Franzen vs. Rushdie

Jonathan Franzen, um dos mais celebrados romancistas norte-americanos dos nossos dias, acaba de lançar as suas traduções anotadas de alguns ensaios fundamentais de Karl Kraus (The Kraus Project, na Farrar, Straus and Giroux). Ora acontece que Franzen vê nas diatribes que o satirista vienense publicava, no início do século XX, contra a tecnologia desumanizadora e o consumismo capitalista, um rasgo visionário que se pode aplicar ao estado do mundo actual, em as pessoas vivem em função dos seus perfis no Facebook e escravizadas pelos smartphones. Entre as muitas farpas lançadas em várias direcções, o autor de Liberdade (D. Quixote) escreveu que Jeff Bezos, o criador da Amazon, «pode não ser o anti-Cristo, mas assemelha-se muito a um dos quatro cavaleiros do Apocalipse» e lamentou que um escritor com o estatuto de Salman Rushdie tenha «sucumbido» à febre do Twitter. Previsivelmente, a internet em peso caiu-lhe em cima, com bloggers a chamarem-lhe de «ludita» e snob para baixo. Fleumático, Rushdie respondeu à longa prosa de Franzen (pré-publicada pelo Guardian) com os poucos caracteres de um tweet: «pois que faça bom proveito da sua torre de marfim».

Franzen vs. ‘mundo moderno’

Num artigo publicado pelo The Guardian, o autor de Liberdade continua a sua cruzada contra uma contemporaneidade hipertecnológica, na qual vê a antecâmara de um desastre civilizacional. Eis um excerto:

«In my own little corner of the world, which is to say American fiction, Jeff Bezos of Amazon may not be the antichrist, but he surely looks like one of the four horsemen. Amazon wants a world in which books are either self-published or published by Amazon itself, with readers dependent on Amazon reviews in choosing books, and with authors responsible for their own promotion. The work of yakkers and tweeters and braggers, and of people with the money to pay somebody to churn out hundreds of five-star reviews for them, will flourish in that world. But what happens to the people who became writers because yakking and tweeting and bragging felt to them like intolerably shallow forms of social engagement? What happens to the people who want to communicate in depth, individual to individual, in the quiet and permanence of the printed word, and who were shaped by their love of writers who wrote when publication still assured some kind of quality control and literary reputations were more than a matter of self-promotional decibel levels? As fewer and fewer readers are able to find their way, amid all the noise and disappointing books and phony reviews, to the work produced by the new generation of this kind of writer, Amazon is well on its way to making writers into the kind of prospectless workers whom its contractors employ in its warehouses, labouring harder for less and less, with no job security, because the warehouses are situated in places where they’re the only business hiring. And the more of the population that lives like those workers, the greater the downward pressure on book prices and the greater the squeeze on conventional booksellers, because when you’re not making much money you want your entertainment for free, and when your life is hard you want instant gratification (“Overnight free shipping!”).
But so the physical book goes on the endangered-species list, so responsible book reviewers go extinct, so independent bookstores disappear, so literary novelists are conscripted into Jennifer-Weinerish self-promotion, so the Big Six publishers get killed and devoured by Amazon: this looks like an apocalypse only if most of your friends are writers, editors or booksellers. Plus it’s possible that the story isn’t over. Maybe the internet experiment in consumer reviewing will result in such flagrant corruption (already one-third of all online product reviews are said to be bogus) that people will clamour for the return of professional reviewers. Maybe an economically significant number of readers will come to recognise the human and cultural costs of Amazonian hegemony and go back to local bookstores or at least to barnesandnoble.com, which offers the same books and a superior e-reader, and whose owners have progressive politics. Maybe people will get as sick of Twitter as they once got sick of cigarettes. Twitter’s and Facebook’s latest models for making money still seem to me like one part pyramid scheme, one part wishful thinking, and one part repugnant panoptical surveillance.
I could, it’s true, make a larger apocalyptic argument about the logic of the machine, which has now gone global and is accelerating the denaturisation of the planet and sterilisation of its oceans. I could point to the transformation of Canada’s boreal forest into a toxic lake of tar-sands byproducts, the levelling of Asia’s remaining forests for Chinese-made ultra-low-cost porch furniture at Home Depot, the damming of the Amazon and the endgame clear-cutting of its forests for beef and mineral production, the whole mindset of “Screw the consequences, we want to buy a lot of crap and we want to buy it cheap, with overnight free shipping.” And meanwhile the overheating of the atmosphere, meanwhile the calamitous overuse of antibiotics by agribusiness, meanwhile the widespread tinkering with cell nucleii, which may well prove to be as disastrous as tinkering with atomic nucleii. And, yes, the thermonuclear warheads are still in their silos and subs.
But apocalypse isn’t necessarily the physical end of the world. Indeed, the word more directly implies an element of final cosmic judgment. In Kraus’s chronicling of crimes against truth and language in The Last Days of Mankind, he’s referring not merely to physical destruction. In fact, the title of his play would be better rendered in English as The Last Days of Humanity: “dehumanised” doesn’t mean “depopulated”, and if the first world war spelled the end of humanity in Austria, it wasn’t because there were no longer any people there. Kraus was appalled by the carnage, but he saw it as the result, not the cause, of a loss of humanity by people who were still living. Living but damned, cosmically damned.»

Primeiros parágrafos

«Naquela noite tinha havido uma tempestade em St. Louis. A água quedava-se em negros charcos fumegantes na calçada fronteira ao aeroporto, e, do banco traseiro do táxi, eu via a agitação dos ramos dos carvalhos sobre um fundo de nuvens citadinas baixas. Era sábado e as estradas estavam saturadas de uma sensação de extemporaneidade, de atraso – a chuva não caía, já tinha caído.
A casa da minha mãe, em Webster Groves, estava às escuras, à exceção de uma lâmpada com temporizador na sala de estar. Entrei, fui direito à prateleira das bebidas e servi-me de uma boa dose que já vinha a prometer a mim próprio desde antes do primeiro dos meus dois voos. Invadia-me o sentido de posse de um viquingue em relação a tudo a que pudesse deitar a mão. Estava prestes a entrar na casa dos quarenta, e os meus irmão mais velhos tinham-me confiado a missão de viajar até ao Missuri e escolher um agente imobiliário que se encarregasse de vender a casa. Enquanto estivesse em Webster Groves, a trabalhar em prol do património familiar, a prateleira das garrafas seria minha. Minha! Idem para o ar condicionado, que regulei para uma temperatura glacial. Idem para o frigorífico da cozinha, que achei necessário abrir imediatamente e vasculhar até ao fundo, na esperança de descobrir umas salsichas de pequeno-almoço, um guisado caseiro, alguma coisa cheia de gordura e de sabor que pudesse aquecer e comer antes de ir para a cama. A minha mãe tinha sempre o cuidado de etiquetar a comida com a data em que a tinha congelado. Debaixo de múltiplos sacos de mirtilos, descobri um saco com uma perca que um vizinho tinha pescado três anos antes. Debaixo da perca estava um pedaço de peito de vaca com nove anos.»

[in A Zona de Desconforto, de Jonathan Franzen, trad. de Francisco Agarez, Dom Quixote, 2012]

Jonathan Franzen, o paladino do livro em papel

«E-books are damaging society», diz ele.

‘Liking Is for Cowards. Go for What Hurts.’

Um artigo de opinião de Jonathan Franzen no The New York Times. Ou de como nem todos os escritores atacam o Facebook de uma forma gratuita e grosseira (sim, sim, estou a referir-me a Miguel Sousa Tavares).

A dor da imobilidade a ser desfeita

Liberdade
Autor: Jonathan Franzen
Título original: Freedom
Tradução: Maria João Freire de Andrade
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 684
ISBN: 978-972-20-4525-4
Ano de publicação: 2011

A principal singularidade dos Berglund — a família dentro e em torno da qual se desenvolvem as principais linhas narrativas deste romance — é não terem singularidade nenhuma. Eles vivem num bairro de classe média aburguesada, algures no Minnesota, onde prestam culto à boa vizinhança. Antiga basquetebolista, Patty assume-se como «abelha afável», a «bem-humorada carregadora do pólen sociocultural», ostensivamente decidida a representar o papel da mãe perfeita e dona de casa exemplar. Quanto a Walter, o marido, funcionário da 3M que se transferiu para a Conservação da Natureza, rapaz do campo com gostos sofisticados (Stravinsky, teatro experimental, bandas musicais alternativas) mas igualmente capaz de soldar uma junta de cobre, vai exercendo a simpatia como um mantra. Para compor o retrato, dois filhos: Jessica, a rapariga responsável; e Joey, o rebelde em potência (sendo que a rebeldia máxima, numa casa que vota nos democratas, passa por adoptar os valores republicanos).
Atrás desta fachada de respeitabilidade pública, as coisas são mais complexas. Há tensões, dramas, choques geracionais, erros que se acumulam e repetem. No bairro murmura-se que «sempre houve algo de estranho com os Berglunds», como se não houvesse sempre algo de estranho com toda a gente, como se a suposta normalidade não fosse uma convenção social. O que Franzen nos revela é o que os vizinhos intrometidos, capazes de julgar apenas pelo que vêem de fora, desconhecem: a mecânica interna da família, as muitas camadas de experiências humanas sobrepostas que moldaram a sua natureza e explicam o colapso iminente. À medida que os anos passam, o casamento treme nas fundações, ameaçado pelo fantasma de um triângulo amoroso mal resolvido, em que o terceiro vértice é Richard Katz, o melhor amigo de Walter desde os tempos da faculdade, músico egocêntrico e mulherengo que regressa à dureza do trabalho manual, construindo terraços panorâmicos para os ricaços de Nova Iorque, depois de ter alcançado inesperadamente a fama.
Num dos relatos autobiográficos de Patty, erguido em torno do «grande vazio da sua vida» e da lenta queda nos abismos depressivos da autocomiseração, ela descreve uma visita fugaz à universidade da filha. Ao olhar para um dos edifícios, depara com a seguinte inscrição numa pedra: «Usai bem a vossa liberdade». É este o problema central que aflige, consciente ou inconscientemente, a maioria das personagens do livro. Não tanto como ganhar a liberdade, mas o que fazer dela. Uma questão que atravessa os vários planos narrativos que Franzen consegue, sem atritos, encaixar uns nos outros, tornando fluido o contínuo vai-vem entre a esfera individual e a visão mais abrangente de um país, os EUA, confrontado com encruzilhadas históricas, económicas, políticas, ecológicas, etc.
Franzen é especialmente eficaz no desenho das personagens e no modo como nos mergulha nos seus conflitos interiores, na sua psicologia. O que tantas vezes falta noutros romances contemporâneos, há aqui de sobra — isto é, a espessura emocional que torna verosímeis e palpáveis as figuras saídas da imaginação do escritor. Quanto ao estilo, digamos que mantém as qualidades evidenciadas em Correcções (o romance anterior, de 2001, que fazia para a última década do século XX o que este faz para a primeira do século XXI), oferecendo-nos parágrafos e frases de fino recorte em quase todas as páginas. Exemplo: «Há uma tristeza perigosa nos primeiros sons do trabalho matinal de alguém; como se a imobilidade sentisse dor por estar a ser desfeita.» Não sendo o «romance do século», como decretou um crítico do The Guardian, este é ainda assim um livro poderosíssimo sobre isto de estarmos vivos em tempos conturbados, com todas as contradições imagináveis, mas também com a resiliência que nos permite sobreviver — apesar de tudo mais facilmente do que a mariquita-azul (a pequena ave ameaçada que Walter se propõe salvar).
Depois de ler Guerra e Paz, onde encontra espelhados alguns dos seus dilemas, Patty confessa-se «alterada» pelo romance de Tolstói. Salvaguardadas as devidas distâncias, duvido que haja leitores que não se sintam igualmente «alterados» depois de lerem Liberdade. É esse o poder maior da literatura.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Hype, modo de usar

O novo romance de Jonathan Franzen (Freedom) está cada vez mais transformado na grande notícia da rentrée literária global. Depois da capa da Time (onde o apelidam de «great american novelist»), houve a notícia de que Obama teria escolhido o livro para as suas leituras de férias em Martha’s Vineyard e começaram a sair críticas ditirâmbicas dos dois lados do Atlântico (o The New York Times diz que estamos perante uma «obra-prima da ficção americana»; um crítico do The Guardian garante que é «o romance do século»).
Se isto não é hype, o que é hype?

O desconforto de Franzen

Num momento em que é falado em todos os cantos da blogosfera literária mundial, por ter aparecido na capa da edição desta semana da revista Time, Jonathan Franzen não esconde o desconforto perante tamanha exposição mediática (um desconforto assinalado logo no perfil de Lev Grossman na Time). Mas pior do que falar para um jornalista deve ser falar para uma câmara, como se depreende deste curtíssimo vídeo em que explica os aspectos essenciais de Freedom, o romance que vai lançar no fim do mês:

O início do seu depoimento é quase um manifesto:

«This might be a good place to voice my profound discomfort at having to make videos like this since, to me, the point of the novel is to take you to a still place. You can multitask with a lot of things, but you can’t really multitask reading a book.»

Será Franzen o grande romancista americano do nosso tempo?

capa_time

A Time acha que sim. Pela primeira vez numa década, a famosa revista de cercadura vermelha escolheu para a capa um escritor vivo: Jonathan Franzen, 51 anos (completados amanhã), que publicou As Correcções (Dom Quixote) em 2001 e só agora regressa ao romance com Freedom, a lançar no fim do mês. O entusiasmo da newsmagazine vai ao ponto de lhe chamar “Great American Novelist”, um epíteto reservado habitualmente para os monstros sagrados, como Hemingway, Faulkner ou Scott Fitzgerald. Ao justificar a escolha, Lev Grossman não parece ter dúvidas: «Franzen isn’t the richest or most famous living American novelist, but you could argue — I would argue — that he is the most ambitious and also one of the best.» Vá lá: «one of the best» e não «the best». Ainda assim, a aposta é no mínimo discutível e já está a animar os sites e blogues sobre livros nos EUA.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges