A invenção do passado

Luz Antiga
Autor: John Banville
Título original: Ancient Light
Tradução: José Vieira de Lima
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 264
ISBN: 978-972-0-04593-5
Ano de publicação: 2013

Luz Antiga é o livro final de uma trilogia de John Banville, iniciada com Eclipse (2000) e Shroud (2002) – ambos publicados pela Ulisseia, em 2006 (com os títulos Eclipse e O Impostor). No primeiro livro, Alexander Cleave, um actor em crise, retira-se para a casa da sua infância, impregnada de memórias e premonições fantasmáticas, que se materializam numa tragédia final (o suicídio da filha, Cass). No segundo, tornam-se perceptíveis as eventuais razões para esse gesto extremo, quando acompanhamos a aproximação de Cass à figura de Axel Vander, um teórico da literatura sobre cuja verdadeira identidade ela descobriu um segredo comprometedor. No terceiro, já passaram dez anos sobre a morte da filha, mas os Cleave ainda não se apaziguaram. Lydia, a mãe, continua a acordar de noite, em sobressalto: «É uma espécie de sonambulismo, só que em vez de andar, ela corre, num estado em que ela se convence de que a nossa Catherine, a nossa Cass, ainda está viva e é de novo uma criança e se perdeu algures na casa.»
Embora a perda da filha esteja sempre presente, em fundo, como uma ferida que não sara, Alexander Cleave entrega-se, com evidente deleite, à recordação do seu primeiro (e talvez único) amor, vivido no verão dos seus 15 anos, quando se envolveu num tórrido romance com Mrs. Gray, a mãe do seu melhor amigo, vinte anos mais velha. Enquanto avança «aos tropeções pela Rua da Memória», recapitula os numerosos encontros sexuais, no banco de trás de uma carrinha ou numa casa abandonada no meio dos bosques, com buracos no telhado por onde entrava a luz. Em toda a descrição do processo amoroso, com os seus êxtases agigantados pela ameaça de um fim súbito (os amantes correm, uma e outra vez, sérios riscos de serem expostos), há como que uma dimensão de fantasia. É difícil perceber o que aconteceu de facto e o que corresponde à efabulação de um adolescente transtornado pelo desejo. Até que ponto podemos confiar na memória, quando até as cenas primaveris são contaminadas por motivos outonais? Ao recordar, reconstruímos. E quando olhamos para o que fomos, inventamo-nos.
Não por acaso, o filme no qual Alexander é convidado a desempenhar o papel de protagonista intitula-se A Invenção do Passado. No ecrã, cabe-lhe encarnar justamente a figura de Axel Vander, alguém que assumiu a identidade de outrém (como fazem os actores), um homem que ele pressente próximo da filha, quanto mais não seja porque estava em Portovenere, na costa da Ligúria, quando Cass ali pôs fim à vida, lançando-se para a falésia do alto da torre de uma igreja. A estrela de cinema com quem contracena, Dawn Devonport, lida com um luto mais recente: a morte do pai, fulminado por um ataque cardíaco, há menos de um mês. Frágil, desamparada, ela tenta suicidar-se com uma overdose de comprimidos, falha e acaba por encontrar em Alexander um refúgio. Tal como ele substitui a figura paterna, também ela tenta ocupar o lugar de Cass, acompanhando Cleave numa viagem a Portovenere que não chegará ao destino.
À excepção de Cleave e de Mrs. Gray, perfeitamente desenhados no abismo da sua carnalidade e no desamparo de uma relação impossível, as personagens deste livro são demasiado esquivas, difusas, escapam-se por entre os dedos. Nos livros de Banville, a história que se conta nunca é o mais importante. O que importa é a linguagem, que neste romance volta a ser de uma exuberância, plasticidade e requinte nabokovianos. Numa das muitas e pormenorizadas descrições de Mrs. Gray, diz o narrador: «Parece que estou a vê-la à mesa da cozinha, depois de ter arrumado a chávena, mas com a mão ainda levemente pousada nela, como que para reter a exata sensação, a sua exata textura, enquanto, com os dedos da outra mão, fazia girar o rebelde cacho de cabelo atrás da orelha.» A prosa de Banville funciona da mesma maneira: toca nas coisas ao de leve, retém sensações e texturas, capta atmosferas que já se desfizeram, ou que talvez nunca tenham existido, mas que depois de as lermos adquirem uma aura que não somos capazes de esquecer.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Primeiros parágrafos

«Billy Gray era o meu melhor amigo e eu perdi-me de amores pela mãe dele. “Amor” é capaz de ser uma palavra demasiado forte, mas não conheço nenhuma mais fraca que sirva. Tudo isto aconteceu há meio século. Eu tinha quinze anos e Mrs. Gray trinta e cinco. Estas coisas são fáceis de dizer, visto que as palavras não sentem vergonha e são imunes à surpresa. Se calhar, ela ainda é viva. Teria… quê?, oitenta e três, oitenta e quatro? Nada de especial nos tempos que correm. E se eu tentasse encontrá-la? Isso é que seria uma grande façanha. Gostaria de estar de novo apaixonado, gostaria de voltar a apaixonar-me, só mais uma vez. Podíamos fazer um tratamento à base de injeções de glândulas de macaco, ela e eu, e ficávamos como há cinquenta anos, rendidos a êxtases passionais. Pergunto-me como é que ela estará, quer dizer, partindo do princípio de que ainda habita este mundo. Ela era tão infeliz naquela época, só pode ter sido infeliz, apesar da sua corajosa e persistente boa disposição, e espero do fundo do coração que as coisas tenham melhorado.»

[in Luz Antiga, de John Banville, trad. de José Vieira Lima, Porto Editora, 2013]

John Banville sobre Franz Kafka

Uma abordagem a O Processo, no The Guardian.

John Banville sobre o último livro de Philip Roth

Numa crítica publicada hoje pelo Financial Times, Banville não poupa nas palavras. Para ele, o romance Indignation é uma «late masterpiece» e o melhor de Roth desde The Counterlife (1986).

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges