A arte da antecipação


Proust era um neurocientista
Autor: Jonah Lehrer
Título original: Proust was a neuroscientist
Tradução: Ana Carneiro
Editora: Lua de Papel
N.º de páginas: 271
ISBN: 978-989-23-0234-8
Ano de publicação: 2009

O famoso ensaio publicado por C. P. Snow, em 1959, sobre a «incompreensão mútua» entre as «duas culturas» (a humanística e a científica), já foi pretexto para vagas sucessivas de polémicas intelectuais. Na altura, Snow defendeu a criação de pontes entre os dois lados da barricada através de uma «terceira cultura», um espaço de diálogo em que os cientistas poderiam aprender com os artistas e vice-versa. O problema, diz Jonah Lehrer, é que esse espaço foi tomado de assalto por divulgadores científicos de «prosa elegante», capazes de introduzir temas como os buracos negros ou os genes egoístas no nosso «léxico cultural», mas que «muitas vezes assumem uma visão unidimensional da exploração científica e da sua relação com a humanística».
Para superar mais este impasse, Lehrer defende uma «quarta cultura» que equilibre por fim os pratos da balança. «Precisamos da arte» porque «ela ensina-nos a viver com o mistério», diz este wonderboy de 27 anos que se licenciou em Neurociências e Inglês na Universidade de Columbia, passou pelo laboratório de Eric Kandel (Prémio Nobel da Medicina em 2000), e é actualmente editor da revista científica Seed (além de manter o blogue Frontal Cortex). O seu primeiro contributo para a «quarta cultura» foi este Proust era um neurocientista, um livro tão ambicioso quanto arriscado.
A tese principal é simples: no início do século XX, houve artistas que «descobriram verdades acerca da mente humana – verdades reais, tangíveis – que a ciência está apenas agora a redescobrir». Lehrer concentra-se em oito artistas, e respectivas «intuições», porque «anteciparam a nossa ciência muito explicitamente». Os escritores estão em maioria: Walt Whitman, George Eliot, Marcel Proust, Gertrude Stein e Virginia Woolf. Há ainda um pintor (Cézanne), um compositor (Stravinsky) e um cozinheiro (Escoffier).
Capítulo a capítulo, o método de abordagem não varia. Lehrer começa por resumir as características principais de cada artista, depois identifica o conceito original (a antecipação) e por fim explica como as neurociências chegaram lá, muitas décadas depois. No caso de Walt Whitman, por exemplo, a sua defesa de uma fusão absoluta entre o corpo e a alma, bem como «a ideia de que os sentimentos começam na carne», encontra caução científica nos trabalhos de António Damásio. Já Proust teria intuído que a memória é um processo em curso, falível ainda por cima, e não um mero depósito de imagens cristalizadas. Sem o saber, Cézanne aproximou-se, com as suas maçãs difusas, do modo como a realidade é percepcionada pelo córtex visual. E Gertrude Stein, nos seus textos experimentais, muitas vezes impenetráveis, provou que existe uma estrutura da linguagem que permanece intacta mesmo quando o que se escreve não faz sentido, adiantando-se umas décadas às teorias de Noam Chomsky.
Lehrer sabe defender as suas ideias com paixão e estilo. A escrita é rápida, cativante, informada (remetendo para centenas de referências bibliográficas). As transições entre o universo de cada artista e o respectivo corolário científico são suaves, subtis, fluidas. Mas há qualquer coisa que não bate certo em todo este empreendimento. De tanto querer provar o seu ponto de vista, há passagens em que Lehrer embarca em saltos lógicos mal fundamentados ou simplistas, como se a elegância da prosa conseguisse, só por si, encaixar peças que pertencem claramente a puzzles diferentes. Por exemplo, ver na defesa do livre arbítrio de George Eliot uma relação com a plasticidade neural é, no mínimo, forçar as coisas. A fúria de descobrir nexos inesperados entre a arte e a ciência deixa-nos, neste livro, mais perto do wishful thinking do que do rigor metodológico, capaz de resistir ao escrutínio dos especialistas.
Proust era um neurocientista agita as águas e obriga-nos a pensar? Sim. E é esse o seu principal mérito. Lehrer, que caminhou de peito aberto por um terreno minado (não faltou quem lhe apontasse logo diversos erros e extrapolações abusivas), escreveu sobre Gertrude Stein: «Há momentos em que a confiança que deposita no seu génio raia a insolência.» Podia dizer exactamente a mesma coisa de si mesmo.

Avaliação: 7/10

[Versão ligeiramente mais longa de um texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]

Descubra as diferenças

Num press-release, a editora Lua de Papel explica por que razão o livro Proust Era um Neurocientista, de Jonah Lehrer, chegará aos escaparates (já na próxima quinta-feira) com duas capas tão diferentes que se tornam semelhantes:

«O cérebro é por natureza imperfeito, e são as suas imperfeições que nos permitem apreender a realidade. Jonah Lehrer explora os enganos da mente em vários capítulos de Proust Era um Neurocientista, e muito especialmente em “Paul Cézanne: O Processo da Visão”.
Para reforçar a ligação entre a apresentação gráfica da obra e o seu conteúdo editorial, a Lua de Papel publicou a obra de Jonah Lehrer com duas capas diferentes. Ambas evocam, de forma subtilmente figurativa, os contornos das circunvoluções cerebrais; mas as duas diferem na paleta cromática escolhida para o fundo e lettering – diferenças essas que, apesar de radicais, dificilmente são perceptíveis para o leitor, provando a tese do autor, e os princípios defendidos por Cézanne: “A crua realidade é que a visão é como a arte. O que vemos não é real. Foi regulado para se moldar à nossa tela, que é o cérebro.”»


Se bem me lembro, o meu exemplar tem o título a letras brancas. Ou será que eram negras? É melhor confirmar. [Pausa de um minuto.] São brancas, sim. Resultado do derby cérebro enganador de JMS vs. memória de JMS: 0-1.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges