Panorama da BD em França

Este relatório da Association des Critiques et Journalistes de Bande Dessinée (ACBD) revela que em 2009 foram publicados 4863 livros de BD no espaço francófono europeu (dos quais 3599 novidades), por 288 editoras. Será que existe um balanço similar para a situação portuguesa? Sara, ajuda-me.
À propos, um dos tais quase cinco mil livros foi o volume que reúne os dois primeiros tomos da série “A Pior Banda do Mundo”, de José Carlos Fernandes (edição Cambourakis), uma obra seleccionada para a lista dos 50 melhores livros do ano proposta por membros da ACBD. Os tomos 3 e 4 serão publicados pela mesma editora, em Setembro de 2010.

Obra de José Carlos Fernandes muito bem recebida em França

Como noticiei aqui, José Carlos Fernandes viu recentemente os dois primeiros volumes da sua série “A Pior Banda do Mundo” editados em França, num único livro (tradução de Dominique Nédellec), pela Cambourakis.
Entretanto, começaram a ser publicados textos na imprensa sobre o álbum, intitulado Le plus mauvais groupe du monde, e o mínimo que se pode dizer é que a recepção crítica tem sido entusiástica. A 16 de Junho, a revista Les Inrockuptibles publicou o seguinte artigo, assinado por Anne-Claire Norot:

Como a imagem não permite ler o que está escrito em letra miúda, transcrevo aqui uma das passagens do texto:

«Au milieu du surréalisme ambiant, [José Carlos Fernandes] glisse un commentaire critique sur la société moderne, et en épingle avec ironie les travers: la solitude, le travail aliénant, l’incommunicabilité, les magazines people, la pub… Ce voyage à la fois kafkaïen et borgésien, où la musique est omniprésente, est empli de trouvailles póetiques, drôles et douces-amères (como l’hôtel où l’on fait les rêves du précédent occupant de la chambre), qui témoignent de la fabuleuse inventivité de leur auteur. Ce livre plein d’esprit et stimulant, où le trivial et le quotidien se mêlent aux réflexions métaphysiques, donne aussi à réfléchir sur le poids des mots, le pouvoir des livres et de l’écriture.»

Uns dias depois, foi a vez da Télérama lhe atribuir quatro estrelas, sublinhando que JCF «déploie, avec une très rigoureuse fantaisie, un sens de l’absurde étincelant».

José Carlos Fernandes publicado em França

A editora parisiense Cambourakis vai colocar à venda, esta semana, a tradução francesa dos dois primeiros volumes da série “A Pior Banda do Mundo”, de José Carlos Fernandes. O Kiosque da Utopia (vol. 1) e O Museu do Acessório e do Irrelevante (vol. 2) foram reunidos num único livro, traduzido por Dominique Nédellec.


A Cambourakis prevê publicar os volumes 3 e 4 no início de 2010.
Apresentação de Le plus mauvais groupe du monde aqui.

As cidades visíveis

A Metrópole Feérica
Autores: José Carlos Fernandes (texto) e Luís Henriques (ilustração)
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 88
ISBN: 978-972-89557-9-3
Ano de publicação: 2008

O algarvio José Carlos Fernandes (n. 1964) costuma ser apontado, com toda a justiça, como o mais importante autor de Banda Desenhada português. O seu imaginário fantástico, apoiado numa superlativa qualidade de escrita, permitiu-lhe assinar ao longo dos anos várias obras magníficas, como os seis volumes da série “A Pior Banda do Mundo” ou A última obra-prima de Aaron Slobodj (2004) – ela própria, em nosso entender, uma obra-prima.
Desenhador mediano, Fernandes compreendeu que o seu traço, demasiado rígido e monótono, acabaria por limitar visualmente as suas histórias. Procurou então alguém capaz de mudar mais vezes de estilo do que a Cher muda de roupa durante um concerto ao vivo. No belíssimo Tratado de Umbrografia (Devir, 2006), percebeu-se que Luís Henriques (n. 1973) era o homem certo para a função. Com um talento camaleónico, este ilustrador sugeria atmosferas radicalmente diferentes para cada narrativa, mas com uma adequação estilística (e até cromática) que roçava a perfeição. A dupla regressa agora com A Metrópole Feérica, volume inicial de uma nova série, “Terra Incógnita”, a publicar pela Tinta da China. E o resultado final supera o que haviam conseguido com a primeira colaboração.
Organizado como um Atlas de Criptogeografia, «completo e fidedigno inventário cartográfico de cidades desaparecidas, impérios fabulosos, reinos utópicos & outras ocorrências lendárias», o livro descreve seis urbes soberbamente disfuncionais, modelos perfeitos da catástrofe humana. Em Fílon, «o teatro do mundo», leva-se à letra a ideia shakespeareana da vida enquanto representação num palco, com cada existência a ser determinada pelas deixas de pontos teatrais, escondidos em lugares estratégicos. Em Khamsin, é a circulação dos ventos (ou melhor, as trocas de chapéus por eles causadas) que altera e subverte a ordem social e económica da cidade. Manata, a metrópole feérica do título, sofre uma espécie de castigo bíblico, quando o seu esplendor – ao pé do qual «Babilónia, Alexandria, Roma, Constantinopla, Bagdad, Pequim, mais não foram do que pálidas estrelas» – acaba devorado pelos subprodutos do lixo excessivo que a prosperidade gera. Trabântia, a «sociedade perfeita» desenhada a traço grosso, com manchas de vermelho a emergir de um preto e branco baço, é uma poderosa metáfora sobre o afundamento dos regimes autoritários comunistas, mais os seus esquemas paranóicos de vigilância e controlo dos cidadãos. Com as suas paisagens aquáticas e difusas, Tangaroa, «o umbigo dos oceanos», aparece-nos saturada de melancolia, à medida que as marés de todo o mundo lhe trazem tristes despojos e os «cadáveres incorruptos» dos afogados. E, por fim, em Babel ergue-se a torre impossível que Deus destrói, conforme diz a lenda, para logo a substituir pelo mais irónico dos sucedâneos.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no número 75 da revista Ler]

O regresso da dupla Fernandes/Henriques

Depois de muitos álbuns a acumular o trabalho da escrita com o da ilustração, José Carlos Fernandes, de longe o melhor criador português de BD, resolveu delegar a concepção visual de Tratado de Umbrografia (2006) nas mãos de Luís Henriques, que tem em relação a ele a vantagem de um traço muito mais burilado e dúctil, como se pôde comprovar pelas seis atmosferas diferentes (ou talvez fosse mais exacto dizer as seis linguagens) criadas para as seis histórias daquele belíssimo livro.
A boa notícia é que Fernandes, após mais uma experiência a solo, resolveu juntar-se de novo a Henriques para um volume que promete ser tão bom, ou ainda melhor, do que o Tratado de Umbrografia. O título é Terra Incógnita e sairá em Outubro, editado pela Tinta da China.

Refutação astrológica

capa livro JCF

O que está escrito nas estrelas
Autor: José Carlos Fernandes
Editora: Tinta-da-China
N.º de páginas: 64
ISBN: 978-972-8955-51-9
Ano de publicação: 2008

Aos 43 anos, José Carlos Fernandes ocupa, por mérito próprio e falta de “rivais” à altura, um lugar absolutamente central no panorama da Banda Desenhada portuguesa. Com mais de trinta trabalhos editados desde o opus 1 (Controlo Remoto, 1993), JCF consegue publicar muito sem pôr em causa a qualidade final dos seus livros, numa espécie de voragem que o aproxima de outro mestre da prolixidade profícua: Gonçalo M. Tavares. Para lá das óbvias diferenças, em ambos assistimos à criação de uma obra tendencialmente infinita (com vários ramos, ou séries), obra em contínua expansão, como que nascida de uma máquina ficcional imparável e cuja verdadeira magnitude ainda está, num caso como no outro, por determinar.
Consciente do seu traço pouco dúctil e tecnicamente limitado, JCF apostou, desde os primeiros livros, no engenho dos argumentos e numa escrita de grande perfeição estilística. A sensação com que se fica é a de que as suas histórias valem por si mesmas; existirem na forma de pranchas ilustradas não passa de uma casualidade. Pode mesmo afirmar-se que em JCF a palavra vem sempre antes do desenho e o ficcionista se sobrepõe ao autor de BD, o que não impede que algumas das suas criações sejam modelos do que a nona arte pode e deve ser. Um exemplo: os seis volumes da celebrada série “A Pior Banda do Mundo”.
Depois de publicar, em 2004, A última obra-prima de Aaron Slobodj (talvez o mais brilhante e radical dos seus livros, sobre a arte enquanto forma de destruição) e de inagurar as Black Box Stories, em 2006, com o belíssimo Tratado de Umbrografia (seis narrativas ilustradas por Luís Henriques), JCF acaba de interromper a sua ligação à Devir, lançando O que está escrito nas estrelas [Anos I & II] na Tinta-da-China, editora que assim se estreia muitíssimo bem no universo da BD, ao fazer deste volume um exemplo de bom gosto e esmero gráfico.
Muito ao seu jeito, JCF recorre ao humor cáustico e às referências eruditas para negar e subverter os supostos princípios divinatórios da Astrologia, oferecendo-nos “um horóscopo de assombroso rigor científico, elaborado com base na sabedoria milenar dos magos caldeus, dos druidas de Stonehenge e dos sacerdotes-astrónomos de Chichén Itzá, aliada às mais modernas observações do telescópio Hubble e à capacidade de cálculo dos computadores do CNRS”. Os dois conjuntos de 12 textos, cada um relativo a um mês, são supostos fragmentos dos cadernos de um José Carlos Fernandes imaginário (1911-1964), cientista que teria trocado “a bata de laboratório por um manto de mago, os manuais de bioquímica pela Cabala e a tabela periódica pelo Zodíaco”, criando um sistema capaz de prever acontecimentos futuros: a queda da cadeira de Salazar, a morte da princesa Diana, o 11 de Setembro, a conversão de Tom Cruise à Cientologia e até mesmo a “breve passagem de um comediante involuntário pelo cargo de primeiro-ministro de Portugal”.
Os fragmentos propriamente ditos são microcontos irónicos, macabros, nihilistas, melancólicos ou líricos, pequenas prosas cheias de golpes verbais, beleza rude e lições de moral incerta, cujo tom crepuscular se reflecte nas soberbas gravuras de página inteira que as acompanham.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Três histórias minúsculas de José Carlos Fernandes

ABRIL

Abril, já dizia o Poeta dos Três Leopardos Brancos, é o mais cruel dos meses. Para lhe sobreviver é preciso ser mais cruel ainda: magoe profundamente a pessoa de quem mais gosta.

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JULHO

Já Julho é um mês propenso a descalabros. Desfaça-se quanto antes das acções que adquiriu com base em recomendações insensatas, afaste-se de torres, campanários e miradoiros, evite subir escadas e escadotes, mesmo que seja para uma operação aparentemente tão inócua como substituir uma lâmpada fundida. Claro que as viagens aéreas são vivamente desaconselhadas. Mais vale permanecer com os pés firmemente assentes na terra até que comece um novo mês. Nem os que possuem asas estarão a salvo da força da gravidade, pois o calor excepcional que se fará sentir alterará drasticamente a consistência da cera.

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AGOSTO

Se adormecer ao som da água corrente, poderá ver-se mergulhada num estranho sonho: está suspensa no oceano, a algumas dezenas de metros de profundidade; abaixo, muito abaixo, por entre o negrume, cintilam miríades de pontos luminosos que se movem sem cessar. Um peixe-lua aproximar-se-á e explicará «são os peixes abissais, que esperam, esfaimados, por uma presa», «não gosto deste sonho, quero acordar», «para isso é necessário que me beijes», responderá o peixe. Ansiosa por sair daquele sonho inquietante, assentirá (os lábios do peixe-lua serão inesperadamente quentes e suaves), porém, nada acontecerá: continuará a pairar no oceano. Do peixe-lua, nem rasto. Lá em baixo, as luzes parecem agora mais próximas.

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[in O que está escrito nas estrelas [anos I & II], Tinta-da-China, 2008]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges