As marcas cinzentas do lápis azul

Histórias de Amor
Autor: José Cardoso Pires
Editora: Edições Nelson de Matos
N.º de páginas: 188
ISBN: 978-989-95597-7-6
Ano de publicação: 2008

Quando publicou Histórias de Amor em Julho de 1952, na colecção de bolso «Os Livros das Três Abelhas» (Editorial Gleba), José Cardoso Pires tinha 26 anos de idade e o rótulo de esperança da ficção nacional a pairar sobre a sua cabeça, fruto do aplauso generalizado, tanto da crítica como do público, com que fora recebido o seu primeiro livro: Os Caminheiros e Outros Contos (1949). Embora escrevendo com uma audácia temática e formal que já antecipa o grande escritor que veio a ser, este Cardoso Pires não é ainda o Cardoso Pires sólido dos livros seguintes (O Anjo Ancorado, 1959; O Render dos Heróis, 1960) e muito menos o Cardoso Pires vintage, de O Delfim (1968) e Alexandra Alpha (1987). É, se quisermos, um escritor em construção, com os andaimes e as inseguranças todas à vista.
Ainda assim, dos cinco textos, só “Week-end” – trôpego relato de um encontro adúltero, cheio de silêncios e meias palavras – me parece dispensável. “Uma simples flor nos teus cabelos claros” é um exercício curioso de narração paralela, que torna nítido o desajuste entre a suavidade do amor ideal (uma abstracção literária) e a aspereza concreta do quotidiano. “Romance com data” retoma a atmosfera erótica de “Week-end”, mas com um suplemento de ambiguidade na exposição da origem (e consequências) dos não-ditos entre os amantes, o que o torna muito mais original. As duas melhores narrativas, porém, são o conto “Ritual dos pequenos vampiros”, minuciosa e arrepiante descrição de um gang bang para os lados de Chelas, e “Dom Quixote, as velhas viúvas e a rapariga dos fósforos”, melancólico apocalipse da inocência em que já se detecta, aqui e ali, a voz do futuro romancista.
O principal interesse da reedição deste livro, feita por Nelson de Matos no momento em que se assinalam os dez anos da morte do escritor, está no campo da Sociologia da Literatura. Em Agosto de 1952, um mês após a chegada destas Histórias de Amor às livrarias, a Censura apreendeu todos os exemplares à venda, alegando imoralidade e exposição de misérias sociais. Na altura, o censor sublinhou com o célebre lápis azul as partes do texto que justificavam a sentença. Nelson de Matos, ao assinalar esses cortes pela sobreposição de uma rede de cinzento sobre o texto original, permite-nos constatar a tacanhice absurda e a pudicícia paranóica (mas também a cegueira) de quem se encarregava de zelar pelos bons e brandos costumes. Em anexo, há ainda uma constrangedora carta de Cardoso Pires ao director dos serviços de Censura e três críticas da época (Mário Dionísio, Luís de Sousa Rebelo, Óscar Lopes), exageradamente obcecadas com as influências americanas no estilo de JCP.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no número 73 da revista Ler]

Manchas, riscos, cortes

José Cardoso Pires tinha o hábito de oferecer ao seu editor, Nelson de Matos, caixas com os seus manuscritos lá dentro (ainda cheios de emendas e garatujas), além do material iconográfico utilizado para a construção das personagens e da narrativa. No momento em que a família do escritor começou a doar o seu espólio à Biblioteca Nacional, Nelson de Matos abriu uma dessas caixas (a relativa ao romance Alexandra Alpha) diante da jornalista Isabel Coutinho, do Público. O momento ficou registado em vídeo:

Obrigado, Isabel, pelo serviço público.

Lavagante excelentíssimo

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Lavagante — encontro desabitado
Autor: José Cardoso Pires
Editora: Edições Nelson de Matos
N.º de páginas: 89
ISBN: 978-989-95597-1-4
Ano de publicação: 2008

Na sua obra ficcional, sobretudo a publicada antes do 25 de Abril, José Cardoso Pires recorreu várias vezes aos elementos clássicos da fábula, utilizando-os para abrir alçapões na prosa que permitissem escapar ao escrutínio da Censura ou, mais tarde, à pobreza das leituras em primeiro grau. Esta estratégia é evidente em O Anjo Ancorado (1958) e na sátira Dinossauro Excelentíssimo (1972), mas também em Lavagante — encontro desabitado, pequena novela lançada agora por Nelson de Matos, com o beneplácito da mulher e das filhas do escritor (uma das quais, Ana Cardoso Pires, se responsabilizou pela revisão e fixação do texto). Um texto que conheceu pelo menos três versões manuscritas e outras tantas dactilografadas — desenvolvimentos de um esboço publicado na revista O Tempo e o Modo (Dezembro de 1963) —, supondo-se que foi concluído antes da edição do romance O Delfim (1968).
Se o mero, apanhado a dormir pelo pescador subaquático em O Anjo Ancorado, pode ser visto como símbolo de uma certa letargia que contamina as personagens burguesas do romance, distantes da realidade das coisas, e o Dinossauro é um retrato certeiro e demolidor de Salazar (“fio de peste a alastrar por todas as vilas do império”), já a fábula do lavagante se revela muito menos óbvia. É o narrador quem a introduz, no início do segundo capítulo: “Então expliquei-lhe que o lavagante é principalmente um animal de tenebrosa memória, paciente e obstinado, e terrível nos seus desígnios. Contei-lhe como ele serve o safio que está nas tocas submersas levando-lhe comida a todas as horas, e como a sua existência anda presa a essa serpente estúpida de grandes sonos, vendo-a engordar, engordar, até saber que a tem bloqueada, incapaz de sair do buraco porque o corpo cresceu de mais, enovelou-se, e não cabe na abertura por onde podia libertar-se. ‘Nesse momento, fica sabendo, o lavagante servil aparece à boca da toca do safio mas já não traz comida. Vem de garras afiadas devorar o grande prisioneiro que alimentou durante tanto tempo.’)”
Uma metáfora tão forte corria o risco de explicar tudo num parágrafo, fazendo da narrativa uma simples caricatura moral. Mas não é isso que acontece, entre outras razões porque as duas personagens principais — Daniel e Cecília — vão desempenhando à vez tanto o papel do safio como o do lavagante. Daniel Lobo, médico ligado aos meios oposicionistas, enamora-se de Cecília, uma estudante de Arquitectura que gosta de Miles Davis, prefere Bergman a Visconti e dá a medo os primeiros passos no sentido de “devenir femme” (à francesa, imitando Simone de Beauvoir). Ele é lavagante quando a tenta moldar aos seus desígnios, levado pela “velha costela de Pigmaleão que todos nós temos”; ela quando acaba por o trair, ao sentir-se à margem “dum universo comprometido numa luta de vida ou de morte” (as manifestações proibidas do 1.º de Maio). Ambos são o safio quando se deixam aprisionar pelas circunstâncias — ele de forma literal, ao ser apanhado ingenuamente numa rusga da PIDE; ela ao deitar tudo a perder, numa sequência de ignomínia e arrependimento digna de um “fado lamechas”.
Quem conta a história deste amor falhado é um amigo de Daniel, que começa por descobrir a verdade acerca de Cecília, a rapariga de “fria altivez” e rosto “soberano”, enquanto bebe vinho num bar da praia com um jornalista da geração de 45 (atormentado por a Censura lhe ter feito a mão “medrosa”). Nessa altura, Daniel ainda está preso e o narrador vê-a com um fascista, «carrasco de negra crónica», a quem ela acabou por ceder após longo cerco. Num segundo momento da narrativa, já com o amigo em liberdade e a par de tudo, é num cenário igualmente imóvel (e não menos etílico), sob um alpendre, que ele escuta durante uma noite inteira a evocação que Daniel faz de um “tempo vencido”, sabendo à partida como tudo acabará.
Embora sem o fôlego e o acabamento literário dos melhores livros de Cardoso Pires, este é um belo texto e o retrato lúcido do que era Portugal no início dos anos 60: um país asfixiante, à mercê das “garras afiadas” do medo que tudo devora. Ou, como se diz a certa altura, um país “em plena Idade Média, com astronautas a voar por cima”.

Avaliação: 8/10

[Versão ligeiramente ampliada do texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Cecília

«Assim, a sombra de Cecília paira sobre mim e o Meu Amigo, dois conversadores nocturnos sentados sob o alpendre duma casa de praia. É por enquanto uma sombra, um contorno de mulher, se quiserem. Esse contorno compõe-se de instantes de memória, deslocados no tempo e na distância, tal como sucede com os farolins das embarcações de pesca que andam ao largo: existem mas levantam-se e desaparecem ao sabor da ondulação. É necessária a memória (esse terceiro plano ou esse poder de recriar que é, ainda, memória, cheiro e reconhecimento) para situar os farolins dos barcos no verdadeiro lugar em que se encontram e construir, para além dos nossos olhos, todo um rosário de luzes boiando nas águas em trevas. Então poderemos traçar o desenho exacto de um cerco de pesca, uma companha de homens sonolentos, o enorme saco de rede que devora os peixes no próprio ventre do mar…»

[in Lavagante — encontro desabitado, de José Cardoso Pires, Edições Nelson de Matos, 2008]

Cardoso Pires, uma antecipação

No Da Literatura, o João Paulo Sousa conseguiu um exclusivo: a pré-publicação de Lavagante — Encontro Desabitado, um inédito que vai marcar a estreia, lá mais para o fim do mês, da nova editora de Nelson de Matos.
Eis o final do primeiro capítulo:

«Fresco e impecável, o barman, está do outro lado do balcão com um sorriso divertido. Bebe e fuma com modos repousados, e entretanto contempla do alto da sua serenidade o jornalista atormentado. Esse homem que ali tem sacode a cabeça diante duma taça de vinho, estrebucha e fala dos seus sonhos frustrados.
— Viciámo-nos. Agora temos a Censura a escrever por nós. E amanhã? Quem sabe escrever amanhã, quando a Censura acabar?
Cala-se. Depois espalma a mão diante dos olhos, mirando-a com raiva, quase com espanto:
— A minha mão medrosa — anuncia. Volta­‑a e torna a voltá-la, como se a não reconhecesse, como se a denunciasse em público.
— Está viciada, amigos, escreve com medo… Não há dinheiro no mundo que pague uma desgraça destas. Dinheiro nenhum. Nenhum, nenhum, nenhum, nenhum, nenhum…
— Acredito — diz o dono do bar. E virando­‑se para mim: — E tu? Não falas, não contas nada?»

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges