matéria dos sonhos. Chama-se Joaquim Benite e ama o teatro da única forma possível: com a inteligência e a sensibilidade, mas também com o sangue, com as vísceras. Quando o encontro, junto ao portão da escola, dando as boas-vindas aos espectadores, orgulhoso das peças que lhes vai oferecer logo a seguir, percebo que nem todos os caminhos da cultura estão condenados a terminar no deserto da frustração. Eu vi a barba deste homem a ficar branca com o passar do tempo, esse rio feito de júbilos, sustos, dúvidas, esperanças, inquietações. Mas vi também que o brilho dos seus olhos nunca esmoreceu. É hoje mais intenso do que nunca.
Intenso como a voz – agora triste, agora carregada de melancolia – do actor Manel Barceló, aliás Tubal. A peça está a terminar e ele acaba de explicar-nos a forma repentina como Shylock desaparece dos diálogos finais do Mercador de Veneza. O judeu, vencido no tribunal, mergulha no seu próprio infortúnio, cai na sombra da perdição. E eu desperto da minha viagem no tempo, enquanto Tubal se afasta com a sua mala, desaparecendo aos poucos na penumbra do palco. À minha volta, o silêncio do público desfaz-se. Aplausos, pessoas de pé, mais aplausos. Eu continuo na terceira fila, levanto-me, grito «bravo». Por cima, o céu muito escuro, poucas estrelas, a luz vagabunda de um satélite.

[Texto publicado no suplemento DNA, do Diário de Notícias, em Julho de 2003]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges