Toldados pelo toldo

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Bastou uma nota de duas linhas, colocada por Joaquim Manuel Magalhães (JMM) no final de O Toldo Vermelho (Relógio d’Água, 2010), para criar uma inusitada agitação nos habitualmente tranquilos círculos da poesia portuguesa. Por vontade expressa do autor, o novo livro, com menos de 200 páginas, «exclui e substitui» toda a sua obra poética anterior. O que despertou logo o sobressalto, com laivos de escândalo, não foi o acto de reescrita em si mesmo (JMM, como outros poetas, entrega-se ciclicamente à junção e revisão dos livros anteriores), mas a natureza desta reescrita – tão drástica, violenta e inesperada que deixou a maior parte dos críticos em estado de choque.
Antes ainda de me chegar às mãos, fui lendo o muito que se escreveu sobre Um Toldo Vermelho na imprensa e na blogosfera. Em prosa longa e fundamentada com exemplos (privilégio raro para quem faz crítica literária nos jornais), Luís Miguel Queirós mostrou-se inconsolável, no suplemento ípsilon do Público, diante do «estranho caso do poeta que destruiu a sua própria obra», agora reduzida a uma «deprimente mediocridade». No número de Abril da Ler, Jorge Reis-Sá garantia, num texto de dimensões igualmente generosas, no qual en passant ajustava contas com os poetas «sem qualidades» (Manuel de Freitas et al.), que o livro é «mau» e «sem sentido». Por seu lado, o poeta João Luís Barreto Guimarães, no blogue Poesia & Lda., ficou «atónito» com um «gesto de vanguarda» que troca o célebre regresso ao real por uma «aura herbertiana», agreste e hermética. Após cotejar alguns poemas, mostrando-os na versão original e na sua nova forma, Barreto Guimarães conclui que «já se deve ter percebido que me sinto pessoalmente ofendido com Joaquim Manuel Magalhães por ele me ter feito isto» (nos comentários ao post, Rui Lage, também ele poeta e admirador de JMM, afirma que Um Toldo Vermelho é «uma lástima»). Houve ainda quem falasse, noutras paragens da Internet, em «deriva niilista» e em «epifania de uma incongruência». De fora da quase unânime recusa ficou António Guerreiro (Expresso), que viu no livro «a mais radical operação poética – e a mais cheia de consequências – da literatura portuguesa das últimas décadas», ao desactivar «os princípios em que se baseou a poesia do autor» e ao desfazer-se corajosamente do belo «como quem esconjura uma ameaça».
A principal acusação dos detractores é que estes poemas só fazem sentido quando lidos à luz dos originais. Se JMM assassinou conscientemente a sua obra anterior, subentende-se, é forçoso voltar ao corpo vivo para compreender o cadáver. A mim, parece-me que o problema está justamente na suposta necessidade da leitura de uns a partir dos outros. Funcionando os actuais poemas como sínteses abruptas dos primeiros, a comparação entre eles gerará sempre uma perplexidade e um desconforto, nascidos da intuição de que algo se perdeu neste trânsito e reduzindo as novas formas ao mero efeito de uma energia destrutiva.
Para fugir a este enviesamento, tentei ler Um Toldo Vermelho às cegas, como se nunca tivesse ouvido falar de JMM. O resultado foi avassalador. Esta é uma poesia da rasura e da cesura, um magnífico mecanismo verbal que torce a linguagem até ao limite e nos agride, mas que não abdica da beleza, antes a procura nas linhas de fractura da própria escrita. Veja-se o poema da página 28: «Num ápice, dourado, / adulterava-se década e meia. // A coleira da emoção não acudia, / um interruptor a cessara. / A alcova da merenda / funde a siderúrgica missão. // Atroou-me um filho. / Ligarei adiante, / implodi. // Garotos ajudam / pela soma na ranhura / o carrinho. / A ventania joeira cotão e maravalha. // Oráculo do encerramento. / Todos ao reduto. / E muito cedo limpam à pressa / pó e lavam a cara / e se arranjam vagar / a porca louça da ceia.» Sendo um poema que nasce de um poema antigo, é um poema absolutamente novo. E nele podemos até descobrir pistas para a radicalidade do gesto de JMM. Reparem: «a siderúrgica missão»; «implodi»; «a ventania joeira cotão e maravalha». Está lá tudo. Basta colocar entre parêntesis a desconfiança automática diante de algo que nos escapa.

[Texto publicado no n.º 91 da revista Ler]

Cinco poemas de Joaquim Manuel Magalhães

Uma pá, a equipa de alumínio.
Cravelha e picareta.

Piquete de granizo.
Resíduo, tina, pilar.

A sanguínea aviva
o souto na aduela
de goivo e poejo.

A caleira gafa,
o lasso ferrolho
do herbicida e do adubo.

Açucena albarrã.
Ancoradouro. A vaga
uma voluptuosa vereda.

Colmeia, taça, maçã.

***

Apenas o real.

Diferendo. Árduo impacto.
Drenagem vidente.
Atípico e controverso
zarcão.

Superfície e miragem,
passaporte.

***

O balneário,
toalha revolta.
Tensa na súplica.

Eco, fivela, gume.

***

Cru e de bergamota.
Semblante, engulho,
a calça, ui a calça, tenro tom
de alça toupeira,
cobiça.

Engoles, encanto,
o objecto humilhado.
Conquanto no anelar
correta aliança te finja.
Âmbito árido.

O novelo da demanda
uma trave,
cimitarra turba do olvido.
A ribalta um sigilo,
decrépito revés e desacato.

E se interpretou no aqui
um exercício de sintaxe,
uma retórica minada de prosódia,
independente de biografia,
por favor não atrapalhe.

Uma cápsula de arrependimento,
um bourbon e triplo.

***

Sirene, bigorna deficiente,
o cansaço do poente tritura.
Um neutro fulminante.

O ramal do comboio.
Um acorde agita-se.
Modela uma caldeira
o agulheiro, no sapal.

A manivela desafia
a planície.
Flutua na semelhança
o apuro do semeador.

Equimose de demolição.
Alguém, nu.

[in Um Toldo Vermelho, Relógio d’Água, 2010]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges