Dois poemas em prosa de José Ángel Valente

Escrever é como a segregação das resinas; não é acto, mas lenta formação natural. Musgo humidade, argilas, limo, fenómeno do fundo, e não do sonho ou dos sonhos, mas de barros escuros onde as figuras dos sonhos fermentam. Escrever não é fazer, mas sim aposentar-se, estar.

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Jogar o jogo. Às primeiras, o jogo é torpe, sujeito a regras imitadas. Até que chega o dia em que se começa a jogar o jogo dentro do jogo, simplesmente, nas movediças fronteiras da sombra e da luz. Jacinto, ferido mortalmente pelo disco de Apolo, renasce na intensificada fragrância da flor. Jacinto e Apolo jogam: o lance é o da morte e da ressurreição.

[in revista DiVersos, n.º 13, Junho de 2008, trad. de António Cabrita]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges