Quatro poemas de José Emílio-Nelson

EPITÁFIO

Dum cesto de flores carrega a púrpura.
Da noite o ar rouco.

***

CHAFARIZ

Peixinhos da cinta aos pés
Num chafariz até ao umbigo.
E vermelhinhos
Nadam na sua doçura para o aquário cristalino. E tanto faz
Se depois são enxugados com pano cardinalício
Ou cinza de incensário.

***

IMOLAÇÃO

A perdiz ao dar voltas em círculos sacudidos,
A cair lançada para dentro das
Penas coloreadas, enceguece
A glaseada mão do caçador.

***

MINA SAN JOSÉ

Rezo pelos mineiros chilenos.
As almas soltando labaredas de El Greco.
Ciclopes à espera de subirem ao céu azul pelos tubos dum
órgão de luzes que os ressuscita no sepulcro.

Estes mineiros extraem Deus.

[in Pesa um Boi na Minha Língua, Afrontamento, 2013]

Os lodaçais celestes

Ameaçado Vivendo – Obra Poética II [2005-2009]
Autor: José Emílio-Nelson
Editora: Afrontamento
N.º de páginas: 184
ISBN: 978-972-36-1087-1
Ano de publicação: 2010

A obra de José Emílio-Nelson ocupa um lugar à parte na poesia portuguesa contemporânea, não porque o autor seja demasiado esquivo, ou intransigentemente marginal, mas porque esta é uma escrita que nada tem a ver com os discursos estéticos dominantes. Onde outros se entregam a prosaísmos quase planos e angústias bem-comportadas, como que em surdina, José Emílio-Nelson vai buscar a «tuba canora e belicosa» de Camões, fazendo com ela um tremendo estardalhaço. Ouvimo-la — magnífica, obscena, excessiva — em A Alegria do Mal (Quasi, 2004). Voltamos agora a escutá-la neste segundo volume da Obra Poética, reunião dos livros escritos no período 2005-2009.
Entre o sublime e o grotesco (mas sempre mais perto deste), José Emílio-Nelson faz de cada sequência, sempre pensada como bloco coeso, um denso palimpsesto de referências literárias, pictóricas ou musicais. O estilo é barroco, mas com apontamentos de um expressionismo bárbaro, agreste, violento. Por estes «versos que encandeiam e se distorcem», território de um «narciso em espelho empenado», circulam musas cobertas de fuligem, visões apocalípticas, exercícios de escatologia para «devassos que apreciam os requintes da indecência», simbologias católicas, «lodaçais celestes» e «uivos esplendorosos», rapsódias e sátiras, caricaturas e glosas, cães e cavalos, lilás e púrpura.
A mão que escreve talvez pretenda «desossar a alma ossada», consciente de que «a Beleza é a infâmia». Ao puxar-nos para dentro do turbilhão verbal, porém, obriga-nos a beber o «vinho amargo» da sua lucidez até à última gota. E não nos deixa quaisquer ilusões: «Todo o amor profana o coração, o sepulta/ Em lástima e éter».

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges