Melancolia e vento turvo
Velhos
Autor: Jorge Gomes Miranda
Editora: Teatro de Vila Real
N.º de páginas: 51
ISBN: 978-989-95686-3-1
Ano de publicação: 2008
Uma das características da obra recente de Jorge Gomes Miranda – poeta dos mais activos no nosso país (dez títulos desde 2002, em sete editoras distintas) – é o modo como altera o tom e as coordenadas da sua escrita, de livro para livro, criando para cada um deles universos autónomos, com uma lógica interna muito vincada. Se em O Acidente (Assírio & Alvim, 2007) eram os objectos do quotidiano – lâminas de barbear, chávenas, cassetes, molas da roupa – a descrever o embate de um homem contra uma ausência que tudo devora, em Velhos é de um ciclo épico que se trata, com direito a proposição, invocação e dedicatória, mais o improvável coro de tragédia grega, acomodado nas “cadeiras de plástico” de um lar de idosos. “Velhos, divinos velhos, como esquecer-vos?”, pergunta JGM, tratando esses “soberanos escorraçados da beleza” com um respeito que o resto da sociedade, por acção ou omissão, deixou de lhes prestar.
Com os corpos inclinados “na direcção do inverno”, os velhos avançam até ao “proscénio do poema” e ali ficam, à mercê da memória ou de um golpe de súbita ternura, esperando que os leitores não os abandonem à sua sorte. A atmosfera do livro está saturada de melancolia e “vento turvo”, mas também do rancor amargo com que os “patifezinhos de segunda”, sentindo próxima a hora, inventam maldades, embirrações e vinganças para enganar o medo.
Só é pena que alguns poemas de coloquialidade algo forçada, cheios de exclamações (há um com cinco), acabem por comprometer, lá mais para o fim, a coerência até aí impecável do conjunto.
Avaliação: 7/10
[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]
Dois poemas de Jorge Gomes Miranda
FOTOGRAFIA ACABADA DE REVELAR
Por vezes, só me dava dores de cabeça,
consumições,
a ponto de ter de ferrar-lhe um bofetão.
Mas que alegria noutras alturas:
quando vinda da escola chegava
ao pé de mim, a sorrir,
e me punha a mão, de criança, na cabeça
e eu,
um velha para aqui,
ficava tal
uma fotografia acabada de revelar.
SEMENTEIRA
Com um garfo
separava
para uma saca de plástico
arroz,
pedacinhos de pescada,
carapau, chicharro;
as espinhas deitava-as ao lixo.
O melhor do conduto
era sempre para os gatos.
Semelhante ao poeta
que guarda a parte maior
da sua vida,
as palavras,
para o leitor.
[in Velhos, colecção Poesia Portuguesa Contemporânea das edições do Teatro de Vila Real, 2008]


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