Primeiros parágrafos

«Eu entendia o ódio com que o guarda da alfândega me olhava. Era um oficial de farda nova e completa, botas engraxadas, patentes brilhantes, talvez sessenta anos, talvez pai de alguém da minha idade. O compartimento tinha quatro lugares. A minha mala estava sobre a cama de cima, à esquerda. Eu estava à espera no corredor do comboio, entre toda a gente que também esperava. Quando chegou a minha vez, entrei. Ele estava de pé, a segurar o meu passaporte aberto à sua frente, como se me comparasse com a fotografia mas sem olhar para ela, apenas a fixar-me, severo, de ferro.
O seu olhar punha o meu corpo inteiro em tensão. Eu entendia essa tensão. Ali, significava ordem. Esse era também o motivo para o aparente ódio, ou desprezo, com que me olhava. Afinal, não era ódio, era disciplina.»

[in Dentro do Segredo, de José Luís Peixoto, Quetzal, 2012]

Sob o signo dos Jogos

Odes
Píndaro
Quetzal
O grande cantor das proezas atléticas, na Antiguidade clássica, foi Píndaro (séc. VI-V a.C.), um dos mais aclamados poetas líricos gregos. Da sua vasta obra, só sobreviveram na totalidade as suas odes vitoriosas, ou epinikia, que celebram as façanhas dos campeões nos vários Jogos. Neste livro, com tradução e notas de António de Castro Caeiro, não estão as Odes Olímpicas (dos Jogos que se disputavam em honra de Zeus, na cidade de Olímpia) mas as 12 odes «para os vencedores nos Jogos Píticos» (disputados em Delfos, em honra de Apolo) mostram a mesma exaltação da ideia de triunfo, seja em Mégacles de Atenas («vencedor na quadriga»), em Aristómanes de Egina («vencedor na luta»), ou em Trasideu de Tebas («vencedor na corrida de rapazes de duas voltas ao estádio»). Só os derrotados, aqui, não merecem a glória do verso.

Correr
Jean Echenoz
Cavalo de Ferro
Chamavam-lhe a «locomotiva humana». Em Helsínquia (1952), inscreveu o seu nome na história do desporto mundial, ao tornar-se o primeiro – e único – fundista a vencer as medalhas de ouro dos 5.000 metros, 10.000 metros e maratona de uma mesma Olimpíada. Emil Zátopek parecia sempre em esforço, fazia caretas e esgares, o corpo assemelhava-se «a um mecanismo avariado, deslocado, doloroso», mas essa falta de elegância escondia um atleta exemplar. Neste romance curto, de escrita impecável, Echenoz traça o percurso do campeão checo, detendo-se na sua persistência e capacidades físicas quase sobrehumanas, mas sobretudo nas relações tensas com o governo socialista, dos aproveitamentos políticos que este fazia dos feitos desportivos ao controlo da sua vida e ao castigo final, pela ousadia de ter apoiado Dubcek durante a Primavera de Praga.

Cemitério de Pianos
José Luís Peixoto
Quetzal
Há precisamente cem anos, Francisco Lázaro, porta-estandarte de Portugal nos Jogos Olímpicos de Estocolmo, tornou-se uma espécie de mártir desportivo. Antes de começar a maratona, besuntou o corpo com sebo, tapando os poros e impedindo a transpiração, o que veio a revelar-se fatal num dia particularmente quente. Desidratado, caiu várias vezes, perto do quilómetro 30, até que não voltou a levantar-se. Este acontecimento é uma das linhas narrativas principais do romance de José Luís Peixoto, que narra em detalhe a prova, quilómetro a quilómetro, projectando o leitor para o corpo, para a cabeça, para a voz («Correr é estar absolutamente sozinho»), e, sobretudo, para o extremo sofrimento de Francisco Lázaro, até ao instante em que a escrita se desintegra, acompanhando o colapso de um homem levado, pela imprevidência, além dos seus limites.

Versos Olímpicos
José Ricardo Nunes
Deriva
Em 2008, ano das Olímpiadas de Pequim, o poeta José Ricardo Nunes escreveu um livro inteiro de «versos olímpicos», sobre os atletas que «sonham com o milagre / que lhes turva os olhos de glória» e o reverso – muitas vezes irónico ou melancólico – desse espectáculo maior de superação física e mental através do desporto, transmitido para todo o mundo pela TV. Os poemas mostram-nos, em plena acção, ginastas, saltadores à vara, halterofilistas, judocas, remadores, esgrimistas, etc. Assistimos as seus gestos mil vezes treinados, ao que há neles de heróico e de falível, às suas «pequenas glórias e desumanidades». Nesse esforço homérico dos outros, medalhado ou não, José Ricardo Nunes descobre subtis artes poéticas. E é sempre de si mesmo que fala, «sentado neste sofá suburbano / que treme à passagem do comboio».

Astérix nos Jogos Olímpicos
Albert Uderzo e René Goscinny
ASA
Num dos acampamentos romanos que cercam a inexpugnável aldeia dos gauleses, Claudius Cornedorus, um prodígio de força e músculos, prepara-se com afinco para os Jogos Olímpicos. Só podem participar atletas gregos e romanos, mas a dupla Astérix/Obélix decide partir para Olímpia. Afinal, se Júlio César conquistou a Gália, eles são oficialmente romanos. E, por uma vez, fazem-se valer desse estatuto. Acontece que a poção mágica é considerada ilegal (chamemos-lhe doping) e só Astérix pode entrar nas corridas. Os gregos são os melhores, mas o pequeno gaulês acaba por vencer uma palma na competição destinada aos romanos, em que os rivais acabam desclassificados (não resistem a ir beber ao caldeirão) e de língua azul. Vitória da astúcia sobre a cobiça? Sim. A bem dizer, os gauleses são bons é noutros desportos, como caçar javalis e afundar barcos de piratas.

[Textos publicados na revista Única, do jornal Expresso]

Dar o braço a torcer (ou melhor, a desenhar)

Eis o novo projecto do José Luís Peixoto: uma moldura vazia tatuada no antebraço esquerdo, aberta à criatividade das muitas pessoas com que se vai cruzando nas suas voltas pelo mundo (neste momento, por exemplo, está em Paraty, na FLIP, onde amanhã lerá na íntegra o seu primeiro livro: Morreste-me).

Lançamento de ‘Livro’

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O novo romance de José Luís Peixoto, Livro (Quetzal), será apresentado por Jorge Costa esta sexta-feira, a partir das 18h30, na Casa do Alentejo (Lisboa). Os actores Margarida Cardeal e Tiago Rodrigues lerão algumas passagens. Haverá ainda música, com os violoncelos da banda Opus Diabolicum.
Depois, Peixoto apresentará o seu Livro a 27 de Setembro, a partir das 21h00, nas Galveias (concelho de Ponte de Sor), sua terra natal; a 28 de Setembro no Porto (Livraria Bertrand Granplaza, na Rua de Santa Catarina), pelas 18h30; e a partir daí um pouco por todo o país, estando agendados cerca de quarenta encontros com leitores.

Ver o ‘Livro’ a sair da máquina

É uma ideia original. Quatro leitores de José Luís Peixoto vão ser seleccionados, através de um concurso na página da Quetzal no Facebook, para estarem terça-feira, 14 de Setembro, no Bloco Gráfico (a gráfica do Grupo Porto Editora, na Maia), onde receberão das mãos do autor os primeiros exemplares do novo romance de Peixoto, acabadinhos de sair da máquina que encaderna e apara os livros. Ou, neste caso, os Livro.
A iniciativa está explicada aqui.

Capa do novo romance de José Luís Peixoto

Em primeira mão, eis a capa de Livro (Quetzal), o quarto romance de José Luís Peixoto, com data de chegada às livrarias prevista para 24 de Setembro:

livro

Nova edição de ‘Morreste-me’

Brevemente, no catálogo da Quetzal.

O novo trunfo da Quetzal: José Luís Peixoto

Em Junho, a editora de Francisco José Viegas vai reeditar Morreste-me, o primeiro livro de JLP. Depois, no Outono, chegará o muito aguardado quarto romance, sucessor de Cemitério de Pianos. Antes de tudo isto, haverá mais um périplo internacional, desta vez pelo Luxemburgo, Croácia, República Checa e EUA. Mais pormenores aqui.

Andanças mexicanas

O José Luís Peixoto está no México por estes dias. Apesar do programa muito preenchido da Feira Internacional do Livro de Guadalajara, ele lá vai dando as suas voltinhas à margem da agenda oficial. E é dessas voltinhas que fala no seu blogue, em pequenos apontamentos, histórias e imagens.

O blogue do José Luís Peixoto

Já existe. Está associado à Bravo!, uma revista brasileira sobre artes. E fica aqui. Visitai-o, ó gentes.

José Luís Peixoto, lá fora

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A carreira internacional de José Luís Peixoto continua de vento em popa. A edição americana do romance Nenhum Olhar, lançada há cerca de um mês pela editora Nan A. Talese, com o título The Implacable Order of Things, está a ter uma boa recepção crítica. Mais importante ainda, o livro foi seleccionado para a restrita lista semestral “Discover Great New Writers” da cadeia de livrarias Barnes & Noble, a maior dos EUA (com mais de 70% de quota no mercado livreiro).
A partir de Setembro, Peixoto fará uma ronda por diversos eventos literários norte-americanos, tanto em meios académicos (universidades de Rutgers e Brown) como no muito concorrido Festival Literário de Brooklyn, em Nova Iorque, em que também participam autores como Jonathan Franzen, A. M. Homes, Paco Ignacio Taibo II, Joan Didion, Naomi Wolf e José Eduardo Agualusa.
Entretanto, Cemitério de Pianos, editado em França pela Grasset, vai ter agora uma edição de bolso na Folio (Gallimard). O êxito deste romance em Espanha (onde ganhou o Prémio Cálamo 2007), levou a editora El Aleph a reeditar Nadie nos Mira (Nenhum Olhar) e a primeira narrativa do escritor: Te me moriste (Morreste-me). Em Outubro, a mesma chancela lançará ainda o romance Uma Casa na Escuridão.

Cinco poemas de José Luís Peixoto

QUARTO

Os posters, colados com fita-cola,
arderam nas paredes. Os ursos de
peluche fecharam os braços e, por
quase nada, arderam sobre a cama.
Os cartões de estudante antigos, os
postais de férias e os três poemas
passados a limpo arderam dentro
da gaveta da mesinha-de-cabeceira.
Fiz dezasseis anos, chegou o verão e
os bombeiros não tiveram meios
técnicos e humanos suficientes.

***

MONÓLOGO

Romeu, o teu nome é um pacto e um relógio.
Entrego-te o meu nome e permaneço imune
ao mundo, à mentira e à passagem dos anos.

Romeu adolescente, perdido e camuflado
nas minhas ilusões. Lírico Romeu, que volto
a baptizar, agora com sangue em vez de água.

Coincidimos à frente e atrás de uma pistola
carregada. Romeu, o teu nome chama-me
pela voz com que a morte chama o amor.

Somos derrotados por um outono defeituoso,
como por um poema errado ou pelo mar. Ali,
pouco longe, um túmulo precisa do nosso calor.

***

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***

DESMANTELAMENTO DE UM RIO

Arranco os autocolantes da parede do quarto do nosso filho,
como se a faca eléctrica da cozinha me atravessasse o braço.
Sou eu que apago os seus desenhos na parede. Não são riscos,
são desenhos. Há lápis de cera espalhados e partidos pelo chão.
Depois de nós, esta morada terá outros nomes e chegarão cartas
pacientes à caixa do correio. Agora, são impossíveis de imaginar,
como o nosso ontem será impossível de imaginar. Foi aos poucos
que ficou apenas o sofá e as recusas e os armários esventrados.
Foi muito demoradamente que chegaram as noites em que durmo
no sofá, sob um cobertor oferecido pela minha mãe ou pela tua.
Por fim, tenho tempo para habituar os olhos às sombras e avaliar
a devastação, acordar com o frio da madrugada, o esquecimento,
e assistir àquela hora azul em que já não é de noite, mas em que
ainda falta tanto para ser de dia. Despejo no fundo de um saco
tudo o que está naquela gaveta que nunca ninguém arrumou.
À minha volta, há caixotes que servem para guardar os livros,
já estão divididos. Escolho o lugar para pousar os pés. Fizemos
coisas nesta sala vazia, tivemos pensamentos, aprendemos
alfabetos. Resta-me agora o que sempre tive e, como se caísse
desamparado na banheira, prossigo e continuo o meu trabalho,
como se batesse com a cabeça na esquina de uma gaveta,
prossigo e continuo o meu trabalho.

(Lisboa, Junho de 2007)

***

ESTUDO PARA DESMANTELAMENTO DE UM RIO 2

Partiu-se uma caneca, partiu-se a caneca azul
que trouxemos de Estocolmo. Lembro-me
tão bem desse dia: esteve sol, andámos de bicicleta e,
ao voltarmos para o hotel, comprámos uma caneca.
Hoje, essa caneca partiu-se. Lembro-me tão bem do dia
em que a comprámos, só que agora vou esquecer-me
porque agora já não temos a caneca.

[in Gaveta de Papéis, Prémio Daniel Faria 2008, Edições Quasi, 2008]

Um rapaz das Galveias

Podemos tirar o escritor da aldeia mas ninguém tira a aldeia do escritor. Por muito que José Luís Peixoto viaje pelo mundo, meses a fio, com uma agenda digna de estrela pop, por muito que dê autógrafos na FLIP (Festa Literária Internacional de Parati, no Brasil), se instale durante uma temporada na Ledig House de Nova Iorque (lugar de criação para autores de todas as latitudes) ou jante com Umberto Eco em Paris, ele nunca deixa de ser um rapaz das Galveias, a pequena povoação do concelho de Ponte de Sor onde nasceu, há 33 anos. É esse, talvez, o segredo da sua humildade e de uma candura que desarma todos os que o conhecem de perto. Os altos voos nunca o deslumbraram e ele continua a ser o “filho do Peixoto”, como repete certa personagem do seu último livro (Cal, Bertrand, 2007). Que é como quem diz: um “filho da terra”, um filho desse Alentejo rural que tem sido a matéria-prima, mesmo se sublimada, de quase tudo o que escreveu até hoje.
José Luís começou a publicar muito cedo, ainda adolescente, nas páginas do DN Jovem (quando por lá andavam Pedro Mexia, José Riço Direitinho, Alexandre Andrade ou Margarida Vale de Gato). Foi no suplemento do Diário de Notícias, dirigido por Manuel Dias, que apareceu a primeira versão de Morreste-me, uma belíssima elegia em prosa sobre a morte do pai. Mais tarde, a versão ampliada desse texto acabou por se transformar no seu primeiro livro, publicado numa edição de autor minúscula e de capa preta (hoje uma raridade bibliográfica). O estilo de Peixoto está todo ali: um denso negrume existencial aliado a um ritmo encantatório, feito de frases bem desenhadas, repetições, síncopes, crescendos e um lirismo sempre à beira do derrame.
Esta forma de escrever atingiu o seu zénite em Nenhum Olhar (Temas e Debates, 2000), um dos melhores primeiros romances portugueses da última década, ao qual foi atribuído o Prémio José Saramago, da Fundação Círculo de Leitores. O romance seguinte, Uma Casa na Escuridão (Temas e Debates, 2002), marcou uma mudança na forma como o meio literário nacional recebe a sua obra. A factura do êxito súbito mostrou-se elevada: houve quem lhe apontasse uma dificuldade em libertar-se de uma lógica narrativa fechada sobre si mesma e surgiram os primeiros sinais de desconfiança face ao “fenómeno Peixoto”, nalguns casos indissociáveis da proverbial invejazinha. Talvez por isso, o seu terceiro e mais recente romance, Cemitério de Pianos (Bertrand, 2006), notável tour de force que cruza uma saga familiar com a história de Francisco Lázaro (o atleta português que morreu durante a maratona dos Jogos Olímpicos de Estocolmo, em 1912), esteve longe de obter o destaque que merecia.

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Não que José Luís Peixoto se preocupe muito com isso. O seu único objectivo, afirmou-o várias vezes, é ser lido. E por aí não se pode queixar. Há uma verdadeira rede de leitores que acompanham tudo o que escreve, uma rede de pessoas com quem o escritor mantém contacto permanente, seja através da Internet, seja através de encontros nas actividades promocionais ou nos eventos literários que lhe ocupam parte significativa do tempo. Não sendo best-sellers, os seus livros sempre se venderam bem — mesmo os de poesia (A Criança em Ruínas, publicado pelas Quasi em 2001, já vai na sétima edição). A fila de pessoas à espera do seu autógrafo, na Feira do Livro de Lisboa, costuma ser maior do que a de autores mais velhos e consagrados.
Decidido a viver apenas da escrita, Peixoto raramente recusa uma encomenda. Além de colaborar regularmente na imprensa (tem uma crónica fixa no Jornal de Letras), fez um CD/livro com os Moonspell (Antídoto, 2003), escreveu a letra de uma canção dos Da Weasel (Negócios Estrangeiros, do álbum Amor, Escárnio e Maldizer), e colaborou com várias companhias teatrais, tanto em adaptações de obras suas como na criação de textos dramatúrgicos. De entre estes, os mais importantes foram Anathema (para os belgas tgSTAN, 2005), À Manhã (Teatro Meridional, 2006) e Quando o Inverno Chegar (encenado no São Luiz pelo realizador Marco Martins, 2007).
Entretanto, a internacionalização do escritor não pára. Os seus livros já foram editados em França, Itália, Holanda, Espanha, República Checa, Bulgária, Croácia, Turquia, Finlândia, Bielorrússia e Brasil, acabam de sair na Hungria e Reino Unido (no catálogo da Bloomsbury, “casa” de Harry Potter), estando previsto que o mapa se alargue brevemente a Israel, Grécia, Polónia, Japão e EUA (na prestigiada chancela Nan A. Talese/Doubleday). Num momento em que já olha mais para fora do país do que para dentro, o principal risco de Peixoto seria a cristalização criativa. Isto é, ficar preso a uma linguagem que em vários momentos já deu sinais de estar à beira do esgotamento.
Quem leu Cal, recolha de textos avulsos sobre a velhice, terá consciência dessa ameaça. Não há ali nada que um leitor de Peixoto não conheça. Mas se quisermos um vislumbre do futuro literário do escritor, o melhor é procurar em dois livros que passaram quase despercebidos: Minto até ao Dizer que Minto (distribuído em 2006 com a revista Visão) e Hoje Não (incluído numa colecção da Sábado, 2007). É por aqui, numa linha próxima dos experimentalismos de alguns jovens autores norte-americanos (como Jonathan Safran Foer ou Dave Eggers), que a escrita de Peixoto se pode reinventar. E não será por acaso que ele está neste momento a traduzir, para a Casa das Letras, precisamente um romance de Dave Eggers (What is the What).
Uma coisa é certa: ainda vamos ouvir falar muito do rapaz das Galveias.

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Prémio Daniel Faria para José Luís Peixoto

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Já é oficial: a edição de 2008 do Prémio de Poesia Daniel Faria — instituído pela Câmara Municipal de Penafiel, as Quasi Edições e os herdeiros do autor de Explicação das Árvores e de Outros Animais — distinguiu Gaveta de Papéis, de José Luís Peixoto.
Contactado pelo Bibliotecário de Babel, o responsável máximo da editora que promove o prémio, Jorge Reis-Sá, descreveu a surpresa que tomou conta do júri (de que também fizeram parte Francisco José Viegas, Tito Couto e Vera Vouga) ao abrir o envelope relativo à escolha final, verificando só então que atrás do pseudónimo se escondia um escritor de primeiro plano, curiosamente já com um livro de poesia editado nas Quasi (A Criança em Ruínas, sete edições desde 2001). “Foi mesmo uma grande surpresa, mas uma surpresa boa, porque vem dar força e credibilidade ao prémio. Enquanto editor, este desfecho enche-me de alegria e orgulho, além de que engrandece o nome do Daniel Faria”, disse Reis-Sá.
A decisão do júri, tomada por “unanimidade total e veemente”, foi a mais rápida de sempre. “Em dois minutos resolvemos o assunto, porque percebemos logo que o livro do Peixoto era, de muito longe, a primeira escolha para todos os jurados. Durante a leitura dos originais, já tinha suspeitado que se tratava de um autor experiente, com grande domínio da linguagem e das técnicas de escrita, e não alguém que envia o seu primeiro livro.”
Reis-Sá salienta ainda que o prémio não tem qualquer compensação financeira, consistindo apenas na publicação do livro pelas Quasi, algo que José Luís Peixoto conseguiria sempre, sem necessidade de passar pelo crivo de um júri. “Gostava de salientar a extraordinária humildade do Zé Luís, que ao querer ficar associado a este prémio, e ao nome do Daniel Faria, correu o risco de perder para um autor desconhecido ou, pior ainda, de receber uma mera menção honrosa.”
A edição de Gaveta de Papéis está prevista para o próximo mês de Março.

***

Entretanto, José Luís Peixoto acaba de ser igualmente distinguido em Espanha. O prémio Cálamo – Otra Mirada 2007, para livros de ficção estrangeira editados no país vizinho, foi para o romance Cementerio de Pianos, publicado pela editora El Aleph.

[Foto: JMS]

A internacionalização de JLP

Já publicado em 12 línguas, José Luís Peixoto continua a ver os seus livros editados lá fora a um ritmo vertiginoso. Agora, é a vez de Israel, Grécia, Polónia e Japão. Mas o passo determinante de 2008 acontecerá em Agosto, quando o romance Nenhum Olhar aparecer no mercado americano, com chancela da Nan A. Talese/Doubleday (do grupo Random House) e o título The Implacable Order of Things. A capa será assim:

implacable order of things

Entretanto, a edição inglesa do romance, com outro título (Blank Gaze, Bloomsbury), tem recebido boas críticas na imprensa britânica e foi incluída na lista dos melhores livros de ficção de 2007 publicada pelo jornal Financial Times.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges