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Três estrofes

«É o que eu amo fazer, adoro este movimento, esta dinâmica, esta poesia do triplo salto» – Nélson Évora

17,67

Nelson Évora

Sem bloqueios, sem azares, sem desculpas. Apenas com saltos elegantes, à campeão, Nélson Évora chegou ao ouro. E assim, não os apagando, redimiu os pecados olímpicos dos seus compatriotas. Valha-nos isso.

Aviso

Apesar da inflação de títulos numéricos e posts desportivos dos últimos dias, este blogue não deixou de ser sobre o que está dentro dos livros, à volta dos livros, antes e depois dos livros. A quem não vibra com prodígios na pista, peço paciência. Os Jogos Olímpicos estão quase a acabar e só acontecem de quatro em quatro anos.

9,69 (5)

Eis a prova de que Usain Bolt, antes ainda de entrar no Estádio Ninho de Pássaro, em Pequim, já fizera o agora mítico resultado de 9,69 segundos aos 100 metros.

19,30 (3)

Melhor título sobre os 200 metros de Pequim na imprensa portuguesa de hoje: Usain Bolt: um relâmpago pode cair duas vezes no mesmo lugar (no Público, página 22, texto de Manuel Assunção).

19,30 (2)

Fragmento de mais uma exemplar crónica olímpica de Ferreira Fernandes, no DN:

«Viram-no, ontem? Antes de partir [Usain Bolt] fez as macacadas do costume, pentear-se para as câmaras, mimar um arco para enviar a seta que lhe marca o nome (bolt, em inglês, é seta)… O Ninho de Pássaro tocou-lhe o Parabéns a Você – estádio apressadinho como o festejado, pois o mais célebre dos jamaicanos só faria 22 anos horas depois. Mas quando se atirou à pista, Bolt já não foi o mesmo dos 100 m, onde só correu perto de 80 e fez o resto da prova a saudar a sua supremacia. Desta vez, levou a peito a corrida toda – sem provocações (ontem, tinha ambas as sapatilhas com os atacadores apertados) – e quando cortou a meta já não foi de peito direito, como nos 100 m, mas de cabeça inclinada em quilha, de velocista que não quer dar centésimos de segundo a ninguém.»

19,30

Usain Bolt

Desta vez foram os 200 metros. Usain Bolt não bateu no peito, não reduziu a passada nem gozou com os adversários (para humilhação, basta os mais de cinco metros/meio segundo de avanço). Olimpicamente, o jamaicano foi sempre em rotação máxima até à meta. E no fim voltou a conseguir o impossível: bater o record de Michael Johnson (19,32 s), obtido em Atlanta há 12 anos e por muita gente considerado definitivo.
A proeza é tão extraordinária que isto já não vai lá com um poema. No mínimo, para lhe fazer justiça, impõe-se um romance russo de 1500 páginas, escrito a meias pelo Dostoievski e pelo Turguenev.

“Vai mas é trabalhar, fazer qualquer coisa de útil para a sociedade”

E ela fez. Parabéns, Vanessa.

9,69 (3)

«O tipo, claramente, abrandou para que a marca pudesse ser capicua. Não tenho dúvidas. 9,57 não tinha piada nenhuma.»

Ricardo, num comentário que o maradona promoveu, e muito bem, a post.

9,69 (2)

Só visto (apesar da péssima qualidade das imagens). Contado ninguém acredita.

9,69

usain_bolt.jpg

Eu vi Usain Bolt a correr no Estádio Olímpico de Pequim. Eu vi aquilo. O homem que partiu devagar (sétimo mais lento no arranque, em oito) e depois galgou o tartan como sei lá o quê, uma máquina elegante, uma coisa feita de aceleração pura. Eu vi o seu corpo a afastar-se dos outros, cada vez mais para diante e os outros mais para trás, um abismo a crescer entre ele e os rivais (coitados, apenas humanos). E depois o final, a certeza da vitória, cabeça virada para o lado (para as câmaras), palmas das mãos para cima, uma pancada no peito, tempo para tudo, até para chegar à meta, pois é, vamos lá atravessá-la nas calmas. E depois o resultado nos ecrãs do estádio: 9,69 s.
Nunca ninguém correu tão rápido. Nunca ninguém antes baixara dos 9,70. Há quarenta anos que o campeão olímpico não chegava ao fim com dois décimos de avanço. Pormenor delicioso: Bolt fez toda a corrida com os atacadores do sapato esquerdo desatados.
Alguém devia fazer um poema sobre isto (mas falem baixo, porque o Manuel Alegre pode estar a ouvir).

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges