Refutação astrológica

capa livro JCF

O que está escrito nas estrelas
Autor: José Carlos Fernandes
Editora: Tinta-da-China
N.º de páginas: 64
ISBN: 978-972-8955-51-9
Ano de publicação: 2008

Aos 43 anos, José Carlos Fernandes ocupa, por mérito próprio e falta de “rivais” à altura, um lugar absolutamente central no panorama da Banda Desenhada portuguesa. Com mais de trinta trabalhos editados desde o opus 1 (Controlo Remoto, 1993), JCF consegue publicar muito sem pôr em causa a qualidade final dos seus livros, numa espécie de voragem que o aproxima de outro mestre da prolixidade profícua: Gonçalo M. Tavares. Para lá das óbvias diferenças, em ambos assistimos à criação de uma obra tendencialmente infinita (com vários ramos, ou séries), obra em contínua expansão, como que nascida de uma máquina ficcional imparável e cuja verdadeira magnitude ainda está, num caso como no outro, por determinar.
Consciente do seu traço pouco dúctil e tecnicamente limitado, JCF apostou, desde os primeiros livros, no engenho dos argumentos e numa escrita de grande perfeição estilística. A sensação com que se fica é a de que as suas histórias valem por si mesmas; existirem na forma de pranchas ilustradas não passa de uma casualidade. Pode mesmo afirmar-se que em JCF a palavra vem sempre antes do desenho e o ficcionista se sobrepõe ao autor de BD, o que não impede que algumas das suas criações sejam modelos do que a nona arte pode e deve ser. Um exemplo: os seis volumes da celebrada série “A Pior Banda do Mundo”.
Depois de publicar, em 2004, A última obra-prima de Aaron Slobodj (talvez o mais brilhante e radical dos seus livros, sobre a arte enquanto forma de destruição) e de inagurar as Black Box Stories, em 2006, com o belíssimo Tratado de Umbrografia (seis narrativas ilustradas por Luís Henriques), JCF acaba de interromper a sua ligação à Devir, lançando O que está escrito nas estrelas [Anos I & II] na Tinta-da-China, editora que assim se estreia muitíssimo bem no universo da BD, ao fazer deste volume um exemplo de bom gosto e esmero gráfico.
Muito ao seu jeito, JCF recorre ao humor cáustico e às referências eruditas para negar e subverter os supostos princípios divinatórios da Astrologia, oferecendo-nos “um horóscopo de assombroso rigor científico, elaborado com base na sabedoria milenar dos magos caldeus, dos druidas de Stonehenge e dos sacerdotes-astrónomos de Chichén Itzá, aliada às mais modernas observações do telescópio Hubble e à capacidade de cálculo dos computadores do CNRS”. Os dois conjuntos de 12 textos, cada um relativo a um mês, são supostos fragmentos dos cadernos de um José Carlos Fernandes imaginário (1911-1964), cientista que teria trocado “a bata de laboratório por um manto de mago, os manuais de bioquímica pela Cabala e a tabela periódica pelo Zodíaco”, criando um sistema capaz de prever acontecimentos futuros: a queda da cadeira de Salazar, a morte da princesa Diana, o 11 de Setembro, a conversão de Tom Cruise à Cientologia e até mesmo a “breve passagem de um comediante involuntário pelo cargo de primeiro-ministro de Portugal”.
Os fragmentos propriamente ditos são microcontos irónicos, macabros, nihilistas, melancólicos ou líricos, pequenas prosas cheias de golpes verbais, beleza rude e lições de moral incerta, cujo tom crepuscular se reflecte nas soberbas gravuras de página inteira que as acompanham.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Três histórias minúsculas de José Carlos Fernandes

ABRIL

Abril, já dizia o Poeta dos Três Leopardos Brancos, é o mais cruel dos meses. Para lhe sobreviver é preciso ser mais cruel ainda: magoe profundamente a pessoa de quem mais gosta.

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JULHO

Já Julho é um mês propenso a descalabros. Desfaça-se quanto antes das acções que adquiriu com base em recomendações insensatas, afaste-se de torres, campanários e miradoiros, evite subir escadas e escadotes, mesmo que seja para uma operação aparentemente tão inócua como substituir uma lâmpada fundida. Claro que as viagens aéreas são vivamente desaconselhadas. Mais vale permanecer com os pés firmemente assentes na terra até que comece um novo mês. Nem os que possuem asas estarão a salvo da força da gravidade, pois o calor excepcional que se fará sentir alterará drasticamente a consistência da cera.

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AGOSTO

Se adormecer ao som da água corrente, poderá ver-se mergulhada num estranho sonho: está suspensa no oceano, a algumas dezenas de metros de profundidade; abaixo, muito abaixo, por entre o negrume, cintilam miríades de pontos luminosos que se movem sem cessar. Um peixe-lua aproximar-se-á e explicará «são os peixes abissais, que esperam, esfaimados, por uma presa», «não gosto deste sonho, quero acordar», «para isso é necessário que me beijes», responderá o peixe. Ansiosa por sair daquele sonho inquietante, assentirá (os lábios do peixe-lua serão inesperadamente quentes e suaves), porém, nada acontecerá: continuará a pairar no oceano. Do peixe-lua, nem rasto. Lá em baixo, as luzes parecem agora mais próximas.

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[in O que está escrito nas estrelas [anos I & II], Tinta-da-China, 2008]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges