Sortilégios, incensos, magias

capa_'FilhoJAB'

Filho Pródigo
Autor: José Agostinho Baptista
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 112
ISBN: 978-972-37-1313-8
Ano de publicação: 2008

Este é o livro de um regresso difícil: o de José Agostinho Baptista (JAB) às suas raízes, à geografia da infância que a memória e o trabalho da escrita foram transfigurando. A ilha da Madeira, presente em muitos dos seus livros (enquanto paradoxo, fantasma ou ausência), emerge aqui como o problemático locus em que o sujeito poético revê o fio dos seus dias e se questiona.
“Não é impunemente que se nasce num lugar”, sugere António Fournier no texto introdutório. Há um peso que persegue quem foge da claustrofobia atlântica, procurando outras paragens, mas JAB parece ter sobrevivido ao “despaisamento” dos ilhéus de que falava Nemésio. A “reserva mítica que alimentava a sua poesia”, escreve Fournier, resistiu “à travessia de uma passagem secreta”, e por isso “a matéria bruta continua intacta, as fontes da sua melancolia não secaram”.
Há, de facto, uma constância nos modos da linguagem poética de JAB, um tom de litania que prolonga as obsessões temáticas e os ritmos das obras anteriores. O desencanto diante de um país “sem esplendor”, triste “pátria onde tudo apodrece”, sinaliza um mal-estar mais vasto, que abrange todo o mundo ocidental neste início de um século “cruel” e “indigno”. O tom apocalíptico conduz-nos por toda a sorte de desastres e abismos, até ao paroxismo do “bolor” que se adensa “nas folhas do livro do / desespero”.
A esta “demência” da realidade, a este “envenenamento da alma”, contrapõem-se “sortilégios, incensos, magias”. Ao redescobrir os espaços originais da sua vida, JAB procura recuperar um sentido que a passagem por outros meridianos destruiu. Diante das forças elementares da natureza, procurando até fundir-se com elas, “o poema surge para, / em sobressalto, / retomar o destino de uma solidão primitiva”, através da mão que escreve “misteriosamente comovida” e sustenta os alicerces de uma mitologia pessoal. Dessa mitologia fazem parte a paisagem – com as suas encostas a pique, o mar que ruge “imprecações”, a “penha d’águia” –, mas também o culto dos mortos, cujos rostos perduram “numa moldura de fulgor / e orquídeas”. Partindo de um olhar sobre a terra (“sou aquilo que vejo”), esta poesia vai acumulando imagens suspensas e “evidências submersas”, algumas de uma beleza visceral: “E eles iam e vinham, esses pássaros, / (…) enquanto o crepúsculo acciona o rumor das / suas armas.”
Aqui e ali, porém, a capacidade metafórica começa a tender para o esgotamento e para a repetição, um pouco à semelhança do que aconteceu com António Ramos Rosa. Em várias passagens deste livro, JAB podia ter controlado melhor o ímpeto do seu lirismo, que às vezes parece funcionar em piloto automático e espalha versos frágeis por poemas que mereciam ser tão perfeitos como Voz:

Vindo do oeste, ao fim da tarde,
era quase branco o pássaro que pousava
naquele jardim,
na árvore do pai.

E então, como quem esquece as razões de uma
profunda mágoa,
eu podia adormecer serenamente,
ouvindo a sua voz nos ramos da cerejeira,
chamando devagar.

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges