Primeiros parágrafos

«É um mar de cores, vivas e húmidas, debicadas pelo zumbido dos insectos. O rosmaninho polvilha o verde, nódoa lilás salpicada pelo vermelho das papoilas e o amarelo dos malmequeres, ensombrada pelas nuvens que se precipitam para o rio, atrás do Sol.
De vez em quando, ouve-se um balido, uma voz, o estalido de um galho quebrado. E, no entanto, nenhum barulho de passos denuncia a presença de mais alguém – nem mesmo a dos animais que devem pastar algures, para justificar o texto que me impede de ouvir o silêncio que acabo de quebrar.»

[in O livro do fim, de Jorge Fallorca, edição do autor, 2012]

Primeiros parágrafos

«O tempo passou. O caso arrastou-se para o esquecimento, até um dia. Encontraram-no pendurado pelos pés, descalços, no galho de uma árvore velha. A boca estava amordaçada, com crostas de sangue, anónimo. Tinham-lhe dado um tiro. A agonia estava escrita no chão.
Ninguém quis descer o corpo. Os vizinhos calaram-se. O silêncio era consensual. Alguém de fora tinha feito aquilo. Confiavam no tempo para apodrecer a razão.
Vieram moscas varejeiras e aves de rapina. Seguidas pelos lobos e as raposas, apoiadas nas patas de trás. As formigas procuraram-no atordoadas pelo cheiro. Garantiu-lhes a sobrevivência, pouco a curiosidade.
À noite, os vizinhos trancavam as portas e tapavam os ouvidos e vendavam os olhos. O caso recortava-se na loucura. Ninguém dormia, ninguém falava. Era o estandarte das armas indesejadas, desfraldado numa árvore velha. Descalço.
E começou o exílio. E a suspeita, entre os que ficavam.»

[in A Mulher Descalça, de Jorge Fallorca, edição do autor, 2011]

‘Dublinesca’

Enquanto vai traduzindo para a Teorema o último romance de Enrique Vila-Matas, o Jorge Fallorca partilha connosco alguns magníficos excertos do seu trabalho. Um privilégio, é o que vos digo.

Um regresso errante

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Blues para uma puta velha
Autor: Jorge Fallorca
Editora: &Etc
N.º de páginas: 99
ISBN: 978-989-8150-21-9
Ano de publicação: 2010

Escritos em 2008 e publicados «aleatoriamente» no blogue da editora Frenesi, estes textos autobiográficos de Jorge Fallorca prosseguem uma espécie de itinerário das suas errâncias e vagabundagens, tanto geográficas como intelectuais. Desta feita, em vez de viajar para o «seu» Sul – o Marrocos de Al-Khaïma (Teorema, 2004) ou o Algarve de A Cicatriz do Ar (edição de autor revista e aumentada, 2009) –, Fallorca ruma a Mortágua, vila natal, onde se instala durante quatro meses numas águas-furtadas, em retiro com laivos de terapia.
Tomando notas a lápis no «café ao lado da Câmara», ele narra de forma desprendida o seu quotidiano: as manhãs que começam tarde, o périplo por ruas e tascas, a vontade de usar uns guaches comprados para o sobrinho-neto, a tradução de As Vozes do Rio Pamano (magnífico romance de Jaume Cabré), a mãe com Alzheimer (para quem ele passou a ser «uma sombra que lhe leva sempre bombons»), as leituras e releituras (Chatwin, Sebald, Freud, Michaux), os encontros fortuitos, mas sobretudo a invasão, a cada passo, da infância – através de sítios e figuras do passado remoto que a memória vai acendendo.
Tudo escrito e descrito sem pompa nem alarde, a prosa rente à terra, feita de minudências, caótica, com parágrafos que não se querem «de ferro forjado». Aliás, «a escrita perde sempre piada» quando se permite «que a literatura comece a meter o bedelho». E Fallorca, muito à sua maneira, não permite.

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Tresli… e até nem desgostei!

«Talvez influenciado pela releitura de Austerlitz, senti-me impelido a ir ver a campa do meu irmão. Há duas semanas, o número de carros estacionados e de familiares que vi em silencioso recolhimento por entre as campas, à medida que subia para o Cabeço do Senhor do Mundo, como se me elevasse numa vertigem acima do patchwork fúnebre das campas estampadas na terra argilosa, achei melhor adiar para uma oportunidade mais íntima essa visita que fui esquecendo, à medida que me esforçava por esquecer Mortágua.
Agora, que me lembro, não sei se além das sucessivas peregrinações de Austerlitz, que Sebald ilustra com fotografias de cemitérios onde o tempo parece ausente, não sei até que ponto não terá também contribuído a oferta, quando estava sentado à porta do café, de um saco de pano cru com uma monografia do concelho de Mortágua e o catálogo de uma exposição de fotografias – não devem constar todas –, não sei, dizia, até que ponto não foram as pulsões despertadas pelas duas leituras, Austerlitz e o catálogo, que me impeliram a ir “ver o meu irmão”.
Leio que faria cinquenta e sete anos na quarta-feira, dia nove de Julho de dois mil e oito, leio junto da pedra tumular e vejo-o olhar não sei para “onde”, com uma expressão que, se quiser, posso interpretar como um rictus conformado, a olhar de mãos nos bolsos para o que ali ficou a ver no lado esquerdo da fotografia enquanto ela durar.
Assim que transpus o portão, rematado pela pequena caveira com dois fémures infantis cruzados sobre o ponto onde os dois portões de ferro se fecham, que só me lembro de ver um sempre aberto, quando não abertos de par em par, e depois de descer o degrau e entrar no cemitério onde, até à morte do meu irmão, só havia a sepultura da minha avó que morreu quatro meses antes de eu nascer, não pude deixar de reparar que a maior parte das fotografias das campas são fotos tipo passe, fotos de arquivo, como se deambulasse por uma biblioteca muda.
Exceptuando a perturbadora expressão do meu irmão, de que já não me lembrava, não vi em nenhuma campa uma foto onde palpitasse outra vida para além da identificação oficial do defunto, estática, arquivada; só notei a falta da pancada forte que lhes imprime a mordedura de um selo (em) branco.
Uma marca de água.»

[Jorge Fallorca, Blues para uma puta velha; &Etc, Lisboa, 2010]

Selecção de José Mário Silva

O Cheiro dos Livros

Escrito nem sempre a lápis: eis o blogue de Jorge Fallorca, agora a solo (e já com link no blogroll, para facilitar as visitas diárias).

Sublinhar ou não sublinhar

«É raro sublinhar um livro e detesto ler livros sublinhados. Já me devolveram livros completamente riscados de uma ponta à outra, cheios de nódoas e desconjuntados. Irremediavelmente gastos. Essa impressão digital tem o inconveniente de denunciar onde a leitura foi abandonada, ou detectar onde o interesse começou a rarefazer-se.
Creio que não sublinho livros por me terem ensinado a estimá-los.»

[in A Cicatriz do Ar, de Jorge Fallorca, edição do autor, 2009]

“Um livro de trabalho”

Após um longo processo de urdidura e rasganço, procrastinação e recomeço, de que nos foi dando sinais menos velados do que ele talvez lá no fundo desejasse, o Jorge Fallorca está mesmo, mesmo a acabar a tradução do Diário Volúvel, de Enrique Vila-Matas. E, ontem à noite, escreveu isto:

«É uma sensação estranha; deixei para amanhã as duas últimas páginas e meia, a assobiar para o lado. Depois passo os olhos por ela, mando-a só para receber e, como combinado, vou deixá-la em pousio para a ler sem me sentir tesicado pelo fantasma “Despacha-te, pá!” Resquícios que me ficaram da síndroma do “fecho de páginas”. Um gajo bem tenta, bem se esforça, mas não é de chumbo, a coisa fica em lume brando e salta quando menos se espera; a imprensa. Meu Deus, há quanto tempo ela não “fornece um novo dia” (Herberto Helder).
Mas devo confessar que, além da mencionada lágrima no olho, e não o escrevo “em forma de coração” (Salinger), chegada a hora de devolver o livro todo massacrado pelas molas que o mantêm aberto e anotado, sinto-me borradinho de medo. Uma coisa é lê-lo e conversarmos, outra, bem diferente, é o sentimento de frustração quando se acaba de traduzir um livro. Por mim falo, sinto-me roubado, privado de uma companhia; como se o computador tivesse dado o berro e oferecido um ficheiro ao vazio. Longe vá o agoiro; não me dava jeito nenhum, ver a minha biblioteca de babel a arder.»

Texto completo aqui.

Boa nova

A mui esperada tradução do vila-matasiano Diário Volúvel, pelo Jorge Fallorca, «aproxima-se vertiginosamente do final». Pelo menos é o que ele diz, a uma semana de se instalar numa pensão de Porto Covo, terreola virada ao mar onde apanhará cravos-das-dunas e «pedras para construir paisagens inventadas, celebrar a nova década que aí vem».

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges