‘Não sejamos fortes…’

Em memória de José Manuel Rodrigues da Silva, Margarida Ferra confiou-nos o seguinte texto:

“São ínvios os caminhos do Senhor.” É a frase que me lembro mais de lhe ouvir. Deixou-a escrita n’O Mau Tempo no Canal, que me ofereceu quando fiz 23 anos. Quando lhe disse pela primeira vez o meu nome pareceu-lhe que me chamava Margarida Terra, avó e sósia de Margarida Clark Dulmo, segundo a longuíssima tábua de personagens do livro que nunca cheguei a acabar, até hoje à espera de uma viagem ao grupo central dos Açores. Ínvios os caminhos que o trouxeram à nossa turma, professor-substituto da disciplina de Iniciação ao Jornalismo, no terceiro período do ano lectivo de 1992-1993. (Do terceiro andar, debruçado sobre o corrimão, chamou aos gritos a turma alvoroçada no rés-do-chão. Depois, explicou-nos que não havia sebenta, não havia caderno diário, não havia faltas, a quem quisesse não ir às aulas bastava escrever o número no quadro, as notas eram de dez a vinte, os testes eram feitos em casa.) Menos ínvios os atalhos que me levaram a um encontro no S. Jorge, seguido de um café na Rua de S. José, uma longa conversa sobre os caminhos esperados e os percorridos, que me abriu depois a porta à colaboração no JL. (E agora fazes o favor de me tratares por tu que não admito de outra maneira na mesma redacção.)
“Não sejamos fortes, quando a honra é ser fraco”, da Fanny Owen da Agustina, Francisca do Oliveira, o Zé Manel tinha este tom certeiro para servir frases que parecia coleccionar com elegância e usar na medida justa. Podia ouvi-lo, ainda, se passasse pelos corredores do D. Pedro V, se lhe telefonasse bem tarde (oito postais, pelo menos, que dizem: “liga-me noite alta para combinarmos um encontro“). Uma pessoa de rastos, coração destroçado, a vida toda a desmembrar-se, e o Zé Manel lá, do outro lado do fio, na caixa de correio com um pouco mais de insistência, mais postais naquela semana, “não sejamos fortes…“.
De todas as frases que usou para se explicar melhor, aquela de que mais gostei era do Vivre Sa Vie, “A felicidade não é alegre”. Depois de a dizer escreveu no quadro Jean-luc Godard (a caligrafia quase indecifrável, o modo como desenhava a letra l, minúscula, caixa baixa). E nas cartas. Em pelo menos uma das cartas, A felicidade não é alegre, as letras da máquina a saltarem ligeiramente da folha de ponto que usava para a correspondência privada, mais tarde foram impressas em papel branco, normal, depois enviadas por email, e outras formas por que soube chegar a nós nos últimos anos. Mesmo havendo o JL, os livros, os textos, a escrita do Zé Manel terá sempre esta mancha, a folha de ponto dobrada ao meio, e mais umas vezes para caber no envelope, às vezes o próximo texto sobre Cinema a ilustrar uma ideia (no cabeçalho: R. da S., JL número xyz, para Cinema; era preciso imprimir a versão final, sair do número 202 da Avenida, ir à Gráfica, na Rodrigues Sampaio, entregar o texto em papel e numa disquete, fazer todo o caminho de volta).
A felicidade não é alegre serve-me sempre, assentava-me como uma luva nos nossos encontros, noite alta alguns deles, lá em casa, no Galeto, ou à tarde, num café da Almirante Reis, como da última vez em que nos vimos. Tenho um postal em minha casa, ainda hoje à espera de selo: Adorei o nosso encontro de ontem, com a durée dos do D. Pedro V. Obrigada pelos textos. Não seguirá.
Margarida Ferra

Viagens em Itália

«Um salto no tempo e eis-me agora com 16/17 anos, em 1955-57, no Liceu já, às voltas com a Filosofia. Gratas voltas porque o Professor se chamava Augusto Abelaira e uma vez numa aula proferiu um nome: Piero della Francesca. Nós «quem?!», ele, sem ligar, prosseguiu falando de Florença («Mas se um dia lá forem, não deixem de ir a Siena»). Itália, outra vez, ali à minha frente. E mais à frente ficaria quando, com 18 anos, já na Faculdade, tendo trocado a Filosofia pela História, li de um folêgo o romance de estreia do meu ex-professor Augusto Abelaira. Chamava-se A Cidade das Flores. Quem diz «flores» diz «fiori», Fiorenza se chamou outrora Florença. A acção passava-se lá, no tempo de Mussolini, mas toda a gente percebeu que era um truque para ludribiar a Censura fascista – a portuguesa, de 1958. A «Cidade das Flores» era Lisboa, no tempo de Salazar.
De qualquer modo, Florença («Não deixem de ir a Siena») ficou-me no ouvido. Até porque, nesta altura, de Itália eu sabia já mais alguma coisa: o rio Arno, para lá das suas margens se passava O Bairro, o romance de Vasco Pratolini, um dos meus livros da vida, como todos os que lemos e amamos na adolescência.
E… Sim, por esta altura também eu já sabia, ou ouvira falar de Miguel Ângelo, Rafael, Botticelli e tutti quanti. Mas, se aos 9 anos a minha Itália era a Embaixada, a sua bandeira e o Torino de Bacigalupo, aos 18 era o Arno, Florença e a tal Siena onde não podia deixar de ir. Não só. Aos 18 anos, a Itália subitamente alargara-se-me para outros insuspeitados territórios. Um filme chamado Guendalina, de um tal Alberto Lattuada, fizera furor em Lisboa entre os adolescentes. Talvez em Itália não se saiba, mas foi graças a ele que em Portugal, desde então e até hoje, se passou a dizer «ciau» (ou «xáu», à portuguesa). Foi o que ficou de Guendalina, só décadas depois ao revê-lo descobri que se passava em Viareggio. Na Toscânia do Arno, Florença e Siena.
O cinema… Sim, o cinema que me trocaria outra vez as voltas, graças a Sentimento (Senso, como dizíamos, porque era mais bonito dizê-lo em italiano). Realizara-o Visconti, e a capital de Itália mudou-se-me outra vez. Agora para Veneza. A Veneza do Risorgimento, quando a Itália – enquanto país, estado, com as fronteiras de hoje – praticamente nasceu. Mas, antes de nascer (ou de Senso chegar ao fim), já eu por Itália chorara as primeiras lágrimas, quando no início do filme, no palco do La Fenice, há aquela cena do Il Trovatore, de Verdi; quem não se comove com ela é desprovido de coração.
(…) Para onde fui, por esta altura, foi para a Guerra Colonial, já feito o curso de História. De Itália nem memória nesse longíquo Moçambique aonde fui parar. Mas… Mas uma noite, numa cidadezinha à beira do Oceano Índico, hoje chamada Pemba, imagine-se só que filme passava no barracão adaptado a cinema – Senso, esse mesmo! As lágrimas, outra vez.
Regresso, sou professor (no mesmo Liceu onde uma dúzia de anos antes, pela primeira vez, ouvira falar de Piero della Francesca, Florença e Siena), a polícia política impede-me de dar aulas ao fim de um ano e em 1968 torno-me jornalista. Para apenas em 1973, no Setembro em que o Chile cai nas mãos de Pinochet, a Itália se me deparar de novo no caminho. Agora para ir lá, em serviço do jornal. «Florença?» – pergunto. Não. Era Milão. Milão do Duomo, da Galeria Vítor Manuel, do La Scala (a que não fui), da Ceia de Cristo (que não vi). Tal como, depois, sempre em serviço, não iria nem veria muita coisa que há em Roma. Onde estive sem ver o Papa, ajoelhando-me, todavia, perante a Pietà e sentando-me na Fontana di Trevi da Dolce Vita, de Fellini – o sagrado e o profano, e também desta simbiose vive a Itália.
Em Assis, sim, descobri Giotto e S. Francisco, como depois me extasiei em Veneza, vendo tudo sem ver nada, não extasiando já quando lá voltei (Ninguém duas vezes – assim intitulei o meu artigo para o jornal). Antes, porém, já me matriculara no Instituto Italiano de Lisboa. «Perché?» – perguntou a professora (Rosella Puppo, de Génova). Respondi-lhe «Per piacere». E era mesmo por prazer que me propusera estudar italiano. Por prazer de ser capaz de proferir duas ou três frases na mais bela língua do Mundo. E o francês? O francês continuava a ser a minha segunda língua, mas o italiano destronara-a no prazer de a ouvir falar. Francesco é mais bonito que François, e S. Francisco – desde que o lera e, pela mão de Giotto, o descobrira em Assis – passara a ser o meu santo. Com Marx e outros incréus ao seu lado no conclave.
Nunca mais voltei a Assis (também de Santa Clara, ou Chiara, que é mais belo de dizer e de ouvir), mas, em 1996, quando da segunda vez aportei a Milão, disse «basta!» e, escapulindo-me do serviço, tomei o comboio para Florença. Florença, enfim, 40 anos depois de Augusto Abelaira dela me ter falado. Mandei-lhe um postal de lá («Levei todo este tempo para aqui chegar, mas, graças a si, cá estou; obrigado»), mas não lhe disse que, à primeira vista – à primeira vista de três horas –, Florença me desiludira.

[in Uma Carta de Amor, de José Manuel Rodrigues da Silva, edição do Festival Sete Sóis Sete Luas, 2005]

José Manuel Rodrigues da Silva (1939-2009)


Fotografia de Margarida Ferra

Morreu o Rodrigues da Silva. Esta madrugada, vítima de um cancro. Morreu o jornalista exemplar, no activo desde 1 de Agosto de 1968 (tinha a carteira profissional n.º 161), com passagens por jornais entretanto extintos (o Diário Popular, o Diário de Lisboa, o semanário O Jornal) e uma longa permanência no Jornal de Letras, de que foi editor desde 1992 e com o qual por vezes quase se confundia. Homem atento a todos os aspectos da actividade cultural, foi um cinéfilo voraz e um leitor não menos voraz, tendo entrevistado nas últimas décadas todos os grandes escritores e cineastas portugueses. Escrevia textos longos num estilo característico, feito de encadeamentos e deambulações, entusiasmos e embirrações. Contra a mediocridade reinante, defendeu sempre a arte e os artistas que exigem, do público, não apenas tempo e atenção, mas também inteligência e sentido crítico. Nunca escondeu o seu posicionamento ideológico (à esquerda das esquerdas convencionais) ou a sua insatisfação com o estado do mundo.
Morreu o Rodrigues da Silva, o camarada, o jornalista. Mas morreu também, e isso é que dói mais, o Zé Manel. O amigo atento. O incansável remetente de postais ilustrados com as palavras certas. O homem que foi uma referência para várias gerações mais novas (às vezes, muito mais novas). O professor que ensinava nas escolas secundárias, mas igualmente na mesa do café ou na redacção do jornal, e que sabia cultivar uma proximidade rara, de velho sábio e compincha. A sua principal obra, discreta e invisível como a de todos os bons editores, foi talvez essa: transmitir os fundamentos de uma ética, de um modo de estar no mundo que não passe pela resignação face ao que existe. No seu sentido mais nobre, mestre é uma palavra que lhe assentaria bem. Mas um mestre que nunca seria capaz de se assumir como tal, mais por desconfiança em relação à autoridade do que por modéstia.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges