Manchas, riscos, cortes
José Cardoso Pires tinha o hábito de oferecer ao seu editor, Nelson de Matos, caixas com os seus manuscritos lá dentro (ainda cheios de emendas e garatujas), além do material iconográfico utilizado para a construção das personagens e da narrativa. No momento em que a família do escritor começou a doar o seu espólio à Biblioteca Nacional, Nelson de Matos abriu uma dessas caixas (a relativa ao romance Alexandra Alpha) diante da jornalista Isabel Coutinho, do Público. O momento ficou registado em vídeo:
Obrigado, Isabel, pelo serviço público.
Lavagante excelentíssimo
Lavagante — encontro desabitado
Autor: José Cardoso Pires
Editora: Edições Nelson de Matos
N.º de páginas: 89
ISBN: 978-989-95597-1-4
Ano de publicação: 2008
Na sua obra ficcional, sobretudo a publicada antes do 25 de Abril, José Cardoso Pires recorreu várias vezes aos elementos clássicos da fábula, utilizando-os para abrir alçapões na prosa que permitissem escapar ao escrutínio da Censura ou, mais tarde, à pobreza das leituras em primeiro grau. Esta estratégia é evidente em O Anjo Ancorado (1958) e na sátira Dinossauro Excelentíssimo (1972), mas também em Lavagante — encontro desabitado, pequena novela lançada agora por Nelson de Matos, com o beneplácito da mulher e das filhas do escritor (uma das quais, Ana Cardoso Pires, se responsabilizou pela revisão e fixação do texto). Um texto que conheceu pelo menos três versões manuscritas e outras tantas dactilografadas — desenvolvimentos de um esboço publicado na revista O Tempo e o Modo (Dezembro de 1963) —, supondo-se que foi concluído antes da edição do romance O Delfim (1968).
Se o mero, apanhado a dormir pelo pescador subaquático em O Anjo Ancorado, pode ser visto como símbolo de uma certa letargia que contamina as personagens burguesas do romance, distantes da realidade das coisas, e o Dinossauro é um retrato certeiro e demolidor de Salazar (”fio de peste a alastrar por todas as vilas do império”), já a fábula do lavagante se revela muito menos óbvia. É o narrador quem a introduz, no início do segundo capítulo: “Então expliquei-lhe que o lavagante é principalmente um animal de tenebrosa memória, paciente e obstinado, e terrível nos seus desígnios. Contei-lhe como ele serve o safio que está nas tocas submersas levando-lhe comida a todas as horas, e como a sua existência anda presa a essa serpente estúpida de grandes sonos, vendo-a engordar, engordar, até saber que a tem bloqueada, incapaz de sair do buraco porque o corpo cresceu de mais, enovelou-se, e não cabe na abertura por onde podia libertar-se. ‘Nesse momento, fica sabendo, o lavagante servil aparece à boca da toca do safio mas já não traz comida. Vem de garras afiadas devorar o grande prisioneiro que alimentou durante tanto tempo.’)”
Uma metáfora tão forte corria o risco de explicar tudo num parágrafo, fazendo da narrativa uma simples caricatura moral. Mas não é isso que acontece, entre outras razões porque as duas personagens principais — Daniel e Cecília — vão desempenhando à vez tanto o papel do safio como o do lavagante. Daniel Lobo, médico ligado aos meios oposicionistas, enamora-se de Cecília, uma estudante de Arquitectura que gosta de Miles Davis, prefere Bergman a Visconti e dá a medo os primeiros passos no sentido de “devenir femme” (à francesa, imitando Simone de Beauvoir). Ele é lavagante quando a tenta moldar aos seus desígnios, levado pela “velha costela de Pigmaleão que todos nós temos”; ela quando acaba por o trair, ao sentir-se à margem “dum universo comprometido numa luta de vida ou de morte” (as manifestações proibidas do 1.º de Maio). Ambos são o safio quando se deixam aprisionar pelas circunstâncias — ele de forma literal, ao ser apanhado ingenuamente numa rusga da PIDE; ela ao deitar tudo a perder, numa sequência de ignomínia e arrependimento digna de um “fado lamechas”.
Quem conta a história deste amor falhado é um amigo de Daniel, que começa por descobrir a verdade acerca de Cecília, a rapariga de “fria altivez” e rosto “soberano”, enquanto bebe vinho num bar da praia com um jornalista da geração de 45 (atormentado por a Censura lhe ter feito a mão “medrosa”). Nessa altura, Daniel ainda está preso e o narrador vê-a com um fascista, «carrasco de negra crónica», a quem ela acabou por ceder após longo cerco. Num segundo momento da narrativa, já com o amigo em liberdade e a par de tudo, é num cenário igualmente imóvel (e não menos etílico), sob um alpendre, que ele escuta durante uma noite inteira a evocação que Daniel faz de um “tempo vencido”, sabendo à partida como tudo acabará.
Embora sem o fôlego e o acabamento literário dos melhores livros de Cardoso Pires, este é um belo texto e o retrato lúcido do que era Portugal no início dos anos 60: um país asfixiante, à mercê das “garras afiadas” do medo que tudo devora. Ou, como se diz a certa altura, um país “em plena Idade Média, com astronautas a voar por cima”.
Avaliação: 8/10
[Versão ligeiramente ampliada do texto publicado no suplemento Actual do Expresso]
Cecília
«Assim, a sombra de Cecília paira sobre mim e o Meu Amigo, dois conversadores nocturnos sentados sob o alpendre duma casa de praia. É por enquanto uma sombra, um contorno de mulher, se quiserem. Esse contorno compõe-se de instantes de memória, deslocados no tempo e na distância, tal como sucede com os farolins das embarcações de pesca que andam ao largo: existem mas levantam-se e desaparecem ao sabor da ondulação. É necessária a memória (esse terceiro plano ou esse poder de recriar que é, ainda, memória, cheiro e reconhecimento) para situar os farolins dos barcos no verdadeiro lugar em que se encontram e construir, para além dos nossos olhos, todo um rosário de luzes boiando nas águas em trevas. Então poderemos traçar o desenho exacto de um cerco de pesca, uma companha de homens sonolentos, o enorme saco de rede que devora os peixes no próprio ventre do mar…»
[in Lavagante — encontro desabitado, de José Cardoso Pires, Edições Nelson de Matos, 2008]
Cardoso Pires, uma antecipação
No Da Literatura, o João Paulo Sousa conseguiu um exclusivo: a pré-publicação de Lavagante — Encontro Desabitado, um inédito que vai marcar a estreia, lá mais para o fim do mês, da nova editora de Nelson de Matos.
Eis o final do primeiro capítulo:
«Fresco e impecável, o barman, está do outro lado do balcão com um sorriso divertido. Bebe e fuma com modos repousados, e entretanto contempla do alto da sua serenidade o jornalista atormentado. Esse homem que ali tem sacode a cabeça diante duma taça de vinho, estrebucha e fala dos seus sonhos frustrados.
— Viciámo-nos. Agora temos a Censura a escrever por nós. E amanhã? Quem sabe escrever amanhã, quando a Censura acabar?
Cala-se. Depois espalma a mão diante dos olhos, mirando-a com raiva, quase com espanto:
— A minha mão medrosa — anuncia. Volta‑a e torna a voltá-la, como se a não reconhecesse, como se a denunciasse em público.
— Está viciada, amigos, escreve com medo… Não há dinheiro no mundo que pague uma desgraça destas. Dinheiro nenhum. Nenhum, nenhum, nenhum, nenhum, nenhum…
— Acredito — diz o dono do bar. E virando‑se para mim: — E tu? Não falas, não contas nada?»


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