O poeta na cidade

Obra Poética – Vol. 1
Autor: Jorge Luis Borges
Tradução: Fernando Pinto do Amaral
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 112
ISBN: 978-989-722-071-5
Ano de publicação: 2012

Quando em 1923 escreveu o seu primeiro livro de poesia, pouco depois do regresso à Buenos Aires natal, após longa permanência na Europa, Jorge Luis Borges ainda não era o escritor que viria a ser: o Borges das grandes especulações metafísicas, dos labirintos reais e imaginários, das fantasias eruditas, da literatura enquanto matéria que se alimenta da sua condição livresca. Em vez disso, temos alguém que canta uma cidade mítica, deambulando pelas ruas, pelos cemitérios, pelos pátios, entrevendo grandeza obscura, porque decadente, na paisagem urbana, limitada por arrabaldes onde o perigo espreita, antes da pampa e sua desmesura. Ao voltar a Fervor de Buenos Aires em 1969 (versão agora reeditada pela Quetzal no volume 1 da Obra Poética, a que se juntam os dois livros seguintes: Lua Defronte, de 1925, e Caderno San Martín, de 1929), Borges mitigou «excessos barrocos» mas admitiu que «aquele rapaz» de 1923 já era «essencialmente» o «senhor que neste momento se resigna ou corrige».
Os dois primeiros versos do livro não podiam ser mais explícitos: «As ruas de Buenos Aires / são já as minhas entranhas.» Borges ama a sua cidade visceralmente: respira-a, sonha-a, evoca-a com o corpo tímido (uma carnalidade feita de palavras e metáforas: «A tua ausência cerca-me / como a corda à garganta. / O mar ao que se afunda»). O tom é elegíaco. O poeta lembra os antepassados, exalta uma rosa, fixa os ritmos da natureza e os cambiantes da luz (lentos entardeceres, crepúsculos, a alba). Aqui e ali, irrompe o sentimento amoroso, mas quase sempre condenado: «Em ti mora o prazer / tal como a crueldade nas espadas». Surgem também, antecipando temas recorrentes no futuro, a «suspeita geral e confusa / do enigma do Tempo», aproximações ao mistério da morte, ao «silêncio que habita nos espelhos», ao «medo unânime da sombra». No prólogo, Borges é categórico: «Para mim, Fervor de Buenos Aires prenuncia tudo o que faria depois.» Talvez haja menos exagero nesta frase do que parece à primeira vista.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 118 da revista Ler]

Voltar a Borges

Aconteceu-me com Jorge Luis Borges algo que não voltou a acontecer com mais ninguém. Quando o escritor argentino morreu, em Junho de 1986, eu tinha 14 anos e uma apetência voraz por tudo o que fosse «matéria escrita». Lia muitos livros (aproveitando as tardes infinitas dos infinitos verões do início da adolescência), mas também lia de ponta a ponta todos os jornais que me fossem parar às mãos. Para o vespertino Diário de Lisboa nunca reservava menos do que duas ou três horas diárias (quando finalmente o dobrava e ia lavar as mãos, antes do jantar, o lavatório enchia-se de tinta negra); os sábados, passava-os até meio da tarde a devorar com método, sempre pela mesma ordem, os vários suplementos do Expresso, não suspeitando que um dia viria a escrever naquelas páginas. Creio que foi pelo DL que soube da morte de Borges. Na altura eu acompanhava religiosamente o Mundial de Futebol no México (Portugal fora eliminado por Marrocos três dias antes), mas de súbito passou a existir outro argentino prodigioso, para além de Maradona.
Nos obituários e textos evocativos, eram recordados o génio literário, a erudição, a vida rodeada de livros por todos os lados, a cegueira, os temas obsessivos (bibliotecas, tigres, eternos retornos), bem como as sinopses de alguns dos melhores contos. Lembro-me de pensar: «Eu tenho de ler isto. Eu tenho de ler Borges.» Ao mesmo tempo, evitei os ímpetos do entusiasmo. Não sei porquê, meti na cabeça que era demasiado cedo para entrar em tão fabuloso labirinto. Inconscientemente, estava a tentar fugir à melancolia de Bernardo Soares, que no Livro do Desassossego admite: «ter já lido os Pickwick Papers é uma das grandes tragédias da minha vida». Tragédia porque nunca mais voltamos a ler pela primeira vez um livro amado (como nunca mais voltamos a ouvir pela primeira vez os últimos quartetos de Beethoven). Não quis desperdiçar a abordagem inicial a um autor que poderia vir a ocupar um lugar importantíssimo, senão o lugar cimeiro, no meu panteão literário (como veio a acontecer). Por isso adiei Borges. Senti a urgência de o ler aos 14 anos, mas esperei pelos 18, como quem aguarda a maioridade para descobrir os grandes prazeres.
Já na Faculdade de Ciências, um amigo do curso de Biologia andava pelos corredores da Escola Politécnica com Borges debaixo do braço, não escondendo um sorrisinho metafísico. Não aguentei mais. Atirei-me de cabeça. Pedi-lhe emprestada a Nova Antologia Pessoal (Difel), depois o Ficções na edição da Livros do Brasil (o maior choque térmico intelectual da minha vida). Fiquei apanhado de vez, irremediavelmente convertido à causa borgesiana. Depois, só descansei quando devorei tudo, primeiro livro a livro (em edições baratas da Alianza, compradas nas idas a Espanha), mais tarde nos quatro volumes das Obras Completas, publicadas pela Teorema (1998-1999). Borges é daqueles autores a que podemos sempre regressar, uma e outra vez ao longo da vida, porque a sua escrita – ou a percepção que dela temos – evolui connosco, vai reflectindo aquilo que em nós se altera com a acumulação de experiências, de leituras e conhecimentos entretanto adquiridos. Ler Borges aos 40 anos não é a mesma coisa do que ler Borges aos 18 (ou, claro está, aos 14). Tal como não será lê-lo aos 86.
Agora que a Quetzal inaugurou uma colecção Jorge Luis Borges, O Livro de Areia voltou à minha mesa de cabeceira. Há dias reli o primeiro conto: O Outro. É uma variação sobre o célebre Borges e Eu (de O Fazedor). Em 1972, o narrador Borges senta-se em Cambridge (Boston), diante do rio Charles, e encontra-se consigo mesmo, isto é, com o Borges de 1918, sentado num banco em Genebra, «a uns passos do Ródano». Heraclito e o rio do tempo são evocados, claro. O Borges de 72, maduro e reaccionário, olha com benigna condescendência para o jovem cujos versos adolescentes pretendem cantar «a fraternidade de todos os homens», essa «abstracção». E remata: «Só os indivíduos existem, se é que alguém existe. “O homem de ontem não é o homem de hoje”, sentenciou certo grego. Nós dois, neste banco de Genebra ou de Cambridge, somos talvez a prova disso.» Nós quatro, diria eu.

[Texto publicado no n.º 111 da revista Ler]

As ruas de Borges

Homenagem a JLB, feita por Ian Ruschel e a sua Canon 5D.

Google recorda Jorge Luis Borges

Hoje, dia do 112.º aniversário de um dos maiores escritores do século XX, a Google homenageia Jorge Luis Borges, dedicando-lhe o desenho especial do cabeçalho. A ideia é excelente mas a ilustração, tenho de o dizer, não me satisfaz. Pôr Borges a olhar para a complexidade do mundo a partir da sua biblioteca faz algum sentido (se ignorarmos o facto de naquela idade ele já ser cego), mas a arquitectura da cidade é pouco borgesiana. A sugestão de labirinto, ao centro, quase não se dá por ela. E nem sombra de espelhos, ou tigres, ou mapas, ou bestiários fantásticos. Já para não dizer que os dois “o” de Google poderiam perfeitamente ser representados pelas galerias hexagonais da Biblioteca de Babel.
Ainda assim, parabéns Google, pela lembrança.

Efeméride

Há precisamente 25 anos, morria em Genebra o maior escritor do século XX.

De Z(ahir) a A(leph)

Depois de O Zahir, Paulo Coelho prepara-se para lançar O Aleph.
Jorge Luis Borges, coitado, lá vai dando voltas e mais voltas na tumba.

Sonhos

«Vamos de táxi a casa de Bioy e de Silvina, um apartamento espaçoso que proporciona a vista de um parque. Há décadas que Borges passa várias tardes por semana neste apartamento. A comida é horrível (hortaliça cozida e, à sobremesa, algumas colheradas de doce de leite), mas Borges não se dá conta. Esta noite, cada um deles, Bioy, Silvina Ocampo e Borges, conta aos outros os seus sonhos. Com a sua voz àspera e grave, Silvina diz que sonhou que se afogava, mas que o sonho não foi um pesadelo: não houve dor, não teve medo, sentiu simplesmente que estava a dissolver-se, a tornar-se água. Depois Bioy refere que no seu sonho se encontrava diante de duas portas. Sabia, com essa certeza que muitas vezes possuímos em sonhos, que a porta da direita o levaria a um pesadelo; resolveu transpor a da esquerda e teve um sonho sem incidentes. Borges observa que ambos os sonhos, o de Silvina e o de Bioy, são em certo sentido idênticos, uma vez que os dois sonhadores esquivaram-se ao pesadelo com êxito, um rendendo-se-lhe, outro negando-se a penetrar nele. Conta a seguir um sonho descrito por Boécio, no século V. Nele, Boécio assiste a uma corrida de cavalos: vê os cavalos, a linha de partida e os diferentes e sucessivos momentos da corrida até que um dos cavalos cruza a meta. Então, Boécio vê um outro sonhador: alguém que o observa a ele, observa os cavalos, a corrida, tudo ao mesmo tempo, num só instante. Para esse sonhador, que é Deus, o resultado da corrida depende dos cavaleiros, mas esse resultado é já conhecido pelo Sonhador. Para Deus, diz Borges, o sonho de Silvina seria ao mesmo tempo agradável e digno de um pesadelo, enquanto, no sonho de Bioy, o protagonista teria atravessado ao mesmo tempo as duas portas. “Para esse sonhador colossal, todo o sonho equivale à eternidade, em que estão contidos cada sonho e cada sonhador.”»

[in Com Borges, de Alberto Manguel, Ambar, 2006]

JLB por JPB

Ou seja: Jorge Luis Borges por Jean Pierre Bernés.

Encontrar Borges num bar

«Quinze bares históricos de Buenos Aires, na Argentina, oferecem aos clientes (…) a possibilidade de lerem as obras completas de Jorge Luis Borges. A iniciativa chama-se Yo leo en el bar e, de acordo com o ministro da cultura da região portenha, Hernán Lombardi, destina-se a cumprir a tarefa de difundir o hábito da leitura entre os que a não praticam», explica Manuel Jorge Marmelo.

Sobre Borges

No suplemento Babelia, afirma Benjamín Prado, como se fosse uma grande provocação: «Borges era un poeta que también escribía prosa». Não há nisto provocação nenhuma. Basta ler a obra completa do escritor argentino. Borges era de facto um poeta que também escrevia prosa. Vou até mais longe: Borges era um poeta sobretudo quando escrevia prosa. Algumas das suas melhores odes são justamente as que não têm partição em versos.

‘La visión del ámbar’

Jorge Luis Borges por Manuel Vicent, no suplemento Babelia.

Um outro Borges (trivialidades)

Segundo a sua polémica viúva, em entrevista à BBC Mundo, o autor de El Aleph gostava de sashimi (embora o seu prato favorito fosse “arroz com manteiga e queijo”). Já as suas preferências musicais não se ficavam pelos canónicos Brahms ou J. S. Bach. Segundo Kodama, também apreciava «coisas divertidas», como os Pink Floyd e os Rolling Stones. Espantado, o jornalista insiste:

¿Pink Floyd?
Sí, le encantaba. Tal es así que el himno para su cumpleaños no era el Happy Birthday sino The Wall.

¿Cómo lo descubrió?
No sé. La película The Wall es terrible y la vimos infinidad de veces. En un momento creo que sabía de memoria los diálogos. Le gustaba ese tipo de música porque decía que era una cosa de enorme fuerza, terrible pero vital.

¿Y los Rolling Stones?
Le encantaban, también decía que tenían una fuerza increíble. Un día estábamos en el hotel Palace de Madrid, esperando a que vinieran a buscarnos para cenar, y veo que viene Mick Jagger. Se arrodilla, le agarra la mano a Borges y le dice: “Maestro, yo lo admiro”. Borges, un poco asombrado, no lo veía, dice: “¿Y usted quién es, señor?”. Y él responde: “Soy Mick Jagger”. Borges dice: “Ah, uno de los Rolling Stones”. Mick Jagger casi se desmaya y pregunta: “¿Cómo maestro, usted me conoce?”. Y Borges dice: “Sí, gracias a María”. Yo le había contado a Borges que en una película que se llama “Performance” aparece una gran foto de Borges y creo que Mick Jagger leyendo a Borges.

Ignoro até que ponto estes gostos musicais de Borges correspondem à verdade (há quem seja mitómano com as vidas alheias), mas seria curioso perceber qual dos temas do álbum duplo The Wall cantarolava Borges em frente ao bolo de aniversário: Confortably Numb? One of My Turns (para chocar os amigos)? Hey You? Ou, previsivelmente, Another Brick in the Wall, com o refrão adaptado para «Hey, critics, leave Georgie alone»?

24 de Agosto de 1899

Excerto do livro de entrevistas a Jorge Luis Borges, Em Diálogo, de Osvaldo Ferrari (volume 1, Círculo de Leitores, 2001):

«Hoje gostaria que falássemos de algo que muitos querem saber. Isto é, de como se produz em si o processo da escrita, ou seja, como começa no seu interior um poema, um conto. E a partir do momento em que se inicia, como continua o processo, a confecção, digamos, desse poema ou desse conto.
Começa por uma espécie de revelação. Mas uso essa palavra de um modo modesto, não ambicioso. Isto é, de repente sei que vai acontecer algo e isso que vai acontecer pode ser, no caso de um conto, o princípio e o fim. No caso de um poema, não: é uma ideia mais geral e às vezes foi a primeira linha. Isto é, algo me é dado e depois intervenho eu, e talvez tudo se deite a perder (ri-se). No caso de um conto, por exemplo, bom, conheço o princípio, o ponto de partida, conheço o fim, conheço a meta. Mas depois tenho de descobrir, através dos meus muito limitados meios, o que acontece entre o princípio e o fim. E depois há outros problemas a resolver, por exemplo, se convém que o facto seja contado na primeira pessoa ou na terceira. Depois, é preciso procurar a época; agora, quanto a mim – isso é uma solução pessoal minha –, acho que o mais cómodo acaba por ser a última década do século dezanove. Escolho – se se tratar de um conto de um porto –, escolho locais do litoral, por exemplo, de Palermo, ou de Barracas, ou de Turdera. E a data, digamos que mil oitocentos e noventa e nove, o ano do meu nascimento, por exemplo. Porque, quem pode saber exactamente como falava aquela já morta da beira-mar? Ninguém. Isto é, que eu possa actuar com comodidade. Em compensação, se um escritor escolhe um tema contemporâneo, então já o leitor se converte num inspector e decide: “Não, neste bairro não se fala assim, as pessoas desta classe não usariam esta ou aquela expressão.”
O escritor prevê tudo isto e sente-se travado. Em compensação, escolho uma época um pouco distante, um lugar um pouco distante; isso dá-me liberdade e já posso… fantasiar… ou falsificar, até. Posso mentir sem que ninguém se aperceba, pois é preciso que o escritor que escreve uma fábula – por mais fantástica que seja – acredite, naquele momento, na realidade da fábula.»

Mapas

Eis uma curiosa abordagem a um dos textos mais célebres de Jorge Luis Borges (esse escritor que é difícil de encontrar nas livrarias de Coimbra mas está ao virar da esquina no YouTube), recorrendo apenas ao Google Earth, a uma tampa de esgoto, a uma folha de papel branco, a um lápis e a uma bússola.

À procura de Borges em Coimbra

Apesar de porfiadas buscas, Osvaldo Manuel Silvestre não encontrou um único exemplar de Jorge Luis Borges à venda nas principais livrarias de Coimbra (e algumas delas estão entre as maiores do país). Ou seja, na terceira cidade mais importante deste rectângulo de trombas viradas para o Atlântico, na nossa urbe universitária por antonomásia, quem quiser ler um dos génios maiores do século XX tem que mandar vir as Obras Completas de Lisboa ou pedir que as enviem, em inglês, pela Amazon. Deixem-me usar maiúsculas: isto é E-S-C-A-N-D-A-L-O-S-O. Um escândalo literário, comercial, cultural e, não poupemos nas palavras, civilizacional.

María Kodama fala com Saramago sobre Borges

A Fundação José Saramago, com o apoio da Biblioteca Nacional e a colaboração da Editorial Teorema, vai organizar um encontro entre María Kodama, viúva de Jorge Luis Borges, e José Saramago, durante o qual conversarão sobre a figura e a obra do autor de O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam. O encontro acontecerá no Anfiteatro da Biblioteca Nacional, dia 20, sexta-feira, pelas 18h30, e contará ainda com a presença de dois dos tradutores das Obras Completas de Borges, editadas pela Teorema/Círculo de Leitores (Fernando Pinto do Amaral, poesia; e José Colaço Barreiros, prosa).

No eBay encontra-se de tudo

Até um exemplar numerado (141 de um total de 280) da primeira edição do livro Cuaderno San Martin, publicado em 1929 pelo então jovem Jorge Luis Borges (teria uns 30 anos), com um retrato do escritor desenhado por Silvina Ocampo. Quem quiser pode licitar, a partir dos 2020 dólares (1306 euros).

Terá Jorge Luis Borges antecipado a Internet 2.0?

Há quem diga que sim.

[via BiblioFilmes]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges